domingo, março 29, 2009

A ontologia das classes

Devera, doce amigo, sim, devera
Regular os natais conforme os gênios.
Quem tivesse a virtude de fidalgo,
Nascesse de fidalgo e quem tivesse
Os vícios de vilão, nascesse embora,
Se devesse nascer, de algum lacaio,
Como as pombas, que geram fracas pombas,
Como os tigres, que geram tigres bravos.

Tomás Antônio Gonzaga, Cartas Chilenas, 1ª Carta, v. 214-221.



Aos atreides, de que o grão-lider dos gregos na guerra em Troia Agamêmnon faz parte, pesa uma maldição. A morte de Crisipo pelos seus meio-irmãos Atreu e Tiestes os fez dignos de uma sina: seu pai, Pélope, os expulsou da cidade de Olimpo, onde governava (donde a península chama-se Peloponeso). Desde então, a descendência de Atreu é fadada à maldição familiar (das quais a tragédia de Tiestes - que Sêneca, dentre outros, teatralizou - é a mais sorumbática), herdada até a purificação de Orestes no tribunal presidido por Atena. Quem retratou as tragédias de Agamêmnon, filho de Atreu, e de Orestes, filho de Agamêmnon, com mestria foi Ésquilo, para quem as maldições familiares são passadas de pai para filho.

Como se sabe, não só as maldições: reinos e stati políticos também eram herdados na Grécia Antiga. E não apenas naquele tempo, assim o foi por muitas outras épocas. De tal modo que o mito encontra seu duplo no cotidiano, em que outras formas de maldição se herdam. A isso deve-se que do escravo nascerá o servo, do estrangeiro o filho gentio. Tal era o estado de coisas que as viravoltas eram apenas lances do destino, acasos da fortuna, nunca um beneplácito do sistema vigente.

Destaquem-se cá os feudos, tempos nos quais o nobre nasce do nobre, o povo do povo; e entre eles havia um corredor de ascensão social representado pelo clero que, por sua vez, dividia-se em tão rígida hierarquia, de modo que ainda se podia separar um clero vilão dum mais luxuoso e privilegiado. Sempre com a loteria que perfaz a exceção e faz fulano migrar duma proutra ponta.

Essa é a ontologia das classes. São classes apriorísticas, às quais ao homem já é dado o pertencimento por direito divino, ou, digamos, pelo seu abandono ao mundo. Como os genes que determinam os fenótipos, o sangue carrega também o quinhão de mundo que é permitido ao que nasce: nada depende do homem em sua responsabilidade perante seu próprio ser, já que este ponto lhe é externo e se lhe impõe.

A marca de liberdade do capitalismo, que segue ao questionamento iluminista dessa herança das maldições, é a mobilidade social. É dizer, não existe, no nosso sistema, uma ontologia de classes entificadas. O nobre não é nobre por certidão de nascimento, mas por mérito, ao que corresponde que não há garantias de que este ou aquele pertencerá a esta ou aquela classe. Tudo está a depender do seu desempenho social. Finalmente o homem é senhor de sua história, é aquilo que faz.

Essa é uma espécie de sonho realizado, um sonho antes mitologizado pelo Padre Vieira, o mais brilhante orador e grande escultor da língua portuguesa. No conflito estabelecido entre uma sociedade de castas e o ideal cristão da igualdade de todo homem, Vieira precisou localizar um ponto em que o conflito se anula, mas não nesse mundo de imperfeições. Próximo à concepção de Lutero, a de que o homem salva-se mais pela sua ação que propriamente por sua fé ("o que fazeis, isso sois, nada mais"), Vieira deposita sua esperança na ressurreição do homem, em que ele será aquilo que fez em vida, e o sangue não mais lhe garantirá o direito.

Grandes cousas e lastimosamente grandes haverá que ver e considerar naquele acto da ressurreição universal! Mas entre todas as considerações a que me prece mais própria deste lugar e mais digna de sentimento, é esta. E quanta gente bem nascida se verá naquele dia mal ressuscitada! Entre a ressurreição natural e a sobrenatural há ma grande diferença: que na ressurreição natural cada um ressuscita como nasce; na ressurreição sobrenatural, cada um ressuscita como vive; na ressurreição natural nasce Pedro e ressuscita Pedro; na ressurreição sobrenatural nasce pescador, e ressuscita príncipe: sedebitis in regeneratione judicantes duodecim tribus Israel. Oh que grande consolação esta para aqueles a quem não alcançou a fortuna dos altos nascimentos! Bem me parecia a mim que não podia faltar Deus a dar uma grande satisfação no dia do juízo à desigualdade com que nascem os homens, sendo todos da mesma natureza. (Sermão da Primeira Dominga do Advento, de 1650)


Ah! Mas os iluministas não puderam com essa. Vencida a carolagem barroca, o ideal do Padre Vieira permanecia: mas agora por que não criar tal paraíso em terra, no chão duro em que pisamos? Afinal, a burguesia emergiu daquele sistema rígido, e representou uma ruptura sem precedentes: ela significava a vitória do mérito. Não se trata de uma novidade, os comerciantes sempre viram no comércio a burla para os stati políticos. Não chegavam à aristocracia, mas não se comparavm à ralé. Bastava então tornar o ideal burguês universal, et voilà!, a igualdade dos céus nivelou a terra.

Mas quantos dos que me leem, ao volver os olhos para as janelas de seus apartamentos, verão aquilo que disse? Quem aqui vê a bem-aventurança do favelado, a quem basta que trabalhe para chegar à elite? Levanta-se a hipótese de que são mais iguais os povos que foram bem-sucedidos nesse projeto. A isso se opõe o fato de que nada é viável em análises microlocalizadas num mundo cosmopolita - à Europa eu ofereço a África, à Manhattam o Brooklin. Alguém sempre paga o preço no capitalismo, e não é o trabalho ou suas ações que o salvam.

Bosi mostrou como o Padre Vieira considerava que o homem é o que é pelas ações. Quando disse João aos judeus "eu sou a voz que clama no deserto", o Padre Vieira destaca, no Sermão da Terceira Dominga do Advento, o verbo "clamar". O homem é o predicado verbal - a ação - que lhe particulariza, afinal a voz só é voz enquanto se clama. A isso soma-se o pior dos pecados para Vieira, os pecados de omissão, aos quais os governantes e os clérigos são mais suscetíveis, dada a sua maior responsabilidade. Diz Bosi: "O sermão, pregado aos nobres, insiste em dar prioridade ao fazer, e não à substância".

Será? Será que não importa o que diz essa voz no deserto? De que vale ser João a voz que balbucia, e não que articula? Dar prioridade ao fazer, sim, mas ao fazer o quê? Fazer é transitivo, não se basta. Bosi, na continuação do texto, aponta que o fazer está em contraposição ao especular. Sim, Vieira quer o fazer o bem (que, no seu caso, é mais mundano do que se pensa: ele está preocupado com o futuro econômico de Portugal), não meramente o especular o que é o bem.

É exatamente o que quer o capitalismo: faça, clame, mas clame em consonância com a minha voz. E qual é o melhor sistema coercitivo de que dispõe? Pois, olha só, a herança! As maldições, assim que desmascaradas nos setecentos, encontraram novos disfarces, e disfarces multifacetados. Pois que a mobilidade social que caracteriza o nosso tempo é um dos nossos mitos constitutivos. Acreditar nela nos faz bem, ajuda-nos a suportar a realidade. Mas a crença cai por terra quando se vê a criança parida no barraco: quem é o louco que diz que o trabalho a salvará? Como disse certa vez Horácio, a propósito da poesia, o poeta vai parir a montanha e vê nascer um camundongo ("parturient montes, nascetur ridiculus mus" - Ars Poetica, v. 139). Há promessa demais no nosso mito, que não sabe corresponder. Tal criança herda do pai a desgraça, o rosto estereotipado do bandido, a moda antiestética do operário, o linguajar sem letramento, enfim, o seu lugar no mundo.

Pois que o rico lega ao filho o que o filho não fez nem é, e que não precisará fazer para ser. O pobre lega fados, fados triplos, o de não ser o que fez, o de ser o que não é e, finalmente, o de não ser, pura e simplesmente. Como crer que não há ontologias de classes? E que não há direitos divinos de nobreza e de servilismo? Sim, temos nossos exemplos dos acasos da sorte, Lula é um deles (ainda assim com a pecha do ignorante beberrão eleito pela corja ignóbil); a própria ideia de país emergente nos diz a possibilidade de que um dia todos serão ricos. Mas basta que essa ideia insista em se concretizar que a realidade cai como bigorna em desenho animado: voltam as xenofobias - o europeu não aceita de volta os genes que espalharam no mundo -, as guerras de conquista, e os povos finalmente entendem que seu lugar no mundo já foi há muito decidido. Há gente que é turista; há gente que é ponto turístico; o cosmopolita multicultural tolerante se fascina com aquele que jamais verá no tapete de sua sala. Tudo por causa da certidão de nascimento, que define nossas maldições.

Talvez exagere para mostrar minhas razões. Sim, existe o mérito e o seu prêmio. O ponto é: antes dele temos milhares de condições pré-estabelecidas, ainda há que se esperar muito da sorte. Não temos uma medalhinha que o sorridente capital bota no peito dos homens; aliás, é apesar dele que os homens se fazem homens e não engrenagens de uma máquina. Contra nossas maldições, é preciso a boa vontade do deus, é preciso que Atena desça e purifique Orestes.

antiergo

I would prefer not to.
Bartleby, de Melville


é preciso sal
var-se é não pre
ciso siso pre
cisão não é ne
cessár(i)o trabalho

antiergo
ergo sum

o ócio, Catulo,
te Catulum fecit;
no ócio de ontem
ferimos as tábuas
para os milênios que vem.

quinta-feira, março 26, 2009

Câncer

Há 1 célula em mim que quer respirar e não pode.
Vinícius de Moraes


se te quero
ao vitupério
basta teu câncer nome

se te faço
clímax no baço
meu baço é bastante

se te metaforizo
inimigo ao riso
rebusco-te em que bastas

porque te bastas muito
té figuras consomes:
basta teu câncer nome

segunda-feira, março 23, 2009

Aula de história

paremos
aqui:
peri
gosa
mente
pertos

a cerca
nia se avi
zinha da
ave que aqui
se aninha

paremos:
provocada
a rapina do tempo
logo mais
cinzas das horas
devassado o que
não compreendemos
ultrapassados
do ouvido ao olvido
e então não
passado seremos

quinta-feira, março 12, 2009

Os índios (!!)

A língua deste gentio toda pela Costa é uma: carece de três letras - não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.

Pero Magalhães Gândavo - Tratado da Terra do Brasil (séc. XVI)

A pergunta do Véio: mas isso é bom ou é ruim?

sábado, março 07, 2009

A morte de Hylas

Tirado do Livro I dos Argonautas, de Apolônio de Rodes. Uma das mais belas pinturas poéticas que já li. Tradução do século XIX - na mesma ortografia de então - de José Maria da Costa e Silva.
Os nautas estão em terra, em Cyanea, onde ceiam. Hércules (chamado também no poema de Alcides - Alcides Hércules) saiu em busca de uma árvore para fazer seu remo; e Hylas de uma fonte para misturar ao vinho água e então presenteá-lo a Hércules.

Hylas a fonte deparou que chamam
O manancial as comvisinhas Gentes,
Que fosse o acaso permittiu no tempo
Das choreas das Nymphas, porque todas
Que habitam junto da nascente amavel
Tinham por uso celebrar Diana
Com cantares noctisonos, aquellas
A quem coubera o pincaro dos montes,
A quem grutas, ou bosques, de mui longe
Por ordem alli vem. Da fonte ha pouco
Pulchi-fluente tinha a Nympha sua
Ephydotea a cabeça alçado, e víra
Perto o mancebo, que brilhava ornado
De bellesa sem par, e amaveis graças.
Porque então plena a Lua, a luz em cheio
Sobre elle derramou; Venus da Nympha
O espirito amentou, que de conselho,
A custo, falta, o animo recobra.
Tanto porém que curvi-obliquo o Moço
Lançou á fonte a urna, e nella entrando
A agoa murmura no sonoro bronze,
A Nympha co'sinistro braço* cerca
O nivio cólo co'a avidez d'um beijo
Sobre os dois labios lhe imprimir; co'a dextra
Lhe aferra o braço, e o submergiu na fonte.



*Braço esquerdo. O significado remoto, no latim, de "sinister" é "esquerda(o)" ("sinistra" sendo "mão esquerda"), assim também, portanto, num português mais arcaico ou num uso arcaizante da língua. O sentido da palavra que temos hoje - monstruoso, assustador - creio que deve ter vindo da oposição ao lado direito ("dexter"), que acabou tendo o sentido d'"o que é certo".

sexta-feira, março 06, 2009

Horácio e o ser-para-a-morte

debemur morti nos nostraque.
Horácio - De Arte Poetica - v. 63

[Devemos à morte, nós e nossas coisas. Ou: "Somos um haver da morte, nós e nossas coisas." - na feliz tradução de Jaime Bruna]


.................................................O beati Sesti,
uitae summa breuis spem nos uetat inchoare longam.
Horácio, Ode I, 4, v. 14-15

[Ó feliz Séstio, a vida tão breve nos proíbe empreender uma longa esperança. Ou, na tradução de Bento Prado de Almeida Ferraz:
Ó feliz Séstio, esta vida
breve não nos promete uma esperança
longa.]

sábado, fevereiro 28, 2009

Juó Bananére

Juó Bananére é o pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado, poeta da época premodernista que conviveu com os imigrantes italianos que vieram morar em São Paulo, nos bairros do Bom Retiro, do Brás e do Bexiga.

Escreveu poemas no dialeto dos imigrantes, parodiando grandes autores da época - como Olavo Bilac e Machado de Assis - além do futurismo de Marinetti e até Edgar Allan Poe. Seu único livro chama-se La Divina Increnca, em referência a Dante.

Me apresentou o Juó o Chrysantho, ao que parece de notícias havidas de João Rosa. O poeta é uma pérola, a quem até o Otto Maria Carpeaux dedicou um estudo. O Juó foi, em 1912, a escolha de Annibale Scipione (nada menos que Oswald de Andrade, que mais tarde demitiu Juó porque Andrade era amigo de Olavo Bilac (!), que Bananére parodiava) para substituí-lo no hebdomadário O Pirralho. Scipione também escrevera no dialeto macarrônico, porém Juó inovou mesmo, em relação ao antecessor, nas suas paródias poéticas, com versos com bom ritmo e rimados, sem, no entanto, o endeusamento dos versos nobres e da linguagem esotérica de que se utilizavam os parnasianos. Aliás, é justamente na questão da linguagem que se centra toda a poética bananeriana: o macarrônico impõe a comicidade, não há efeito sério que se possa, na primeira aproximação ao poema, extrair dos seus textos. O melhor exemplo é a paródia d'O Corvo, de Allan Poe. O poema do americano tem toda uma estrutura montada para o efeito sombrio que percorre o poema, além do tema sorumbático que emerge da morte e da imagem negra do corvo. Em Bananére, tudo se resolve no corriqueiro, e ao efeito cômico do macarrônico soma-se a alusão a Poe, que quebra as expectativas taciturnas quando o poeta recebe o gorvo expansivamente, tendo nele reconhecido seu amigo Raule. O nevermore de Poe é o da irreversibilidade da morte; o nunga maise de Bananère é o da vergonha, raiva ou decepção do gorvo!

Segue o poema que parodia Allan Poe:

O Gorvo
P'ru Raule

A NOTTE stava sombria,
I tenia a ventania,
Chi assuprava nu terrêro
Come o folli du ferrêro.

Io estava c'un brutto medó
Lá dentro du migno saló,
Quano a gianella si abri
I non s'imagine o ch'io vi!

Un brutto gorvo chi entrô,
I mesimo na gabeza mi assentô!
I disposa di pensá un pochigno,
Mi dissi di vagarigno:

_ Come vá sô giurnaliste?
Vucê apparece chi stá triste?
_ Nos signore, sô dottore...
Io stô c'un medo do signore

_ Non tegna medo, Bananére,
Che io non sô disordiére!
_ Poise intó desça di lá
I vamos acunversá.

Ma assí che illo descê
I p'ra gara delli io ogliê
O Raule ariconecí,
I disse p'ra elli assí:

- Boa noute Raule, come vá!
Intó vuce come stá?
Vendosi adiscobrido o rapaise,
Abatê as aza, avuô, i disse: nunga maise!

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Rimer

Por Ambrose Bierce

The rimer quenches his unheeded fires,
The sound surceases and the sense expires.
Then the domestic dog, to east and west,
Expounds the passions burning in his breast.
The rising moon o'er that enchanted land
Pauses to hear and yearns to understand.

Rimador
Tradução minha

Sacia o rimador seu fogo oculto,
Suspende-se o som, o sentido é vulto.
O cachorrinho então a tudo canta,
De seu peito a paixão a voz levanta.
Sobre a terra encantada a flutuar,
Pra entender, para pra ouvir o luar.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Rei primevo

Plebeus, que vos envergonhais do nome,
Porque sem honrarias o carregais;
Plebeus, por quem morro quando carcome
A praga a lavoura que cultivais;

Plebeus, os primeiros que mata a fome
Se nos faltam chuvas torrenciais;
Se da planta não tirais o que se come,
Se morrem nos campos os animais.

Plebeus, não invejais minha distinção!
Sou rei, súditos sois: qual privilégio
Tenho, se todo mal é crime régio?

Sois isentos de toda imputação!
A desdita fortuita é falta minha.
Devo morrer, pois culpa, só eu a tinha!

tradição

hoje leio cinquenta páginas de Heráclito
de quem dez não restaram
hoje tenho nos dedos a Bíblia
que é as colunas de uma biblioteca imensa
o nome da voz no deserto era João
que a tantos Joões designa
e Homero que somente a um chama
é o poeta de toda a poesia

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Versos estoicos e neoestoicos

Enriqueces; e daí? Quando morreres, a riqueza por acaso
te seguirá ao te arrastarem para o túmulo?
No juntá-la gastaste o teu tempo de vida; não poderias
pagar por ela preço mais exorbitante.


Paladas de Alexandria (séc. IV a.C.)

Si no temo perder lo que poseo,
ni deseo tener lo que no gozo,
poco de la Fortuna en mí el destrozo
valdrá, cuando me elija actor o reo.

Ya su familia reformó el deseo;
no palidez al susto, o risa al gozo
le debe de mi edad el postrer trozo,
ni anhelar a la Parca su rodeo.

Sólo ya el no querer es lo que quiero;
prendas de la alma son las prendas mías;
cobre el puesto la muerte, y el dinero.

A las promesas miro como a espías;
morir al paso de la edad espero:
pues me trajeron, llévenme los días.


Francisco de Quevedo (séc. XVI/XVII d.C.)


Quem por desgraça se casou com mulher feia
vê o escuro da noite quando acende as lâmpadas.


Paladas de Alexandria

Muy discretas y muy feas,
mala cara y buen lenguaje,
pidan cátedra y no coche,
tengan oyente y no amante.
No las den sino atención,
por más que pidan y parlen,
y las joyas y el dinero,
para las tontas se guarde.
Al que sabia y fea busca,
el Señor se la depare:
a malos conceptos muera,
malos equívocos pase.
Aunque a su lado la tenga,
y aunque más favor alcance,
un catedrático goza,
y a Pitágoras en carnes.
Muy docta lujuria tiene,
muy sabios pecados hace,
gran cosa será de ver
cuando a Platón requebrare.
En vez de una cara hermosa,
una noche, y una tarde,
¿qué gustos darán a un hombre
dos cláusulas elegantes?
¿Qué gracia puede tener
mujer con fondos de fraile,
que de sermones y chismes,
sus razonamientos hace?
Quien deja lindas por necias,
y busca feas que hablen,
por sabias, como las zorras,
por simples deje las aves.
Filósofos amarillos
con barbas de colegiales,
o duende dama pretenda,
que se escuche, no ose halle.
Échese luego a dormir
entre bártulos y abades,
y amanecerá abrazado
de Zenón y de Cleantes.
Que yo para mi traer,
en tanto que argumentaren
los cultos con sus arpías,
algo buscaré que palpe.


Francisco de Quevedo

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Pela poesia

Perguntei outro dia: poesia para quê? Se for para dar ao mundo covardes e tiranos, de que serve?

Quem concorda com a pergunta, que já traz em si a resposta de que não serve para nada, e ainda é prejudicial, é porque não refletiu muito sobre covardes e tiranos. Postula-se desde sempre que é melhor não contar com covardes e tiranos, mas tal posição – que é a posição mais cômoda de se tomar – é a de quem à face de um covarde é um tirano, e à vista de um tirano é covarde.

Não se pode negar que tiranos erigiram monumentos históricos que definiram nossos rumos, e muito menos que monumentos da espécie não nos admirem. Tiranos são expressões individuais de uma consciência de época: eles não emergem do nada e contra todos. Pelo contrário, há uma corresponsabilidade de todos na sua existência. Não temo em dizer que existe hoje um tirano no mundo de que não desconfiamos, porque compactuamos com sua tirania – e isso subtrai ao nosso juízo o a possibilidade de julgá-la como tirania. Pode-se tratar de uma totalidade que com mais ou menos violência se impôs acima de suas negações ou pode-se tratar desta ou daquela pessoa, ou o que seja. Tal afirmação posso fazer com pouca pugna, entretanto nomear o tirano é mais difícil, pois também sou produto do nosso tempo.

Com a eventual objeção de que no meu texto anterior citei nomes, identifiquei tiranias com este ou aquele, concordo, pois tratava especificamente da poesia e do poeta, como tratarei novamente mais adiante. Chamar uma totalidade, uma conjuntura, um estado de coisas de tirania seria outra coisa? É outra coisa, com efeito, mas o ponto específico da argumentação do parágrafo anterior permanece intacto: a diferença entre um e outro não é da natureza da totalidade, mas apenas que este ou aquele estado político de coisas (a totalidade) se pode identificar com um nome, enquanto outros são mais impessoais. O nazismo não é Hitler: é um povo, um espaço e uma época inteiros. Aliás, nem alemão o nazismo é, toda a Europa - diz-nos isso, por exemplo, o caso Dreyfus na França, ou, na ficção, Leopold Bloom em Dublin - era xenófoba à época (e é hoje): seu horror com o holocausto é o horror de quem se olhou no espelho e, assustado com o que viu, quebrou o espelho. Nem o helenismo é Alexandre, nem a cruz é César, nem a inquisição é o papa, nem a democracia liberal é... quem? E aí está a nossa covardia perante o tirano: a esquerda, por exemplo, prefere simplesmente negar Stálin, e muitas vezes o próprio comunismo, e assim nega que um tirano tal tenha emergido dela. O fato é que Stálin é filho do marxismo, direta ou indiretamente, mesmo que por vias bastante oblíquas; quando a esquerda o nega nega a própria responsabilidade de evitar novos Gulags. A direita admite aos poucos discursos como os ambientais: mas tem coragem de admitir que desenvolvimento e meio ambiente são inconciliáveis, ou que a fome na África e a aniquilação indígena americana se dá sob sua bênção? Você que me lê também nega a violência que há por trás da democracia liberal na condição de discurso total: você é um covarde.

Por outro lado, frente ao covarde somos tirânicos. Porque não se pode admitir a força da palavra recolhida na sua própria discrição: há que se exigir a ação. Porque frente a tudo uma posição tem que ser tomada, e na hora que se a pede. Por que o medo da teoria e das reflexões e da boa poesia? Sempre há o discurso de que aquele que porventura defende o comunismo tem que aceitar dividir o próprio quarto, abster-se do consumo, pegar em armas e destituir governos. Destituir para quê, se nem sabe contra o que se deve lutar – e correr o risco de matar em nome do mesmo espírito que vige? A vantagem do covarde é que não caminha sobre os terrenos seguros da certeza do homem de ação. O covarde é pessimista: sabe que deve desconfiar dos consensos. O covarde é otimista: sabe que deve confiar no estudo e no ouvir o silêncio das coisas. Mas se exigirá dele, e quem o fará será o tirano que no parágrafo anterior era o covarde, que fale quando o silêncio é pertinente, que aja quando não há nenhuma articulação possível para ações. Para o covarde, o homem sozinho não pode agir, porque a articulação dos homens - no plural - é uma necessidade. Mas a articulação recolhe em si a potência da manipulação de massas: e assim o covarde se suspende sobre o abismo da incerteza – a sua covardia aos nossos olhos. Há a guerra e há a paz, e o covarde sabe que elas não se negam: interdependem-se, sua diferença harmoniza-se consigo mesma, e ele hesita sempre no conflito – Aquiles é heroi que vence Heitor, é heroi que perde Pátroclo.

E que isso vem a calhar à poesia? Por tudo que se fez constar, sabe-se que a poesia não faz de ninguém melhor. Porque desde há muito ela se desvinculou de qualquer necessidade pedagógica – ao contrário, por exemplo, dos poemas de Homero, elevados à sacralidade pelos gregos até que Arquíloco e sua lira a contestasse com nova totalidade, e então que Heráclito tirasse a voz dos deuses e das musas dos versos e neles identificasse o puramente humano: na poesia, na boa poesia, há o não-dito, o silêncio, as impossibilidades, a covardia, o conflito – o tirânico e seu contrário, sim e não. Por fim Platão, ao expulsar os poetas de sua República, não os expulsa, mas expulsa quem deles diz portarem a criação; a palavra é palavra na incompletude, por isso é sempre simulacro das coisas de seu céu ideal, resguarda sempre recessos de sombra. “Instituída em lugar do ausente, quem a toleraria na clara presença do que se declara?”, diz Donaldo Schüler.

Palavras não criam nada. Palavras não fazem de ninguém melhor. Diversamente pensam os cabalistas: no princípio era o Verbo. Deus cria com fórmulas verbais: fiat lux! - declara – e eis a luz. Na Torá tudo que existe está dito, o que revela que a linguagem tem natureza divina e pode dizer tudo. Interpretar a Torá é enveredar por um texto absoluto que encerra em si todas as coisas do mundo. O Golem nasce de fórmulas verbais de homens que aprenderam a dominar a criação, ou parte dela. A luz existe porque existe a palavra luz. Este seria o domínio dos poetas? O de criar, e fazer brotar da palavra a coisa, e não aquela desta? Se é, a poesia é perigosa. Toda letra na história da criação tem sua razão de ser, toda ela manifesta a natureza da divindade, e sua combinação é divina. A criação advém de tal articulação: mudá-la é criar monstros, aniquilar o tempo, inverter os espaços. O poeta tem uma arma na poesia: manejá-la é destruir o mundo. E quem pode nos garantir que a tristeza não seja obra dos poetas covardes? E a fome dos tiranos, os maus poetas? Escrevi certa vez, tentando imitar o estilo bíblico: “Eis que ao homem da terra só é dado escrever a Revelação que o anjo do Senhor inspira, jamais alguém poderá dominar a Criação.Vós, portanto, que com a tinta da vossas penas crieis mundos e homens novos em vossos papeis, sois indignos hoje, e abalados são os caminhos que vossos pés pisam pela ira do Senhor, Deus dos exércitos”.

Assim, além de não fazer de ninguém melhor, a poesia ainda pode modificar o projeto de Deus para o mundo, e é claro que sempre para pior, pois o poeta não pode ser perfeito. Ou seja, qualquer resposta que se dê tentando justificar a poesia contra a dúvida do seu para quê, ela será insuficiente. Como defendê-la, contra toda a evidência de que ela realmente não serve para nada?

A poesia não serve para nada, e pour si muove! Existe, apesar de tudo. E talvez existirá ainda, e talvez seja eterna. Se a poesia sobrevive ao seu para-quê e impõe-se contra toda acusação de sua inutilidade, é porque a pergunta em si precisa se justificar. Para que para-quês? Hannah Arendt perguntou uma vez: “a que é útil a utilidade?”, ou “de que serve a serventia?”. A poesia, portanto, serve para pôr em cheque a própria necessidade de justificar-se, ou ainda, fará com que nunca essa necessidade se satisfaça, para que o para-quê seja eterno. E com isso consegue nos colocar no abismo da incerteza, do desassossego, do conflito, ou nos angustia a tomar posições, a agir. Torna-nos cientes da nossa própria covardia frente ao já-sempre-sabido, e eventualmente nos impele a sermos tirânicos e fazer emergir uma nova totalidade, ou assumir explicitamente os nossos princípios silenciados. A poesia, seja na sua timidez, na sua discrição, ou na pobreza de sua grandiloquência, impõe-nos perguntas. Uns acham que as respondem, outros as multiplicam.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Guerra antiga. Guerra nova.

É a guerra. E é a paz do mau augúrio,
que brotará no fim, quando esquecido
dessa memória injusta o corpo ido
do guerreiro que morre em campo fúrio.

Talvez não fosse, fosse o poeta lido,
o que dá ao morto a glória no perjúrio
ao fim brotada em paz de tempo espúrio
que assim se engana até novo conflito.

Mas fosse ao menos guerra... É a chacina.
É a paz que jamais brota, que mal veio,
é um homem a morrer e um que extermina.

E é sem rosto a cair no morticínio
e é sem nome a matar no bombardeio.
Sem poeta que canta no extermínio.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Kaspar Hauser

Gaspar Hauser
Por Murilo Mendes

Ninguém mais pode escolher
A vida que lhe apetece.
Ninguém mais pode ser só:
As almas são reveladas
À luz de mil holofotes.

Em torno de mim se agita
Uma conspiração de olhares.
Vou tomar a carruagem,
Comunicam ao mundo inteiro.
Cheiro uma rosa - explodiu.
Só tive consolo e paz
No ventre de minha mãe.

A quinta-coluna que existe
Desde o princípio do tempo
Não me deixa respirar.
Sou sempre triste, no escuro.

Adeus universo padrasto,
Que rejeitas o inocente,
O órfão, o pobre, o nu.
Não acho irmandade em ninguém:
Morrendo, sou livre enfim.

Canção de Kasparhauser
Por Georg Trakl. Tradução de Cláudia Cavalcante.

Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo,
Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro
E a alegria do verde.

Sisuda era sua morada à sombra da árvore
E puro o seu rosto.
Deus disse ao seu coração uma doce chama:
Homem!

Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite;
O lamento sombrio de sua boca:
Quero tomar-me cavaleiro.

Seguiram-no porém arbusto e animal,
Casa e jardim crepuscular de gente branca,
E procurava-o seu assassino.

Primavera, verão e belo o outono
Do justo, seu passo leve
Pelos quartos escuros de sonhadores.
À noite ficava sozinho com sua estrela;

Viu que nevava em galhos nus,
E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa.

Prateada, tombou a cabeça do não-nascido.

O enigma de Kaspar Hauser
Sinopse. Filme dirigido por Werner Herzog.

Kaspar Hauser é um jovem que foi trancado a vida inteira num cativeiro, desconhecendo toda a existência exterior. Quando ele é solto nas ruas sem motivo aparente, a sociedade se organiza para ajudar Kaspar, que sequer conseguia falar ou andar, mas este logo acaba se tornando uma atração popular. Baseado em uma história real.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Ao acordar

a noite que não
existia existiu

Rio sem discurso

Por João Cabral de Melo Neto. Um poema heraclitiano.

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água quebra-se em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O discurso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a sede ele combate.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Meu lirismo de funcionário

Certa vez, o bonde andando já há muito, disseram que leram essa coisa blog desde o primeiro texto. Outra vez, comentaram que gostavam muito de minhas crônicas. Houve tempos em que machuquei pessoas - minhas palavras infelizes.

Desde então tenho uma fantasia ideológica, daquelas que nos moldam e nos constitui, de que haverá sempre quem me leia. E talvez por isso tenho sido tão verborrágico. Mas se isso não for verdade, também não é providencial que me desenganem, pelo menos para que algo exista.

Sei da enorme falha que sou como gente - eu que sinto cumplicidade com a covardia de que falei outro dia. Mas também não me desminto nem me desculpo, e já anuncio: haverá um tempo, muito tempo depois de ter desistido dessas coisas, em que eu voltarei para ler todo grande erro aqui escrito (e uns poucos acertos). Nesse tempo, terei ao menos vocês para culpar!

Afinal, isto é um reduto de palavras órfãs que não assumirei.

The two trees

Por William Butler Yeats, poeta irlandês

Beloved, gaze in thine own heart,
The holy tree is growing there;
From joy the holy branches start,
And all the trembling flowers they bear.
The changing colours of its fruit
Have dowered the stars with merry light;
The surety of its hidden root
Has planted quiet in the night;
The shaking of its leafy head
Has given the waves their melody,
And made my lips and music wed,
Murmuring a wizard song for thee.
There the Loves a circle go,
The flaming circle of our days,
Gyring, spiring to and fro
In those great ignorant leafy ways;
Remembering all that shaken hair
And how the wingèd sandals dart,
Thine eyes grow full of tender care:
Beloved, gaze in thine own heart.

Gaze no more in the bitter glass
The demons, with their subtle guile,
Lift up before us when they pass,
Or only gaze a little while;
For there a fatal image grows
That the stormy night receives,
Roots half hidden under snows,
Broken boughs and blackened leaves.
For all things turn to barrenness
In the dim glass the demons hold,
The glass of outer weariness,
Made when God slept in times of old.
There, through the broken branches, go
The ravens of unresting thought;
Flying, crying, to and fro,
Cruel claw and hungry throat,
Or else they stand and sniff the wind,
And shake their ragged wings; alas!
Thy tender eyes grow all unkind:
Gaze no more in the bitter glass.

[Vê em teu coração, amada,/Ali a sagrada árvore cresce;/Da alegria brotam os ramos sagrados,/E todas as flores tremulantes que eles portam./As cores cambiantes de suas frutas/
Legaram às estrelas a espirituosa luz/A fortaleza de sua raiz oculta/Quieta na noite se plantou;/A vibração de sua copa de folhas/Deu às ondas sua melodia,/E casou meus lábios à música,/A murmurar a ti uma canção mágica./À sua volta os Amores fazem um círculo,/Os ardentes círculos de nossos dias,/Girando, rodando, pra frente e pra trás/Naqueles grandes caminhos de folhas ignorados/Lembrando aqueles cabelos tremulantes./E como as sandálias aladas se lançam,/Teus olhos crescem cheios de ternura:/Vê em teu coração, amada.///Não vejas mais na amara lente/Os demônios, com seus hábeis ardis,/Levantam-se ante nós quando passam,/Ou vê apenas por um breve momento;/Para isso, uma imagem mortal se faz/Que recebe a noite tempestuosa,/Raízes meio ocultas sob a neve,/Galhos quebrados e folhas enegrecidas./Porque tudo se torna ermo/Nos vidros trevosos que os demônios seguram,/O vidro de uma moda alienígena,/Feitos quando Deus dormia nos remotos tempos/Lá, pelos ramos quebrados, vão/Os corvos de alma incansável;/Voando, chorando, pra frente e pra trás,/Garra cruel e garganta faminta,/Ou então eles param e inspiram o vento,/E balouçam suas rotas asas, que pena!/Teus olhos ternos se enchem de maldade:/Não vejas mais na amara lente.]

sábado, janeiro 31, 2009

Contra a poesia

Já se disse que Mein Kampf é mal escrito, e se submeteu a revisões estilísticas e gramaticais por assessores, na ocasião da ascensão do nazismo na Alemanha.

Sabe-se também que Borges era conivente com a ditadura militar argentina; talvez não a defendesse de forma ativa justamente por não ser da índole dos bons escritores assumir causas que não essencialmente as suas.

Uma generalização irresponsável a partir desses dois exemplos nos daria alguns problemas. Adianto um deles: com fundamento nas reflexões seguintes, se dogmáticas, não haveria outra maneira de considerar Sartre se não como um mau escritor. E Sartre, creio eu, não é um mau escritor. Mas vá lá, sejamos um pouco irresponsáveis.

O que é significante no Mein Kampf, assim como nos relatos duros de Júlio César sobre suas guerras, e nas poesias sem qualidade da juventude de Stálin, é que maus escritores acham-se capazes de escrever, de assenhorar-se das palavras escritas e de todo o poder mágico que cada nome e cada verbo pode produzir nos rumos da humanidade. E por se acharem capazes de manipular algo tão místico e sagrado, adquirem uma grandiloquência magnífica, e poderão então se tornar magníficos tiranos na impostação de suas vozes com palavras que, quais as de Homero, ganham asas. E que das tribunas dos magníficos palácios voam como ordens a mover exércitos, para o bem ou para o mal, mas sempre interferindo na vida das outras pessoas. Os maus escritores são também homens de ação e fazem a história na ação: pouco se lê de seus escritos. Fazer análise dos ensaios de Robespierre - este sim um jovem premiado na escola (recebera inclusive o galardão das mãos de Louis XVI...), mas nunca próximo ao gênio satírico de um Voltaire - mal dirá sobre seu constitucionalismo revolucionário, e menos ainda do Terror dos Comitês sob domínio jacobino, se a análise for de conteúdo. O que interessa em textos tais é a manifestação justamente da grandiloquência, dessa auto-imagem do portador do logos, do verdadeiro portador do logos e, como tal, como senhor da ação. A grandiloquência não é própria do discurso, ou não se esgota nele: é própria do homem, do homem cuja palavra escrita não é mais do que a latência ou potência de uma força a se irromper mais cedo ou mais tarde nisso que é tão louvado pelos inimigos da erudição, a atitude. Mas falo do mau-escritor que se habilita e se anuncia como escritor, o mau-escritor público, e não o mau-escritor da gaveta, o mau-escritor de diários, ou de blogs que esperam as visitas fortuitas: este se aproxima do bom escritor na vida política, mas não na escrita ou na altivez.

O bom escritor é o oposto. Tem tudo para dominar a grandiloquência, pois adquiriu tamanha intimidade com as palavras e se resignou a aceitar seus mistérios que estas não se esquivariam de torná-lo grande - e não se esquivam, pois sabemos que eles são bons escritores. Porém, a palavra o torna grande porque o bom escritor aprendeu a ser seu súdito, não seu manipulador. Resignou-se demais. O bom escritor é então o covarde, por mais palavras que diga não age. Não pode agir. Poderá defender aqui e acolá os piores regimes, se estes lhes deixam em paz. O que importa ao bom escritor, como Borges, é este isolamento, a paciente contemplação do que lhe envolve e lhe angustia, a fim de manter o silêncio do inescrutável nas suas palavras. Ele poderá cantar as revoluções, mas não apertará os gatilhos. Poderá difamar o tirano, mas será o primeiro a perdoá-lo quando ele estiver deposto. O narrador da Récherche proustiana, no seu desejo de ser um escritor, vê-se obrigado a renegar toda forma de amor e amizade: não pode suportar que outros dependam dele e de suas decisões, porque ele não sabe agir; e, evitando o risco de ter que se deixar furtar o tempo pela companhia dos outros, ele precisa escrever (bem). O bom escritor precisa, pois, deste egoísmo pueril, não para negar os outros, mas para não impor o seu eu sobre eles. Bem ao contrário do tirano. Mas acaba que também não pode ajudar, não pode salvar, não pode fazer ninguém feliz. Por isso o protótipo do bom escritor é o cego - Homero, Milton, Borges - que perscruta a pureza das palavras, mas não enxerga o alvo quando deve dar o tiro (Euclides da Cunha que o diga). É o bon vivant - Horácio, Byron, Vinícius de Moraes - que se entrega aos prazeres egotistas e erige monumentos nos versos, mas não move o mundo. É o tísico - Manuel Bandeira e Álvares de Azevedo; o funcionário hermético de ombros encolhidos - Carlos Drummond de Andrade; é o misantropo - Dalton Trevisan, Thomas Pynchon; é o tímido - Foster Wallace. É como disse Álvaro de Campos: "Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;/Mas acordámos e ele é opaco,/Levantámo-nos e ele é alheio".

Covardes e tiranos. Poesia para quê?