domingo, março 29, 2009

A ontologia das classes

Devera, doce amigo, sim, devera
Regular os natais conforme os gênios.
Quem tivesse a virtude de fidalgo,
Nascesse de fidalgo e quem tivesse
Os vícios de vilão, nascesse embora,
Se devesse nascer, de algum lacaio,
Como as pombas, que geram fracas pombas,
Como os tigres, que geram tigres bravos.

Tomás Antônio Gonzaga, Cartas Chilenas, 1ª Carta, v. 214-221.



Aos atreides, de que o grão-lider dos gregos na guerra em Troia Agamêmnon faz parte, pesa uma maldição. A morte de Crisipo pelos seus meio-irmãos Atreu e Tiestes os fez dignos de uma sina: seu pai, Pélope, os expulsou da cidade de Olimpo, onde governava (donde a península chama-se Peloponeso). Desde então, a descendência de Atreu é fadada à maldição familiar (das quais a tragédia de Tiestes - que Sêneca, dentre outros, teatralizou - é a mais sorumbática), herdada até a purificação de Orestes no tribunal presidido por Atena. Quem retratou as tragédias de Agamêmnon, filho de Atreu, e de Orestes, filho de Agamêmnon, com mestria foi Ésquilo, para quem as maldições familiares são passadas de pai para filho.

Como se sabe, não só as maldições: reinos e stati políticos também eram herdados na Grécia Antiga. E não apenas naquele tempo, assim o foi por muitas outras épocas. De tal modo que o mito encontra seu duplo no cotidiano, em que outras formas de maldição se herdam. A isso deve-se que do escravo nascerá o servo, do estrangeiro o filho gentio. Tal era o estado de coisas que as viravoltas eram apenas lances do destino, acasos da fortuna, nunca um beneplácito do sistema vigente.

Destaquem-se cá os feudos, tempos nos quais o nobre nasce do nobre, o povo do povo; e entre eles havia um corredor de ascensão social representado pelo clero que, por sua vez, dividia-se em tão rígida hierarquia, de modo que ainda se podia separar um clero vilão dum mais luxuoso e privilegiado. Sempre com a loteria que perfaz a exceção e faz fulano migrar duma proutra ponta.

Essa é a ontologia das classes. São classes apriorísticas, às quais ao homem já é dado o pertencimento por direito divino, ou, digamos, pelo seu abandono ao mundo. Como os genes que determinam os fenótipos, o sangue carrega também o quinhão de mundo que é permitido ao que nasce: nada depende do homem em sua responsabilidade perante seu próprio ser, já que este ponto lhe é externo e se lhe impõe.

A marca de liberdade do capitalismo, que segue ao questionamento iluminista dessa herança das maldições, é a mobilidade social. É dizer, não existe, no nosso sistema, uma ontologia de classes entificadas. O nobre não é nobre por certidão de nascimento, mas por mérito, ao que corresponde que não há garantias de que este ou aquele pertencerá a esta ou aquela classe. Tudo está a depender do seu desempenho social. Finalmente o homem é senhor de sua história, é aquilo que faz.

Essa é uma espécie de sonho realizado, um sonho antes mitologizado pelo Padre Vieira, o mais brilhante orador e grande escultor da língua portuguesa. No conflito estabelecido entre uma sociedade de castas e o ideal cristão da igualdade de todo homem, Vieira precisou localizar um ponto em que o conflito se anula, mas não nesse mundo de imperfeições. Próximo à concepção de Lutero, a de que o homem salva-se mais pela sua ação que propriamente por sua fé ("o que fazeis, isso sois, nada mais"), Vieira deposita sua esperança na ressurreição do homem, em que ele será aquilo que fez em vida, e o sangue não mais lhe garantirá o direito.

Grandes cousas e lastimosamente grandes haverá que ver e considerar naquele acto da ressurreição universal! Mas entre todas as considerações a que me prece mais própria deste lugar e mais digna de sentimento, é esta. E quanta gente bem nascida se verá naquele dia mal ressuscitada! Entre a ressurreição natural e a sobrenatural há ma grande diferença: que na ressurreição natural cada um ressuscita como nasce; na ressurreição sobrenatural, cada um ressuscita como vive; na ressurreição natural nasce Pedro e ressuscita Pedro; na ressurreição sobrenatural nasce pescador, e ressuscita príncipe: sedebitis in regeneratione judicantes duodecim tribus Israel. Oh que grande consolação esta para aqueles a quem não alcançou a fortuna dos altos nascimentos! Bem me parecia a mim que não podia faltar Deus a dar uma grande satisfação no dia do juízo à desigualdade com que nascem os homens, sendo todos da mesma natureza. (Sermão da Primeira Dominga do Advento, de 1650)


Ah! Mas os iluministas não puderam com essa. Vencida a carolagem barroca, o ideal do Padre Vieira permanecia: mas agora por que não criar tal paraíso em terra, no chão duro em que pisamos? Afinal, a burguesia emergiu daquele sistema rígido, e representou uma ruptura sem precedentes: ela significava a vitória do mérito. Não se trata de uma novidade, os comerciantes sempre viram no comércio a burla para os stati políticos. Não chegavam à aristocracia, mas não se comparavm à ralé. Bastava então tornar o ideal burguês universal, et voilà!, a igualdade dos céus nivelou a terra.

Mas quantos dos que me leem, ao volver os olhos para as janelas de seus apartamentos, verão aquilo que disse? Quem aqui vê a bem-aventurança do favelado, a quem basta que trabalhe para chegar à elite? Levanta-se a hipótese de que são mais iguais os povos que foram bem-sucedidos nesse projeto. A isso se opõe o fato de que nada é viável em análises microlocalizadas num mundo cosmopolita - à Europa eu ofereço a África, à Manhattam o Brooklin. Alguém sempre paga o preço no capitalismo, e não é o trabalho ou suas ações que o salvam.

Bosi mostrou como o Padre Vieira considerava que o homem é o que é pelas ações. Quando disse João aos judeus "eu sou a voz que clama no deserto", o Padre Vieira destaca, no Sermão da Terceira Dominga do Advento, o verbo "clamar". O homem é o predicado verbal - a ação - que lhe particulariza, afinal a voz só é voz enquanto se clama. A isso soma-se o pior dos pecados para Vieira, os pecados de omissão, aos quais os governantes e os clérigos são mais suscetíveis, dada a sua maior responsabilidade. Diz Bosi: "O sermão, pregado aos nobres, insiste em dar prioridade ao fazer, e não à substância".

Será? Será que não importa o que diz essa voz no deserto? De que vale ser João a voz que balbucia, e não que articula? Dar prioridade ao fazer, sim, mas ao fazer o quê? Fazer é transitivo, não se basta. Bosi, na continuação do texto, aponta que o fazer está em contraposição ao especular. Sim, Vieira quer o fazer o bem (que, no seu caso, é mais mundano do que se pensa: ele está preocupado com o futuro econômico de Portugal), não meramente o especular o que é o bem.

É exatamente o que quer o capitalismo: faça, clame, mas clame em consonância com a minha voz. E qual é o melhor sistema coercitivo de que dispõe? Pois, olha só, a herança! As maldições, assim que desmascaradas nos setecentos, encontraram novos disfarces, e disfarces multifacetados. Pois que a mobilidade social que caracteriza o nosso tempo é um dos nossos mitos constitutivos. Acreditar nela nos faz bem, ajuda-nos a suportar a realidade. Mas a crença cai por terra quando se vê a criança parida no barraco: quem é o louco que diz que o trabalho a salvará? Como disse certa vez Horácio, a propósito da poesia, o poeta vai parir a montanha e vê nascer um camundongo ("parturient montes, nascetur ridiculus mus" - Ars Poetica, v. 139). Há promessa demais no nosso mito, que não sabe corresponder. Tal criança herda do pai a desgraça, o rosto estereotipado do bandido, a moda antiestética do operário, o linguajar sem letramento, enfim, o seu lugar no mundo.

Pois que o rico lega ao filho o que o filho não fez nem é, e que não precisará fazer para ser. O pobre lega fados, fados triplos, o de não ser o que fez, o de ser o que não é e, finalmente, o de não ser, pura e simplesmente. Como crer que não há ontologias de classes? E que não há direitos divinos de nobreza e de servilismo? Sim, temos nossos exemplos dos acasos da sorte, Lula é um deles (ainda assim com a pecha do ignorante beberrão eleito pela corja ignóbil); a própria ideia de país emergente nos diz a possibilidade de que um dia todos serão ricos. Mas basta que essa ideia insista em se concretizar que a realidade cai como bigorna em desenho animado: voltam as xenofobias - o europeu não aceita de volta os genes que espalharam no mundo -, as guerras de conquista, e os povos finalmente entendem que seu lugar no mundo já foi há muito decidido. Há gente que é turista; há gente que é ponto turístico; o cosmopolita multicultural tolerante se fascina com aquele que jamais verá no tapete de sua sala. Tudo por causa da certidão de nascimento, que define nossas maldições.

Talvez exagere para mostrar minhas razões. Sim, existe o mérito e o seu prêmio. O ponto é: antes dele temos milhares de condições pré-estabelecidas, ainda há que se esperar muito da sorte. Não temos uma medalhinha que o sorridente capital bota no peito dos homens; aliás, é apesar dele que os homens se fazem homens e não engrenagens de uma máquina. Contra nossas maldições, é preciso a boa vontade do deus, é preciso que Atena desça e purifique Orestes.

Um comentário:

Cristiano Knapp disse...

A histeria era diagnosticada no século XVII como uma patologia inerente ao sexo feminino que usurpava a estrutura social vinculada à república de platão (imobilidade social), pois provocava uma desestruturação nas classes estabelecidas como se buscasse a mobilidade social proibida. Por isso, era entendida como uma manifestação de insanidade. Tá no Foucault - história da loucura.