sábado, junho 17, 2006

Bloomsday

Minhas mãos medrosas sofrem com a grandeza tirânica da minha cabeça. Como o dedicado cardeal Wolsey sofrendo com os caprichos conjugais de Henrique VII. Traidoras. Olho a bunda redonda da menina que passou ao meu lado, e minha boca é preguiçosa enquanto imagino orgias. Casanova? Meu corpo é mais prudente que minha mente. Segurança do banco de madeira.
Um homem passa e suas mãos batem no bolso de trás. Tranqüilo: ainda a carteira ali. A alma dele ali também, toda a vida dele em volta daquele bolso glúteo. A minha também, desesperadamente também. Desalmados que passam vendendo óculos escuros de marca roubados. “Não, eu não uso óculos escuros, obrigado”. Vá embora que não quero você. Tchau. Tchau! Livre.
Leio um livro grosso. Tanta preguiça nos meus olhos. E minha cabeça tirânica ainda quer ser grande. Hoje, eu consigo dez páginas! Fraco triunfo de pessoa fraca. Quantos livros eu já li? Mais de cem, talvez. Coisa pouca, não lembro de nada. O Graciliano Ramos escreveu e eu li, e depois esqueci. Hoje eu lembro que o antecedeu Jorge Amado, e depois veio Érico Veríssimo. Informações inúteis. Como saber que ontem foi o Bloomsday e eu estou no Brasil sonhando com Dublin.
Tanta coisa eu já pensei e poderia dizer a essa rodinha de velhos aqui atrás. Tanto absurdo que falam. Eles não entenderiam. A seleção não empatou em 2002. Eles não sabem? E se eu entrasse nos meandros da economia para dizer que nem tudo é culpa do governo. E que viados não são doentes. Talvez tenha algum velho inteligente, e eu só me acho esperto porque não digo nada a ninguém. Todo meu sustentáculo de papel evita o vento; não coloco as coisas a perder. Segurança e auto-estima.
Um lábio carnudo comendo cabelos vermelhos. Um desejo só, passa logo. Outra passa, com pernas gordas e cheias de furos. Lipócitos acumulando gordura contra a pele. Eu teria vergonha de usar uma saia curta se tivesse as pernas dela. Mas a calça de tricolina xadrez daquela outra eu quero pra mim. Passei da décima página, posso olhar um pouco mais. A menina não é bonita, mas aquela. Moda. Feios bonitos diferentes. A diferença que o padrão tolera e padroniza. Escandalosos ontem, corriqueiros demais hoje. Também nem tanto, o básico eu vejo sempre e mais. Importante é não sair demais das coisas consagradas. Ser triste é bonito. Ser alegre só com roupas esvoaçantes e cabelos descolados. Importante é pisar em terras conhecidas.
Pessoas caminham bastante, falam pouco. O chão de pedras brancas – que pedra é essa? Só os velhos aqui atrás falam muito. Creio que são surdos, só pode ser isso. Ou sobreviventes da queda de Babel, lingüistas incomunicáveis em monólogos a três. Só sei o que é mármore e granito e ardósia e pedra brita. Que pedra é essa? O chão não escapa, pelo menos na maioria das vezes. Isso explica tudo. Andam mais do que falam porque com os ouvidos e os pensamentos tudo é diferente. São sempre fugidios, ariscos com palavras alheias. A gente pisa e o chão sempre lá. A gente fala...
Uma perna, duas muletas. Bêbado, eu acho. Viu-me. Hey, cara preto, o que é que você faz aqui? “Tem dois reais pruma ajudinha? É pra passagem”. Um e oitenta a passagem, pegar trocado demora muito. Um e oitenta pra passagem, vinte centavos pra se ver livre logo. Dou-lhe alma? Sabe do quê? Almas só servem para nos prender. Dê os cinqüenta, vai. As oncinhas pintadas a ele e eu livre!
Tiro a tartaruga marinha. Dou-lhe. Ganho um sorriso e fico com os cinqüenta. Afinal, eu ainda quero ficar preso e garantir a única essência que conheço de mim.
- Ô, vou te contar um segredo, mas você não pode contar pra ninguém.
- E pra quem que eu vou contar?
Nem sei quem você é. Pára de cuspir, desdentado! Simpatia, eu sou simpático, eu sou amável. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.
- Eu sou cantor.
E eu sou escritor. Você com essa voz e eu com essa letra. Há, há!
- Ah, é? – respondo.
- É sim, mas não conta não.
Ele me toca. Velhos amigos. Metempsicoses e vidas passadas, não sei nada disso. Quem não arrisca, não perde.
- Mas se você é cantor, aí sim que tem que contar.
Cantor contar, serei poeta.
- Não, que me chamam lá pro Ratinho. Daí eu vou ser assaltado em São Paulo.
Ara! Gente ruim. Assaltar esse pobre diabo!
- Ah, bom – concordo, dizer o quê?
- Mas eu tô juntando dinheiro pra fazer uma lanchonete. Aí eu canto.
Lá se vão meus dois reais. Ele continua:
- Eu tô vendo pra fazer uma lanchonete. Dois mil-e quinhentos. Vou emprestar, olha aqui.
Tirou uma porção de notas fiscais de mercado do bolso. Propaganda de cartão de crédito. É dali que ele vai montar a lanchonete com dois mil e quinhentos reais. Santo? A multiplicação dos peixes. Continue conversando.
- E onde vai ser o bar?
- Bar nada! E eu sou gente de cantar em bar? Vai ser uma boate.
Claro.
- Cuide então do dinheiro, que te roubam.
- Roubam nada. Olha aqui, não tenho uma perna. Quem vai me roubar?
Lógico. Mas antes ele estava com medo de São Paulo. Pessoas excêntricas. Será um gênio?
- Sabe, eu tenho uma irmã que trabalha na Unimed. Pergunta lá pelo José.
- José é você?
- É sim. É eu. Mas meu nome de cantor é outro.
- Ah, nome artístico. Tá certo. Qual que é?
- Joelton.
Belíssimo.
- Joelton. Você vai ouvir. Joelton na televisão. Conhece Zezé di Camargo?
- Sei quem é.
- Então, canto que nem ele.
Puxa vida! Pego um autógrafo?
- Parabéns!
- Um dia vou tá lá na chácara dele comendo um churrasco.
- Legal.
Um douto representante da camada de cabelos espevitados e jaquetinha bonita passa por nós. Olha-nos espantado. Coisa estranha, não?
Orgulho-me da minha simpatia com o José. O choque do meu sorriso com o desprezo blasé dos outros.
- ... São Paulo.
- Hã?
- Porque quando eu tiver lá, não vou esquecer de Curitiba não. Eu sou paranaense, volto pra cantar aqui. Imagine. O Ratinho não é paranaense?
Meneio a cabeça: é sim.
- Ele nem volta pra cá. Eu não. Não vou virar a cabeça.
Canso. Quero gente inteligente e calada comigo. Atendo, de mentirinha, o celular. Ah, sim, já vou.
- Valeu, cara! Boa sorte. Eu tenho que andar.
- Vá lá. Você é bonito. E não por causa dos dois aqui que você... E com esse livro aí, estuda bastante. Vai se dar bem. Aí você compra um CD meu.
Vaticínio consolador, realmente. Deixo do pudor, agora te considero indesejável, tchau. Faço questão de cumprimentá-lo mão com mão. Lavado de seu cuspe. João Batista batizando Cristo. Redimo-o. Vá e seja feliz. Vou, sobre o chão seguro, entre pessoas desconhecidas, tão aconchegantes.

2 comentários:

G. Ulisse disse...

happy bloomsday!!
como consegue ler na XV!?
ah, esqueci, isto é uma ficção...

ta legal, mas, parece um pouco berrrante, do tipo que encomoda, não sei.
só uma leiga impressão.

Anônimo disse...

"Importante é pisar em terras conhecidas"...Todavia, terras desconehcidas as vezes dão mais prazer a monotomia da Vida.
Escreves bem. Tens o dom da escrita.
Parabéns.