segunda-feira, novembro 10, 2008
O impossível ensaio sobre as Investigações Filosóficas
O aluno pensou, pensou. Mas esse era o problema. Na vida real ensaios não eram textos, de modo que assim de prima tava difícil saber o que ia ser aceito como ensaio. E quando pensou veio o problema de pensar: mas isso é ensaio? Qual a ensaiedade do ensaio? Falar disso, falar daquilo, citar este e aquele, isso é ensaio? E se eu me exacerbar, e se faço um artigo, uma monografia, ou um verbete de dicionário filosófico? Vai que saia um esquete épico ou um poema cômico...
O aluno pensou tanto que filosofou, e a palavra já no débil uso do cotidiano ficou sem uso. Ou melhor, sem significado. Ou melhor, inexplicável. Ai resolveu sair por aí pra perguntar o que é ensaio, pra ver o que é usar a palavra ensaio. Se perdeu por aí. Como é que ia ensaiar a música, a peça, a entrada no palco pro dia da formatura e entregar isso pro professor? Ah, é, esqueceu do livro: e as investigações, onde ficam nisso? Podia ensaiar escrever o livro, que talvez fosse copiá-lo, copiá-lo, copiá-lo para ter enfim uma cópia definitiva, o não-ensaio. Só que bem mais que a página-e-meia limite.
Reconheceu que viajou demais. Era só - só! - escrever isso e aquilo sobre, sei lá, a falibilidade ou a limitação da ostensão como meio de aquisição e funcionamento da linguagem (!); descer às minúcias na explicação de um certo jogo de linguagem até chegar ao ponto em que a explicação tinha, afinal de contas, que acabar (!!); ou igualar o tal jogo à política: só existem onde há os homens, nunca o homem só (!!!). O aluno foi bem além, achando que tava chegando, mas não. Pensou em explicar a superação do solipsismo com um jogo de sym-pathia (!?). Palavras gregas - e com hífens! - sempre dão bons efeitos. Pros ingênuos. E o professor era um? A ver? Não, desistiu.
Mas por que um ensaio tinha que ser isto? Ah, de novo as perguntas, e o aluno se estrepou de vez. Resolveu que era pós-moderno, que não tinha essa de gênero, de funções discursivas não. É tudo um caldo só. Foi escrever é conto, como um conto-ensaio em que personagens wittgensteinianos - Groucho, Chico, Harpo - jogavam blocos, lajotas e tijolos um para o outro, testavam o martelo para ver se realmente mudava a posição do prego, mediam o metro do metro-padrão de Paris e ensacavam as cores em embalagens a vácuo, olhando pela janela pra ver se era o caso. Ou se iludiam - sem se iludir (jogavam um jogo, o narrador outro) -, pois eram besouros aquilo que tinham em suas caixinhas (dizem os personagens), quando um tinha uma formiga, outro uma borboleta e o terceiro o anel de uma latinha de coca-cola (diz o narrador).
Só que nem sabia - o narrador? os personagens? o aluno! - que jogo jogava quando se chamava de pós-moderno. Viu o que escreveu e entendeu um pouco: uma desculpa pra ser qualquer coisa, pra jogar qualquer jogo, pra entregar qualquer coisa pro professor, menos um ensaio.
Ia amargurar o zero, enfim. Ou, vai que dá?, escreveu um texto em terceira pessoa - arriscou o indireto livre por uma ponta de sofisticação - relatando as dúvidas que apareceram na tentativa de rabiscar qualquer coisa da matéria. A porra é que não lhe veio idéia bem definida nenhuma pra trabalhar a investigacidade das investigações, mas podia se entender, o LW levou sei lá quantos anos pra escrever, eu tive dois meses pra ler, enfim...
O professor leu aquilo (disse que), mas nada de sym-pathia. Ou um pouquinho. O texto lhe voltou com uma letra vermelha algo mais bonita que a sua própria. Um 4,0 suficiente não pra ele passar, mas pro professor não ter que corrigir prova final. E escrito assim: “Aprenda a jogar: ensaio é ensaio. Assim de simples”.
terça-feira, novembro 04, 2008
Tradução de Calímaco
Para um leitor de um livroDisse tchau ao sol e jogou-se
Cleômbroto, de Ambrásquio filho,
dum alto muro para o inferno.
Não porque males o impeliram,
dignos de o à morte levar,
mas porque de Platão o livro,
e só este, sobre a alma leu.
OU
Dizendo "Hélio, tchau", Cleômbroto ambrasquieu
......llançou-se dum muro alto rumo ao Hades.
Não por mal digno de morte; mas por de Platão
......um e só o livro da psique ter lido.
segunda-feira, novembro 03, 2008
McCain e Obama
Lasciate ogne speranza, voi che votate.
domingo, novembro 02, 2008
Ao lago
à frente do lago
ao lado de nada.
o lago é imenso
e imensa a vida
mas a gente nada
e tristes os olhos
deitando suas águas
são tristes por nada.
no lago imenso
as duas três gotas
são gotas de nada
e o sonho que dormes
sem lago nem olhos
sem nós e sem nada.
triste é ter lagos
à frente dos olhos
ao lado de nada.
são quantas tristezas
de quantos mil olhos
que tristes por nada
deitaram suas águas
para ter este lago
no meio do nada?
são mil os teu sonhos
que, gotas, se tornam
do lago um nada
e nadas com nadas
a vida se torna
um imenso
sábado, novembro 01, 2008
Foi o Cristovão que disse
Felipe. Um belo nome. Nítido como um cavaleiro recortado contra o horizonte. Um nome com contornos definidos. Uma dignidade simples, auto-evidente, ele vai fantasiando: Felipe. Repete o nome várias vezes, quase em voz alta, para conferir se ele não se desgasta pelo uso, se não se esfarela no próprio som, esvaziado pelo eco - Felipe, Felipe, Felipe, Felipe. Não: mantém-se intacto no horizonte, firme sobre o cavalo, a lança na mão direita. Felipe.
C. Tezza - O Filho Eterno
terça-feira, outubro 28, 2008
Sou ainda pior
contada por outro
e o meu desfecho é ruim
e o mau exemplo é moral
que ensina que
ensina que ensina
que ensina que
ensina o quê?
para ninguém aprender
sou, além de história, inútil
o outro que de mim conta
nem aprende nem aprendem
o que ensinando não ensino
mas mespalha, a minfame
pelo conto, a minfiltrado
nem sou o
que sou sou
monstro se
sou é ficção
...................mas, oras, história sou!
o que sou
é mentira
que sou
a mentira
que sou
se é mentira
que sou sou
o que não
sou aquilo que fica
que fique, é melhor
sou ainda pior
domingo, outubro 26, 2008
sábado, outubro 25, 2008
Perdas
e as palavras outrora ditas não são
as que no fim a memória marcam
se justifica agora teu ódio destilado
nas ficções a que não ouso
opor, inútil, meu inútil palavreado
se perde em ti o que em mim fica,
e compreendo tuas injúrias,
que o amor ao ódio justifica
assim vou, de perdendo tanto
me perco em erros, e nos meus
te perdes, e sou perdas, e és canto
o lutuoso canto das minhas perdas,
da voz de embargo que lamenta tímida
o pra sempre ir-se do teu ventre-seda
do ir-se então o lindo seio que escondias
à meia-luz do perdido quarto
a jogar-me perdido em perdidas vias
assim eu ia, de a boca perdendo,
a que ostentavas, a perder os fios
do cabelo que a ela ia escondendo
e no fim a ti perdi, e enfim a mim inteiro,
em tudo perdido, mas certo que dos erros
tu foste o meu único e absoluto acerto
sexta-feira, outubro 17, 2008
quinta-feira, outubro 16, 2008
Mercado Financeiro
que hoje tento lembrar.
Depois me censuro:
já há muito se passou
o terceiro dia após o dia
da morte dos mitos.
Hoje há mitos que o aedo
não cantará. O farão
as prosas secas dos jornais.
Pois onde
a queda dos deuses esteve
a quebra dos bancos está;
na ordem do dia,
no Olimpo do Caos.
Fosse a fome...
Mas fome não é mito.
segunda-feira, outubro 13, 2008
Blow Up
Elegia
Figura-me porém do infortuno o sentido
Igual ao derradeiro que correu afora:
Dos tristes a esperança há tempos tenho sido.
Sou dois, sendo já um, inda outros males tenho,
E serei também guerra, o medo dos povos,
O pranto que ao consolo presta e pronta venho,
Sem que ao meu próprio choro acorram males novos.
Sou vida mais vivida, e me odeia a vida;
Amigos todos faltam; se duvidas, vide-o:
Semi-vivo procura-me, o suicida;
Pelo afeto, obrigada, dou-lhe o suicídio.
Sou com isso mui só, que amigos hei de ter?
Se os quais a mim tocar desejam, e os que não,
Hão de sempre, infelizes, no toque morrer,
De modo a não restar-me senão solidão?
Sou desafortunada, vês que o sou deveras:
A todo mal que falem eu serei pertinente,
Como coisa maldita, reles coisas meras.
Mas poucos saberão: sou também - direi! - gente.
Sou, com efeito, parte da humanidade.
Como se não corresse ali tudo corre
No meio natural: cair um dia há-de
U’a planta, natureza porém nunca morre.
Sou, e sou realmente, dentre os homens uma:
Alguém contradirá: o homem não é uma planta?
Homem o nome tem, não a flor, não o puma,
E eu o tenho também, como tanto se canta:
Sou Tânatos, sou Moiras, sou Parcas, sou Cruz;
Nas palavras mais doces posso ser má sorte;
Mas meus nomes rejeito por tirar-me a luz,
Daqui p’ra frente nego tê-la, alcunha Morte.
quinta-feira, outubro 09, 2008
A Walt Whitman
onde acabará teu verso?
O papel acaba, o livro é pouco, o blog é isso que vês
Mas teu verso enorme vai se quebrando e a página se enchendo e o poema, que é o branco da folha, vira a letra densa, a letra preta, a letra que, no entanto, na tua pena vira pena, folhas de relva plainando em queda descompromissada e conformada, lentamente a tocar o nada e o sem-fim das cantilenas sempre iguais dos trabalhadores livres da tua democracia.
Ó Whitman, pastor da América!
sexta-feira, outubro 03, 2008
terça-feira, setembro 30, 2008
Elogio fúnebre
De indivisos reinos, sentados, mandam,
Em tronos perenes, os imortais,
Nos mortais destinos insuperáveis.
Eles, deuses cujo ânimo em fuga
Não se flagra, imorríveis ditaram
Ser um mal morrer; e dentre os que caem
Não se contarão os que néctar bebem.
Cais tu, ao negar os verdes viçosos
De tipos vários, sob a vária luz
Do sol ou o halo ladino da luz
Da lua, de teus interditos olhos.
Cais tu, pagã ambrosia que hei comido,
Que de mim um deus não houve fazer,
Senão fazer de ti mesma senhora
Cruel de mim, por mim bem querida.
Uma a outra, vós vos buscáveis céleres.
Da morte não digo: quem não te quer?
Mas haver tu a ela desejado
Em noturno pranto, que deus explica?
Uma a outra, das falésias ao choque
Fúnebre, no mar te esperava a amiga,
No mar que pranteava sais amaros,
Cujo marejo era o chorar da morte.
Revoltos, o cimo buscando, os fios
Resistiam negros à rubra queda,
Assim também a amena branca roupa,
Que violenta a vertigem arrastava.
Revoltos, meus corações, os tivessem,
Te os braços estenderiam, mil deles,
Fossem o quanto fossem as medidas
Para do mar evitar a acolhida.
Cruel, eu amava a ti chorando e rindo,
Mas a rir o pontiagudo ruído
- ao ventre meu – dos teus quietos lamentos
Tu, cruel, tu sem porquês preferias.
Cruel, a vida toda pranteada,
Pedira-me lividez pr’esta hora;
Mas chora o mar, e até a morte chora,
Que alívio tenho onde me o pranto toma?
sexta-feira, setembro 26, 2008
The Dandy Warhols
Nietzsche
por The Dandy Warhols
I want a god who stays dead
not plays dead
I, even I, can play dead
(Ainda preciso verificar se isso não é uma tradução de algum poema do Nietzsche, mas a princípio a letra é do Dandy Warhols mesmo).
quinta-feira, setembro 25, 2008
o tempo passa, o tempo voa
Por muito que corra
Passa como quem fica
Não decola, mas voa
Aula de silogismo metautopoiético
Eu não sou nada.
Logo, eu sou Fernando Pessoa.
domingo, setembro 21, 2008
Quero matar o mundo
isso que se chama mundo,
pra morrer, na matança,
e renascer desde criança.
Mas não vir assim jogado
num mundo feito, já criado.
Mas como um deus renascer
no vão do nada, silêncio do ser.
Então criarei tudo de novo:
Lixo, sujeiras, pessoas, povo.
Não teremos, porém, reggae e maçãs
e pra Bukowski não haverá fãs.
Cachorro Grande não poderá gravar,
nem Pollock terá mãos para pintar.
E ninguém há de morrer de tiques
quando eu falar mal dos beatniks...
Sendo um deus modesto feliz serei:
Não quero um mundo de rei,
assim perfeito, todo Rolling Stones,
somente um que não me faça ouvir Ramones.
sábado, setembro 20, 2008
Odisséia, livro vigésimo-terceiro
'Acorda, Penélope, filhinha querida. Confere com
os teus próprios olhos. O que desejavas aconteceu.
Teu marido voltou. Está lá embaixo. Antes tarde
do que nunca. Os safados estão mortos. Os que
saqueavam tua casa, devoravam tudo, ameaçavam
teu filho não existem mais" [...]
Odisséia, XXIII, 5-10, Trad. Donaldo Schüler
Odisea, libro vigésimo tercero
por Jorge Luis Borges
Ya la espada de hierro ha ejecutado
La debida labor de la venganza;
Ya los ásperos dardos y la lanza
La sangre del perverso han prodigado.
A despecho de un dios y de sus mares
A su reino y a su reina ha vuelto Ulises,
A despecho de un dios y de sus grises
Vientos y del estrépito de Ares.
Ya en el amor del compartido lecho
Duerme la clara reina sobre el pecho
De su rey pero ¿dónde está aquel hombre
Que en los días y en las noches del destierro
Erraba por el mundo como un perro
Y decía que Nadie era su nombre?
***
Odisséia, livro vigésimo terceiro
tradução por Leonor Scliar-Cabral
Já as espadas de ferro executaram
O devido trabalho da vingança;
Já os dardos mais ásperos e a lança
O sangue do perverso prodigaram.
A despeito de um deus, dos mares seus,
Volta ao reino e à rainha o intrépido
Ulisses, a despeito do estrépito
De Ares, dos ventos grises e de um deus.
Já no amor do compartilhado leito
Dorme a insigne rainha sobre o peito
De seu rei, onde está o homem, porém,
Que nos dias e noites pelo mundo
Errava proscrito, cão vagabundo,
Dizendo que seu nome era Ninguém?
domingo, setembro 14, 2008
Manchetes que eu ainda verei escritas
quarta-feira, setembro 10, 2008
Circunstâncias
a mim, que fui sempre julgado,
julga-me outra vez, e de novo
julgará, agora me o dedo
apontando, por ter um dia
também, mortal que sou, julgado.
terça-feira, setembro 09, 2008
Declaração da Pobreza
para todos os fins
que já os vivi todos
e o melhor deles
é o fim da picada.
E por ser expressão
fiel da verdade
não situo nem dato.
Sou maior que o tempo,
sou maior que o espaço.
segunda-feira, setembro 08, 2008
Boca
E depois chupa sorvete
e depois fala
do tempo
do amor
do jogo
do dia
em que vai ser rica
em que vai ser livre
em que vai ao médico
em que vai fechar
e começar o regime.
Mas a segunda-feira não chega
o estetoscópio não basta
a loteria acumula
a lei d'ouro não vem
e é ainda uma boca
e é ainda escondida
no dia após dia
e é ainda uma voz
que fala e se cala
e se finge paisagem
e ainda é uma boca
não passa de boca
não passa de nada
não mais - coitada! -
que o mundo invertido
no ilógico espelho
que o velho destroça
e o sentido suspende.
Boca, não boca,
porque todos têm.
Boca, não boca,
porque a tua não têm.
Boca, só boca,
fingindo o só.
Boca, tão boca,
pãozinho de ló.
sexta-feira, setembro 05, 2008
Mundo das cóisas
diz a nova ortografia.
Tropeçou ou desceu dos céus
e ao mundo das coisas se filia.
Platão, que de português
sequer ideia fazia,
do acento fez caso pouco:
-Bah! Isso nem é filosofia!
Em polvorosa, no entanto,
está a elite do Brasil:
o que era pouca o acento perdeu!
Agora o acento é mundano
e a ideia sem destaque;
da esquecida então dirão: morreu!
domingo, agosto 31, 2008
Peço desculpa... o sopro da inspiração...
Não é todo dia que a musa nos visita.
Boris Vian
Poderiam ao menos dar as caras para se darem a conhecer, estas vozes metafísicas da inspiração. Afirmaram existir, não? Pra mim que a Theá e as Mousas de Homero morreram naqueles tempos mágicos em que crucificados ressuscitavam; deram lugar ao Deus de duas caras e de três nomes, que ama e amedronta, com cruz e espada e flancos por demais abertos ao novo deus, a Razão e suas engrenagens de mundo, contra a qual se revoltou um Eros de tempestade e ímpeto, rejuvenescido sob o epíteto de Coração... O Coração morreu de morte cruenta, tal qual a cantava, e nada se pôs no lugar, se não a Realidade, soberba, ciosa e muito de mentirosa - muito de... nada. E nos pomos a poetar vasos gregos, pedras no caminho, a equívoca revolução dos erros dos homens, um cachorro latindo, um mendigo faminto, o cotidiano vulgar outrora insuspeito de esconder versos e versos outrora impossíveis de se prodigalizar nalguma coisa pouco seletiva chamada internet. Em que inspiração se finge e o mais fino trabalho que se pode almejar é uma boa imitação.
quinta-feira, agosto 21, 2008
Circunstâncias
dizer que não és bonita.
Que ouse ele, ou o cego,
o idiota, o inumano.
Eu não. Que de mentiras
só sou dado às pequeninas.
***
Perguntas três, garota,
e três das que te ouço perguntar
melhor proveito fariam
ao surdo.
***
Doutor não sou;
gênio, jamais.
Sequer um nome
que sobreviva
aos séculos.
Mas quem a ti, Miguel,
os ouvidos dedica
e às palavras firmes
apõe o brilho de um 'bravo!'
concorre com feijões
uma vaga à raça
humana.
terça-feira, agosto 19, 2008
Anacreonte
EIS KITHARAN
Thélo légein Atréidas,
Thélo dè Kádmon áidein;
Ha bárbitos dè khordaîs
Érota moûnon ekheî.
Émeipsa neûra próen,
Kaì tèn lýren ápasan.
Kagó mèn êidon áthlous
Herakléous: lýre dè
Érotas antephónei.
Khároite loipòn hemîn
Héroes; he lýre gár
Mónous érotas áidei.
***
PARA CÍTARA
O Atrida quero cantar,
quero a Cadmo dar a loa;
mas o bárbito* que é teimoso
só amor na corda ecoa.
Há pouco troquei as cordas
e também a lira toda.
Mas se d’Héracles eu canto
as lutas, insiste a lira
e de novo o amor entoa.
Dos heróis, daqui p’ra frente,
me despeço: co’essa lira
só de amor se tira o verso.
*Bárbito é um instrumento semelhante à lira, mas com cordas mais compridas e de som mais grave.
segunda-feira, agosto 18, 2008
A verdade sobre os elevadores da Federal
Entretanto, o que eu tenho para contar sobre os elevadores da Federal é mais espantoso.
Naquele dia em que o desaparecido fui eu, havia esquecido numa sala do décimo-primeiro andar meu guarda-chuva. Lembrei-me dele durante a tarde, e como não fora ainda para casa e estava próximo da universidade, poderia passar lá e verificar se o reaveria. Foi o que fiz. Chegando à Federal, as coisas ocorreram bem inusitadamente: não enfrentei fila alguma para o elevador, entrei nele sozinho e fui diretamente, sem nenhuma parada, do térreo para o último andar do prédio. Com tanta sorte assim, é claro que eu não achei meu guarda-chuva: seria demais para ser verdade. Então voltei ao bendito elevador. De novo – ó, azar! – sozinho.
É que lá estando, e sem censores, animei-me a mexericar naquela alavanca que nunca é usada. Puxei-a para a esquerda, para a direita, para o meio e nada. Puxei-a uma vez mais para a esquerda, para a direita, para o meio e... As luzes se apagaram, com exceção daquela que marca o andar pelo qual se está passando. Fiquei quietinho, de medo que tinha, acompanhando o tal indicador passar do 5 para o 4, do 4 para o 3, do 3 para o 2, do 2 para o 1, do 1 para o T. Térreo, enfim!
Mas qual!, o elevador não parou! Continuou descendo, e agora até com aquela última luzinha apagada. Meu coração palpitou. Meus joelhos dobraram-se. Anuviou-se minha visão. Porém, antes que meu corpo todo se estreitasse contra o chão, a porta finalmente se abriu, o que fez-me regozijar com uma nova esperança de vida quando já me acreditava morto.
Rá! Para quê?! Topei com um porão escuro, qual calabouço de castelo, úmido e frio, porém iluminado com luzes de emergência de túneis subterrâneos. Ao fundo, uma celeuma de vozes multivibrantes anunciava um estranho viço para local tão esmorecido. Caminhei em direção aos brados, dos quais se distinguia ora um “isso é absurdo!”; ora um “à vitória!”; ou ainda um “é culpa dos imperialistas do norte!”.
Ao final do corredor, uma ampla sala se descortinava, e nela estavam dispostas várias mesas circulares, repletas de professores discutindo vivazmente os mais diversos assuntos. Num canto, a mesa dos professores de ciências sociais debatia sobre como cortar a garganta dos burgueses para a libertação das massas. A dos professores de história, doutro lado, pelo que pude ouvir, lidava com o tema do revisionismo: pretendiam desdizer tudo o que foi dito pelos gênios conspiradores dos que venceram no passado. Nada mais assustador, porém, que a mesa dos professores de letras, a mais próxima. Reuniam-se eles num vil complô para assassinar a Língua Portuguesa! Reconheci, por exemplo, enquanto oculto nas sombras, as professoras Teresa e Adelaide, falando de coisas macabras, tais como a relativização da noção de erro. O que fez um terrível frêmito tocar-me a espinha: como aquelas professoras, que sempre ostentaram tão doces ares nas mais chuvosas manhãs de Curitiba, falavam essas palavras duras contra o gracioso monumento da nossa puríssima língua materna?
Não acreditava em meus olhos e em meus ouvidos, que me faziam notar uma professora Teresa de cenho franzido, em postura tão grave a soltar uma irascível voz que clamava a morte do prescritivismo. Ou uma professora Adelaide outrora gentil, agora brincando de fincar uma adaga entre os dedos da mão o mais rapidamente que conseguisse e defendendo que..., que... Por deus, ela defendia que o gerundismo é nada mais que um registro atual do que acontece com a língua!
Não pude evitar uma irresistível interjeição:
- Ó! – exclamei eu.
Pobre de mim. Despertei a atenção. Não deu tempo nem de esboçar um sorrisinho amarelo quando senti um golpe surdo a brincar de beisebol com meu cérebro.
Acordei, sei lá quantas horas depois, enjaulado ao lado de um velho senhor sujo e barbudo, com uma marmita de risoto de frango aos meus pés.
- Bem-vindo, jovem. Meu nome é Napoleão, muito prazer. Napoleão Mendes de Almeida.
- Napoleão Mendes de...? Mas tu não tinha morrido, não?
- Tinhas morrido, por favor! – disse o velhinho. E, meditando, olhando para o alto, ponderou: - Se bem que eu prefiro “tu não morreras?”... Não, não! Como sequer sei seu nome, deveria ser “o senhor não morrera?”!
- Ah, perdão – constrangi-me. Mas antes que eu pudesse ser mais polido, arrematou meu companheiro de cela em resposta à minha pergunta:
- De qualquer modo, meu rapaz, mal o senhor conheceu a verdade sobre os elevadores da Federal e sobre a corja que nos enclausurou. A morte é ainda um tema muito longínquo para o alcance de sua parca experiência.
domingo, agosto 17, 2008
Concorrência
Eu com minha barba feita e minha gravata, perfumado e cabelo bem aparado antevi uma ótima oportunidade de complementação de renda. Se o velho, que da boa postura nada tinha, recebeu uns trocados, eu, com toda minha fineza e com meu berço, inspiraria muito mais confiança. Estendi, porém, a mão a umas senhoras, a uma família, a crianças e jovens, aos homens trabalhadores, e tudo que consegui foi desdém. Creio que alguém até chegou a me alcunhar de insano.
Lembrei da tal transvaloração dos valores que viemos sofrendo pelos anos do nosso tempo. A isso atribuí a falência total da minha empreitada.
pouco resta.
E no restar pouco um lampejo de angústia
se manifesta.
Cataloga, calcula, conhece, compra e vende,
descansa e festa.
Até que o resto que era não é mais
e qual toada de suave seresta
se irmana e harmoniza com tudo,
com cada coisa, entre cada fresta.
E se acomoda nas palavras, nos poemas, nas
canções de gesta.
Dorme como dorme o homem a dormir na
vida em sesta.
Como senhor das coisas e dos nomes, a quem
nada presta.
sábado, agosto 16, 2008
Uma Imagem Divina
A Divine Image
Cruelty has a Human heart
And Jealousy a Human Face,
Terror, the Human Form Divine,
And Secrecy, the Human Dress.
The Human Dress is forgéd Iron,
The Human Form, a fiery Forge,
The Human Face, a Furnace seal'd,
The Human Heart, its hungry Gorge.
***
Uma Imagem Divina
A Crueldade tem o Coração do homem,
O Ciúmes tem o Rosto humano;
O Terror, a Divina Humana Forma,
O Segredo, do homem é o Pano.
Pano da Veste em Ferro forjada
Cuja Forja de fogo é a humana Forma,
Do homem a Face é hermética Fornalha,
E o Coração, sua Fome que devora.
quinta-feira, agosto 14, 2008
quarta-feira, agosto 13, 2008
Chuveiro
Tua chuva, o teu gozo
Teu suor copioso
Me lava a sujeira;
Menor, que maior eu tenha:
Mente, alma, moleira.
segunda-feira, agosto 11, 2008
Safo e Catulo
Ode 31 de Safo
Igual aos deuses me parece aquele
Que defronte de ti se assenta, e te ouve
De perto docemente conversando,
Docemente sorrindo
Inda no peito o coração me assombra,
Que depois que te eu vi, jamais me veio
Voz alguma à garganta, antes quebrada
A língua se entorpece,
Eis já de veia em veia sutil fogo
Lavrando vai: c'os olhos nada vejo;
E sinto contínuo em meus ouvidos
um túrbido zumbido.
Geladas bagas por meu corpo correm,
Um frígido tremor me toma toda;
O rosto amarelece, e quase morta
Nem respirar já posso.
Poema 51 de Catulo
Ele parece-me ser par de um deus,
ele, se é fás dizer, supera os deuses,
esse que todo atento o tempo todo
contempla e ouve-te
doce rir, o que pobre de mim todo
sentido rouba-me, pois uma vez
que te vi, Lésbia, nada em mim sobrou
de voz na boca
mas torpece-me a língua e leve os membros
uma chama percorre e de seu som
os ouvidos tintinam, gêmea noite
cega-me os olhos.
O ócio, Catulo, te faz tanto mal.
No ócio tu exultas, tu vibras demais.
O ócio já reis e já ricas cidades
antes perdeu.
sexta-feira, agosto 08, 2008
Duas laranjas
(no céu das línguas) eterna
laranjeira vige a pender.
Outra é a laranja ao chão
a descansar na agonia
duma natureza entrópica.
O homem é o terceiro, vendo
ambas: acima e abaixo,
qual fotografia imóvel.
O último é o pensamento,
de mil ardis e mil línguas,
que ao homem inventa a queda.
terça-feira, agosto 05, 2008
domingo, agosto 03, 2008
sexta-feira, agosto 01, 2008
quarta-feira, julho 16, 2008
Cachasdiminas
mandei meu estômago pros diabos depois que a pinga derreteu o copo; daí a pinga derreteu os diabos quando mandei o copo pro estômago; então o estômago derreteu a pinga e mandei o copo pros diabos; por fim, os diabos derreteram o estômago e ia mandar a pinga pro copo, mas pinga copo diabos e estômago já estavam todos derretidos
impossersível
nasser para ci
o impossi de ser
o sível de mim
fazendo, desfaço
o crido que fui
o ser que não cri
faço que nasço
nascendo, desnasço:
não creio que fui
o impossível de mim
quarta-feira, julho 09, 2008
Versos a Nina Simone
queria lhe fazer versos
pela versão da Good Bait
do estimado Count Basie.
Mas não sei fazê-los.
E, alem do quê, sua
música não me evoca
lembrança qualquer.
Cada nota só me lembra
a nota seguinte; ou talvez
seus dedos negros a
bailar no teclado branco.
É que com sua música
o mundo é isso:
sua música.
terça-feira, julho 08, 2008
Contemplando
Porque todo homem precisa ter algum lugar para onde ir!
Dostoiévski
uma folha d’outono
nas veredas do Passeio Público
fustigada pelas vassouras:
presumindo ser algo único
entre mil outras folhas
um barco na baía
a velejar até não mais ver-se;
nada há mais que m’angustia
e como voltar na tirania
de grandeza do mar verde?
quinta-feira, julho 03, 2008
Estudo de variações do discurso indireto
Quando o Zé Magrela botou os pés no Bar do Lauro, este mal ergueu os olhos, jogou o pano de prato sobre o ombro e fingiu precisar ir à cozinha, para adiar algo de que não fugiria. Mas Zé o chamava, obrigando-o a ficar e virar-se. Ainda sem erguer a cabeça, Lauro perguntou-lhe o que queria, juntando dois ou três guardanapos de papel amassado sobre um prato cheio de farelos de pastel e pedacinhos de carne. Zé pediu uma cerveja e um pastel de carne, já ordenando, em ato contínuo, que colocasse na conta. Numa frase cheia de reticências, Lauro que enfim olhou aos olhos do Zé disse-lhe que este já lhe devia algum dinheiro, perto dos cinqüenta reais. O devedor abriu um largo sorriso para depois franzir o cenho abrir os braços e dobrar o pescoço na diagonal e anunciar como quem pede favor na camaradagem que já havia dito repetidas vezes que lhe retribuiria logo, pois dentro de alguns dias o Tavares ia lhe quitar a aposta que perdera no bilhar. O dono do bar ainda chegou a dizer, um tanto acanhado, que também Tavares lhe estava devendo. Mas Zé enraiveceu e disse que isso era assunto a ser tratado entre Lauro e Tavares, não com ele. Lauro já ia cedendo quando Martinho, sentado num dos bancos do balcão, retrucou dizendo a Zé que ele folgava-se demais com Lauro, que era alma boa demais para dizer não. Disse ainda para Lauro que só servisse à vista do dinheiro, ao que este, tomado de coragem, disse que era verdade, e cobrou de Zé. Zé, que era folgado mesmo, vitimizou-se alegando que sempre foi freguês do senhor Lauro, que ia sim lhe pagar. Martinho então lhe falou que ninguém pode se fiar na palavra por tanto tempo, e ainda disse que Zé já não tinha crédito em nenhum outro bar do bairro, que era para se conscientizar disso. Zé se acanhou foi embora.
Quando o Zé Magrela botou os pés no Bar do Lauro, este mal ergueu os olhos, jogou o pano de prato sobre o ombro e fingiu precisar ir à cozinha, para adiar algo de que não fugiria. Mas Zé já gritava “ô, seu Lauro!”, obrigando-o a ficar e virar-se. Ainda sem erguer a cabeça, Lauro perguntou-lhe o que queria, juntando dois ou três guardanapos de papel amassado sobre um prato cheio de farelos de pastel e pedacinhos de carne. Zé pediu a loira e o pastel de carne, “nada de vento, hein?”, e ainda disse que era para fazer tudo “naquele nosso esqueminha!”. Lauro, com uns “mas..., mas..., você sabe...”, olhando nos olhos do Zé avisou-lhe que sua dívida já chegava aos cinqüenta reais. O devedor abriu um largo sorriso para depois franzir o cenho, abrir os braços e dobrar o pescoço na diagonal e anunciar como quem pede favor na camaradagem que já havia dito “quantas vezes, hein?” que lhe pagaria logo, “de fé”, pois dentro de alguns dias o Tavares ia lhe quitar “o bagulho da sinuca que eu te falei”. “Ah, o Tavares...”, disse o dono do bar, explicando que este também lhe devia. Mas Zé enraiveceu e disse que isso era assunto deles, que “eu não tenho nada com essa joça”. Lauro já ia cedendo quando Martinho, sentado num dos bancos do balcão, retrucou dizendo que ele era um “desgraçado dum folgado” e que Lauro era alma boa demais para dizer não. Disse ainda para Lauro que só servisse quando Zé “botasse a mão no bolso”, ao que este, tomado de coragem, disse que era verdade, e cobrou de Zé. Zé, que era folgado mesmo, disse “que é isso, seu Lauro?”, e que sempre foi freguês do bar e que ia sim lhe pagar. Martinho então falou que ninguém pode “dar fé só no dizer” por tanto tempo, e ainda disse que Zé não tinha “moral” em nenhum outro bar do bairro, quer era “pra tomar tento logo”. Zé se acanhou e foi embora.
domingo, junho 29, 2008
Ode ao Corpo de Bombeiros da Nunes Machado (revisto)
No exato momento em que posto esta 'homenagem', uma sirene rompe as aparências da madrugada e me justifica.
Ó estridente grito, fúnebre presságio,
claro como o que canta a fanfarra
na alegria rasa das gulas oficiosas,
por que te anuncias, tão límpido,
na confusa hora da madrugada?
negado do nada como se algo fosse.
segundo dos segundos que carregam,
por trás da inocência encantada
dos inocentes versos da Poesia,
a temida Aurora, a atroz Vigília.
O que há para salvar do inevitável?
a pestear o quase infinito tanque
do Sonho, com a manhã da qual és
rubro e grave núncio, e na qual
me precipito com vivos ouvidos.
que meus amores notívagos demais.
se dão da convulsão nas tardias
horas dos dias a um luxo vulgar;
que morram como querem a Morte,
na qual, dizem, o Fim não está.
O Fim está é na morte do meu Sono.
acidentes a ver o ânimo esvaído:
meu coração pelo que não cria
não sente; nem meus olhos marejam
pela vida que lá fora não vê morrer.
Antes eles, que o meu - e teu! - Sono,
que doces mãos ao menos me oferece.
Conquista
Mas me tiras a razão e queres que eu raciocine?
Balzac
o próximo passo
não tem medidas
nem há caminho
para teu regaço
domingo, junho 22, 2008
Quando duas autoridades se amam
- Vossa Excelência, [...]
Ao que esta replicou:
- Vossa Excelência, [...]
E quando se casaram, um ao outro, pedindo vênia para se manifestar:
-Amo a vossa douta e ilustríssima figura.
E o som se reproduzia no tímpano do que ouvia, [...] vossa douta e ilustríssima [...].
Um dia o Excelentíssimo deixou de ser tão excelente assim e teve de se contentar com o Vossa Senhoria. E como homem sem título, ousou dizer um "eu te amo" à Excelentíssima.
Mas ela não conseguia lhe ouvir.
Artigo Primeiro
- Tens razão, o céu é azul.
As-Pessoas riu.
-Não, não, O-Ser. Agora o céu está cinza, não vês que as nuvens o cobrem?
-Aquilo são nuvens?
-Uhum.
[A positividade do direito passou a ser sinônimo de de certeza e segurança...]
E como eu quisesse dormir, As-Pessoas me levou à cama.
-Te cubras, eis que está frio.
E acomodei-me por sobre o cobertor macio.
-Não te cobres?
-Como não?
-Estás sobre a coberta.
-Acaso não estava o céu sobre as nuvens e estas não o cobriam? Não está o cobertor precisamente sob mim?
[Uma árvore cai na Amazônia e disso não se tem notícia. Para o direito, não se trata de um fato, simplesmente não ocorreu.]
As-Pessoas de novo riu.
-Eita, O-Ser! Tu tens idéias absurdas e inúteis. Cobrir é esconder-se. Esconda-te sob o cobertor como o céu se esconde além das nuvens.
-E isso me protegerá do frio?
-A ti sim. Ao céu não, que céu não sente frio.
[Artigo primeiro. O céu é azul
Artigo segundo. Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada]
As-Pessoas saiu rindo. As-Pessoas sempre me ridicularizou. Eu tive medo.
-O que você quer ser quando crescer, O-Ser?
-Quero ser como As-Pessoas.
Foi o único momento em que As-Pessoas me deu razão. Senti-me bem com isso.
[Condeno tal com fundamento no artigo tal, parágrafo tal, inciso tal, alínea tal da lei tal.]
Chora agora, homem! Chora também, mulher! Aproveitai, pois, as últimas horas de sentimento estocados em vós, que amanhã ninguém, ninguém há de se alegrar, ninguém há de chorar. Aliás todos seremos ninguém. Estamos condenados a beber dos venenos que levaram a minha linda que com os vermes jaz. E foram tantos, não é, meu bem? Vamos e bebamos, vamos perder nossa condição de homens e mulheres, de crianças e velhos, de casados e solteiros, de amantes e inimigos! Vamos todos sorver o trabalho, a petição, o poder, a posse, o requerimento em três vias com reconhecimento de firma, a produção, a curva de Philips, o superávit primário, o recurso extraordinário, a propaganda, o custo/benefício, o dinheiro, a ginástica laboral, a gonorréia, a medida provisória que reajusta a alíquota do imposto sobre a renda do prestador de serviço para 40%, a fábrica, a circuncisão, o cinto de eletrodos, a cópia autenticada, o reflorestamento, o beijo entre Gisele Bündchen e Leonardo de Caprio, a máquina digital de 456.98 megapixels, a.........
Hoje, eu vos declaro robôs e vos participo: a poesia morreu.
quinta-feira, junho 19, 2008
domingo, junho 15, 2008
protótipo para um soneto do perfume
era uma paixão
de evocações:
sentia o seu perfume
e me vinha sua boca
e sua leve corcunda
depois,
as evocações eram
naturais;
me retinha na sua pele
e era eu os seus olhos
sentindo falta do seu perfume
por fim,
o cheiro me lembrava o perfume
e o perfume me lembrava o cheiro
sem dentes, lábios e garganta
sem você, inexpressiva,
que era só perfume, era só cheiro
comprei o frasco
e não a quero mais.
De sacanagens. Ou meros erros.
Por vaidade, adoraríamos crer que somos maus naturalmente. Mas, na verdade, é bem pior: nós nos tornamos maus sem saber, sem mesmo nos darmos conta disso. É difícil ser herdeiro de alguém sem desejar inconscientemente sua morte por este ou aquele motivo. “Em tais situações, apesar de nos conduzir um sincero amor pela virtude, mais cedo ou mais tarde, sem que se perceba, fraquejamos, e nos tornamos injustos e maus ao agir, sem deixarmos de ser justos e bons na alma” (Rousseau)
Gilles Deleuze
Sou um maldito filhodaputa, ele disse. Esperava ser absolvido falando-o. Mas os outros simplesmente concordaram, e não houve saída. Ele era mesmo um crápula, tendo feito tudo sem querer.
Mas ninguém faz o que ele fez sem querer, pensavam os outros. Que eram filhosdaputa iguais... Só que quando um dedo se levanta para apontar, é só para uma direção que ele aponta.
sábado, junho 14, 2008
Giancarlo Rufatto
Às vezes dá uma inveja!
PS: Não concordo nem um pouquinho com esse lugar-comum.
Sonetos a Orfeu
Sólo quien ya elevó la lira
también entre las sombras,
puede expresar, vislumbrando,
la alabanza infinita.
Sólo quien comió con los muertos
de sua adormidera, la de ellos,
no perderá nuevamente
el más leve sonido.
Puede que el reflejo en el estanque
se nos esfume a menudo, pero
conoce la imagen.
Sólo en un mundo duplicado
se tornan las voces
eternas y suaves.
Rainer Maria Rilke, de Sonetos a Orfeu, traduzido ao espanhol por Otto Dörr Zegers.
quinta-feira, junho 12, 2008
Verdades
Não entendo
Não sirvo e
Não tenho.
Dispenso o conselho,
Despeço o espelho,
Arremesso o processo.
Não penso
Não venço.
escrevo
porque
escravo
extremo
porque
libertário
mas tremo
es-pas-mo-di-ca-men-te
porque
a palavra liberdade
liberdade
não é
e no entanto,
na dor do homem que não quer viver,
as letras e símbolos justapostos,
infrapostos os versos e estrebilhos,
a pele e os olhos palavreados
- "liberdade!" "liberdade!" "vida!" -
à vida me impelem.
Minha morte
No dia em que a Tal à porta vier
Trazer-me à vida o último estertor,
Que último não sei se é – vou supor
Que coisas após há – faz-se mister
Atinar o que, morto, devo ser:
Corpo inerte em necrópole enterrado;
Ou, qual suicida, em não santo prado;
Ou em quinhão alheio apodrecer.
Mantenho o suposto: na morte, existo.
Se posto embaixo da terra, malquisto
Por este que morre será o coveiro.
‘Quero minhas partes todas ao vento’
É a minha condição de testamento.
Quero a alforria como cativeiro.
Minhas palavras
a responsabilidade
é toda tua!
se não as quiseres
que farei eu?
o azar é todo teu.
domingo, junho 08, 2008
de pace
non autem habeo
pulchrarum uolo
nihilum solum
aliarum quoque
nihilum uolo
alias autem
ne uideo quidem
penso, logo
ele pesa toneladas
e eu existo
como uma poeira
que teve sua vez
no dedo do sol
e deitou-se ao chão
sem fazer a menor
diferença
terça-feira, junho 03, 2008
O crime de Septimus
Os homens não devem cortar as árvores. Há um Deus. (Anotava tais revelações nas costas de envelopes.) Mudar o mundo. Ninguém mata por ódio. Torná-lo conhecido (tomou nota). Esperava. Escutava. Um pardal, pousado na grade em frente, piou "Septimus, Septimus", quatro ou cinco vezes, e, cascateando as suas notas, continuou a cantar, alto, com frescor, em palavras gregas, que o crime não existe, e, tendo chegado um outro pardal, cantavam ambos, com voz prolongada e penetrante, em grego, dentre as árvores do prado da vida, à margem de um rio onde passeavam os mortos, que a morte não existe.
Em Mrs. Dalloway de Virginia Woolf
Os escritores podem dizer que o crime não existe. E dirão. Colocarão, porém, na boca de um louco uma conclusão assim criminosa; e lançarão a pulga evitando a culpa.
quarta-feira, maio 28, 2008
É isso!
Por que a angústia? A lógica já nos deu tudo!
domingo, maio 25, 2008
Para constar
Enfim, quase a totalidade dos blogs. Até este.
quinta-feira, maio 22, 2008
Lógica do sentido: a boca (ou Estudo do sorriso)
Tua boca é muita. Tua boca é tanta. Na tua boca não hão de caber sorrisos: teus lábios exageram, preenchem todo o vão e vão além; excedem-se nessa curvatura maliciosa que se insinua contra o mundo, ao que com humilde parcimônia o vocabulário oferece a simples palavra biquinho. Tua boca é tanta - não hás de sorrir, não hás - tua boca é muita. E no entanto um movimento se desenha, os cantos se distanciam, teus olhos se espremem, uma muralha de marfim se descortina. Sorris!, e sorris contra todo prognóstico da minha futurologia, que se demasia
segunda-feira, maio 19, 2008
A Cidade
perguntou ao prédio cinquentenário:
- Como vai, meu velho?
O prédio de cinquenta anos
não respondeu porque pensou ser louco:
- Prédios não falam - murmurou.
E eu, que estava no meio da rua,
descobri que a cidade não dialogava
por causa de mitos imbecis.
segunda-feira, maio 12, 2008
As meias mágicas
- Calce, calce – disse a menina depois que ele abriu o pacote, sorrisinho insosso na cara. Ele não queria porque as unhas do pé não estavam cortadas, então mentiu:
- Mas já estou usando o par que a minha madrinha me deu, veja.
A. insistiu. Mas por que diabos, ele pensou. Não pensou, no entanto, que era um presente estúpido, porque foi de A. que o recebera. O menino, que dela não esperava nada, achou que já era a maior vitória saber que a menina havia pensado nele. Disse que então teria que trocar as calças por uma bermuda para ver como as meias ficavam na canela, de modo que fugiu para o quarto a fim de colocá-las sem perigo de vexame.
- Olha, ficaram lindas! – opinou A.
C., que nunca dera atenção a meias, não sabia dizer se elas ficaram lindas ou não. Mas gostou porque A. gostara. Deu umas voltas exibindo-se à menina, que batia as mãos. Depois, ela disse:
- Olha só, é segredo: são meias mágicas.
- Hã? Como assim?
- Olha, eu tenho meias iguais – apontou para o pé e mostrou as meias amarelas, iguais à do menino a não ser pela cor.
- Sim, mas quê que tem de mágico nelas?
- Não percebeu ainda? Olha em volta, olha. Não tá tudo diferente?
Definitivamente não havia nada de diferente em volta. Nem no pé.
- Ah, seu bobo. Olha, essa meia não calça teu pé, tá vendo? Tá calçando tudo em volta, e teu pé é o que tá fora dela. Ela tá protegendo o mundo do teu chulé e não teu pé do chão ou do frio ou do tênis!
Ele riu. Ela o puxou pelo braço para o quintal para mostrar mais mágicas que as meias faziam. Sob o vão da porta, bateu no umbral:
- Tá vendo aqui? Olha! Você não tá mais saindo de casa, você tá entrando no mundo! Aqui é dentro – pôs o pé na varanda – e aqui é fora – pôs o pé no tapete da sala. É a meia que mudou tudo, tá vendo?
- É verdade! – ele disse rindo para participar da brincadeira. Mas A. levava a sério. Se C. voltasse, ele estaria saindo para a casa, mostrava a menina ao rapazinho incrédulo. Chamou-o para dentro, que era o mundo, e arrancou do jardim uma flor, dando-a ao menino, dizendo:
- Olha só, a rosa me largou e pegou você!
Ele então, para testar a menina, largou a rosa, que foi ao chão. Ela exclamou:
- Ai ai, que flor cruel! Te largou e você ficou no chão!
- Mas eu já tava no chão, tonguinha.
- Tava porque ela não te ergueu, seu bobo.
- E por que então ela tá no chão agora?
- Como você é! Ainda não viu que o chão é que veio até ela? - pegou a rosa – E agora ele a jogou pra ela me segurar!
- Espertinha, tá tudo igual. Essa meia não é mágica não.
- Ah, é?
A. tirou os olhos da flor e fitou os de C. Num salto pra frente, fez tocar na dele a sua boca. O coração do menino virou uma lebre correndo no bosque, e a mão uma pedra imóvel que jamais reage. A. enrubesceu, mas saiu com essa:
- Você me beijou! Você me beijou!
- Eu..., mas, não..., foi..., foi...
- E eu... Eu gostei...
- É? Eu..., você gostou?
- Ah, de onde você tirou coragem, seu atrevido?
- É... As meias! É que elas são mágicas, sabe?
domingo, maio 11, 2008
A lógica do sentido - o beijo
Ímpeto tresloucado,
Apaixonado arroubo,
Loucura, arrebatamento,
Verdade insofismável,
Corações fugidios
Dos peitos ardentes,
Puro amor, pureza,
Luta bela de línguas
E lábios e estalos,
Ingênuo enleio,
Encanto de bocas,
Encontro de almas.
Inútil toque entre
A incógnita e a revelação.
Nunca no repouso de uma ordem.
quarta-feira, maio 07, 2008
He who hath glory lost
He who hath glory lost, nor hath
Found any soul to fellow his,
Among his foes in scorn and wrath
Holding to ancient nobleness,
That high unconsortable one -
His love is his companion.
Ele que a glória perdeu, não
Viu alma que a sua seguisse,
Entre ira e desdém de inimigos
Defendendo a nobreza antiga,
Altaneira que a si só basta -
Seu amor lhe faz companhia.
quinta-feira, maio 01, 2008
os passos sempre dados
signos dum eterno erro
que nos trouxe aqui
os calores que não tenho
nos abraços imaginários
as decisões triviais
entre o café e a cerveja
entre ligar-te ou não
o vôo a que me convida
o vento que se choca
contra a fremente cortina
e até as facas, o quinto andar
o cadarço, a manga da blusa
o ímpeto de xingar
a todos na impessoal rua
tudo tudo tudo soa no
meu exagerado peito como
o terrível suspiro do suicídio
quarta-feira, abril 30, 2008
A moça que se transformou em passado
Ela sorriu e teve orgulho. E depois, pensando no assunto, odiou ser tratada no pretérito perfeito. Precisava morrer antes.
Riu, satirizando-se.
I have a dream
"We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal."
Martin Luther King
Um sonho teve a mim.
Me concebeu acho que morto
- ou sem forças ou morto
ou uma estátua inconcebível
no centro de uma cidade.
O sonho me sonhou nu
e invisível entre rostos iguais,
cujos olhos viam tudo igual
a registrar surpresas que
não podiam surpreender.
Mas era um sonho este
sonho que teve a mim.
E acordado o sonho teve
uma cidade inteira para pôr
o que de mim tinha engendrado:
Um eu sonhado, simulacro
que tinha tanto de verdade
que na vigília, na cidade,
não tinha voz nem imagem
nem a ninguém distinguia.
segunda-feira, abril 28, 2008
O velho revolucionário
A história das revoluções poderia ser narrada alegoricamente como a lenda de um antigo tesouro, que, sob as circunstâncias mais várias, surge de modo abrupto e inesperado, para de novo desaparecer qual fogo-fátuo, sob diferentes condições misteriosas.
Hannah Arendt
O velho revolucionário andava encolhido em sua parca verde-oliva pesada de condecorações e distintivos de patentes militares que achava meio absurdas. Ostentava-os sem jamais haver pegado em armas na vida - era no máximo um estrategista, ainda que se olhasse mais como a um intelectual de retórica privilegiada. Sim, um sedutor político, epíteto do qual gostava em seus íntimos segredos da vaidade. De qualquer jeito, subterfúgios como a propaganda, que o engendraram nessa imagem forte e viril, poderiam ser aproveitados, em nome da boa causa, do corpo doente e desvairado de capital livre e braço escravo, como escrevera certa vez para o célebre discurso da Tomada do Piratininga que o companheiro Costa, o Morubixaba, bradou ao se referir ao capitalismo.
Agora que seu pulmão lhe limitava as perspectivas de dias a viver, riu do Morubixaba, riu do título de Pajé com que as pessoas lhe chamavam, do Cacique que era o Fernando, e desses nomes todos que, num momento de enteomania carnavalesca, deram-se na consumação da Revolução em loas ao espírito nacional. Rir assim das coisas caras e grandiosas era um capricho que nunca se permitira por forte autocensura e em solene respeito pela vitória sobre o reino da falsa e fantástica liberdade que só fazia embrutecer as mentes do povo. Mas agora, entre tosses, não sentia culpa nenhuma.
O velho Pajé andava para aproveitar os últimos ventos do inverno. Fazia frio no sul do país que ele e os companheiros conceberam. As rugas do rosto agora imberbe e sua recém adquirida discrição fariam dele um anônimo naquela rua de Rubrurbe, não fosse a pompa de sua parca oficial que mostrava que ele fora alguém importante. Mas havia o respeito (“mas será respeito?” - se perguntava) que impedia os inoportunos de se aproximarem. E, além disso, sempre existia aquela dúvida se ele era mesmo o tal Pajé da Revolução, nem do governo participava agora. Mudara, pois: o peito inflado e os ombros largos esvaeceram numa caricatural corcunda que o apequenava.
Fumava e tossia. E o vento que lhe batia nas costas com violência lhe arrancou o cachecol uma vez. Tudo para que o pulmão lhe matasse mais rapidamente. Depois de alguns passos a parca, esse resquício de imagem publicitária que sentia não ter liberdade em não escolher para vestir, pesou. Como amainasse o vento, pela primeira vez não a quis, e então a abandonou num banco de praça sem exibir vestuário militar nenhum por baixo. Só uma puída blusa de lã que enfim o fez confundível com o povo. O povo que salvara e do qual sempre tinha que se diferenciar com essa bizarria para glorificar-se.
Acabara de sair do Colégio Nacional, onde recebera uma homenagem das crianças. Elas repetiram os cânticos laudatórios da vitória, discursaram as frases feitas no espírito da Revolução, execravam o mundo que explorava o trabalhador.
- Aprenderam bem... a repetir. – Disse o intelectual, triste consigo mesmo.
Parou na frente de um café tão velho quanto ele. Teve vontade de conversar nalguma mesa sobre um livro do McEwan que havia comprado no mercado negro. Mas ali dentro as pessoas eram amistosas demais, felizes demais, prosaicas demais.
Sentiu saudades de quando elevava a voz – sem tossir – com coisas que já foram subversivas, naquele mesmo lugar. Ninguém acreditava então no que poderia ocorrer, e ele se sente estúpido por ter acreditado que realmente ocorreria.
E sentia falta do capitalismo? Não. As pessoas, afinal, querem só comer. E isso ele lhas dera.
segunda-feira, abril 21, 2008
Pieguices
Ah, que coisa inútil é acordar.
segunda-feira, março 31, 2008
quarta-feira, março 26, 2008
W. B. Yeats
The sorrow of love
The quarrel of the sparrows in the eaves,
The full round moon and the star-laden sky,
And the loud song of the ever-singing leaves,
Had hid away earth's old and weary cry.
And then you came with those red mournful lips,
And with you came the whole of the world's tears,
And all the trouble of her labouring ships,
And all the trouble of her myriad years.
And now the sparrows warring in the eaves,
The courd-pale moon, the white stars in the sky,
And the loud chaunting of the unquiet leaves,
Are shaken with earth's old and weary cry.
sexta-feira, março 21, 2008
Desafio
Doutor:
Meus senhores, vou lhes apresentar
A figura do homem popular,
Esse tipo idiota e muquirana
É um bicho que imita a raça humana
O homem:
O doutor exagera e desatina,
Pois quando o pobre tem no seu repasto
O direito a escola e proteína
O seu cérebro cresce qual um astro
E começa a nascer pra todo lado
Jesus Cristo e muito Fidel Castro
Refrão
Africara mingüê e favelará
Mérica de verme que deusará
Iocuné Tatuapé Irará
Doutor:
Vejo o pobre de hoje: quer tratar
Do direito, da lei, ecologia.
É na merda que eles vão parar
Ou na peste, maleita, hidropisia.
O homem:
Mas o direito, na sua amplitude
Serve o grande e o pequeno também.
Além disso quem chega-se à virtude
E da lei se aproxima e se convém
Tá mostrando no patrão solicitude
Por querer o que dele advém.
quinta-feira, março 13, 2008
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Soneto
em garboso louvor à pasmaceira.
Aos gritos de vã excluída sem eira,
condena-se à morte a métrica amada.
Que sim morram os detratores! Queira
a Morte – ou a altiva e bela fada
Tortura – saquear-lhes d’alma cada
estro dessa poesia rameira.
Sim, pois é moda desses modernosos
democratizar o verso aos incultos
com os poemas papalvos e estultos.
Liberdade não! Vivam os pomposos
versos da mais pomposa Poesia,
ao jugo da Forma e da Tirania!
quarta-feira, janeiro 23, 2008
Poemeto erótico
Desce rija do morto Urano a agulha:
Eis a distinta ira de Afrodite
Que com rápida fome te alvoroça,
Em guarda pronta, com minh’alma troça,
Dócil criada que é do apetite.
Da minha boca meu cigarro fumas,
Tão sagaz e langorosa, com umas
Tragadas que de meu logo rendido
Pudor chupam o último vestígio.
Sou em vestes plenas já teu nu lígio,
Que o que não és abandona ao olvido.
Busco as serras que vem a oferecer-me
Tua blusa que ao chão pronto se arria.
Mas se mais baixo num repente aponto,
Danças, disfarças, me afastas no conto
de qu’é cedo para chegar à pia.
Com solene voz em corpo faceiro?!
Mas nada vale insistir eu perplexo,
Que por ti bastam as preliminares
- O vão júbilo das preliminares,
que sequer põe tua boca em meu sexo.
quarta-feira, dezembro 12, 2007
O caseiro da chácara de Camaquã
Meu amigo João Falavigna jantou outro dia em minha casa. Há tempos que não nos víamos. Contou-me que o Rondinelli, caseiro de sua chácara, morrera há pouco. Simplesmente não acordou mais de seu derradeiro sono. Falavigna acredita, e eu concordo com ele, que a causa da morte não foi a parada cardíaca que consta do seu obituário, senão a falta de propósito para continuar vivendo. A sua história, a qual fiquei sabendo só agora, é extremamente curiosa e justifica plenamente nossa opinião. Aquele imperceptível Rondinelli ostentava um portentoso nome de policial ou de político, porém não passava de um discreto senhor de voz submissa e ombros encolhidos, de face circunspeta sob a inevitável calvície que ameaçava os cabelos nas entradas da testa. Na verdade, tamanha era sua discrição que sua figura só me tocou a memória em virtude de um estranho sotaque ítalo-castelhano que excedia, nessa estranheza, ao já extravagante modo de falar dos sul-rio-grandenses. Pareço descrever um mordomo vulgar, mas era isso que, no fundo, Rondinelli era. Essa peculiaridade arquivou-se em minha lembrança e foi suficiente para que eu pudesse associar toda a história ao seu protagonista.
Muito do que eu contar pode não ser a realidade, já que tudo que dele se sabe não veio de sua boca. Quem falou da vida do caseiro a Falavigna foi um dos filhos do Major Alcindo Garcez, um pica-pau da Revolução Federalista. Garcez parece ter salvado Rondinelli, maragato italiano que veio do Uruguai em busca de dinheiro, da sangüinária degola de Cherengue, e ainda ofertara ao mal-sucedido soldado o emprego de caseiro em sua chácara à beira do rio Camaquã. É o que se diz.
A gratidão – essa é a palavra-mestra – de Rondinelli foi infinita. A chácara em suas mãos estava seguramente nas melhores mãos em que poderiam estar. Há nela uma enorme casa, cheia de redes e camas, ornada com vários bibelôs cuja temática é a pescaria. Outra casa, mais modesta, é onde vivia Rondinelli com sua esposa, que conheceu em Camaquã mesmo. Um delicioso pomar, dois cavalos e o próprio rio a completavam. No princípio, Garcez ia de Porto Alegre ao sítio com assídua freqüência, muitas vezes acompanhado de amigos pescadores e da família para os churrascos de chão. Após a prematura morte da esposa de Rondinelli, suportada com singular indiferença pelo chacareiro, aliada à madureza alcançada pelos filhos do major, que trouxeram consigo o desinteresse pelas questões interioranas, a chácara passou a ser menos visitada. Passaram-se anos em que apenas Garcez, com rigorosa periodicidade quinzenal, ia à fazenda para matear com Rondinelli e pescar no rio Camaquã. E mesmo assim o afinco do caseiro era o mesmo, como se sempre esperasse as irrepetidas festas do passado. É que o seu trabalho era para o major, era a este que ele devia a própria vida. A ninguém mais. E não parecia fazer outra coisa: quando Garcez chegava o quarto estava arrumado, a geladeira cheia, o chimarrão pronto, a sela no cavalo, a linha no caniço, o anzol na linha, a grama cortada, as frutas colhidas, a lenha cortada e o fogo aceso contra a invernada. Rondinelli só não se dedicava à chácara quando ia a galope ao armazém na cidade jogar o truco ou o dominó e beber o mate com outros velhos senhores. Uma vez só, sob insistência do major, aceitou viajar ao Uruguai. Mas não achou ninguém de que pudesse se lembrar.
Num dia do ano de 1927, no entanto, Garcez, que tinha mais ou menos a mesma idade de Rondinelli, não veio. A realidade foi apenas pressentida pelo caseiro, mas solenemente denegada. Com uma semana de atraso do major, recebeu uma carta. Não a abriu: colocou-a sob a fruteira no centro da mesa de sua cozinha. Rondinelli não fugiu à rotina, tudo era detalhadamente realizado conforme sempre fora, com o cuidado que jamais faltou aos seus afazeres.
Falavigna, amigo também do major, convidado já das churrascadas que ele organizava, buscou comprar a chácara do espólio do ximango. Os herdeiros, dois filhos e uma filha, tinham já seus planos de vida, e o dinheiro valia mais que a propriedade. Marcos Garcez contou-lhe do caseiro, Rubens, seu irmão, levou-o ao sítio.
Meu amigo, devo dizê-lo, é uma pessoa extraordinária. Sua empatia é invejável, e essa deve ser a razão de ter conquistado tanta gente ao longo de sua vida. É um diplomata nato, embora seja apenas comerciante. Seu proceder para com o caseiro, como mostrarei a seguir, foi decisivo para a preservação dessa história, que pelo menos a mim impressionou muito.
Chegaram à chácara meu amigo e Rubens, homem exatamente oposto a Falavigna, bronco e de difícil lida, e o acesso foi de pronto franqueado por Rondinelli. Um pouco atordoado pela surpresa, o caseiro tratou de acomodá-los. Rubens praticamente dele não tomava conhecimento: falava ininterruptamente sobre o negócio que estava prestes a celebrar e mal ouvia as ofertas de mate ou café por parte de Rondinelli. À primeira trégua, o chacareiro fez a infeliz pergunta:
- Senhor, como bai seu papá?
Rubens ergueu-se com olhar ferino sobre o caseiro e bradou:
- Você só pode estar de brincadeira, uruguaio inútil!
E puxou meu amigo para fora para mostrar-lhe o rio. A cena bastante estranha foi geniosamente interpretada por Falavigna, que sabendo da história do caseiro a compreendeu sem maiores delongas. Então procurou não unir novamente Rubens e Rondinelli, para evitar outros mal-entendidos. Quem não a deve ter compreendido foi Rondinelli, que, imagino, deve ter ficado algum tempo paralisado para depois, como um bom servo, não fazer mais perguntas a si mesmo e voltar às suas ocupações.
A compra foi ultimada e o caseiro mantido na chácara, ainda submergido na pequena ilusão que guardara para si, a de que seu chefe, o major, ainda vivia. Falavigna nada fez para mudar esta convicção. Pelo contrário, viu-se obrigado a fingir-se, e a fazer todos os que visitavam a agora sua chácara fingirem-se igualmente, de convidado de Alcindo Garcez. O ardil arquitetado, admitamos, é um tanto quanto fácil de ser desmascarado. Mas antes de me acusarem de um fantasista que amarra mal os nós de suas mentiras, podemos ver também o porquê do sucesso dos atos de Falavigna: estamos aqui lidando com um homem cuja razão de viver é a quitação de uma impagável dívida. Obviamente que ele já sentia, nessas obscuridades da mente, a morte do seu chefe, porém simplesmente não acreditava nela. E era importante não acreditar: sua crença era deliberada. Qualquer coisa que a tornasse um pouco mais fundada seria preciosa para Rondinelli, e as dúvidas, como veremos, colocariam sua própria vida em risco.
O que fez o novo, mas secreto, patrão do nosso herói foi freqüentar a chácara sempre, inapelavelmente, munido de uma falsa autorização pretensamente assinada do próprio punho do falecido Garcez. Às eventuais perguntas de Rondinelli, Falavigna já preparara a desculpa de que o major estaria em uma longa viagem à América do Norte, em missão oficial.
O método não ficou isento de problemas: o caseiro não impunha nenhum empecilho a que meu amigo entrasse na chácara, andasse a cavalo, usasse o pomar e também os serviços de Rondinelli. Entretanto, ele jamais permitia que se dormisse no quarto do major ou que se utilizassem os equipamentos de pesca do finado. Uma vez apenas, após muita insistência, o caseiro permitiu que um dos visitantes usasse um dos puçás do major. Mas o puçá foi mal amarrado a uma raiz à beira do rio, e acabou sendo levado pela correnteza. Rondinelli suava copiosamente de nervoso, e chegou a erguer sua costumeiramente invariável voz com um discreto “jamais deveria ter deixado”.
O puçá foi encontrado pelo chacareiro alguns metros rio abaixo. Foi devolvido ao seu devido lugar e nunca ninguém mais ousou pedi-lo novamente.
Ocorre que, no começo, Rondinelli era o mais cortês e solícito empregado. Não media esforços para bem acomodar e agradar Falavigna, ao seu ver um insigne convidado do major. Encanta-me essa idéia: um homem tão infinitamente grato que, numa íntima promessa de servidão absoluta, permanece preso a esse laço muito além da morte do seu credor. Não se trata, como pode parecer a um julgamento mais imediato, de uma medíocre subserviência. Pelo contrário, Rondinelli obteve o que a muitos de nós sempre faltou: um significado da vida. Claro, se o significado que escolheu é bom ou ruim, isso vai depender de nosso juízo e de nossa busca particular do próprio sentido de existir. Mas é extraordinária a inabdicável missão a que se entregou o caseiro. Entretanto, os dias passavam e o major nunca mais deu notícias. Sub-repticiamente, a convicção de Rondinelli esvanecia. Sua energia para o labor diminuía, aqui e ali apareciam falhas do seu trabalho, imperdonables erros no dizer do uruguaio. Começou a precisar da cidade mais amiúde, substituiu no armazém o chimarrão pela cachaça. Foi duas ou três vezes ao médico. Creio que já não conseguia mais fantasiar: o major morreu. A situação foi se agravando até que chegou o dia que já conhecemos: o da morte do caseiro em sua cama.
Quem achou o corpo foi o próprio Falavigna. Descansava, na cabeceira, aquela carta cujo envelope estava, enfim, violado.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
Bicicleta
Sempre julguei que à medida que os anos se vão, menos inteligente fico. Do que se extrai, acertadamente, que quando as palavras eram-me desconexas seqüências de sons balbuciadas por aquela boca cuja voz possuía poderes mágicos contra os meus maus ânimos eu era mais esperto. É que tinha todas as possibilidades diante de mim. Enquanto vivo e escolho, reduzo seus números até uma mediocridade que hoje só me permite optar o prato do cardápio.
Não mudo de idéia: ano que vem mais burro serei. Isso é irretocável. E será assim até que só me restará esperar a morte, com a apática resignação de quem a negou desde o início. Hoje, porém, ao reviver os vestígios jogados na memória dos meus tempos idos, finalmente consigo datar com certa precisão a fundação da mais aguda ingremidade de meu abismo.
Tinha oito anos de idade. Os meus sucessos nas provas escolares, com os famigerados cartazezinhos que colocavam meu nome à frente de todos meus colegas, deram aos meus queridos pais um motivo para o exibicionismo. Alguma auto-afirmação de que talvez necessitassem encontrou em mim sua razão de existir. Era eu o brilhante aluno, comportado e de boas notas, xodó de todos na escola. Enfim, o prezável e enfadonho filho exemplar.
Alguém deve ter mencionado à minha mãe o lugar-comum da época: os testes de Q.I. Ora, estava aí mais uma possível prova do meu talento, que já não era desconhecido. E tudo estava à mão: minha tia, mulher do irmão de meu pai, era psicóloga de crianças. Pronto. Mais uma chance de mostrar minha genialidade, minha estéril genialidade moldada pelo bom-mocismo.
Arrancaram-me certa tarde do jogo de bola da Rua Desembargador Motta. Era para o teste. Fui com os pés grossos de sujeira à sala de limpos carpetes da minha tia. Deram-me chinelos, mas teimei por um banho antes. Não convenci.
Aquilo me deixou demasiadamente nervoso. Se não provasse, que seria de mim? Todo meu castelo de sólidas fortificações estava ali ameaçado por um capricho de meus pais. Mas sem desgastar-lhes com minhas frivolidades, já lhes digo que foi coisa que passou: o resultado não poderia ser melhor.
Quero, porém, me referir, voltando à introdução do assunto, ao que me desterrou das fartas terras da fertilidade imaginativa. Foi uma inocente pergunta feita no meio do teste. Tinha que definir o que eram as coisas do meu cotidiano. Disse minha tia:
- O que é uma bicicleta?
Respondi como o teria feito uma razão científica que se alija de toda forma de poesia:
- Um veículo não-motorizado de duas rodas que utiliza a força das nossas pernas, por meio de um pedal e de uma correia, para andar.
Meu Deus! Como eu me orgulhei dessa resposta! “Veículo”, “não-motorizado”: mas isso era genial! Quem de meus amigos diria tais palavras?
Antes tivesse sido qualquer um deles e não eu. Desde então, a bicicleta é um entulho de alumínio e rodas e aros e espias. Jamais minha nave, meu cavalo de cavaleiro, meu lugarzinho de namoro, meu vento a soprar uma suave melopéia em meus ouvidos.
sábado, novembro 17, 2007
Cidade
Sou o gancho que se prendeu
EM
sua glote.
Quantos iguais a mim à mesma
Recusa procederam?
Não sou:
Líquido que escorre livremente
EM
suas vias.
Não me situo nem me movimento.
Não sou:
Pedra fundamental
EM
Uma sua estrutura.
Falta-me endereço.
Sinto-a inacessível como também sou ao que me circunda
EM
Você.
terça-feira, agosto 28, 2007
domingo, agosto 12, 2007
Que de rubro brilho enche minha face
Rumo a cantilenas fervorosas a
Extirpar deste corpo as exatas cadeias
Do contumaz palavrear que a razão
Domina,
Ergueriam as uvas um antes embaraçado
Agora intrépido sei-la-o-quê que motoriza
As paixões - quiçá coração mesmo –
Entoando melopéias de destilado júbilo
Para me alçar à grandeza de suas íris
Sobranceiras.
Mas é patético e inútil o escrever.
Desencantado e desvendado o amor,
Vulgarizado e medíocre.
Matematizado; psicoanalisado, geneticamente localizado:
Nem o vinho é capaz de fazer-me cantá-lo.
domingo, março 25, 2007
Um Tales no meio de nós
O caderno a que aludo era bem velho, muitas das páginas do seu interior estavam separadas da sua lombada, embora estivessem ali mantidas. Era de brochura costurada, com uma capa de papelão, todo manuscrito. Estava no setor da história das religiões, entre livros sobre o judaísmo. Vi-o não porque me interessasse nas questões hebraicas, mas porque as sobrenaturalidades do destino me alojaram na mesa que defrontava a estante onde se encontrava. Sua cor alaranjada sobressaía-se sobre as capas demasiadamente sóbrias dos livros vizinhos – não sei quais eram – e entre um e outro descanso da leitura que empreendia chamou-me a atenção.
Abri-o. Seus manuscritos eram os mais variados: a caneta – azuis, pretas e coloridas; esferográficas, hidrográficas, de pena; a lápis, lápis de cor e até giz de cera. Letras cursivas, bem desenhadas, infantis, da mais fina caligrafia, de fôrma, garranchos. Dizia a folha de rosto que aquele era um “Livro de Conselhos” (abaixo a inscrição “Passe adiante”), a iniciar pelo que dizia “só se vive uma vez, aproveite o máximo”. Não posso recordar agora do teor literal dos outros, não os li todos, e nem teria paciência. Afinal, como disse antes, os pensamentos eram reles como o citado, ocultos sob a comodidade de estarem todos os escreventes eximidos do dever da assinatura. Ali, sob o manto do anonimato, faces cujo semblante não sei nem imaginar devem ter passado horas se divertindo numa leitura rápida, fácil, às vezes frutífera, mas certamente ansiosa: penso que nem bem se chegaria à metade e logo vinha aquele ímpeto de marcar o próprio texto na última página escrita. O tal livro – um caderno, sabemos – já estava quase findando suas folhas em branco.
Maravilhei-me com a idéia: um livro de sabedorias anônimas e de contribuições plúrimas. O modelo formal que deu a luz àquela atitude material era perfeito, sem querer me demorar com a metafísica das formas eternas. Só que a matéria em si era medonha e enfadonha, pois o pessoal escrevia somente para “passar adiante”, para fazer parte, sem qualquer auto-exigência de criatividade. Também não tinha eu qualquer idéia para botar no papel, e não obstante ruminava alucinadamente – não muito além dos clichês – uma frase para colocar ali.
Por isso eu, como imaginei os demais, não me ative muito tempo e fui direto à última página. Ali estava o único conselho que trouxe na memória além do inaugural: “É da água que a vida, com tudo que existe, retirou seu princípio, nela a mantém, por ela morrerá. A quem disso souber com profundidade, o tempo será generoso e abundante.”
Em vista desse texto, animei-me a construir um igualmente ininteligível. Afinal, não pude atinar com o seu significado num primeiro momento. Que conselho era aquele? Que eu tinha que beber água? Tomar banho? Viver numa comunidade ribeirinha ou na beira do mar? Não havia um propósito claro, e assim devia ser o meu conselho, copiador barato que sou.
O que mesmo que escrevi? Era algo sobre fogo; sequer diversifiquei, em relação ao meu predecessor, o assunto dos elementos. É com sinceridade que relato o esquecimento de meu alvitre, mas é com igual lisura que garanto que se cá o transcrevesse, tê-lo-ia feito com um sentimento de autocomiseração acerca da minha própria futilidade. Olvidemos do detalhe; afinal, nem sei por que essa obsessão minha em sublinhar como fossem ninharias as mediocridades alheias, quando todos sabemos que é impossível não partilhar da mesma decadência, e tentar dela se esquivar como faço torna tudo mais ridículo ainda.
Não sabia bem o procedimento a partir dali. O livro apenas dizia “passe adiante”. Pairava a dúvida: passar adiante deixando ele sempre ali onde o achei ou levando-o para outro lugar? Esta alternativa era mais crível que aquela, certamente, pois a instrução exige claramente uma postura ativa do escrevinhador. Mesmo assim, devolvi ao mesmo lugar onde o achei: era demandar demais da minha parca criatividade procurar algum outro para colocá-lo.
Nem voltei à leitura a que havia me lançado antes de encontrar o caderno. Eu reouve a bolsa que deixara no guarda-volumes e parti para beber café no Lucca ali perto. Por uns momentos, o pequeno acontecimento na biblioteca ficou esquecido e ocupei-me de tormentas outras que sempre rondam meu exausto cérebro. Bastou, entretanto, que uma senhora excessivamente ornada com uma pesada maquiagem, topetuda, e com um daqueles horrendos lenços de seda no pescoço, sentada à mesa à minha frente, pedisse uma garrafa de água que o conselho antecedente viesse a lume novamente.
Mas que diabos aquilo queria dizer?
A garçonete veio carregando o mistério em sua bandeja, todo o mistério do mundo pra mim naquele segundo. Na garrafa, a água sacolejava e mudava a cada passo o plano primeiro de sua superfície, ao sabor dos ângulos que formaria o encontro de uma bandeja idealmente distendida com o chão. O segredo de toda a mecânica em que se engendrou nosso planeta balançava sem autoconsciência nem sentimentos nem percepções. É da água que a vida e tudo que existe retiraram seu princípio e nela que inexoravelmente se renovam. A água segurou em seus hipotéticos ombros todo o motor da história e mesmo assim se deixa apreender numa mísera garrafa de plástico! Passiva, passa ao copo, e do copo ao corpo, e do corpo a sei lá quantos mil outros fenômenos com os quais nem posso atinar. É humilde herói, é o nosso começo, é de onde tudo parte e o porquê de tudo existir. É o princípio de Tales; são, pois, ela só, os deuses que ele inventou, do qual todas as coisas estão cheias!
Sejam o piche do asfalto e o concreto do pilar, sejam a nuvem, a terra e o vidro. O humor vítreo que conhece o espectro das cores: o arco-íris é água. Tudo se define pelo seco e pelo molhado, tudo é fluido solidificado ou gaseificado. Tales nos fez da mesma substância, e desde então todos os filósofos que o mundo teve enxugam gelo. Exsurge das teorias a incredulidade, e sempre uma revoga a anterior, e sempre se quedam em um encastelado clube a ponto de não alcançar interlocutores muito além de suas barbacãs.
Acreditar nesse princípio tão inverossímil hoje parece absurdo, e no entanto é tão fácil e atraente seu enunciado. A racionalidade extremada de nossas impassíveis ciências não nos fez mais do que nos atirar mais fundo no abismo das incógnitas que a simples palavra vida nos oferece. É preciso então nos agarrar na simplicidade daquela antiga Jônia, que atravessou todos os séculos e se imprimiu numa singela página de um Livro de Conselhos simplório, e que ali naquele café havia me convencido por completo da sua legitimidade. Restava agora esperar que o tempo me fosse generoso e abundante, como deveria ter sido a... Tales.
A reflexão me conduziu a uma mais fantástica. E se não foi o próprio filósofo que tivesse escrito o conselho naquele caderno? Ora, um tempo abundante poderia certamente significar vinte e seis séculos. Imagino Tales, um homem de bastas barbas e compleição forte e exuberante, vagando por toda a história da ocidentalidade, daquela esquecida Mileto que durante toda sua vida foi também de Roma, de Bizâncio, de Constantinopla, do Império Otomano e da Turquia. Tales nos deu a physis e foi além: conseguiu ser ele mesmo o deus cuja substância nos tenta impingir com frases obscuras em velhas prateleiras de bibliotecas ou em alguma pregação em praça pública, sem jamais ter se identificado.
Tales vivia, só podia ser. Segurava consigo toda a história, como a água. Como ele, imagino, uns outro quatro podem ter realizado a mesma descoberta, a que agora eu tentava descobrir a todo custo. Sabia que a água era o princípio, mas como aplicar esse conhecimento profundamente como me dizia o conselho? Criei a necessidade de domar o mistério e guardá-lo comigo por outros vinte e tantas centenas de anos. Só uma palestra com o mestre talvez poderia me auxiliar.
Fui passeando por associações infantis enquanto eu mesmo pedia uma garrafa de água para mim. Tales me trouxe a imagem do talo da flor, que vive pela água; e daí passei à tala que imobilizou meu braço há uns quinze anos e deu chance para que o sangue, esse fluido vermelho, revigorasse minha fratura. E da tala à tela, que ganha da tinta vida, e da tela ao cinema, que flui no projetor como um rio, bravio ou não, rumo à foz. Tudo pulsava seca ou umidamente, e era desse tudo que eu participava sem saber. Vi-me como uma gota em meio ao infinito oceano do universo, que, sem tê-lo em conta na exata medida, era dos seus torvelinhos um títere, de cujas cordas Tales há muito se livrou. Somos a gota, ele conseguiu ser o mar inteiro.
Ignorava, porém, como conseguir encontrar o homem. A única coisa que existia era aquele caderno, o único elo possível. Pensei: o conselho de Tales era tão apaixonado que talvez ele ficaria incomodado em ver o livro no mesmo lugar, incólume e ignorado. Fiz bem em deixá-lo onde o achei. O que me cabia fazer agora era vigiar, por uma semana, até que ele voltasse para colocá-lo em algum lugar mais popular.
Dito e feito. Já no dia seguinte, estava eu sentado no mesmo lugar quando um rapaz magrelo e cabeludo, ostentando um crachá da biblioteca, foi retirar o caderno da estante. Imaginei na hora que, como funcionário do lugar, ele teria estranhado e apenas retiraria o livro dali por não estar na seção correta. Mas não: abriu-o e conferiu o meu conselho. Resmungou alguma coisa quando percebeu que talvez sua sugestão tivesse sido só mais uma, dada a pouca atenção do seu sucessor, eu. Mal sabia ele que eu já tinha ciência de sua identidade. Mal sabia eu, por outro lado, que isso foi uma enorme alegoria da minha própria cabeça – como me iludi tanto? Óbvio que Tales já estava morto, óbvio que eu teria que cedo ou tarde voltar à razão desencantadora dos nossos tempos, que fui crédulo demais numa fantasia boba. Veja-se o que sucedeu: segui discretamente o rapaz, que escreveu uma outra frase e colocou o caderno entre os livros de José de Alencar. Não demorei muito e o retomei. A letra do mais novo conselho era a mesma do anterior, o que provou minha tese da paixão de que era eivado. A água era o mote recorrente, pois assim estava escrito: “Alguns renegam que estamos ao fim dos tempos, e que a água nos mutilará, porque jamais a respeitamos. O fogo – estava aludindo a mim, creio – trouxe um progresso frágil e falso demais”. Estava começando a compreender. Fui à mesa do rapaz e mostrei-lhe o livro.
- Foi você que escreveu isto?
Fui impolido e muito brusco, o que justifica uma pausa assustada da parte dele.
- Sim.
- Conhece Tales?
- Quem?
- Tales de Mileto.
- Não.
- Não mesmo? Aquele filósofo a quem a água é o princípio de tudo que existe.
- Ah, não lembrei.
- Eu escrevi do fogo.
Ele enrubesceu. Nessa hora vi um adesivo do Greenpeace na sua mesa. Entendi tudo.
- Você tá certo – comprazi-me em dizer.
- Obrigado. O pessoal não dá atenção, né, mas a água tá acabando, e o mundo também, não acha?
- Acho. Tenha uma boa tarde.
Deixei com ele o livro. Não escrevi nada de novo. Dali, fui pra casa. Esse rapaz foi o motivo de uma grande decepção. Esperava encontrar a grandiosidade que juvenilmente imaginei por horas, e deparei-me com um simples ecologista que quer salvar o mundo. Nada mais.
domingo, fevereiro 25, 2007
Contra o tempo não-revisitado
Chegamos aonde? Não há chegar
Passos – há passos? – sobre a mesma:
mesma eterna fôrma das pegadas
passadas, inculcando os seus deletérios sulcos
Evoluir na inarredável
Condição de homem
Indecomponível paradoxo
Pirâmides e arranha-céus
O que muda é o mundo plástico.
Força motriz
da história:
a insolubilidade da nossa pequenez.
quinta-feira, janeiro 18, 2007
Mil e uma noites
O tempo é composto de dois dias, um seguro, outro ameaçador,
e a vida é composta de duas partes, uma pura, outra turva.
Pergunte a quem urdiu as idas e vindas do tempo:
será que o tempo só maltrata a quem tem importância?
Acaso não se vê que a ventania, ao formar as tempestades,
não atinge senão as árvores de altas copas?
De tantas plantas verdes e secas existentes sobre a terra,
somente se apedrejam aquelas que têm frutas;
nos céus existem incontáveis estrelas,
mas em eclipse só entram o sol e a lua.
Pois é, você pensa bem dos dias quando tudo vai bem,
e nâo teme as reviravoltas que o destino reserva;
nas noites você passa bem, e com elas se ilude,
mas no sossego da noite é que sucede a torpeza.

