Eles, dos altos cumes habitantes,
De indivisos reinos, sentados, mandam,
Em tronos perenes, os imortais,
Nos mortais destinos insuperáveis.
Eles, deuses cujo ânimo em fuga
Não se flagra, imorríveis ditaram
Ser um mal morrer; e dentre os que caem
Não se contarão os que néctar bebem.
Cais tu, ao negar os verdes viçosos
De tipos vários, sob a vária luz
Do sol ou o halo ladino da luz
Da lua, de teus interditos olhos.
Cais tu, pagã ambrosia que hei comido,
Que de mim um deus não houve fazer,
Senão fazer de ti mesma senhora
Cruel de mim, por mim bem querida.
Uma a outra, vós vos buscáveis céleres.
Da morte não digo: quem não te quer?
Mas haver tu a ela desejado
Em noturno pranto, que deus explica?
Uma a outra, das falésias ao choque
Fúnebre, no mar te esperava a amiga,
No mar que pranteava sais amaros,
Cujo marejo era o chorar da morte.
Revoltos, o cimo buscando, os fios
Resistiam negros à rubra queda,
Assim também a amena branca roupa,
Que violenta a vertigem arrastava.
Revoltos, meus corações, os tivessem,
Te os braços estenderiam, mil deles,
Fossem o quanto fossem as medidas
Para do mar evitar a acolhida.
Cruel, eu amava a ti chorando e rindo,
Mas a rir o pontiagudo ruído
- ao ventre meu – dos teus quietos lamentos
Tu, cruel, tu sem porquês preferias.
Cruel, a vida toda pranteada,
Pedira-me lividez pr’esta hora;
Mas chora o mar, e até a morte chora,
Que alívio tenho onde me o pranto toma?
terça-feira, setembro 30, 2008
sexta-feira, setembro 26, 2008
The Dandy Warhols
Até que há letras muito boas no mundo da música pop!
Nietzsche
por The Dandy Warhols
I want a god who stays dead
not plays dead
I, even I, can play dead
(Ainda preciso verificar se isso não é uma tradução de algum poema do Nietzsche, mas a princípio a letra é do Dandy Warhols mesmo).
Nietzsche
por The Dandy Warhols
I want a god who stays dead
not plays dead
I, even I, can play dead
(Ainda preciso verificar se isso não é uma tradução de algum poema do Nietzsche, mas a princípio a letra é do Dandy Warhols mesmo).
quinta-feira, setembro 25, 2008
o tempo passa, o tempo voa
Por muito que ande
Por muito que corra
Passa como quem fica
Não decola, mas voa
Por muito que corra
Passa como quem fica
Não decola, mas voa
Aula de silogismo metautopoiético
Todos os homens não são nada.
Eu não sou nada.
Logo, eu sou Fernando Pessoa.
Eu não sou nada.
Logo, eu sou Fernando Pessoa.
domingo, setembro 21, 2008
Quero matar o mundo
Quero matar o mundo,
isso que se chama mundo,
pra morrer, na matança,
e renascer desde criança.
Mas não vir assim jogado
num mundo feito, já criado.
Mas como um deus renascer
no vão do nada, silêncio do ser.
Então criarei tudo de novo:
Lixo, sujeiras, pessoas, povo.
Não teremos, porém, reggae e maçãs
e pra Bukowski não haverá fãs.
Cachorro Grande não poderá gravar,
nem Pollock terá mãos para pintar.
E ninguém há de morrer de tiques
quando eu falar mal dos beatniks...
Sendo um deus modesto feliz serei:
Não quero um mundo de rei,
assim perfeito, todo Rolling Stones,
somente um que não me faça ouvir Ramones.
isso que se chama mundo,
pra morrer, na matança,
e renascer desde criança.
Mas não vir assim jogado
num mundo feito, já criado.
Mas como um deus renascer
no vão do nada, silêncio do ser.
Então criarei tudo de novo:
Lixo, sujeiras, pessoas, povo.
Não teremos, porém, reggae e maçãs
e pra Bukowski não haverá fãs.
Cachorro Grande não poderá gravar,
nem Pollock terá mãos para pintar.
E ninguém há de morrer de tiques
quando eu falar mal dos beatniks...
Sendo um deus modesto feliz serei:
Não quero um mundo de rei,
assim perfeito, todo Rolling Stones,
somente um que não me faça ouvir Ramones.
sábado, setembro 20, 2008
Odisséia, livro vigésimo-terceiro
'Acorda, Penélope, filhinha querida. Confere com
os teus próprios olhos. O que desejavas aconteceu.
Teu marido voltou. Está lá embaixo. Antes tarde
do que nunca. Os safados estão mortos. Os que
saqueavam tua casa, devoravam tudo, ameaçavam
teu filho não existem mais" [...]
Odisséia, XXIII, 5-10, Trad. Donaldo Schüler
Odisea, libro vigésimo tercero
por Jorge Luis Borges
Ya la espada de hierro ha ejecutado
La debida labor de la venganza;
Ya los ásperos dardos y la lanza
La sangre del perverso han prodigado.
A despecho de un dios y de sus mares
A su reino y a su reina ha vuelto Ulises,
A despecho de un dios y de sus grises
Vientos y del estrépito de Ares.
Ya en el amor del compartido lecho
Duerme la clara reina sobre el pecho
De su rey pero ¿dónde está aquel hombre
Que en los días y en las noches del destierro
Erraba por el mundo como un perro
Y decía que Nadie era su nombre?
***
Odisséia, livro vigésimo terceiro
tradução por Leonor Scliar-Cabral
Já as espadas de ferro executaram
O devido trabalho da vingança;
Já os dardos mais ásperos e a lança
O sangue do perverso prodigaram.
A despeito de um deus, dos mares seus,
Volta ao reino e à rainha o intrépido
Ulisses, a despeito do estrépito
De Ares, dos ventos grises e de um deus.
Já no amor do compartilhado leito
Dorme a insigne rainha sobre o peito
De seu rei, onde está o homem, porém,
Que nos dias e noites pelo mundo
Errava proscrito, cão vagabundo,
Dizendo que seu nome era Ninguém?
***
Fantástico.
domingo, setembro 14, 2008
Manchetes que eu ainda verei escritas
INDÚSTRIAS MULTINACIONAIS TRIPLICAM LUCRO EM 2008
Aumento se deve à política de renúncia fiscal e grande oferta de crédito pelo Governo Federal. Segundo presidente da FIEP, não houve o correspondente incremento de culpa.
.
Inspirada na manchete da 1ª página da Gazeta do Povo de hoje: "Sem terra vira patrão e lucra sem culpa no oeste do Estado".
.
Só podem estar brincando!
quarta-feira, setembro 10, 2008
Circunstâncias
Aquele que sempre julgou
a mim, que fui sempre julgado,
julga-me outra vez, e de novo
julgará, agora me o dedo
apontando, por ter um dia
também, mortal que sou, julgado.
a mim, que fui sempre julgado,
julga-me outra vez, e de novo
julgará, agora me o dedo
apontando, por ter um dia
também, mortal que sou, julgado.
terça-feira, setembro 09, 2008
Declaração da Pobreza
Declaro
para todos os fins
que já os vivi todos
e o melhor deles
é o fim da picada.
E por ser expressão
fiel da verdade
não situo nem dato.
Sou maior que o tempo,
sou maior que o espaço.
para todos os fins
que já os vivi todos
e o melhor deles
é o fim da picada.
E por ser expressão
fiel da verdade
não situo nem dato.
Sou maior que o tempo,
sou maior que o espaço.
segunda-feira, setembro 08, 2008
Boca
que perverte tudo.
E depois chupa sorvete
e depois fala
do tempo
do amor
do jogo
do dia
em que vai ser rica
em que vai ser livre
em que vai ao médico
em que vai fechar
e começar o regime.
Mas a segunda-feira não chega
o estetoscópio não basta
a loteria acumula
a lei d'ouro não vem
e é ainda uma boca
e é ainda escondida
no dia após dia
e é ainda uma voz
que fala e se cala
e se finge paisagem
e ainda é uma boca
não passa de boca
não passa de nada
não mais - coitada! -
que o mundo invertido
no ilógico espelho
que o velho destroça
e o sentido suspende.
Boca, não boca,
porque todos têm.
Boca, não boca,
porque a tua não têm.
Boca, só boca,
fingindo o só.
Boca, tão boca,
pãozinho de ló.
E depois chupa sorvete
e depois fala
do tempo
do amor
do jogo
do dia
em que vai ser rica
em que vai ser livre
em que vai ao médico
em que vai fechar
e começar o regime.
Mas a segunda-feira não chega
o estetoscópio não basta
a loteria acumula
a lei d'ouro não vem
e é ainda uma boca
e é ainda escondida
no dia após dia
e é ainda uma voz
que fala e se cala
e se finge paisagem
e ainda é uma boca
não passa de boca
não passa de nada
não mais - coitada! -
que o mundo invertido
no ilógico espelho
que o velho destroça
e o sentido suspende.
Boca, não boca,
porque todos têm.
Boca, não boca,
porque a tua não têm.
Boca, só boca,
fingindo o só.
Boca, tão boca,
pãozinho de ló.
sexta-feira, setembro 05, 2008
Mundo das cóisas
Caiu o acento da ideia
diz a nova ortografia.
Tropeçou ou desceu dos céus
e ao mundo das coisas se filia.
Platão, que de português
sequer ideia fazia,
do acento fez caso pouco:
-Bah! Isso nem é filosofia!
Em polvorosa, no entanto,
está a elite do Brasil:
o que era pouca o acento perdeu!
Agora o acento é mundano
e a ideia sem destaque;
da esquecida então dirão: morreu!
diz a nova ortografia.
Tropeçou ou desceu dos céus
e ao mundo das coisas se filia.
Platão, que de português
sequer ideia fazia,
do acento fez caso pouco:
-Bah! Isso nem é filosofia!
Em polvorosa, no entanto,
está a elite do Brasil:
o que era pouca o acento perdeu!
Agora o acento é mundano
e a ideia sem destaque;
da esquecida então dirão: morreu!
domingo, agosto 31, 2008
Peço desculpa... o sopro da inspiração...
Não é todo dia que a musa nos visita.
Boris Vian
Poderiam ao menos dar as caras para se darem a conhecer, estas vozes metafísicas da inspiração. Afirmaram existir, não? Pra mim que a Theá e as Mousas de Homero morreram naqueles tempos mágicos em que crucificados ressuscitavam; deram lugar ao Deus de duas caras e de três nomes, que ama e amedronta, com cruz e espada e flancos por demais abertos ao novo deus, a Razão e suas engrenagens de mundo, contra a qual se revoltou um Eros de tempestade e ímpeto, rejuvenescido sob o epíteto de Coração... O Coração morreu de morte cruenta, tal qual a cantava, e nada se pôs no lugar, se não a Realidade, soberba, ciosa e muito de mentirosa - muito de... nada. E nos pomos a poetar vasos gregos, pedras no caminho, a equívoca revolução dos erros dos homens, um cachorro latindo, um mendigo faminto, o cotidiano vulgar outrora insuspeito de esconder versos e versos outrora impossíveis de se prodigalizar nalguma coisa pouco seletiva chamada internet. Em que inspiração se finge e o mais fino trabalho que se pode almejar é uma boa imitação.
quinta-feira, agosto 21, 2008
Circunstâncias
Que ouse o insano
dizer que não és bonita.
Que ouse ele, ou o cego,
o idiota, o inumano.
Eu não. Que de mentiras
só sou dado às pequeninas.
***
Perguntas três, garota,
e três das que te ouço perguntar
melhor proveito fariam
ao surdo.
***
Doutor não sou;
gênio, jamais.
Sequer um nome
que sobreviva
aos séculos.
Mas quem a ti, Miguel,
os ouvidos dedica
e às palavras firmes
apõe o brilho de um 'bravo!'
concorre com feijões
uma vaga à raça
humana.
dizer que não és bonita.
Que ouse ele, ou o cego,
o idiota, o inumano.
Eu não. Que de mentiras
só sou dado às pequeninas.
***
Perguntas três, garota,
e três das que te ouço perguntar
melhor proveito fariam
ao surdo.
***
Doutor não sou;
gênio, jamais.
Sequer um nome
que sobreviva
aos séculos.
Mas quem a ti, Miguel,
os ouvidos dedica
e às palavras firmes
apõe o brilho de um 'bravo!'
concorre com feijões
uma vaga à raça
humana.
terça-feira, agosto 19, 2008
Anacreonte
Tradução minha do canto Para Cítara, do poeta grego Anacreonte (563-478 a.C.). A transliteração do grego é arbitrária, e a ela me obriguei porque o blogspot não tem fonte de letra grega.
EIS KITHARAN
Thélo légein Atréidas,
Thélo dè Kádmon áidein;
Ha bárbitos dè khordaîs
Érota moûnon ekheî.
Émeipsa neûra próen,
Kaì tèn lýren ápasan.
Kagó mèn êidon áthlous
Herakléous: lýre dè
Érotas antephónei.
Khároite loipòn hemîn
Héroes; he lýre gár
Mónous érotas áidei.
***
PARA CÍTARA
O Atrida quero cantar,
quero a Cadmo dar a loa;
mas o bárbito* que é teimoso
só amor na corda ecoa.
Há pouco troquei as cordas
e também a lira toda.
Mas se d’Héracles eu canto
as lutas, insiste a lira
e de novo o amor entoa.
Dos heróis, daqui p’ra frente,
me despeço: co’essa lira
só de amor se tira o verso.
*Bárbito é um instrumento semelhante à lira, mas com cordas mais compridas e de som mais grave.
EIS KITHARAN
Thélo légein Atréidas,
Thélo dè Kádmon áidein;
Ha bárbitos dè khordaîs
Érota moûnon ekheî.
Émeipsa neûra próen,
Kaì tèn lýren ápasan.
Kagó mèn êidon áthlous
Herakléous: lýre dè
Érotas antephónei.
Khároite loipòn hemîn
Héroes; he lýre gár
Mónous érotas áidei.
***
PARA CÍTARA
O Atrida quero cantar,
quero a Cadmo dar a loa;
mas o bárbito* que é teimoso
só amor na corda ecoa.
Há pouco troquei as cordas
e também a lira toda.
Mas se d’Héracles eu canto
as lutas, insiste a lira
e de novo o amor entoa.
Dos heróis, daqui p’ra frente,
me despeço: co’essa lira
só de amor se tira o verso.
*Bárbito é um instrumento semelhante à lira, mas com cordas mais compridas e de som mais grave.
segunda-feira, agosto 18, 2008
A verdade sobre os elevadores da Federal
Muito já se disse sobre os elevadores da Federal: que um acidente leva à morte uma pessoa a cada cinqüenta anos (razão essa que, como sói ocorrer com as lendas, varia de curso para curso); que há pessoas distraídas as quais, sem perceber que a entrada se abriu mas o elevador não veio, desapareceram em seu poço e delas não há mais notícias; que é grande o perigo de ser repentinamente esmagado pelo súbito e violento fechar de suas portas, quando, por algum defeito recorrente, estão insensíveis ao movimento; ou, augúrio mais alentador, que é inevitável formar-se sem ter passado pelo menos algumas horas esquecidas preso naquele cubículo.
Entretanto, o que eu tenho para contar sobre os elevadores da Federal é mais espantoso.
Naquele dia em que o desaparecido fui eu, havia esquecido numa sala do décimo-primeiro andar meu guarda-chuva. Lembrei-me dele durante a tarde, e como não fora ainda para casa e estava próximo da universidade, poderia passar lá e verificar se o reaveria. Foi o que fiz. Chegando à Federal, as coisas ocorreram bem inusitadamente: não enfrentei fila alguma para o elevador, entrei nele sozinho e fui diretamente, sem nenhuma parada, do térreo para o último andar do prédio. Com tanta sorte assim, é claro que eu não achei meu guarda-chuva: seria demais para ser verdade. Então voltei ao bendito elevador. De novo – ó, azar! – sozinho.
É que lá estando, e sem censores, animei-me a mexericar naquela alavanca que nunca é usada. Puxei-a para a esquerda, para a direita, para o meio e nada. Puxei-a uma vez mais para a esquerda, para a direita, para o meio e... As luzes se apagaram, com exceção daquela que marca o andar pelo qual se está passando. Fiquei quietinho, de medo que tinha, acompanhando o tal indicador passar do 5 para o 4, do 4 para o 3, do 3 para o 2, do 2 para o 1, do 1 para o T. Térreo, enfim!
Mas qual!, o elevador não parou! Continuou descendo, e agora até com aquela última luzinha apagada. Meu coração palpitou. Meus joelhos dobraram-se. Anuviou-se minha visão. Porém, antes que meu corpo todo se estreitasse contra o chão, a porta finalmente se abriu, o que fez-me regozijar com uma nova esperança de vida quando já me acreditava morto.
Rá! Para quê?! Topei com um porão escuro, qual calabouço de castelo, úmido e frio, porém iluminado com luzes de emergência de túneis subterrâneos. Ao fundo, uma celeuma de vozes multivibrantes anunciava um estranho viço para local tão esmorecido. Caminhei em direção aos brados, dos quais se distinguia ora um “isso é absurdo!”; ora um “à vitória!”; ou ainda um “é culpa dos imperialistas do norte!”.
Ao final do corredor, uma ampla sala se descortinava, e nela estavam dispostas várias mesas circulares, repletas de professores discutindo vivazmente os mais diversos assuntos. Num canto, a mesa dos professores de ciências sociais debatia sobre como cortar a garganta dos burgueses para a libertação das massas. A dos professores de história, doutro lado, pelo que pude ouvir, lidava com o tema do revisionismo: pretendiam desdizer tudo o que foi dito pelos gênios conspiradores dos que venceram no passado. Nada mais assustador, porém, que a mesa dos professores de letras, a mais próxima. Reuniam-se eles num vil complô para assassinar a Língua Portuguesa! Reconheci, por exemplo, enquanto oculto nas sombras, as professoras Teresa e Adelaide, falando de coisas macabras, tais como a relativização da noção de erro. O que fez um terrível frêmito tocar-me a espinha: como aquelas professoras, que sempre ostentaram tão doces ares nas mais chuvosas manhãs de Curitiba, falavam essas palavras duras contra o gracioso monumento da nossa puríssima língua materna?
Não acreditava em meus olhos e em meus ouvidos, que me faziam notar uma professora Teresa de cenho franzido, em postura tão grave a soltar uma irascível voz que clamava a morte do prescritivismo. Ou uma professora Adelaide outrora gentil, agora brincando de fincar uma adaga entre os dedos da mão o mais rapidamente que conseguisse e defendendo que..., que... Por deus, ela defendia que o gerundismo é nada mais que um registro atual do que acontece com a língua!
Não pude evitar uma irresistível interjeição:
- Ó! – exclamei eu.
Pobre de mim. Despertei a atenção. Não deu tempo nem de esboçar um sorrisinho amarelo quando senti um golpe surdo a brincar de beisebol com meu cérebro.
Acordei, sei lá quantas horas depois, enjaulado ao lado de um velho senhor sujo e barbudo, com uma marmita de risoto de frango aos meus pés.
- Bem-vindo, jovem. Meu nome é Napoleão, muito prazer. Napoleão Mendes de Almeida.
- Napoleão Mendes de...? Mas tu não tinha morrido, não?
- Tinhas morrido, por favor! – disse o velhinho. E, meditando, olhando para o alto, ponderou: - Se bem que eu prefiro “tu não morreras?”... Não, não! Como sequer sei seu nome, deveria ser “o senhor não morrera?”!
- Ah, perdão – constrangi-me. Mas antes que eu pudesse ser mais polido, arrematou meu companheiro de cela em resposta à minha pergunta:
- De qualquer modo, meu rapaz, mal o senhor conheceu a verdade sobre os elevadores da Federal e sobre a corja que nos enclausurou. A morte é ainda um tema muito longínquo para o alcance de sua parca experiência.
Entretanto, o que eu tenho para contar sobre os elevadores da Federal é mais espantoso.
Naquele dia em que o desaparecido fui eu, havia esquecido numa sala do décimo-primeiro andar meu guarda-chuva. Lembrei-me dele durante a tarde, e como não fora ainda para casa e estava próximo da universidade, poderia passar lá e verificar se o reaveria. Foi o que fiz. Chegando à Federal, as coisas ocorreram bem inusitadamente: não enfrentei fila alguma para o elevador, entrei nele sozinho e fui diretamente, sem nenhuma parada, do térreo para o último andar do prédio. Com tanta sorte assim, é claro que eu não achei meu guarda-chuva: seria demais para ser verdade. Então voltei ao bendito elevador. De novo – ó, azar! – sozinho.
É que lá estando, e sem censores, animei-me a mexericar naquela alavanca que nunca é usada. Puxei-a para a esquerda, para a direita, para o meio e nada. Puxei-a uma vez mais para a esquerda, para a direita, para o meio e... As luzes se apagaram, com exceção daquela que marca o andar pelo qual se está passando. Fiquei quietinho, de medo que tinha, acompanhando o tal indicador passar do 5 para o 4, do 4 para o 3, do 3 para o 2, do 2 para o 1, do 1 para o T. Térreo, enfim!
Mas qual!, o elevador não parou! Continuou descendo, e agora até com aquela última luzinha apagada. Meu coração palpitou. Meus joelhos dobraram-se. Anuviou-se minha visão. Porém, antes que meu corpo todo se estreitasse contra o chão, a porta finalmente se abriu, o que fez-me regozijar com uma nova esperança de vida quando já me acreditava morto.
Rá! Para quê?! Topei com um porão escuro, qual calabouço de castelo, úmido e frio, porém iluminado com luzes de emergência de túneis subterrâneos. Ao fundo, uma celeuma de vozes multivibrantes anunciava um estranho viço para local tão esmorecido. Caminhei em direção aos brados, dos quais se distinguia ora um “isso é absurdo!”; ora um “à vitória!”; ou ainda um “é culpa dos imperialistas do norte!”.
Ao final do corredor, uma ampla sala se descortinava, e nela estavam dispostas várias mesas circulares, repletas de professores discutindo vivazmente os mais diversos assuntos. Num canto, a mesa dos professores de ciências sociais debatia sobre como cortar a garganta dos burgueses para a libertação das massas. A dos professores de história, doutro lado, pelo que pude ouvir, lidava com o tema do revisionismo: pretendiam desdizer tudo o que foi dito pelos gênios conspiradores dos que venceram no passado. Nada mais assustador, porém, que a mesa dos professores de letras, a mais próxima. Reuniam-se eles num vil complô para assassinar a Língua Portuguesa! Reconheci, por exemplo, enquanto oculto nas sombras, as professoras Teresa e Adelaide, falando de coisas macabras, tais como a relativização da noção de erro. O que fez um terrível frêmito tocar-me a espinha: como aquelas professoras, que sempre ostentaram tão doces ares nas mais chuvosas manhãs de Curitiba, falavam essas palavras duras contra o gracioso monumento da nossa puríssima língua materna?
Não acreditava em meus olhos e em meus ouvidos, que me faziam notar uma professora Teresa de cenho franzido, em postura tão grave a soltar uma irascível voz que clamava a morte do prescritivismo. Ou uma professora Adelaide outrora gentil, agora brincando de fincar uma adaga entre os dedos da mão o mais rapidamente que conseguisse e defendendo que..., que... Por deus, ela defendia que o gerundismo é nada mais que um registro atual do que acontece com a língua!
Não pude evitar uma irresistível interjeição:
- Ó! – exclamei eu.
Pobre de mim. Despertei a atenção. Não deu tempo nem de esboçar um sorrisinho amarelo quando senti um golpe surdo a brincar de beisebol com meu cérebro.
Acordei, sei lá quantas horas depois, enjaulado ao lado de um velho senhor sujo e barbudo, com uma marmita de risoto de frango aos meus pés.
- Bem-vindo, jovem. Meu nome é Napoleão, muito prazer. Napoleão Mendes de Almeida.
- Napoleão Mendes de...? Mas tu não tinha morrido, não?
- Tinhas morrido, por favor! – disse o velhinho. E, meditando, olhando para o alto, ponderou: - Se bem que eu prefiro “tu não morreras?”... Não, não! Como sequer sei seu nome, deveria ser “o senhor não morrera?”!
- Ah, perdão – constrangi-me. Mas antes que eu pudesse ser mais polido, arrematou meu companheiro de cela em resposta à minha pergunta:
- De qualquer modo, meu rapaz, mal o senhor conheceu a verdade sobre os elevadores da Federal e sobre a corja que nos enclausurou. A morte é ainda um tema muito longínquo para o alcance de sua parca experiência.
domingo, agosto 17, 2008
Concorrência
Vi neste fim de semana um senhor de barba mal feita, unhas grossas e pretas, testa a brilhar com o suor acumulado dos dias, palavras mal ditas, olhar de cachorro, roupas tiradas sei lá de que milênios passados, quando os rasgos e as traças talvez estivessem em voga. Sentado com as costas encurvadas num banco da Praça Osório, estendia a palma da mão encardida aos passantes pedindo dinheiro. Passaram uma senhora, um estudante universitário e dois homens trabalhadores. A primeira uma nota, o segundo umas moedas deu. Dos dois homens, um não lhe deu ouvidos, o outro disse baixinho que não tinha nada. Ossos do ofício, pensei.
Eu com minha barba feita e minha gravata, perfumado e cabelo bem aparado antevi uma ótima oportunidade de complementação de renda. Se o velho, que da boa postura nada tinha, recebeu uns trocados, eu, com toda minha fineza e com meu berço, inspiraria muito mais confiança. Estendi, porém, a mão a umas senhoras, a uma família, a crianças e jovens, aos homens trabalhadores, e tudo que consegui foi desdém. Creio que alguém até chegou a me alcunhar de insano.
Lembrei da tal transvaloração dos valores que viemos sofrendo pelos anos do nosso tempo. A isso atribuí a falência total da minha empreitada.
Eu com minha barba feita e minha gravata, perfumado e cabelo bem aparado antevi uma ótima oportunidade de complementação de renda. Se o velho, que da boa postura nada tinha, recebeu uns trocados, eu, com toda minha fineza e com meu berço, inspiraria muito mais confiança. Estendi, porém, a mão a umas senhoras, a uma família, a crianças e jovens, aos homens trabalhadores, e tudo que consegui foi desdém. Creio que alguém até chegou a me alcunhar de insano.
Lembrei da tal transvaloração dos valores que viemos sofrendo pelos anos do nosso tempo. A isso atribuí a falência total da minha empreitada.
Ao homem que é deus de tudo
pouco resta.
E no restar pouco um lampejo de angústia
se manifesta.
Cataloga, calcula, conhece, compra e vende,
descansa e festa.
Até que o resto que era não é mais
e qual toada de suave seresta
se irmana e harmoniza com tudo,
com cada coisa, entre cada fresta.
E se acomoda nas palavras, nos poemas, nas
canções de gesta.
Dorme como dorme o homem a dormir na
vida em sesta.
Como senhor das coisas e dos nomes, a quem
nada presta.
pouco resta.
E no restar pouco um lampejo de angústia
se manifesta.
Cataloga, calcula, conhece, compra e vende,
descansa e festa.
Até que o resto que era não é mais
e qual toada de suave seresta
se irmana e harmoniza com tudo,
com cada coisa, entre cada fresta.
E se acomoda nas palavras, nos poemas, nas
canções de gesta.
Dorme como dorme o homem a dormir na
vida em sesta.
Como senhor das coisas e dos nomes, a quem
nada presta.
sábado, agosto 16, 2008
Uma Imagem Divina
Poema de William Blake, com uma precária tradução, com o luxo da total liberdade e do enorme risco - que se consubstanciou, certamente - da mudança de sentido.
A Divine Image
Cruelty has a Human heart
And Jealousy a Human Face,
Terror, the Human Form Divine,
And Secrecy, the Human Dress.
The Human Dress is forgéd Iron,
The Human Form, a fiery Forge,
The Human Face, a Furnace seal'd,
The Human Heart, its hungry Gorge.
***
Uma Imagem Divina
A Crueldade tem o Coração do homem,
O Ciúmes tem o Rosto humano;
O Terror, a Divina Humana Forma,
O Segredo, do homem é o Pano.
Pano da Veste em Ferro forjada
Cuja Forja de fogo é a humana Forma,
Do homem a Face é hermética Fornalha,
E o Coração, sua Fome que devora.
A Divine Image
Cruelty has a Human heart
And Jealousy a Human Face,
Terror, the Human Form Divine,
And Secrecy, the Human Dress.
The Human Dress is forgéd Iron,
The Human Form, a fiery Forge,
The Human Face, a Furnace seal'd,
The Human Heart, its hungry Gorge.
***
Uma Imagem Divina
A Crueldade tem o Coração do homem,
O Ciúmes tem o Rosto humano;
O Terror, a Divina Humana Forma,
O Segredo, do homem é o Pano.
Pano da Veste em Ferro forjada
Cuja Forja de fogo é a humana Forma,
Do homem a Face é hermética Fornalha,
E o Coração, sua Fome que devora.
quinta-feira, agosto 14, 2008
quarta-feira, agosto 13, 2008
Chuveiro
Teu mijo, teu choro
Tua chuva, o teu gozo
Teu suor copioso
Me lava a sujeira;
Menor, que maior eu tenha:
Mente, alma, moleira.
Tua chuva, o teu gozo
Teu suor copioso
Me lava a sujeira;
Menor, que maior eu tenha:
Mente, alma, moleira.
Assinar:
Postagens (Atom)
