domingo, junho 28, 2009

Primeira carta sobre nada e coisa alguma

Caro leitor,

Primeiro cabe dizer-te por que, nestes tempos de 2009, dirijo-me a ti por tu. Certo é que por questões de estilo o texto poderá parecer mais elegante, um ligeiro arcaísmo para nos deslocar de algum modo do aqui e agora. Dirás que nos torno mais portugueses e menos brasileiros, e pode ser que gostes ou não disso, seja por amor ao nacionalismo ou raiva ao nosso mau uso do vernáculo, como é opinião corrente. Mas de minha parte não nos quero mais ou menos portugueses, eruditos, virtuoses ou o que o valha. Não me fiz a mim jardineiro, mas vagabundo; pouco se me vale de que bunda sai o esterco com que se cultiva a última flor do Lácio.

(Pronto, estão a bunda e o esterco. Embora eu tenha uma séria desconfiança de que os elegantes também se virem com suas bundas e seus estercos, creio ter desfeito tua ideia de que o tu é empolamento. Tu és tu, simplesmente; para que mais metafísicas que isso?)

Dirijo-me, pois, a ti e não a você pela inigualável vantagem da elipse. Conheces a vantagem da elipse? Sei que sim. Se fores homem, lembrarás daquela noite em que tudo fizeste primeiro para que pudesses te estabilizar ao lado da mulher desejada; então para que pudesses manter alguma conversa, e por último para que pudesses enveredar por um ou outro assunto mais íntimo. Talvez achasses a mulher receptiva, talvez achasses acabrunhada mas não invencível, e tivesses que falar sobre teu espantoso conhecimento acerca dos números da camiseta de cada um dos Irmãos Metralhaser o engraçado é sempre fundamental. E ela se ria, enquanto tu sentias o campo se deixando dominar cada vez que o riso findava e o interesse se mantinha em ti e não na amiga. Então jogaste uma ou duas palavras bonitas, falando justamente que ela é... bonita, isso, bonita e nada mais, e dela o riso veio mais tímido. Mas não importa, todos são: avançaste; ela recuou o rosto, lançou a boca para o lado, com os olhos sempre baixos. Quando levantaram, eram taciturnos e expressavam mais pena que ofensa, sem uma palavra. E tu entendeste e foste procurar abrigo em qualquer lençol solitário do teu enxoval. Lembraste agora? está a elipse, senhor tu: bem quanta economia nos dá, de quanta chateação nos poupa. Uma palavra sempre pede outra, quando se fala explica-se, e quando se explica nada fica explicado e tudo precisa vir à tona de novo e de novo e de novo. Mas não: basta o olhar e tu te encontras proscrito. Se, no entanto, fores mulher, apenas te coloca no lugar da mulher acima e tudo fica o mesmo. Melhor, terás ainda mais apreço pela elipse, pois é regra geral entre as mulheres o serem elípticas. Por quê? Queres apreço maior que o de evitar a resmunguice masculina? Ah, perguntas da regra geral. Digo-te que não sei, apenas a sinto, uma teoria sem corolários ou fundamentos, e peço-te que não estranhes, pois estranhar o sentir na posmodernidade é o que é deveras estranho.

Essa é pois a vantagem do tu: se basta no verbo. O você precisa sempre se diferenciar do ele, e eu me cansarei se tiver que lançar o tempo todo você para cada momento em que é a ti que me refiro. Tudo bem, a economia é pouca, são quatro letras por nenhuma, e entre as elipses com certeza preferimos aquelas femininas. Em verdade, compenso o tão longo nada desta carta, como o gordo que come x-tudo com coca-light: queiras ou não, alivia o peso, não desprezemos o nível simbólico das coisas; um tuzinho e uma coca-lightizinha podem ser a salvação da nossa autoestima. Fica então assim, não por elegância nem por lusitanismo, o que me governa nesta carta é, digamos, a digressão pragmática. Isso! Imagina que levei algumas horas para definir esta carta, e a digressão pragmática soou-me enfim sonora e não se compromete com concisão nem com prolixidade e nem contigo, que neste momento deve ter rompido comigo.

Não importa. Eu é quem te crio, tu és quem me anula. De sorte que da culpa sou eu quem está isento, igualzinho àquele amigo que te traz o mais horrível dos poemas para a tua severa opinião. Conheces o amigo e sabes de antemão a qualidade dos seus versos. Mas não lê-los é crime, não comentá-los, agravante, descer a lenha, uma crueldadezinha. Vá por mim, . Ele criou o teu delito e safa-se inocente, a ti resta apagar os vestígios. Não é do meu consciencioso proceder, minha aura me é muito clara, evito falar mal. Mas tenho crido ultimamente quemuito mais vantagens no coice de cavalo que no afago do cachorro: quantos mil protocolos – e até cuidados poéticos! - não se exigirá o horrendo poeta, que se apresenta a todo mundo antes como escritor que como ele mesmo, para chegar a ti novamente?

Mas que falo? Agora seria a hora de dizer a que vem a carta, e se voltas a ler os parágrafos acima vês que a nada. Quando falei da última flor do Lácio até pensei em expor-te minha teoria da última flor do Lácio e o Apocalipse. Mas é uma teoria banal, que nada diria do português e menos ainda da Bíblia; falaria apenas do caráter de ser o último, mas um falso último, como o pretenso minuto derradeiro do suicida mal-sucedido. E se te escrevesse coisas tais, a única conclusão possível é que escrevo por escrever. Talvez. Mas a menos que seja um contrato ou que se seja um gênio, qualquer escrever é por escrever, inda mais agora em dias nos quais até analfabeto sabe ler.

A bem da verdade, há algum tempo venho pensando em escrever cartas. E justamente pelo nobilíssimo motivo de escrever. O problema de se ter ideia é ter que desenvolvê-la. Pensara numa carta, e estava ela toda bela, encaixadinha em frases rápidas e espirituosas, literalizadas com um modesto cosmético da literatura, eventualmente num papel ornado de filigranas e cheiros amadeirados. Pensara-a assim, vagando num fundo preto, sem mundo ou contexto, toda perfeita, toda feita, girando como carro novo em feira automotiva. Porém, e este porém é mais um no entanto, que me parece mais forte, cartas não são assim. Elas tem destinatário, elas tem assunto, elas tem as notas sentimentais de um coração quebrado ou de um vencedor exultante, e o pior, elas tem letras, e no caso seriam as minhas letras, o que é bastante problemático. Assim, para concebê-la, começaria pelo destinatário, e o método seria de exclusão. Excluí primeiro os que não leem português e os que não gostariam de ler uma carta minha, em segundo lugar as que ficariam constrangidas se a recebessem, em terceiro os famosos, as sumidades, os numes e Deus, para não desviá-los dos seus talentos, em quarto uma amiga que me recusou seu endereço, em quinto outra que não me recusou mas que se receber pensará ser uma carta de amor, em sexto os ombudsmen de jornais, porque eu acho todos os jornais perfeitos e irrepreensíveis, por último aqueles que pudessem me responder e mostrar que não entenderam nada do que eu havia escrito. Fui procedendo a esta exclusão, mas me vi um tanto ingênuo: no quesito não gostar de receber uma carta minha não sobraria ninguém. Não o digo por autocomiseração; pensa bem: temos e-mail, Orkut, Twitter e o escambau, tudo feito para o bate-rebate no pá-pum e ponto final. Sem danos, sem exposições, sem perdas de tempo, totalmente elípticos. Afinal, concordamos quanto à vantagem de ser elíptico, e a única mostra dessa vantagem nessa carta, como vês, é o tratar-te por tu ao invés de por você...

Então te inventei, és meu destinatário. Não te dei rosto, não te dei sexo, não te dei pai nem mãe. Mas te dou esta carta, que, se não é boa, pelo menos te faz um ser único na humanidade, o meu destinatário. E justamente por seres assim como és, não tenho assunto para tratar contigo, de modo que resolvi assim o segundo problema da resolução da carta. Não vou falar sobre nada! Podes imaginar quanta liberdade há nisso? Sinto-me num prado imenso e verdejante, dez mil homens caem à minha esquerda, dez mil à minha direita, e a obrigatoriedade do diploma de jornalismo cai à minha frente, mas eu não sou atingido. Outros mais caem, o Congresso de porque é malandro, na USP tropeça a democracia (mas calma: nunca cai o chavão da escola pública, gratuita e de qualidade...), um Air France cai no Atlântico, os Estados Unidos derrubam a Espanha e um homem do Taleban com uma porrada de afegãos, Michael Jackson apenas termina uma quedamuito começada enquanto a crise somente a inicia. Mas eu continuo no meu prado imenso e verdejante, preferindo a tudo o tédio, a todos tu, a algo o nada. Avatar da apatia, nem me sinto sentir nem me venço exultante, apenas fico.

Satirizo? Pois bem, satirizo, se te contentas dizê-lo para me desdizer. Mas advirto-te que não disse rigorosamente nada desde o início, e se queres dizer que satirizo para me desdizeres, desdizendo o nada que disse, dirás exatamente o contrário do que pensas dizer. Entendes? Careço da verve de sátiro, pelo menos desde o dia em que esqueci minhas pernas de bode ou cavalo - os autores divergem neste ponto - em alguma vida passada das minhas mentempsicoses. Ora, satirizo! Então me queres Horácio, Swift ou Pope? Queres umas Cartas Chilenas ou uma Arte de Furtar? Não sejas tonto ou tonta, que aqui não há tamanhos luxos, e creio que procedes mal em qualificar algo de sátira para desqualificá-lo; nela fica o melhor das letras. E eu, avatar da estultice, nem me faço sátiro nem me boto cômico, apenas isso: fico.

Fico numa carta de nada a ninguém, de quem me despeço com um expansivo abraço e os melhores votos de sucesso e felicidade, com o perdão do encerramento brusco.

(Aí está: quero-me uma Sherazade que suspende algo que é coisa nenhuma).

Com carinho e até a próxima,

quarta-feira, junho 24, 2009

Epigrama encontrado na folha de rosto de um exemplar das Memórias Póstumas de Brás Cubas

Tu que passas ao largo de mim,
antes nota que estamos aqui,
eu e um morto, que guardo e que cubro;
e em respeito e sinal do teu luto
tua cabeça de vivo descobre.
Se há um verme que um corpo aqui come,
ou conheças ou não este morto,
não deplores, u'a vez que deposto
deste trono do gosto e da vida,
serás tu que a terás esquecida,
tu, banquete ao opróbrio e ao nojo
sem legado, louvor ou despojo.
Beija o morto, viajante, teu irmão!
Mais que tu ele a é, tua razão.

terça-feira, junho 23, 2009

Os atos secretos do Senado foram públicos

Brasília. Tudo não passou de um equívoco da Imprensa Oficial. Isso mesmo: os atos secretos do Senado, que derrubaram em junho José Sarney da Presidência da Casa, foram todos publicados. O descuido denuncista da imprensa, como havia classificado, no auge da crise, o Presidente Lula, não curou de ter notado que os atos do Senado haviam sido equivocadamente publicados no espaço dos atos do Executivo no Diário Oficial. Estavam todos eles junto aos editais do Ministério da Integração Nacional.

A descoberta do engano desencadeou um novo escândalo. O Jornal Folha de S. Paulo publicou uma entrevista exclusiva do auxiliar de escritório João da Silva denunciando que o povo não lê o Diário Oficial. Essa seria a verdadeira causa para se ter acreditado na imprensa, pois se o Diário Oficial fosse regularmente lido, alguém teria notado o equívoco antes da queda de Sarney.

João da Silva teria dito ao repórter do jornal que só um ou outro jornalista 'perderia o seu tempo' lendo o Diário para selecionar fatos mais chocantes no meio social para repetir - com outra roupagem - nos veículos para os quais trabalha. Disse também que existe um grande esquema de desvio dos exemplares do diário para uma máfia de carrinheiros de papel, quando não seguem pura e simplesmente para a lata de lixo orgânico.

O fato revoltou os parlamentares. Arthur Virgílio (PSDB-AM) disse que "é sempre assim no Brasil. Todo popular é corrupto. Nós políticos não podemos mais confiar no povo". Renan Calheiros (PMDB - AL) foi mais cauteloso: "as acusações são graves, precisam ser investigadas. Mas tem fundamento." Sarney (PMDB - AP), em tom bastante ressentido, disse de sua residência: "O que mais revolta no povo é esse descaso para com o Senado. Imagine: fui crucificado. Quase que meu mordomo e minha filha foram também!".

Funcionários fantasmas do Congresso Nacional e parentes de senadores encontraram páginas do Diário Oficial recortadas para fazer bandeirinhas de São João em várias cidades do Brasil. "Eu vi minha nomeação subir aos céus num balão de festa junina!", disse um neto de senador que não quis se identificar.

Hercílio Figueiroa Albuquerque, líder da Classe dos Emergentes, disse ser muito cedo para tirar quaisquer conclusões, mas que acredita ainda na instituição povo. Rita Baiana, representante dos quilombolas, falou que a acusação era falsa e que os Diários Oficiais são sim lidos. "O que acontece é que nós somos especialistas em leitura dinâmica e memorização, não precisamos manter os Diários Oficiais conosco". Perguntada quanto ao fato de não terem se dado conta do equívoco da Imprensa Oficial, disse: "isso foi um erro deles. Pergunte a eles."

Marquinho Pirueta, chefe do Sindicato dos Carrinheiros de Papel, disse que as acusações são levianas. "O Senado tem que me respeitar. Veja a minha biografia, eu sou do povo. Vou me preocupar com questões mínimas? Quem é o Senado pra me acusar?"

Senadores prometeram ocupar o Complexo do Alemão com o BOPE em protesto contra o povo no próximo final de semana.

domingo, junho 21, 2009

Um escândalo

Resolvera postular o escandaloso fato de que tinha um nome. Um nome decassilábico. Compreensível que não se acreditasse nisso pelas calçadas e que a máxima comoção que a novidade causasse fosse um riso desdenhoso de uma moça de cabelos negros e lisos e o olhar de pena de uma criança chupando um pirulito. Talvez por isso amenizei o choque anunciando que meu nome nada tinha de heroico ou de sáfico, era um decassílabo ordinário e aleatório. Mais burocrático que métrico, como convém aos processos e às pessoas e aos funcionários públicos. Também aos economistas. Postulara o fato justamente para ganhar ares de indivíduo, cheio de problemas e uma alegria de quando em quando, não uma indistinta gota no rio das ruas que vaza seguindo um misterioso sentido. A reboque disso, teria também a vantagem de me ocultar atrás do nome, como convém aos processos, às pessoas, aos funcionários públicos e sobretudo aos economistas, que tudo ocultam atrás de palavras por medo demasiado da verdade.

Insisti no fato, insistiram em resistir-lhe. Mas a fé me era tanta que começaram a desconfiar que talvez houvesse razão. Principiou como mera irritação, mas de repente tornou-se uma obsessão pública descobrir se eu tinha um nome ou não. Por falta de provas da realidade, acabaram aceitando-o. A direita viu nisso um exemplo banal de liberdade, ok, bacana, ele tem um nome, cada um pode ter se quiser, etc.; e tentou cotidianizá-lo como uma decorrência natural de nosso mundo. A esquerda viu uma traição contra as massas, um atentado contra a igualdade de existência, com palavras de ordem perorando minha expulsão sei lá do quê. Os inteligentes desconversaram: não importava se eu tinha um nome ou não, o importante era saber o que eu queria dizer quando dizia que tinha um nome.

Mas os cientistas ficaram excessivamente intrigados. Numa noite prenderam-me. Em nome da ciência, mataram-me. Encontraram o decassílabo de que eu falei e dissecaram-no. Sim, eu tinha um nome, e ele era decassilábico. Encontraram aqui e ali umas três ou quatro sílabas tônicas, nenhum sinal de cesura ou enjambement. Concluíram que com ele nenhum esquema rítmico seria razoável e se alguém encontrasse uma rima possível certamente seria monstruosa. Claro, falei que era decassilábico, não falei que era poético.

terça-feira, junho 16, 2009

Cem anos depois

Por José Paulo Paes

Vamos passear na floresta
Enquanto D. Pedro não vem.
D. Pedro é um rei filósofo,
Que não faz mal a ninguém.

Vamos sair a cavalo,
Pacíficos, desarmados:
A ordem acima de tudo,
Como convém a um soldado.

Vamos fazer a República,
Sem barulho, sem litígio,
Sem nenhuma guilhotina,
Sem qualquer barrete frígio.

Vamos com farda de gala,
Proclamar os tempos novos,
Mas cautelosos, furtivos,
Para não acordar o povo.

terça-feira, junho 09, 2009

Conceito de posmodernidade

O posmoderno
é sobretudo o tempo que se apelida a si mesmo:
o Posmoderno.

O posmoderno
tem pressa muita pressa que o agora vire categoria histórica:
o Posmoderno.

O posmoderno
ultrapassa-se antidefine-se e multiplica-se num só definido passo:
o Posmoderno.

O posmoderno
é, assim:
o Posmoderno.

sábado, junho 06, 2009

Os queimados

................... "atque intestina perurens
ei misero eripuisti omnia nostra bona?"

(e, queimando minhas vísceras,
de mim miserável roubaste todos os bens?)
Catulo


Corpos queimados aproximaram-se para o jantar. O rosto, tinham-no vermelho, os músculos à vista, salpicados de pontos pretos do tostado. Os globulares olhos que jamais sentiam os intervalos da escuridão, à míngua de pálpebras, pareciam-me dependurados por finas fibras. E com efeito estavam, pois os queimados preferiam mexer o pescoço a arriscar perdê-los – os olhos – num movimento de mirada. Haveria um rumor de boa compleição física se lhes abstraíssemos o acidente das chamuscadas, ou se as disfarçassem sob roupas e chapéus. Mas de roupas só as que se impregnaram em unidade com pele e outros tecidos de traços indefiníveis, e assim mostravam umbigos, crostas, vergões, um ou outro amarelado de ossos, e abstrusos tegumentos de panos íntimos urdidos com pêlos e escroto e lábios.
Vinham alegres, desconhecidos, uma petulante e um faminto, ela cheia de desafios, ele cheio de estômagos.

Ele parecia pobre, mas assim queimado podia ser qualquer coisa. Não pude avaliar mais porque também não falava, e porque mortos de fome há entre os ricos e há entre os pobres. Só não estão entre os elegantes. Não tinha uma das bochechas, embora conservasse intactas as orelhas e toda a cabeleira da nuca. Segurava entre os dentes um cigarro apagado, como se este o houvesse em verdade fumado, e eu não diria que fora outro o ocorrido. Não o convidei para sentar porque prescindiu de protocolos; sentou-se onde lhe aprouve, no exato lugar que lhe caberia. Sim, parecia pobre porque humildemente regozijou-se da mesa posta; carente de etiquetas, fartos sorrisos encheram-lhe a parte subsistente da face e só não bateu palminhas porque no momento certo se lembrou da carne viva e ardida de suas mãos. Serviu-se sem mais, repousando o cigarro, do vinho, do macarrão e do frango. Fungava. Cada gole descia acompanhado de peculiar percussão gutural. Arrotava. Não se permitia pausas na monótona degustação.

Logo o esqueci, eu não o esperava. Mas nem a ela.

Só que ela eu temia. Era calva, mais que ele. Não sabia a que vieram, mas se algo houvesse, ela era quem me diria. Seus dentes eram branquíssimos, via-se através de seus beiços rotos, e o que ficou do nariz conotava um fino nariz, de gente fina como ela deveria ter sido. Ou ainda era, mas não mais a partir dali. Trazia-o empinado, toda cheia de si. A empáfia que se lhe particularizava pelo sorrir altaneiro não era fruto dessa ostentação forçada dos dentes, porque se somava a todo um donaire de mãos gesticulantes e de um fixo olhar aos meus olhos, como se se dirigisse à minha alma e não a mim. Se o fogo também me tivesse dado a forma, talvez a achara bonita, nessa empatia dos que tem a mesma sorte, mas não menos amedrontadora. Somente se sentou quando lhe puxei a cadeira, com o que agradeceu muito veludamente enchendo-me de elogios quanto à minha gentileza. Serviu-se pouco e demorava muito para tocar a comida: preferia falar e ouvir, e o fazia bastante placidamente:

- Que bom vê-lo. Parece-me muito bem, apesar do seu estado. Admira-me que se demore longamente a apreender cada detalhe do nosso, quando o este seu próprio é uma miríade de espantos e belezas. Diga-me que anda bem.

Sabia que seria assim, ela tentando botar-me contra a parede, apequenar-me para que cedesse a algum desígnio desconhecido. Manteria o nível, a boa calma, frustrando-a até que cansasse e se fosse.

- Claro que ando bem. Perdoe-me meus ares de pasmo, sou muito impressionável com toda gente nova que travo contato. Disso às sensaborias sem pejo enveredei: - mas, digam, que acharam do bairro?

- Muitas mudanças na rua, creio que foram quatro caminhões nestes poucos quarteirões.

- Carregando ou descarregando?

- Ah, que dizer? Pareciam quase cheios. A esta hora, creio que estavam a partir com as tralhas. Essa gente sempre muda, não?

- Ah, sim. Ou não se contentam, ou é o noticiário que fala de uma garganta dum amante infiel cortada, e quando não, um grasnar de um corvo lhes desperta qualquer temor supersticioso, como um sinal divino de que aqui ainda não é Israel.

- Não se iluda, eles nunca mudam. São como você.

- Engana-se você, minha querida: mantenho-me, crio raízes. Não sei que disseram, mas aqui estou desde a enchente. Ganhei um mundo, ele é meu; percorro velhas estradas, mas todas minhas.

- Velhas estradas suas. Então é assim que prefere chamar...

Chegou meu irmão. Escalou seu banco à ponta da mesa. Suas imensas olheiras diziam-me que logo enxotaria os dois da sala. Surpreendi-me, porque preferiu ignorá-los. Apenas deu-me um aceno e pegou algumas sobrecoxas para comer com a mão.

- Amanhã cedo, à olaria – disse.

- Amanhã cedo, à olaria – respondi.

- Bom.

Bastou que viesse a olaria à tona para que a mulher começasse uma lengalenga, um leguleio antilegalista, uma ladainha antirreligiosa, num fascismo epistemológico que a tudo reduz a duas ou três teorias e palavras-chave sem força alguma porque perdidas em conceitos chãos, cujo nascimento em esplendor e na mais pura sedução lhes dá o fado da obtusidade dos comentaristas do porvir, estes comentaristas do porvir que haviam se sentado à minha mesa, comer do meu pão, para que eu – eu! – fosse alguma coisa que jamais fui. Falava erguendo o tom, perdendo a compostura, até chegar a indignação pura e simples, colocando abaixo toda a impostação temoribunda da sua chegada.

-...homens suarentos, que se dissolvem na própria argila, a ter as mãos na viva carne pelo fogo que amolda os blocos, embrutecidos na ignorância da mera produtividade, absorvendo com os olhos o bafejo infernal dos fornos, perdendo-se na marginalidade esquecida de seu vocabulário de duas ou três frases feitas com voz rouquenha subtraída de qualquer melodia, puro fartum, puras bestas ante bestas impassíveis de puro desprezo e pura lógica lucrativa!

- No vácuo da razão, o grito – disse então meu irmão.

- Mas vocês jamais ouvem!

Pois então eram casas sem tijolos o que queriam! - pensei - e para todos e cada um, sempre no seu direito, ah, sempre no seu direito.

Pensei mas não disse, porque nesta hora um caroço de azeitona pousou no macarrão. Tinha saltado da bochecha vazada do esfomeado, que por ali perdia metade do que comia. Comia, pois, por quatro: a fome era de dois, o aproveitamento de meio. Sorriu dando de ombros, mostrando (fora esquecido) que compartilhava a mesma mesa. A queimada, num arroubo irresistível, arrancou de meu irmão suas blusas e as jogou a um canto da sala. Suprema humilhação, já que os braços curtos do meu irmão jamais permitiriam que ele as vestisse de novo sozinho. Foi quando vi que suas palavras – as do meu irmão e as dela – acabaram.

Eram o silêncio, olhos, e a sonora gulodice. E seu clímax de arrotos.

- Pronto. Sabemos que não há remédio. Amanhã voltamos, nós e o nosso cutelo – foi o que enfim falou o queimado.

Era ele então que deveria ter temido desde o início. Um repentino murro do meu punho o acertou no rosto. Caiu, e então foram chutes infindos no coitado.

A queimada correu para sempre. O queimado, levei-o ao fogão a lenha. Fiz que comesse todas as cinzas – recupere o que perdeu, recupere, demônio! Regurgitava e debatia-se, um olho lhe caiu da cara, um grito sufocou-se em arrotos, e então o que lhe restava de um antigo corpo ruborizava-se até enfim entrar em completa combustão espontânea.

domingo, maio 31, 2009

Poema erótico

deitada foste
uma verde relva de infindo campo
em que meus dedos caminharam
- o infinito foi desejo, não foi espaço,
e cada passo foi ao braço
um cerco tato de senhor
que avança sobre domínios
de mãos e ombros e um dorso
apenas sugerido no prelúdico jogo.
ah, mas que batalha vencer
pouco a pouco todo o teu império,
e que batalha estranha se nos despojos
não blasona o senhor, mas palpita pávido
ante austeros negros olhos
enformados em ferinas pálpebras
que se espremem por teu leve
levantar da boca e teu insinuar
das carnes do rosto e o teu gemido
e o teu suspiro e tua violência
de dentes cravados nos meus beiços
como guerreiro no último estertor.
e invertemos
consabidos e falhos
conselhos castos da dominação:
o dominus é dominado,
da pele escravo, da pele tua,
que reveste seios e ventre e o regaço
e toda doce alma que a fingido custo se entregou
açoitando amor teu servo amante.
e porque pediste e porque eu quis
busquei o beijo em tua nuca e em teu cabelo
e pelas costas desci, as mãos nos seios,
e pela busca só buscava a boca
teus terrenos, evitando encontros,
até que em fatal ataque
buscou entre tuas pernas o gosto
percorrido em cada espaço
por diligente língua que nada
à negligência lega
(desde os joelhos tudo abarcado,
a coxa inteira, e o sexo de tantos lábios,
e um por um o seu aparado pêlo).
tão vivaz, mais que memória,
ficou como gosto absoluto e só
a que, subjugado, essa soberba língua
submissa
tem por vitória.

sexta-feira, maio 29, 2009

Je suis hanté!

poesia profana
do poeta incapaz
meu l'azur! l'azur!
- assombro-me -
é essa pia! pia! pia! pia! entupida.

terça-feira, maio 26, 2009

El desdichado

Por Gérard de Nerval.

Je suis le Ténébreux, - le Veuf, - l'Inconsolé,
Le Prince d'Aquitaine à la Tour abolie :
Ma seule Etoile est morte, - et mon luth constellé
Porte le Soleil noir de la Mélancolie.


Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m'as consolé,
Rends-moi le Pausilippe et la mer d'Italie,
La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,
Et la treille où le Pampre à la Rose s'allie.


Suis-je Amour ou Phébus ?... Lusignan ou Biron ?
Mon front est rouge encor du baiser de la Reine ;
J'ai rêvé dans la Grotte où nage la sirène...


Et j'ai deux fois vainqueur traversé l'Achéron :
Modulant tour à tour sur la lyre d'Orphée
Les soupirs de la Sainte et les cris de la Fée.


[Tradução não-poética:
Eu sou o Tenebroso, - o Viúvo – o Inconsolado.
O príncipe na abolida Torre de Aquitânia:
Minha única estrela é morta – e meu ataúde constelado
Porta o negro Sol da Melancolia.

Na noite do Túmulo, tu que me consolaste,
Trazes-me o Pausílipo e o mar da Itália,
A flor que tanto prazer deu ao meu coração desolado,
E a treliça onde o Parreiral à Rosa se alia.

Sou Amor ou Febo? Lusignan ou Byron?
Meu rosto está vermelho ainda dos beijos da Rainha;
Eu sonhei na Gruta em que nada a sereia...

E atravessei duas vezes o Aqueronte:
Modulando pouco a pouco na lira de Orfeu
Os suspiros da Santa e as crises feéricas.]

domingo, maio 24, 2009

Resposta da espinha mal espremida

Resposta a esse post do Jean.

Sou um mal e como um mal em ti me faço:
mal me sentes nascer inofensiva
me faço monstro horrendo em teu regaço
ou bunda ou testa ou via olfativa.

Por minha causa tens grande cagaço
de ver gente, mulher, feia ou diva.
Mas contigo fiel vou passo a passo,
crescendo venturosa e irruptiva.

Queres minha extinção, sou-te inimiga,
mas se a mim tu matares, que então siga
nessa cara meu túmulo vermelho.

Voltarei, tu bem sabes, sou patife!
E voltarei a cada novo esquife,
até que te rejeite o próprio espelho!

A um jornalista

melhor o mofo
dum canto escuro
da internet.
fama? que fama!
num dia a glória
de ser ouvido;
noutro a trama
dos pelos sujos
da minha Arlete!

sábado, maio 23, 2009

Salva a turba ignara

salva a turba ignara,
salvai as gentes e os povos
da insídia do espírito;

salva tu que sabes
salvai vós, os sabedores
da saga sofrida

que um povo dedica
ao bien-être de bedéis
do vero certame;

e dedica o éter
da árvore própria da vida
incônscio e inerme;

que o esperma ejacula
no raro gozo da sina
que a cria herdará.

se isso vós sabeis,
armas pegai e o salvai,
ó emancipadores!

é vosso tal fado
a vós legado dos sonhos:
é vosso, não meu.

não merece a pena
que mancha o papel de espr'ança
quem cospe nas letras.

a turba é ignara,
mas não isenta do mal
se lhe basta o pão.

criais salvação
para um pecado mortal:
ser turba e feliz.

sexta-feira, maio 22, 2009

O que é uma calúnia?

Trecho da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Gioacchino Rossini

La calunnia è un venticello,
un'auretta assai gentile
che insensible, sottile,
leggermente, dolcemente,
incomincia a sussurrar.
Piano piano, terra terra,
sottovoce, sibilando,
va scorrendo, va ronzando;
nelle orechie della gente
s'introduce destramente,
e le teste ed i cervelli
fa storidre e fa gonfiar.
Dalla bocca fuori uscendo
lo schiamazzo va crescendo
prende forza a poco a poco,
vola già di loco in loco;
sembra il tuono, la tempesta
che nel sen della foresta
va fischiando, brontolando
a ti fa d'orror gelar.
Alla fin trabocca e scoppia,
si propaga, si raddoppia
e produce un'esplosione
come un colpe di cannone,
un tremuoto, un temporale,
un tumulto generale,
che fa l'aria rimbombar.
E il meschino calunniato,
avvilito, calpestato,
sotto il pubblico flagello
per gran sorte va a crepar.


[A calúnia é como um vento
uma brisa quase gentil
que insensível, sutil,
levemente, docemente,
começa a sussurrar.
Pouco a pouco, rastejando,
em voz baixa, sibilando,
vai correndo, vai zumbindo,
nos ouvidos da gente,
introduz-se astutamente,
e as cabeças e os cérebros
deixa aturdidos e incados.
Saindo da boca,
o rumor vai crescendo,
ganha força, pouco a pouco,
vai voando de um lugar a outro;
parece um trovão, uma tempestade
que do seio da floresta
vai assobiando, retumbando,
e faz você gelar de horror.
Por fim, transborda e arrebenta,
propaga-se e se multiplica,
produzindo uma explosão
como um tiro de canhão,
um terremoto, um temporal,
um tumulto geral,
que faz o ar retumbar.
E o infeliz, caluniado,
desprezado, esmagado,
sob o público flagelo,
achará que morrer é uma grande sorte.]
Trad.: Mariana Portas

sábado, maio 16, 2009

Rosa do Povo

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Carlos Drummond de Andrade

A rosa era feia
a rosa era suja
do asfalto nasceu.
Mas por ser rosa feia
mas por ser rosa suja
do asfalto nascida
foi a rosa que a rosa 
rosa flor do jardim
de beleza batida
cansada de versos
da velha poesia
há muito não fora.
Metafórica rosa
mais rosa que rosa
menos flor que poesia
da feia e da suja
da náusea surgida
como cinza das horas
da metáfora perdida.

A ideologia é morta

Poema ampliado, originalmente surgido como comentário a um post do Zen.

A ideologia
é morta, Fernando,
e eu não me conformo.

Parece não houve
vivalma em velório,
nem lenço, nem vela.

Vi-a ontem matreira,
cupida cupida,
frechando nos peitos;

e erguendo sonante
as vozes dos homens
nas praças e jaulas;

e, quem nos diria?,
o fogo botando
nos vãos sutiãs!

Mas hoje, Fernando,
É morta, é morta,
e eu não me conformo.

Ninguém não a chora
e há quem comemora
(um povo sisudo,

os puros de ternos,
das letras e números,
dos fins da história).

Mas conto pra ti,
se louco não sou,
que não acredito.

Está nos jornais,
se diz por aí,
mas não acredito.

Pois rostos eu vi
do pobre e mendigo,
do preso e vilão.

O lado era o outro
de tudo que vige,
do sim era o não.

Ou bem que ela vive,
ou bem que os fantasmas
que rondam Europa

chegaram aqui
e lá, cá e ali,
e a tudo que é canto,

e botam na gente
a pulga do ouvido
que insiste num canto

de que algo é errado
num mundo homogêneo
que por qualquer coisa

suspende os princípios
pro bem do figura,
pro mal do indigente.

Que é morta, Fernando,
aceitam os papéis,
a vida dissente.

Pois sim ela vive,
e já isso sabem
os que não a choram.

E os que comemoram
inventam verdades
pra ter no que crer.

domingo, maio 10, 2009

Soneto do ranzinza

De ser assim tão íntimo recuso
Dado que sou eu mesmo quando falso:
Ao dar-me ao mundo a cara em dolo alço
Por horas esculpida contra o abuso

Dos abraços, dos beijos - cadafalso
Do eu que a mim criei todo inconfuso.
Toda contradição é fruto d’uso
De se as rotas cruzar com pé descalço.

Pois que o outro me arranca o fundamento
Me enclausuro nas vestes de homem duro:
Não me conhecem, nem fico: sou vento.

Ou melhor, se tanto exijo para que um furo
Se em mim faça, sou pedra, sou cimento.
De muro tenho mais que de Epicuro.

sábado, maio 09, 2009

O ponto

das Dasein des Nichtdasein

Hegel


um ponto

na boca

- a minha

me lembra

a boca

- a tua:

começa

bem onde

termina

.

lembrar-te

é um punhal que rasga

em significados a tua a boca

naquele que termeça

ponto

terminas ali onde começas

e no ponto

em que o teu o gosto foi

deixado como índice da minha

da minha derrota

emerges toda como tempestade

deliciosa do que arfara peito

meu que nem meu este teu o tinha;

destituída de tua macia dureza

coisa tu havida

esse memorioso punhal rasga

um insentido gosto da boca

- a tua.


a tua
- a boca -
lembrada:
memória
erguida
dum nada
na boca
- a minha -

.

quarta-feira, abril 29, 2009

Teu rosto

Na
....mono mono
....mono córdia
.....................rua
De liriofluente
teu rosto colírico:
policolibrisante 
pluriflumenflorindo
....alvo salvo
....de tudo de tudo

de mim papalvo
....de mim estulto

sábado, abril 25, 2009

Era uma vez

Era uma vez um escritor irlandês. Tinha certa fama, quando encontrou uma dançarina americana. Dias após, esta lhe escreveu, aquele a carta leu. Sugeria a dançarina: "teu e meu, um filho, imaginas? De mim herda a beleza, de ti a cabeça." O escritor da idéia não gostou, e então de prima retrucou: "Bonita a eugenia, assim como imaginas. Mas vai que fura? De mim, a feiúra, e de ti a criança me vem burra!"*

* Não acredites, tu que lês, que de mim vem a história que vês. Originalidade aqui não há nunca: a história é real; ela é Isadora Duncan, ele é Bernard Shaw.

sexta-feira, abril 24, 2009

Mulheres de Wonka

Argumento: as mulheres da ilha de Lemnos, amaldiçoadas por deixarem de prestar homenagem a Afrodite, ao saber que seus maridos voltavam suas atenções às jovens trácias que capturaram, mataram-nos todos, com exceção do velho rei Toante, pai de Hipsípila, o qual foi por esta abandonado no mar. Vivendo sós e sem possibilidade de ter filhos entre elas, para salvar as gerações dormem com os nautas do barco Argos quando eles, indo à Cólquida para recuperar o velocino de ouro, atracam na ilha, a fim de engravidarem. Hipsípile dorme com Jasão, nascendo deles Euneu. Se hoje fosse, mulheres e convidariam uma a outra à própria alcova. Às novas gerações dedicariam os meios artificiais de concepção, e nenhum nauta seria mais necessário.


Ah, de Lemnos cruéis divas da ilha
Verteram sangue do homem infiel,
E acumulam na morta viril pilha
A mácula da máscula alma ao céu.

Ao futuro da ilha, por ciúmes,
Assim lhe compromete o hediondo ato;
Cairão as folhas d’árvores dos cumes
E nova geração não terá o mato.

Hipsípila obrigada a Jasão pede
O arrego e lho convida ao próprio leito;
Assim o resto também delas cede
E tem aos nautas outros em seu peito.

Ilha de Lemnos, salva pela alcova,
O leite estranho salva a vida interna;
Que filhos este encontro então promova
É certo, que Euneu após Lemnos governa.

Fosse hoje o arrego outro seria:
O homem morto, largado ou castrado,
O mal que fosse, qualquer, tanto faria;
Que vale o homem tanto quanto o gado.

Seja traída ou traia essa mulher,
Também importa pouco hoje em dia;
Mulher de tudo faz e tudo quer,
De Lemnos tem a força, a ousadia.

E mais ainda tem sob o seu pano,
A tez macia, o lábio mel... a bronca!
Traída? Decidida na Trajano
Outra mulher se a vê beijar no Wonka.

Ao futuro do mundo, por ciúmes,
Assim lhe compromete o divo ato?
Nunca, pois a ciência, novos lumes,
A nós homens prescreve um novo fato:

Essa inútil, vã raça: somos nada!
Elas a tudo tem, como a proveta;
E os filhos vêm a rodo da parada,
Sem precisar de nautas a...

quarta-feira, abril 22, 2009

A negatividade e a crítica a Heidegger

Se o espírito (Geist) é o negativo, isso significa que nunca é próprio do Dasein (ser-aí, ou, grosso modo, o homem), na medida em que o Dasein jamais pode reivindicá-lo como seu. Entretanto, isso que nunca pode ser próprio é o que constitui o Dasein, uma vez que o Dasein está nele - no espírito - abandonado à própria sorte, ou seja, nisso que não lhe pertence mas do que não pode subtrair-se. Este é o fundamento-negativo do Dasein, o ente fundado no nada. Heidegger critica a dialética hegeliana por, apesar de apontar tal negatividade, não se perguntar nem fundar dialeticamente o sentido do não. Heidegger também não o torna ontologicamente claro, mas se pergunta se é tão óbvio que o não esteja calcado apenas na privação da sua contraparte positiva. Presumo que ao se perguntar o sentido do não, Heidegger pode ter em mente justamente uma dialética de inspiração heraclitiana, segundo a qual o negativo não está fundado apenas na privação, mas também no fato de que, sendo não, é fundamento (irresponsável?) do Dasein. O Dasein é o seu não, pois o experimenta como não. A negatividade não é mera privação do seu termo positivo, mas o fato positivo de ser essa negação e assim fundamento da positividade. Explico: o que é sua negação, se não o tivesse por negação, positivar-se-ia, dando lugar a uma anulação ou uma indiferença da sua contraparte positiva, no que se fundamenta a não-pertinência. Assim é que o Dasein se constitui primeiramente pela sua negatividade imprópria - o espírito - e, caso supere a impessoalidade da falação decadente e assuma a responsabilidade pelo seu ser, pela sua negatividade própria - a morte.

Se compreendo a crítica que o Fernando Marcelino faz a Heidegger - e tenho que pôr aqui o 'se compreendo' porque esses meus amigos falam difícil! - devo concordar, mas como sempre em termos. Já existe uma justificação de Heidegger que virou frase feita mas que vale a pena citar: a sua filosofia não impeliu para (no caso da frase feita, o nazismo), mas também não o previniu de. Acredito que a crítica se fundamenta no fato de que Heidegger, a partir da negatividade da herança do estar-lançado do Dasein - ao que faço paralelo ao espírito de Hegel -, postula que o Dasein está entregue à responsabilidade do próprio ser, devendo abrir-se ao porvir e ao porvir mais próprio, a morte - a possibilidade da impossibilidade absoluta. Assim, jogado à própria responsabilidade, dependeria do Dasein, e só dele, fazer-se o que é. Parece-se ignorar, assim, a dimensão social de que depende para a emancipação e que a responsabilidade não se esgota no próprio ser, mas também no ser do outro. Ainda segundo creio, falta a Heidegger esse programa emancipador - o que não faltou a Marx - a fim de que o Dasein não esteja apenas jogado à própria sorte, mas também seja responsável pela herança do estar-lançado do outro, uma vez que sua(eu) ação/discurso tem potencial de influir no espírito. E assim, responsável pela herança do estar-lançado do outro, deve o Dasein que se abre à negatividade própria possibilitar que o outro também se abra à negatividade própria, emancipado.

Concordo sim, mas apenas no sentido de que Heidegger não explorou devidamente tais consequências - ou pelo menos não explicitamente. Em primeiro lugar, o filósofo não parece ter se proposto a realizar uma análise conteudística - ou materialista - de como se poderia obter a emancipação, em que estruturas se deveria mexer. Em segundo lugar, quando fala que o Dasein está-lançado e deve tomar a responsabilidade do próprio ser, é preciso lembrar que antes, ao descrever o ser-no-mundo, Heidegger coloca como existencial do Dasein o fato de que ele é-com-o-outro desde sempre - a negatividade do espírito é a maior prova disso, pois não pertence propriamente ao Dasein, mas ao Outro inidentificável. Ou seja, quando se fala que o Dasein deve ter responsabilidade pelo próprio ser, isso implica que deve ter responsabilidade pelo outro, pois ele não é para depois ser-com. Daí se pode concluir que a analítica existencial de Dasein impõe que este, ao assumir seu estar-lançado, deva preocupar-se com o estar-lançado do outro, de modo que haja as condições que possibilitem o abrir-se para o que lhe é mais próprio e autêntico, a morte.

Pois Heidegger mesmo diz, optando já pelo segundo modo positivo extremo do ser-com:

No tocante aos seus modos positivos, a preocupação possui duas possibilidades extremas. Ela pode, por assim dizer, retirar o 'cuidado' do outro e tomar-lhe o lugar nas ocupações, saltando para o seu lugar. Essa preocupação assume a ocupação que outro deve realizar. Este é deslocado de sua posição, retraindo-se, para posteriormente assumir a ocupação como algo disponível e já pronto, ou então dispensar-se totalmente dela. Nessa preocupação o outro pode tornar-se dependente e dominado mesmo que esse domínio seja silencioso e permaneça encoberto para o dominado. Essa preocupação substitutiva, que retira do outro o 'cuidado', determina a convivência recíproca em larga escala e, na maior parte das vezes, diz respeito à ocupação do manual.

Em contrapartida, subsiste ainda a possibilidade de uma preocupação que não tanto substitui o outro, mas que salta antecipando-se a ele em sua possibilidade existenciária de ser, não para lhe retirar o 'cuidado' e sim para devolvê-lo como tal. Essa preocupação que, em sua essência, diz respeito à cura propriamente dita, ou seja, à existência do outro e não a uma coisa de que se ocupa, ajuda o outro a tornar-se, em sua cura, transparente a si mesmo e livre para ela.

Ser e Tempo, §26

terça-feira, abril 21, 2009

A Morte de Lindóia

Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu, que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca co'a vista e teme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota e interna
Parte de antigo bosque, escuro e negro,
Onde ao pé de uma lapa cavernosa
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores.
Tinha a face na mãe e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto,
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia e cinge
Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse, no fugir, a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco e quis três vezes
Soltar o tiro e vacilou três vezes,
Entre a ira e o temor. Enfim, sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia e fere
A serpente na testa, e a boca, e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo co'a ligeira cauda
O irado monstro, e, em tortuosos giros,
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva no braço a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que, ao despertá-la
Conhece, com que dor!, no frio rosto
Os sinais do veneno e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.

Basílio da Gama, O Uraguai, IV, 140-186


Percebam o grau imagético de tal pintura: a lasciva morte por uma serpente, ao centro dum Éden, inoculando no seio de uma índia o remédio contra a melancolia que lhe impôs Amor. O pagão junta-se à serpente que desviou os homens do delicioso jardim da aurora dos tempos; a nudez marca o seio da bela e triste Lindóia com os dentes duma cobra, que após, máculas da perversão, lhe pinta com o negror de sangue e veneno; tudo isentado de culpa no pathos de Amor e na ignorância selvagem dos tapes dominados pelo temoribundo discurso dos jesuítas.
Quem souber fazê-lo, é um favor à literatura brasileira pintar a Lindóia.

sábado, abril 18, 2009

Bilhete aberto ao inventor do alarme de carro

Senhor Filhadaputa,

Sugiro que bote alarme na calcinha da sua mulher, seu corno. Custava inventar um timer praquela merda, ô infeliz?

Cordiais saudações,

Um insone.

quinta-feira, abril 16, 2009

Carolagens

Diz o ateu, em seu juízo,
o acompanha o iconoclasta:
mas que merda! - e com siso
manda à merda a gente casta.

Ao caralho o tal pudor!
Ao caralho aquele cristo!
A paixão, o perdão, o amor,
a virtude, o mais benquisto!

Mas pudor maior quem tem
de evitar o que é sagrado?
É moderno aquele quem,
a gritar despudorado,
a sagrada ordem desdém
por amor ao indeificado?

Medo tem de assim citar
a sagrada, a escritura;
de a beleza concordar
ter a santa escrita pura.

Por pudor é que assim agem,
sendo assim conservadores,
mais que os que à santa imagem
são os povos devedores.
--------//--------

Escrevi-o para dizer que é impossível, mesmo para o ateu bruto e convicto que adora atacar a tradição religiosa pelo embrutecimento do homem no passado e a subjugação do ignorante no presente, não sentir a beleza de versos como os que seguem. Atacá-los, os versos, pela estúpida devoção é coisa de iconoclastas estúpidos, que vem estupidez em toda forma de adoração, sendo estupidamente devotados ao ofício de maldizer o que é - cristianamente, e só o que é cristão parece ser assim estupidificável - sagrado. Está dentre as mais belas estrofes dos poucos sonetos que já li:

"A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados"
Gregório de Matos

quarta-feira, abril 15, 2009

À psique dai-me o pseudo epíteto

À psique dai-me o pseudo epíteto;
outros convindo dai também.
E saberei que este meu espírito
a vós tão pouco vos cai bem.

Por que será que isso se dá,
que em se me dando nomes tantos
mal tenho eu o meu, que cá
muitos a mim dais co'estes cantos?

Acaso falam vosso motivo
de ter em mim em conta vil,
e justo creio o vosso vivo
rancor que veio e desuniu.

Evitar não posso de mesa
vossa me esbaldar: sim as quero,
sim as tenho e, sim!, co'a beleza
delas homem sou, e homem vero.

Se por mesa tendes a elas,
as que eu tenho por tão mulheres,
justo é então que ao metê-las
tenha-as eu mais que já pudéreis.

E justo é que maldigais
de porco traia, inseto mau,
ou, se faltam-vos os animais,
de pseudointelectual.

terça-feira, abril 14, 2009

Era uma vez

Era uma vez um rei que a cada ano convidava um plebeu para passar o dia em seu castelo servindo-se de tudo que ali houvesse. Numa das oportunidades, o plebeu da vez recusou, por temer que, caso aceitasse o convite, a partir dali considerasse que os dias passados foram infaustos. O rei, benevolente, compreendeu. Mandou saquear-lhe a casa, matar-lhe os filhos e escravizar-lhe a esposa. Transformou-o em apátrida e o expulsou da cidade. Desde então, o homem jamais teve dúvidas de que seus dias até então foram realmente faustos.

sábado, abril 11, 2009

Em versos rápidos
sincero se inscreveu
Amor.

Porque a rejeitar
os não-me-toques
da pompa

esteve a desejar
seu corpo mais que
sua imagem;

seus lábios e seios
e o rabo-de-olho por
que olhava

mais que o virgem
belo enleio que a pre-
cedeu.

terça-feira, abril 07, 2009

Bartolomeu de Las Casas

Quando os espanhóis perguntavam aos índios se eram cristãos, o índio respondia: 'Sim, senhor, já sou um pouco cristão, pois já sei mentir um pouco; um dia saberei mentir muito e serei muito cristão'.


Refletindo, obviamente, o mito do bon sauvage, Las Casas não revela nada sobre os índios. Apenas sua situação marginalizada é que nos permite pensar que não havia mentira entre eles - é tolo pensar no índio como o homem bom. Não creio ser o caso. Como diz Todorov: "não podemos conceber uma linguagem sem a possibilidade da mentira, assim como não há palavra que ignore as metáforas. Mas uma sociedade pode favorecer, ou, ao contrário, desencorajar completamente toda palavra que, em vez de descrever fielmente as coisas preocupa-se principalmente com seu efeito, e desconsidera, pois, a dimensão da verdade". Las Casas revela, isso sim, algo sobre os cristãos e sobre a racionalidade renascentista: o cristão, ao aplicar a razão no lugar da tradição para justificar a crença, torna-se fluido, adapta-se às circunstâncias conforme as conveniências a fim de que Deus esteja, ao fim e ao cabo, na retaguarda de suas ações - a retórica do padre Vieira, na sua inigualável beleza com efeitos muito bem sucedidos, é um bom exemplo disso. Muito semelhante ao proceder político em que a verdade factual é o menos importante: fiat iustitia, et pereat mundus... Mundo, no caso, como habitação ou familiaridade do ser-aí, que no conflito, na assimetria com o outro (o espanhol contra o mexicano) significa aniquilação. Para não perecer o mundo, este mundo, esqueça-se a justiça, mas lembre-se de Deus. Sua graça suprema e verdade infinita nos fundamenta e legitima.

Cena Cinza

A cena é o finito do palco. Corta o horizonte trágico nas escadarias dos palácios de onde emanam as mortes dos nobres. A cena é o tempo: o atemporal que nos temporaliza, a nos impor a triste ou jubilosa condição da nossa finitude, a condição de que todos os estados de coisas – todos os sentidos – são efêmeros. A cena é o Hades.

A cena propõe o entendimento. A cena localiza. A cena é a lucidez do protagonista, sua pertinência, para onde convergem as ações e de onde parte o futuro. Sem cena, não há porvir; sem cena, o eterno é apatia, é tédio, o sempre-igual do sempiterno. A cena é o fim, como fim que interrompe o curso das coisas, mas também como fim que o curso das coisas deseja. A cena é o Céu.

No fim, o que foi são cinzas. Cinzas, escombros do passado que não tornará a ser, senão como fantasma eternamente recorrente na sua indefinível cor de cinzas, o cinza do espírito que se disfarça em nossas palavras e feições.

E se a cena é cinza? O fim do horizonte se camufla com passado e nos oferece nada. Melhor, oferece o nada, e não apenas nada. Eis que o passado com que se une é o nosso próprio, anunciando nossa futura finitude. O nada nos localiza: na corda sobre o abismo, oferta-nos inexorável e generosamente a reflexão. A cena cinza não dá repostas – tudo está cinza! –, obriga-nos a buscá-las antes que o nada concretize sua ameaça.

Porque estamos no horizonte demasiadamente aberto, perdemos os sentidos. A cena cinza perturbará, não porque nos colocará no nosso lugar, mas porque já estamos nele sem perceber. Ela espelha, mas não multiplica os homens.

domingo, abril 05, 2009

Brasil

...e Jerônimo abrasileirou-se.
Aluísio Azevedo

madeira de labareda:
vermelha rubra brasa
abrasado fogo da cumeeira
vermelha velha telha
do róseo sol que bruxuleia
ao rútilo mar da sexta-feira

domingo, março 29, 2009

A ontologia das classes

Devera, doce amigo, sim, devera
Regular os natais conforme os gênios.
Quem tivesse a virtude de fidalgo,
Nascesse de fidalgo e quem tivesse
Os vícios de vilão, nascesse embora,
Se devesse nascer, de algum lacaio,
Como as pombas, que geram fracas pombas,
Como os tigres, que geram tigres bravos.

Tomás Antônio Gonzaga, Cartas Chilenas, 1ª Carta, v. 214-221.



Aos atreides, de que o grão-lider dos gregos na guerra em Troia Agamêmnon faz parte, pesa uma maldição. A morte de Crisipo pelos seus meio-irmãos Atreu e Tiestes os fez dignos de uma sina: seu pai, Pélope, os expulsou da cidade de Olimpo, onde governava (donde a península chama-se Peloponeso). Desde então, a descendência de Atreu é fadada à maldição familiar (das quais a tragédia de Tiestes - que Sêneca, dentre outros, teatralizou - é a mais sorumbática), herdada até a purificação de Orestes no tribunal presidido por Atena. Quem retratou as tragédias de Agamêmnon, filho de Atreu, e de Orestes, filho de Agamêmnon, com mestria foi Ésquilo, para quem as maldições familiares são passadas de pai para filho.

Como se sabe, não só as maldições: reinos e stati políticos também eram herdados na Grécia Antiga. E não apenas naquele tempo, assim o foi por muitas outras épocas. De tal modo que o mito encontra seu duplo no cotidiano, em que outras formas de maldição se herdam. A isso deve-se que do escravo nascerá o servo, do estrangeiro o filho gentio. Tal era o estado de coisas que as viravoltas eram apenas lances do destino, acasos da fortuna, nunca um beneplácito do sistema vigente.

Destaquem-se cá os feudos, tempos nos quais o nobre nasce do nobre, o povo do povo; e entre eles havia um corredor de ascensão social representado pelo clero que, por sua vez, dividia-se em tão rígida hierarquia, de modo que ainda se podia separar um clero vilão dum mais luxuoso e privilegiado. Sempre com a loteria que perfaz a exceção e faz fulano migrar duma proutra ponta.

Essa é a ontologia das classes. São classes apriorísticas, às quais ao homem já é dado o pertencimento por direito divino, ou, digamos, pelo seu abandono ao mundo. Como os genes que determinam os fenótipos, o sangue carrega também o quinhão de mundo que é permitido ao que nasce: nada depende do homem em sua responsabilidade perante seu próprio ser, já que este ponto lhe é externo e se lhe impõe.

A marca de liberdade do capitalismo, que segue ao questionamento iluminista dessa herança das maldições, é a mobilidade social. É dizer, não existe, no nosso sistema, uma ontologia de classes entificadas. O nobre não é nobre por certidão de nascimento, mas por mérito, ao que corresponde que não há garantias de que este ou aquele pertencerá a esta ou aquela classe. Tudo está a depender do seu desempenho social. Finalmente o homem é senhor de sua história, é aquilo que faz.

Essa é uma espécie de sonho realizado, um sonho antes mitologizado pelo Padre Vieira, o mais brilhante orador e grande escultor da língua portuguesa. No conflito estabelecido entre uma sociedade de castas e o ideal cristão da igualdade de todo homem, Vieira precisou localizar um ponto em que o conflito se anula, mas não nesse mundo de imperfeições. Próximo à concepção de Lutero, a de que o homem salva-se mais pela sua ação que propriamente por sua fé ("o que fazeis, isso sois, nada mais"), Vieira deposita sua esperança na ressurreição do homem, em que ele será aquilo que fez em vida, e o sangue não mais lhe garantirá o direito.

Grandes cousas e lastimosamente grandes haverá que ver e considerar naquele acto da ressurreição universal! Mas entre todas as considerações a que me prece mais própria deste lugar e mais digna de sentimento, é esta. E quanta gente bem nascida se verá naquele dia mal ressuscitada! Entre a ressurreição natural e a sobrenatural há ma grande diferença: que na ressurreição natural cada um ressuscita como nasce; na ressurreição sobrenatural, cada um ressuscita como vive; na ressurreição natural nasce Pedro e ressuscita Pedro; na ressurreição sobrenatural nasce pescador, e ressuscita príncipe: sedebitis in regeneratione judicantes duodecim tribus Israel. Oh que grande consolação esta para aqueles a quem não alcançou a fortuna dos altos nascimentos! Bem me parecia a mim que não podia faltar Deus a dar uma grande satisfação no dia do juízo à desigualdade com que nascem os homens, sendo todos da mesma natureza. (Sermão da Primeira Dominga do Advento, de 1650)


Ah! Mas os iluministas não puderam com essa. Vencida a carolagem barroca, o ideal do Padre Vieira permanecia: mas agora por que não criar tal paraíso em terra, no chão duro em que pisamos? Afinal, a burguesia emergiu daquele sistema rígido, e representou uma ruptura sem precedentes: ela significava a vitória do mérito. Não se trata de uma novidade, os comerciantes sempre viram no comércio a burla para os stati políticos. Não chegavam à aristocracia, mas não se comparavm à ralé. Bastava então tornar o ideal burguês universal, et voilà!, a igualdade dos céus nivelou a terra.

Mas quantos dos que me leem, ao volver os olhos para as janelas de seus apartamentos, verão aquilo que disse? Quem aqui vê a bem-aventurança do favelado, a quem basta que trabalhe para chegar à elite? Levanta-se a hipótese de que são mais iguais os povos que foram bem-sucedidos nesse projeto. A isso se opõe o fato de que nada é viável em análises microlocalizadas num mundo cosmopolita - à Europa eu ofereço a África, à Manhattam o Brooklin. Alguém sempre paga o preço no capitalismo, e não é o trabalho ou suas ações que o salvam.

Bosi mostrou como o Padre Vieira considerava que o homem é o que é pelas ações. Quando disse João aos judeus "eu sou a voz que clama no deserto", o Padre Vieira destaca, no Sermão da Terceira Dominga do Advento, o verbo "clamar". O homem é o predicado verbal - a ação - que lhe particulariza, afinal a voz só é voz enquanto se clama. A isso soma-se o pior dos pecados para Vieira, os pecados de omissão, aos quais os governantes e os clérigos são mais suscetíveis, dada a sua maior responsabilidade. Diz Bosi: "O sermão, pregado aos nobres, insiste em dar prioridade ao fazer, e não à substância".

Será? Será que não importa o que diz essa voz no deserto? De que vale ser João a voz que balbucia, e não que articula? Dar prioridade ao fazer, sim, mas ao fazer o quê? Fazer é transitivo, não se basta. Bosi, na continuação do texto, aponta que o fazer está em contraposição ao especular. Sim, Vieira quer o fazer o bem (que, no seu caso, é mais mundano do que se pensa: ele está preocupado com o futuro econômico de Portugal), não meramente o especular o que é o bem.

É exatamente o que quer o capitalismo: faça, clame, mas clame em consonância com a minha voz. E qual é o melhor sistema coercitivo de que dispõe? Pois, olha só, a herança! As maldições, assim que desmascaradas nos setecentos, encontraram novos disfarces, e disfarces multifacetados. Pois que a mobilidade social que caracteriza o nosso tempo é um dos nossos mitos constitutivos. Acreditar nela nos faz bem, ajuda-nos a suportar a realidade. Mas a crença cai por terra quando se vê a criança parida no barraco: quem é o louco que diz que o trabalho a salvará? Como disse certa vez Horácio, a propósito da poesia, o poeta vai parir a montanha e vê nascer um camundongo ("parturient montes, nascetur ridiculus mus" - Ars Poetica, v. 139). Há promessa demais no nosso mito, que não sabe corresponder. Tal criança herda do pai a desgraça, o rosto estereotipado do bandido, a moda antiestética do operário, o linguajar sem letramento, enfim, o seu lugar no mundo.

Pois que o rico lega ao filho o que o filho não fez nem é, e que não precisará fazer para ser. O pobre lega fados, fados triplos, o de não ser o que fez, o de ser o que não é e, finalmente, o de não ser, pura e simplesmente. Como crer que não há ontologias de classes? E que não há direitos divinos de nobreza e de servilismo? Sim, temos nossos exemplos dos acasos da sorte, Lula é um deles (ainda assim com a pecha do ignorante beberrão eleito pela corja ignóbil); a própria ideia de país emergente nos diz a possibilidade de que um dia todos serão ricos. Mas basta que essa ideia insista em se concretizar que a realidade cai como bigorna em desenho animado: voltam as xenofobias - o europeu não aceita de volta os genes que espalharam no mundo -, as guerras de conquista, e os povos finalmente entendem que seu lugar no mundo já foi há muito decidido. Há gente que é turista; há gente que é ponto turístico; o cosmopolita multicultural tolerante se fascina com aquele que jamais verá no tapete de sua sala. Tudo por causa da certidão de nascimento, que define nossas maldições.

Talvez exagere para mostrar minhas razões. Sim, existe o mérito e o seu prêmio. O ponto é: antes dele temos milhares de condições pré-estabelecidas, ainda há que se esperar muito da sorte. Não temos uma medalhinha que o sorridente capital bota no peito dos homens; aliás, é apesar dele que os homens se fazem homens e não engrenagens de uma máquina. Contra nossas maldições, é preciso a boa vontade do deus, é preciso que Atena desça e purifique Orestes.

antiergo

I would prefer not to.
Bartleby, de Melville


é preciso sal
var-se é não pre
ciso siso pre
cisão não é ne
cessár(i)o trabalho

antiergo
ergo sum

o ócio, Catulo,
te Catulum fecit;
no ócio de ontem
ferimos as tábuas
para os milênios que vem.

quinta-feira, março 26, 2009

Câncer

Há 1 célula em mim que quer respirar e não pode.
Vinícius de Moraes


se te quero
ao vitupério
basta teu câncer nome

se te faço
clímax no baço
meu baço é bastante

se te metaforizo
inimigo ao riso
rebusco-te em que bastas

porque te bastas muito
té figuras consomes:
basta teu câncer nome

segunda-feira, março 23, 2009

Aula de história

paremos
aqui:
peri
gosa
mente
pertos

a cerca
nia se avi
zinha da
ave que aqui
se aninha

paremos:
provocada
a rapina do tempo
logo mais
cinzas das horas
devassado o que
não compreendemos
ultrapassados
do ouvido ao olvido
e então não
passado seremos

quinta-feira, março 12, 2009

Os índios (!!)

A língua deste gentio toda pela Costa é uma: carece de três letras - não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.

Pero Magalhães Gândavo - Tratado da Terra do Brasil (séc. XVI)

A pergunta do Véio: mas isso é bom ou é ruim?

sábado, março 07, 2009

A morte de Hylas

Tirado do Livro I dos Argonautas, de Apolônio de Rodes. Uma das mais belas pinturas poéticas que já li. Tradução do século XIX - na mesma ortografia de então - de José Maria da Costa e Silva.
Os nautas estão em terra, em Cyanea, onde ceiam. Hércules (chamado também no poema de Alcides - Alcides Hércules) saiu em busca de uma árvore para fazer seu remo; e Hylas de uma fonte para misturar ao vinho água e então presenteá-lo a Hércules.

Hylas a fonte deparou que chamam
O manancial as comvisinhas Gentes,
Que fosse o acaso permittiu no tempo
Das choreas das Nymphas, porque todas
Que habitam junto da nascente amavel
Tinham por uso celebrar Diana
Com cantares noctisonos, aquellas
A quem coubera o pincaro dos montes,
A quem grutas, ou bosques, de mui longe
Por ordem alli vem. Da fonte ha pouco
Pulchi-fluente tinha a Nympha sua
Ephydotea a cabeça alçado, e víra
Perto o mancebo, que brilhava ornado
De bellesa sem par, e amaveis graças.
Porque então plena a Lua, a luz em cheio
Sobre elle derramou; Venus da Nympha
O espirito amentou, que de conselho,
A custo, falta, o animo recobra.
Tanto porém que curvi-obliquo o Moço
Lançou á fonte a urna, e nella entrando
A agoa murmura no sonoro bronze,
A Nympha co'sinistro braço* cerca
O nivio cólo co'a avidez d'um beijo
Sobre os dois labios lhe imprimir; co'a dextra
Lhe aferra o braço, e o submergiu na fonte.



*Braço esquerdo. O significado remoto, no latim, de "sinister" é "esquerda(o)" ("sinistra" sendo "mão esquerda"), assim também, portanto, num português mais arcaico ou num uso arcaizante da língua. O sentido da palavra que temos hoje - monstruoso, assustador - creio que deve ter vindo da oposição ao lado direito ("dexter"), que acabou tendo o sentido d'"o que é certo".

sexta-feira, março 06, 2009

Horácio e o ser-para-a-morte

debemur morti nos nostraque.
Horácio - De Arte Poetica - v. 63

[Devemos à morte, nós e nossas coisas. Ou: "Somos um haver da morte, nós e nossas coisas." - na feliz tradução de Jaime Bruna]


.................................................O beati Sesti,
uitae summa breuis spem nos uetat inchoare longam.
Horácio, Ode I, 4, v. 14-15

[Ó feliz Séstio, a vida tão breve nos proíbe empreender uma longa esperança. Ou, na tradução de Bento Prado de Almeida Ferraz:
Ó feliz Séstio, esta vida
breve não nos promete uma esperança
longa.]

sábado, fevereiro 28, 2009

Juó Bananére

Juó Bananére é o pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado, poeta da época premodernista que conviveu com os imigrantes italianos que vieram morar em São Paulo, nos bairros do Bom Retiro, do Brás e do Bexiga.

Escreveu poemas no dialeto dos imigrantes, parodiando grandes autores da época - como Olavo Bilac e Machado de Assis - além do futurismo de Marinetti e até Edgar Allan Poe. Seu único livro chama-se La Divina Increnca, em referência a Dante.

Me apresentou o Juó o Chrysantho, ao que parece de notícias havidas de João Rosa. O poeta é uma pérola, a quem até o Otto Maria Carpeaux dedicou um estudo. O Juó foi, em 1912, a escolha de Annibale Scipione (nada menos que Oswald de Andrade, que mais tarde demitiu Juó porque Andrade era amigo de Olavo Bilac (!), que Bananére parodiava) para substituí-lo no hebdomadário O Pirralho. Scipione também escrevera no dialeto macarrônico, porém Juó inovou mesmo, em relação ao antecessor, nas suas paródias poéticas, com versos com bom ritmo e rimados, sem, no entanto, o endeusamento dos versos nobres e da linguagem esotérica de que se utilizavam os parnasianos. Aliás, é justamente na questão da linguagem que se centra toda a poética bananeriana: o macarrônico impõe a comicidade, não há efeito sério que se possa, na primeira aproximação ao poema, extrair dos seus textos. O melhor exemplo é a paródia d'O Corvo, de Allan Poe. O poema do americano tem toda uma estrutura montada para o efeito sombrio que percorre o poema, além do tema sorumbático que emerge da morte e da imagem negra do corvo. Em Bananére, tudo se resolve no corriqueiro, e ao efeito cômico do macarrônico soma-se a alusão a Poe, que quebra as expectativas taciturnas quando o poeta recebe o gorvo expansivamente, tendo nele reconhecido seu amigo Raule. O nevermore de Poe é o da irreversibilidade da morte; o nunga maise de Bananère é o da vergonha, raiva ou decepção do gorvo!

Segue o poema que parodia Allan Poe:

O Gorvo
P'ru Raule

A NOTTE stava sombria,
I tenia a ventania,
Chi assuprava nu terrêro
Come o folli du ferrêro.

Io estava c'un brutto medó
Lá dentro du migno saló,
Quano a gianella si abri
I non s'imagine o ch'io vi!

Un brutto gorvo chi entrô,
I mesimo na gabeza mi assentô!
I disposa di pensá un pochigno,
Mi dissi di vagarigno:

_ Come vá sô giurnaliste?
Vucê apparece chi stá triste?
_ Nos signore, sô dottore...
Io stô c'un medo do signore

_ Non tegna medo, Bananére,
Che io non sô disordiére!
_ Poise intó desça di lá
I vamos acunversá.

Ma assí che illo descê
I p'ra gara delli io ogliê
O Raule ariconecí,
I disse p'ra elli assí:

- Boa noute Raule, come vá!
Intó vuce come stá?
Vendosi adiscobrido o rapaise,
Abatê as aza, avuô, i disse: nunga maise!

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Rimer

Por Ambrose Bierce

The rimer quenches his unheeded fires,
The sound surceases and the sense expires.
Then the domestic dog, to east and west,
Expounds the passions burning in his breast.
The rising moon o'er that enchanted land
Pauses to hear and yearns to understand.

Rimador
Tradução minha

Sacia o rimador seu fogo oculto,
Suspende-se o som, o sentido é vulto.
O cachorrinho então a tudo canta,
De seu peito a paixão a voz levanta.
Sobre a terra encantada a flutuar,
Pra entender, para pra ouvir o luar.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Rei primevo

Plebeus, que vos envergonhais do nome,
Porque sem honrarias o carregais;
Plebeus, por quem morro quando carcome
A praga a lavoura que cultivais;

Plebeus, os primeiros que mata a fome
Se nos faltam chuvas torrenciais;
Se da planta não tirais o que se come,
Se morrem nos campos os animais.

Plebeus, não invejais minha distinção!
Sou rei, súditos sois: qual privilégio
Tenho, se todo mal é crime régio?

Sois isentos de toda imputação!
A desdita fortuita é falta minha.
Devo morrer, pois culpa, só eu a tinha!

tradição

hoje leio cinquenta páginas de Heráclito
de quem dez não restaram
hoje tenho nos dedos a Bíblia
que é as colunas de uma biblioteca imensa
o nome da voz no deserto era João
que a tantos Joões designa
e Homero que somente a um chama
é o poeta de toda a poesia

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Versos estoicos e neoestoicos

Enriqueces; e daí? Quando morreres, a riqueza por acaso
te seguirá ao te arrastarem para o túmulo?
No juntá-la gastaste o teu tempo de vida; não poderias
pagar por ela preço mais exorbitante.


Paladas de Alexandria (séc. IV a.C.)

Si no temo perder lo que poseo,
ni deseo tener lo que no gozo,
poco de la Fortuna en mí el destrozo
valdrá, cuando me elija actor o reo.

Ya su familia reformó el deseo;
no palidez al susto, o risa al gozo
le debe de mi edad el postrer trozo,
ni anhelar a la Parca su rodeo.

Sólo ya el no querer es lo que quiero;
prendas de la alma son las prendas mías;
cobre el puesto la muerte, y el dinero.

A las promesas miro como a espías;
morir al paso de la edad espero:
pues me trajeron, llévenme los días.


Francisco de Quevedo (séc. XVI/XVII d.C.)


Quem por desgraça se casou com mulher feia
vê o escuro da noite quando acende as lâmpadas.


Paladas de Alexandria

Muy discretas y muy feas,
mala cara y buen lenguaje,
pidan cátedra y no coche,
tengan oyente y no amante.
No las den sino atención,
por más que pidan y parlen,
y las joyas y el dinero,
para las tontas se guarde.
Al que sabia y fea busca,
el Señor se la depare:
a malos conceptos muera,
malos equívocos pase.
Aunque a su lado la tenga,
y aunque más favor alcance,
un catedrático goza,
y a Pitágoras en carnes.
Muy docta lujuria tiene,
muy sabios pecados hace,
gran cosa será de ver
cuando a Platón requebrare.
En vez de una cara hermosa,
una noche, y una tarde,
¿qué gustos darán a un hombre
dos cláusulas elegantes?
¿Qué gracia puede tener
mujer con fondos de fraile,
que de sermones y chismes,
sus razonamientos hace?
Quien deja lindas por necias,
y busca feas que hablen,
por sabias, como las zorras,
por simples deje las aves.
Filósofos amarillos
con barbas de colegiales,
o duende dama pretenda,
que se escuche, no ose halle.
Échese luego a dormir
entre bártulos y abades,
y amanecerá abrazado
de Zenón y de Cleantes.
Que yo para mi traer,
en tanto que argumentaren
los cultos con sus arpías,
algo buscaré que palpe.


Francisco de Quevedo

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Pela poesia

Perguntei outro dia: poesia para quê? Se for para dar ao mundo covardes e tiranos, de que serve?

Quem concorda com a pergunta, que já traz em si a resposta de que não serve para nada, e ainda é prejudicial, é porque não refletiu muito sobre covardes e tiranos. Postula-se desde sempre que é melhor não contar com covardes e tiranos, mas tal posição – que é a posição mais cômoda de se tomar – é a de quem à face de um covarde é um tirano, e à vista de um tirano é covarde.

Não se pode negar que tiranos erigiram monumentos históricos que definiram nossos rumos, e muito menos que monumentos da espécie não nos admirem. Tiranos são expressões individuais de uma consciência de época: eles não emergem do nada e contra todos. Pelo contrário, há uma corresponsabilidade de todos na sua existência. Não temo em dizer que existe hoje um tirano no mundo de que não desconfiamos, porque compactuamos com sua tirania – e isso subtrai ao nosso juízo o a possibilidade de julgá-la como tirania. Pode-se tratar de uma totalidade que com mais ou menos violência se impôs acima de suas negações ou pode-se tratar desta ou daquela pessoa, ou o que seja. Tal afirmação posso fazer com pouca pugna, entretanto nomear o tirano é mais difícil, pois também sou produto do nosso tempo.

Com a eventual objeção de que no meu texto anterior citei nomes, identifiquei tiranias com este ou aquele, concordo, pois tratava especificamente da poesia e do poeta, como tratarei novamente mais adiante. Chamar uma totalidade, uma conjuntura, um estado de coisas de tirania seria outra coisa? É outra coisa, com efeito, mas o ponto específico da argumentação do parágrafo anterior permanece intacto: a diferença entre um e outro não é da natureza da totalidade, mas apenas que este ou aquele estado político de coisas (a totalidade) se pode identificar com um nome, enquanto outros são mais impessoais. O nazismo não é Hitler: é um povo, um espaço e uma época inteiros. Aliás, nem alemão o nazismo é, toda a Europa - diz-nos isso, por exemplo, o caso Dreyfus na França, ou, na ficção, Leopold Bloom em Dublin - era xenófoba à época (e é hoje): seu horror com o holocausto é o horror de quem se olhou no espelho e, assustado com o que viu, quebrou o espelho. Nem o helenismo é Alexandre, nem a cruz é César, nem a inquisição é o papa, nem a democracia liberal é... quem? E aí está a nossa covardia perante o tirano: a esquerda, por exemplo, prefere simplesmente negar Stálin, e muitas vezes o próprio comunismo, e assim nega que um tirano tal tenha emergido dela. O fato é que Stálin é filho do marxismo, direta ou indiretamente, mesmo que por vias bastante oblíquas; quando a esquerda o nega nega a própria responsabilidade de evitar novos Gulags. A direita admite aos poucos discursos como os ambientais: mas tem coragem de admitir que desenvolvimento e meio ambiente são inconciliáveis, ou que a fome na África e a aniquilação indígena americana se dá sob sua bênção? Você que me lê também nega a violência que há por trás da democracia liberal na condição de discurso total: você é um covarde.

Por outro lado, frente ao covarde somos tirânicos. Porque não se pode admitir a força da palavra recolhida na sua própria discrição: há que se exigir a ação. Porque frente a tudo uma posição tem que ser tomada, e na hora que se a pede. Por que o medo da teoria e das reflexões e da boa poesia? Sempre há o discurso de que aquele que porventura defende o comunismo tem que aceitar dividir o próprio quarto, abster-se do consumo, pegar em armas e destituir governos. Destituir para quê, se nem sabe contra o que se deve lutar – e correr o risco de matar em nome do mesmo espírito que vige? A vantagem do covarde é que não caminha sobre os terrenos seguros da certeza do homem de ação. O covarde é pessimista: sabe que deve desconfiar dos consensos. O covarde é otimista: sabe que deve confiar no estudo e no ouvir o silêncio das coisas. Mas se exigirá dele, e quem o fará será o tirano que no parágrafo anterior era o covarde, que fale quando o silêncio é pertinente, que aja quando não há nenhuma articulação possível para ações. Para o covarde, o homem sozinho não pode agir, porque a articulação dos homens - no plural - é uma necessidade. Mas a articulação recolhe em si a potência da manipulação de massas: e assim o covarde se suspende sobre o abismo da incerteza – a sua covardia aos nossos olhos. Há a guerra e há a paz, e o covarde sabe que elas não se negam: interdependem-se, sua diferença harmoniza-se consigo mesma, e ele hesita sempre no conflito – Aquiles é heroi que vence Heitor, é heroi que perde Pátroclo.

E que isso vem a calhar à poesia? Por tudo que se fez constar, sabe-se que a poesia não faz de ninguém melhor. Porque desde há muito ela se desvinculou de qualquer necessidade pedagógica – ao contrário, por exemplo, dos poemas de Homero, elevados à sacralidade pelos gregos até que Arquíloco e sua lira a contestasse com nova totalidade, e então que Heráclito tirasse a voz dos deuses e das musas dos versos e neles identificasse o puramente humano: na poesia, na boa poesia, há o não-dito, o silêncio, as impossibilidades, a covardia, o conflito – o tirânico e seu contrário, sim e não. Por fim Platão, ao expulsar os poetas de sua República, não os expulsa, mas expulsa quem deles diz portarem a criação; a palavra é palavra na incompletude, por isso é sempre simulacro das coisas de seu céu ideal, resguarda sempre recessos de sombra. “Instituída em lugar do ausente, quem a toleraria na clara presença do que se declara?”, diz Donaldo Schüler.

Palavras não criam nada. Palavras não fazem de ninguém melhor. Diversamente pensam os cabalistas: no princípio era o Verbo. Deus cria com fórmulas verbais: fiat lux! - declara – e eis a luz. Na Torá tudo que existe está dito, o que revela que a linguagem tem natureza divina e pode dizer tudo. Interpretar a Torá é enveredar por um texto absoluto que encerra em si todas as coisas do mundo. O Golem nasce de fórmulas verbais de homens que aprenderam a dominar a criação, ou parte dela. A luz existe porque existe a palavra luz. Este seria o domínio dos poetas? O de criar, e fazer brotar da palavra a coisa, e não aquela desta? Se é, a poesia é perigosa. Toda letra na história da criação tem sua razão de ser, toda ela manifesta a natureza da divindade, e sua combinação é divina. A criação advém de tal articulação: mudá-la é criar monstros, aniquilar o tempo, inverter os espaços. O poeta tem uma arma na poesia: manejá-la é destruir o mundo. E quem pode nos garantir que a tristeza não seja obra dos poetas covardes? E a fome dos tiranos, os maus poetas? Escrevi certa vez, tentando imitar o estilo bíblico: “Eis que ao homem da terra só é dado escrever a Revelação que o anjo do Senhor inspira, jamais alguém poderá dominar a Criação.Vós, portanto, que com a tinta da vossas penas crieis mundos e homens novos em vossos papeis, sois indignos hoje, e abalados são os caminhos que vossos pés pisam pela ira do Senhor, Deus dos exércitos”.

Assim, além de não fazer de ninguém melhor, a poesia ainda pode modificar o projeto de Deus para o mundo, e é claro que sempre para pior, pois o poeta não pode ser perfeito. Ou seja, qualquer resposta que se dê tentando justificar a poesia contra a dúvida do seu para quê, ela será insuficiente. Como defendê-la, contra toda a evidência de que ela realmente não serve para nada?

A poesia não serve para nada, e pour si muove! Existe, apesar de tudo. E talvez existirá ainda, e talvez seja eterna. Se a poesia sobrevive ao seu para-quê e impõe-se contra toda acusação de sua inutilidade, é porque a pergunta em si precisa se justificar. Para que para-quês? Hannah Arendt perguntou uma vez: “a que é útil a utilidade?”, ou “de que serve a serventia?”. A poesia, portanto, serve para pôr em cheque a própria necessidade de justificar-se, ou ainda, fará com que nunca essa necessidade se satisfaça, para que o para-quê seja eterno. E com isso consegue nos colocar no abismo da incerteza, do desassossego, do conflito, ou nos angustia a tomar posições, a agir. Torna-nos cientes da nossa própria covardia frente ao já-sempre-sabido, e eventualmente nos impele a sermos tirânicos e fazer emergir uma nova totalidade, ou assumir explicitamente os nossos princípios silenciados. A poesia, seja na sua timidez, na sua discrição, ou na pobreza de sua grandiloquência, impõe-nos perguntas. Uns acham que as respondem, outros as multiplicam.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Guerra antiga. Guerra nova.

É a guerra. E é a paz do mau augúrio,
que brotará no fim, quando esquecido
dessa memória injusta o corpo ido
do guerreiro que morre em campo fúrio.

Talvez não fosse, fosse o poeta lido,
o que dá ao morto a glória no perjúrio
ao fim brotada em paz de tempo espúrio
que assim se engana até novo conflito.

Mas fosse ao menos guerra... É a chacina.
É a paz que jamais brota, que mal veio,
é um homem a morrer e um que extermina.

E é sem rosto a cair no morticínio
e é sem nome a matar no bombardeio.
Sem poeta que canta no extermínio.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Kaspar Hauser

Gaspar Hauser
Por Murilo Mendes

Ninguém mais pode escolher
A vida que lhe apetece.
Ninguém mais pode ser só:
As almas são reveladas
À luz de mil holofotes.

Em torno de mim se agita
Uma conspiração de olhares.
Vou tomar a carruagem,
Comunicam ao mundo inteiro.
Cheiro uma rosa - explodiu.
Só tive consolo e paz
No ventre de minha mãe.

A quinta-coluna que existe
Desde o princípio do tempo
Não me deixa respirar.
Sou sempre triste, no escuro.

Adeus universo padrasto,
Que rejeitas o inocente,
O órfão, o pobre, o nu.
Não acho irmandade em ninguém:
Morrendo, sou livre enfim.

Canção de Kasparhauser
Por Georg Trakl. Tradução de Cláudia Cavalcante.

Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo,
Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro
E a alegria do verde.

Sisuda era sua morada à sombra da árvore
E puro o seu rosto.
Deus disse ao seu coração uma doce chama:
Homem!

Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite;
O lamento sombrio de sua boca:
Quero tomar-me cavaleiro.

Seguiram-no porém arbusto e animal,
Casa e jardim crepuscular de gente branca,
E procurava-o seu assassino.

Primavera, verão e belo o outono
Do justo, seu passo leve
Pelos quartos escuros de sonhadores.
À noite ficava sozinho com sua estrela;

Viu que nevava em galhos nus,
E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa.

Prateada, tombou a cabeça do não-nascido.

O enigma de Kaspar Hauser
Sinopse. Filme dirigido por Werner Herzog.

Kaspar Hauser é um jovem que foi trancado a vida inteira num cativeiro, desconhecendo toda a existência exterior. Quando ele é solto nas ruas sem motivo aparente, a sociedade se organiza para ajudar Kaspar, que sequer conseguia falar ou andar, mas este logo acaba se tornando uma atração popular. Baseado em uma história real.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Ao acordar

a noite que não
existia existiu

Rio sem discurso

Por João Cabral de Melo Neto. Um poema heraclitiano.

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água quebra-se em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O discurso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a sede ele combate.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Meu lirismo de funcionário

Certa vez, o bonde andando já há muito, disseram que leram essa coisa blog desde o primeiro texto. Outra vez, comentaram que gostavam muito de minhas crônicas. Houve tempos em que machuquei pessoas - minhas palavras infelizes.

Desde então tenho uma fantasia ideológica, daquelas que nos moldam e nos constitui, de que haverá sempre quem me leia. E talvez por isso tenho sido tão verborrágico. Mas se isso não for verdade, também não é providencial que me desenganem, pelo menos para que algo exista.

Sei da enorme falha que sou como gente - eu que sinto cumplicidade com a covardia de que falei outro dia. Mas também não me desminto nem me desculpo, e já anuncio: haverá um tempo, muito tempo depois de ter desistido dessas coisas, em que eu voltarei para ler todo grande erro aqui escrito (e uns poucos acertos). Nesse tempo, terei ao menos vocês para culpar!

Afinal, isto é um reduto de palavras órfãs que não assumirei.

The two trees

Por William Butler Yeats, poeta irlandês

Beloved, gaze in thine own heart,
The holy tree is growing there;
From joy the holy branches start,
And all the trembling flowers they bear.
The changing colours of its fruit
Have dowered the stars with merry light;
The surety of its hidden root
Has planted quiet in the night;
The shaking of its leafy head
Has given the waves their melody,
And made my lips and music wed,
Murmuring a wizard song for thee.
There the Loves a circle go,
The flaming circle of our days,
Gyring, spiring to and fro
In those great ignorant leafy ways;
Remembering all that shaken hair
And how the wingèd sandals dart,
Thine eyes grow full of tender care:
Beloved, gaze in thine own heart.

Gaze no more in the bitter glass
The demons, with their subtle guile,
Lift up before us when they pass,
Or only gaze a little while;
For there a fatal image grows
That the stormy night receives,
Roots half hidden under snows,
Broken boughs and blackened leaves.
For all things turn to barrenness
In the dim glass the demons hold,
The glass of outer weariness,
Made when God slept in times of old.
There, through the broken branches, go
The ravens of unresting thought;
Flying, crying, to and fro,
Cruel claw and hungry throat,
Or else they stand and sniff the wind,
And shake their ragged wings; alas!
Thy tender eyes grow all unkind:
Gaze no more in the bitter glass.

[Vê em teu coração, amada,/Ali a sagrada árvore cresce;/Da alegria brotam os ramos sagrados,/E todas as flores tremulantes que eles portam./As cores cambiantes de suas frutas/
Legaram às estrelas a espirituosa luz/A fortaleza de sua raiz oculta/Quieta na noite se plantou;/A vibração de sua copa de folhas/Deu às ondas sua melodia,/E casou meus lábios à música,/A murmurar a ti uma canção mágica./À sua volta os Amores fazem um círculo,/Os ardentes círculos de nossos dias,/Girando, rodando, pra frente e pra trás/Naqueles grandes caminhos de folhas ignorados/Lembrando aqueles cabelos tremulantes./E como as sandálias aladas se lançam,/Teus olhos crescem cheios de ternura:/Vê em teu coração, amada.///Não vejas mais na amara lente/Os demônios, com seus hábeis ardis,/Levantam-se ante nós quando passam,/Ou vê apenas por um breve momento;/Para isso, uma imagem mortal se faz/Que recebe a noite tempestuosa,/Raízes meio ocultas sob a neve,/Galhos quebrados e folhas enegrecidas./Porque tudo se torna ermo/Nos vidros trevosos que os demônios seguram,/O vidro de uma moda alienígena,/Feitos quando Deus dormia nos remotos tempos/Lá, pelos ramos quebrados, vão/Os corvos de alma incansável;/Voando, chorando, pra frente e pra trás,/Garra cruel e garganta faminta,/Ou então eles param e inspiram o vento,/E balouçam suas rotas asas, que pena!/Teus olhos ternos se enchem de maldade:/Não vejas mais na amara lente.]