quarta-feira, abril 22, 2009

A negatividade e a crítica a Heidegger

Se o espírito (Geist) é o negativo, isso significa que nunca é próprio do Dasein (ser-aí, ou, grosso modo, o homem), na medida em que o Dasein jamais pode reivindicá-lo como seu. Entretanto, isso que nunca pode ser próprio é o que constitui o Dasein, uma vez que o Dasein está nele - no espírito - abandonado à própria sorte, ou seja, nisso que não lhe pertence mas do que não pode subtrair-se. Este é o fundamento-negativo do Dasein, o ente fundado no nada. Heidegger critica a dialética hegeliana por, apesar de apontar tal negatividade, não se perguntar nem fundar dialeticamente o sentido do não. Heidegger também não o torna ontologicamente claro, mas se pergunta se é tão óbvio que o não esteja calcado apenas na privação da sua contraparte positiva. Presumo que ao se perguntar o sentido do não, Heidegger pode ter em mente justamente uma dialética de inspiração heraclitiana, segundo a qual o negativo não está fundado apenas na privação, mas também no fato de que, sendo não, é fundamento (irresponsável?) do Dasein. O Dasein é o seu não, pois o experimenta como não. A negatividade não é mera privação do seu termo positivo, mas o fato positivo de ser essa negação e assim fundamento da positividade. Explico: o que é sua negação, se não o tivesse por negação, positivar-se-ia, dando lugar a uma anulação ou uma indiferença da sua contraparte positiva, no que se fundamenta a não-pertinência. Assim é que o Dasein se constitui primeiramente pela sua negatividade imprópria - o espírito - e, caso supere a impessoalidade da falação decadente e assuma a responsabilidade pelo seu ser, pela sua negatividade própria - a morte.

Se compreendo a crítica que o Fernando Marcelino faz a Heidegger - e tenho que pôr aqui o 'se compreendo' porque esses meus amigos falam difícil! - devo concordar, mas como sempre em termos. Já existe uma justificação de Heidegger que virou frase feita mas que vale a pena citar: a sua filosofia não impeliu para (no caso da frase feita, o nazismo), mas também não o previniu de. Acredito que a crítica se fundamenta no fato de que Heidegger, a partir da negatividade da herança do estar-lançado do Dasein - ao que faço paralelo ao espírito de Hegel -, postula que o Dasein está entregue à responsabilidade do próprio ser, devendo abrir-se ao porvir e ao porvir mais próprio, a morte - a possibilidade da impossibilidade absoluta. Assim, jogado à própria responsabilidade, dependeria do Dasein, e só dele, fazer-se o que é. Parece-se ignorar, assim, a dimensão social de que depende para a emancipação e que a responsabilidade não se esgota no próprio ser, mas também no ser do outro. Ainda segundo creio, falta a Heidegger esse programa emancipador - o que não faltou a Marx - a fim de que o Dasein não esteja apenas jogado à própria sorte, mas também seja responsável pela herança do estar-lançado do outro, uma vez que sua(eu) ação/discurso tem potencial de influir no espírito. E assim, responsável pela herança do estar-lançado do outro, deve o Dasein que se abre à negatividade própria possibilitar que o outro também se abra à negatividade própria, emancipado.

Concordo sim, mas apenas no sentido de que Heidegger não explorou devidamente tais consequências - ou pelo menos não explicitamente. Em primeiro lugar, o filósofo não parece ter se proposto a realizar uma análise conteudística - ou materialista - de como se poderia obter a emancipação, em que estruturas se deveria mexer. Em segundo lugar, quando fala que o Dasein está-lançado e deve tomar a responsabilidade do próprio ser, é preciso lembrar que antes, ao descrever o ser-no-mundo, Heidegger coloca como existencial do Dasein o fato de que ele é-com-o-outro desde sempre - a negatividade do espírito é a maior prova disso, pois não pertence propriamente ao Dasein, mas ao Outro inidentificável. Ou seja, quando se fala que o Dasein deve ter responsabilidade pelo próprio ser, isso implica que deve ter responsabilidade pelo outro, pois ele não é para depois ser-com. Daí se pode concluir que a analítica existencial de Dasein impõe que este, ao assumir seu estar-lançado, deva preocupar-se com o estar-lançado do outro, de modo que haja as condições que possibilitem o abrir-se para o que lhe é mais próprio e autêntico, a morte.

Pois Heidegger mesmo diz, optando já pelo segundo modo positivo extremo do ser-com:

No tocante aos seus modos positivos, a preocupação possui duas possibilidades extremas. Ela pode, por assim dizer, retirar o 'cuidado' do outro e tomar-lhe o lugar nas ocupações, saltando para o seu lugar. Essa preocupação assume a ocupação que outro deve realizar. Este é deslocado de sua posição, retraindo-se, para posteriormente assumir a ocupação como algo disponível e já pronto, ou então dispensar-se totalmente dela. Nessa preocupação o outro pode tornar-se dependente e dominado mesmo que esse domínio seja silencioso e permaneça encoberto para o dominado. Essa preocupação substitutiva, que retira do outro o 'cuidado', determina a convivência recíproca em larga escala e, na maior parte das vezes, diz respeito à ocupação do manual.

Em contrapartida, subsiste ainda a possibilidade de uma preocupação que não tanto substitui o outro, mas que salta antecipando-se a ele em sua possibilidade existenciária de ser, não para lhe retirar o 'cuidado' e sim para devolvê-lo como tal. Essa preocupação que, em sua essência, diz respeito à cura propriamente dita, ou seja, à existência do outro e não a uma coisa de que se ocupa, ajuda o outro a tornar-se, em sua cura, transparente a si mesmo e livre para ela.

Ser e Tempo, §26

4 comentários:

Fernando Marcellino disse...

Caro Felipe,

1 - Se o Dasein é o que diferencia o ser social do ser animal, me parece que a escolha de Heidegger pelo nazismo não foi cega, foi até acertada. Quando ele via que sob o desenvolvimento técnico o Dasein entrava em curto-circuito com a esfera do Ser parece que ele enxergou no nazismo uma outra forma de desenvolvimento social - ou, em termos dos críticos ao nazismo, um capitalismo sem capitalismo. Acredito que sob essa esperança ele estava certo.

2 - Infelizmente essa esperança era impossível a partir de um entendimento mínimo sobre o desenvolvimento do capital como relação social e internacional. Não é a toa que não existe uma página sobre economia política em sua obra.

3 - Se o nazismo foi uma tentativa de barrar o desenvolvimento da técnica politicamente (algo que Marx não enxergava, acertadamente, como uma questão simplesmente política mas de desenvolvimento das relações sociais sob os imperativos existenciais do capital de expansão e acumulação contínua e sem fim), parece que Heideger estava certo ao enfatizar que a democracia não poderia barrar esse processo. Será, então, que ele não estava certo? Não é exatamente hoje, sob um capitalismo global democrático-liberal, que a técnica que "dessencializa" o ser está em pleno desenvolvimento?

Felipe disse...

Certamente que a partir da sua filosofia a escolha pelo nazismo foi acertada, dada a promessa de elevação do alemão à sua autenticidade. Mas Heidegger não o fomentou, foi mais um seduzido, e tão acertada quanto tornar-se reitor da Universidade de Freiburg em 1933 foi a sua retirada oito meses depois, a partir do que só se lhe pode condenar a falta de posicionamento ativo contra o nazismo. Faltou sim a ele situar o Dasein na sua dimensão político-econômica, o que impressiona: Heidegger, o filósofo que denuncia a decadência em nome da autenticidade, esquece-se de que as próprias bases econômicas não são meramente dadas e são de relevância fundamental no estar-lançado do Dasein. Ocorre que a descrição do estar-lançado permite a inclusão da dimensão econômica, dentre outras, na sua configuração, apenas negligenciada por Heidegger na tematização explícita e específica.

Alexandre disse...

Heidegger é muito ruim. Neologismos, pesquisas etimológicas, tudo remete a uma abstração vazia similar à barbárie escolástica, tão bem criticada pelo renascimento retórico poético dos séculos seguintes. A ascensão do nazismo fundou-se em atentados constantes contra biografias exemplares e contra instituições republicanas. E era a materialização moderna digna de um Robespierre enlouquecido, somado à pseudo-ciência do XIX. Se a filosofia de Heidegger já é inútil, sua tolerância ao nazismo não se explica filosoficamente, isso é ingenuidade de estudante primeiranista; mas sim por um impulso caipira germânico, um patetismo de godos. Convenhamos, o liberalismo e a democracia já estavam suficientemente maduros para qualquer indivíduo esclarecido ignorá-los.

Anônimo disse...

O ponto mais irrelevante desse post, tema que sequer chegou a tocar, é o nazismo, mas é só disso que se comenta...
O daqui de cima separa a filosofia heideggariana do seu nazismo, mas coloca ambos na mesma vala quando quer falar mal. Incompreensível.

O pior é que democracia e liberalismo estão tão maduros que justamente por isso se os ignora. Tido por algo tão natural, desumaniza-se, automatiza-se, tecniciza-se. Aí, nenhuma discussão política consegue mais chegar ao ponto mais fundamental. Por isso se enxuga tanto gelo.