sábado, maio 09, 2009

O ponto

das Dasein des Nichtdasein

Hegel


um ponto

na boca

- a minha –

me lembra

a boca

- a tua:

começa

bem onde

termina

.

lembrar-te

é um punhal que rasga

em significados a tua a boca

naquele que termeça

ponto

terminas ali onde começas

e no ponto

em que o teu o gosto foi

deixado como índice da minha

da minha derrota

emerges toda como tempestade

deliciosa do que arfara peito

meu que nem meu este teu o tinha;

destituída de tua macia dureza

coisa tu havida

esse memorioso punhal rasga

um insentido gosto da boca

- a tua.


a tua
- a boca -
lembrada:
memória
erguida
dum nada
na boca
- a minha -

.

quarta-feira, abril 29, 2009

Teu rosto

Na
....mono mono
....mono córdia
.....................rua
De liriofluente
teu rosto colírico:
policolibrisante 
pluriflumenflorindo
....alvo salvo
....de tudo de tudo

de mim papalvo
....de mim estulto

sábado, abril 25, 2009

Era uma vez

Era uma vez um escritor irlandês. Tinha certa fama, quando encontrou uma dançarina americana. Dias após, esta lhe escreveu, aquele a carta leu. Sugeria a dançarina: "teu e meu, um filho, imaginas? De mim herda a beleza, de ti a cabeça." O escritor da idéia não gostou, e então de prima retrucou: "Bonita a eugenia, assim como imaginas. Mas vai que fura? De mim, a feiúra, e de ti a criança me vem burra!"*

* Não acredites, tu que lês, que de mim vem a história que vês. Originalidade aqui não há nunca: a história é real; ela é Isadora Duncan, ele é Bernard Shaw.

sexta-feira, abril 24, 2009

Mulheres de Wonka

Argumento: as mulheres da ilha de Lemnos, amaldiçoadas por deixarem de prestar homenagem a Afrodite, ao saber que seus maridos voltavam suas atenções às jovens trácias que capturaram, mataram-nos todos, com exceção do velho rei Toante, pai de Hipsípila, o qual foi por esta abandonado no mar. Vivendo sós e sem possibilidade de ter filhos entre elas, para salvar as gerações dormem com os nautas do barco Argos quando eles, indo à Cólquida para recuperar o velocino de ouro, atracam na ilha, a fim de engravidarem. Hipsípile dorme com Jasão, nascendo deles Euneu. Se hoje fosse, mulheres e convidariam uma a outra à própria alcova. Às novas gerações dedicariam os meios artificiais de concepção, e nenhum nauta seria mais necessário.


Ah, de Lemnos cruéis divas da ilha
Verteram sangue do homem infiel,
E acumulam na morta viril pilha
A mácula da máscula alma ao céu.

Ao futuro da ilha, por ciúmes,
Assim lhe compromete o hediondo ato;
Cairão as folhas d’árvores dos cumes
E nova geração não terá o mato.

Hipsípila obrigada a Jasão pede
O arrego e lho convida ao próprio leito;
Assim o resto também delas cede
E tem aos nautas outros em seu peito.

Ilha de Lemnos, salva pela alcova,
O leite estranho salva a vida interna;
Que filhos este encontro então promova
É certo, que Euneu após Lemnos governa.

Fosse hoje o arrego outro seria:
O homem morto, largado ou castrado,
O mal que fosse, qualquer, tanto faria;
Que vale o homem tanto quanto o gado.

Seja traída ou traia essa mulher,
Também importa pouco hoje em dia;
Mulher de tudo faz e tudo quer,
De Lemnos tem a força, a ousadia.

E mais ainda tem sob o seu pano,
A tez macia, o lábio mel... a bronca!
Traída? Decidida na Trajano
Outra mulher se a vê beijar no Wonka.

Ao futuro do mundo, por ciúmes,
Assim lhe compromete o divo ato?
Nunca, pois a ciência, novos lumes,
A nós homens prescreve um novo fato:

Essa inútil, vã raça: somos nada!
Elas a tudo tem, como a proveta;
E os filhos vêm a rodo da parada,
Sem precisar de nautas a...

quarta-feira, abril 22, 2009

A negatividade e a crítica a Heidegger

Se o espírito (Geist) é o negativo, isso significa que nunca é próprio do Dasein (ser-aí, ou, grosso modo, o homem), na medida em que o Dasein jamais pode reivindicá-lo como seu. Entretanto, isso que nunca pode ser próprio é o que constitui o Dasein, uma vez que o Dasein está nele - no espírito - abandonado à própria sorte, ou seja, nisso que não lhe pertence mas do que não pode subtrair-se. Este é o fundamento-negativo do Dasein, o ente fundado no nada. Heidegger critica a dialética hegeliana por, apesar de apontar tal negatividade, não se perguntar nem fundar dialeticamente o sentido do não. Heidegger também não o torna ontologicamente claro, mas se pergunta se é tão óbvio que o não esteja calcado apenas na privação da sua contraparte positiva. Presumo que ao se perguntar o sentido do não, Heidegger pode ter em mente justamente uma dialética de inspiração heraclitiana, segundo a qual o negativo não está fundado apenas na privação, mas também no fato de que, sendo não, é fundamento (irresponsável?) do Dasein. O Dasein é o seu não, pois o experimenta como não. A negatividade não é mera privação do seu termo positivo, mas o fato positivo de ser essa negação e assim fundamento da positividade. Explico: o que é sua negação, se não o tivesse por negação, positivar-se-ia, dando lugar a uma anulação ou uma indiferença da sua contraparte positiva, no que se fundamenta a não-pertinência. Assim é que o Dasein se constitui primeiramente pela sua negatividade imprópria - o espírito - e, caso supere a impessoalidade da falação decadente e assuma a responsabilidade pelo seu ser, pela sua negatividade própria - a morte.

Se compreendo a crítica que o Fernando Marcelino faz a Heidegger - e tenho que pôr aqui o 'se compreendo' porque esses meus amigos falam difícil! - devo concordar, mas como sempre em termos. Já existe uma justificação de Heidegger que virou frase feita mas que vale a pena citar: a sua filosofia não impeliu para (no caso da frase feita, o nazismo), mas também não o previniu de. Acredito que a crítica se fundamenta no fato de que Heidegger, a partir da negatividade da herança do estar-lançado do Dasein - ao que faço paralelo ao espírito de Hegel -, postula que o Dasein está entregue à responsabilidade do próprio ser, devendo abrir-se ao porvir e ao porvir mais próprio, a morte - a possibilidade da impossibilidade absoluta. Assim, jogado à própria responsabilidade, dependeria do Dasein, e só dele, fazer-se o que é. Parece-se ignorar, assim, a dimensão social de que depende para a emancipação e que a responsabilidade não se esgota no próprio ser, mas também no ser do outro. Ainda segundo creio, falta a Heidegger esse programa emancipador - o que não faltou a Marx - a fim de que o Dasein não esteja apenas jogado à própria sorte, mas também seja responsável pela herança do estar-lançado do outro, uma vez que sua(eu) ação/discurso tem potencial de influir no espírito. E assim, responsável pela herança do estar-lançado do outro, deve o Dasein que se abre à negatividade própria possibilitar que o outro também se abra à negatividade própria, emancipado.

Concordo sim, mas apenas no sentido de que Heidegger não explorou devidamente tais consequências - ou pelo menos não explicitamente. Em primeiro lugar, o filósofo não parece ter se proposto a realizar uma análise conteudística - ou materialista - de como se poderia obter a emancipação, em que estruturas se deveria mexer. Em segundo lugar, quando fala que o Dasein está-lançado e deve tomar a responsabilidade do próprio ser, é preciso lembrar que antes, ao descrever o ser-no-mundo, Heidegger coloca como existencial do Dasein o fato de que ele é-com-o-outro desde sempre - a negatividade do espírito é a maior prova disso, pois não pertence propriamente ao Dasein, mas ao Outro inidentificável. Ou seja, quando se fala que o Dasein deve ter responsabilidade pelo próprio ser, isso implica que deve ter responsabilidade pelo outro, pois ele não é para depois ser-com. Daí se pode concluir que a analítica existencial de Dasein impõe que este, ao assumir seu estar-lançado, deva preocupar-se com o estar-lançado do outro, de modo que haja as condições que possibilitem o abrir-se para o que lhe é mais próprio e autêntico, a morte.

Pois Heidegger mesmo diz, optando já pelo segundo modo positivo extremo do ser-com:

No tocante aos seus modos positivos, a preocupação possui duas possibilidades extremas. Ela pode, por assim dizer, retirar o 'cuidado' do outro e tomar-lhe o lugar nas ocupações, saltando para o seu lugar. Essa preocupação assume a ocupação que outro deve realizar. Este é deslocado de sua posição, retraindo-se, para posteriormente assumir a ocupação como algo disponível e já pronto, ou então dispensar-se totalmente dela. Nessa preocupação o outro pode tornar-se dependente e dominado mesmo que esse domínio seja silencioso e permaneça encoberto para o dominado. Essa preocupação substitutiva, que retira do outro o 'cuidado', determina a convivência recíproca em larga escala e, na maior parte das vezes, diz respeito à ocupação do manual.

Em contrapartida, subsiste ainda a possibilidade de uma preocupação que não tanto substitui o outro, mas que salta antecipando-se a ele em sua possibilidade existenciária de ser, não para lhe retirar o 'cuidado' e sim para devolvê-lo como tal. Essa preocupação que, em sua essência, diz respeito à cura propriamente dita, ou seja, à existência do outro e não a uma coisa de que se ocupa, ajuda o outro a tornar-se, em sua cura, transparente a si mesmo e livre para ela.

Ser e Tempo, §26

terça-feira, abril 21, 2009

A Morte de Lindóia

Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu, que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca co'a vista e teme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota e interna
Parte de antigo bosque, escuro e negro,
Onde ao pé de uma lapa cavernosa
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores.
Tinha a face na mãe e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto,
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia e cinge
Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse, no fugir, a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco e quis três vezes
Soltar o tiro e vacilou três vezes,
Entre a ira e o temor. Enfim, sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia e fere
A serpente na testa, e a boca, e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo co'a ligeira cauda
O irado monstro, e, em tortuosos giros,
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva no braço a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que, ao despertá-la
Conhece, com que dor!, no frio rosto
Os sinais do veneno e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.

Basílio da Gama, O Uraguai, IV, 140-186


Percebam o grau imagético de tal pintura: a lasciva morte por uma serpente, ao centro dum Éden, inoculando no seio de uma índia o remédio contra a melancolia que lhe impôs Amor. O pagão junta-se à serpente que desviou os homens do delicioso jardim da aurora dos tempos; a nudez marca o seio da bela e triste Lindóia com os dentes duma cobra, que após, máculas da perversão, lhe pinta com o negror de sangue e veneno; tudo isentado de culpa no pathos de Amor e na ignorância selvagem dos tapes dominados pelo temoribundo discurso dos jesuítas.
Quem souber fazê-lo, é um favor à literatura brasileira pintar a Lindóia.

sábado, abril 18, 2009

Bilhete aberto ao inventor do alarme de carro

Senhor Filhadaputa,

Sugiro que bote alarme na calcinha da sua mulher, seu corno. Custava inventar um timer praquela merda, ô infeliz?

Cordiais saudações,

Um insone.

quinta-feira, abril 16, 2009

Carolagens

Diz o ateu, em seu juízo,
o acompanha o iconoclasta:
mas que merda! - e com siso
manda à merda a gente casta.

Ao caralho o tal pudor!
Ao caralho aquele cristo!
A paixão, o perdão, o amor,
a virtude, o mais benquisto!

Mas pudor maior quem tem
de evitar o que é sagrado?
É moderno aquele quem,
a gritar despudorado,
a sagrada ordem desdém
por amor ao indeificado?

Medo tem de assim citar
a sagrada, a escritura;
de a beleza concordar
ter a santa escrita pura.

Por pudor é que assim agem,
sendo assim conservadores,
mais que os que à santa imagem
são os povos devedores.
--------//--------

Escrevi-o para dizer que é impossível, mesmo para o ateu bruto e convicto que adora atacar a tradição religiosa pelo embrutecimento do homem no passado e a subjugação do ignorante no presente, não sentir a beleza de versos como os que seguem. Atacá-los, os versos, pela estúpida devoção é coisa de iconoclastas estúpidos, que vem estupidez em toda forma de adoração, sendo estupidamente devotados ao ofício de maldizer o que é - cristianamente, e só o que é cristão parece ser assim estupidificável - sagrado. Está dentre as mais belas estrofes dos poucos sonetos que já li:

"A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados"
Gregório de Matos

quarta-feira, abril 15, 2009

À psique dai-me o pseudo epíteto

À psique dai-me o pseudo epíteto;
outros convindo dai também.
E saberei que este meu espírito
a vós tão pouco vos cai bem.

Por que será que isso se dá,
que em se me dando nomes tantos
mal tenho eu o meu, que cá
muitos a mim dais co'estes cantos?

Acaso falam vosso motivo
de ter em mim em conta vil,
e justo creio o vosso vivo
rancor que veio e desuniu.

Evitar não posso de mesa
vossa me esbaldar: sim as quero,
sim as tenho e, sim!, co'a beleza
delas homem sou, e homem vero.

Se por mesa tendes a elas,
as que eu tenho por tão mulheres,
justo é então que ao metê-las
tenha-as eu mais que já pudéreis.

E justo é que maldigais
de porco traia, inseto mau,
ou, se faltam-vos os animais,
de pseudointelectual.

terça-feira, abril 14, 2009

Era uma vez

Era uma vez um rei que a cada ano convidava um plebeu para passar o dia em seu castelo servindo-se de tudo que ali houvesse. Numa das oportunidades, o plebeu da vez recusou, por temer que, caso aceitasse o convite, a partir dali considerasse que os dias passados foram infaustos. O rei, benevolente, compreendeu. Mandou saquear-lhe a casa, matar-lhe os filhos e escravizar-lhe a esposa. Transformou-o em apátrida e o expulsou da cidade. Desde então, o homem jamais teve dúvidas de que seus dias até então foram realmente faustos.

sábado, abril 11, 2009

Em versos rápidos
sincero se inscreveu
Amor.

Porque a rejeitar
os não-me-toques
da pompa

esteve a desejar
seu corpo mais que
sua imagem;

seus lábios e seios
e o rabo-de-olho por
que olhava

mais que o virgem
belo enleio que a pre-
cedeu.

terça-feira, abril 07, 2009

Bartolomeu de Las Casas

Quando os espanhóis perguntavam aos índios se eram cristãos, o índio respondia: 'Sim, senhor, já sou um pouco cristão, pois já sei mentir um pouco; um dia saberei mentir muito e serei muito cristão'.


Refletindo, obviamente, o mito do bon sauvage, Las Casas não revela nada sobre os índios. Apenas sua situação marginalizada é que nos permite pensar que não havia mentira entre eles - é tolo pensar no índio como o homem bom. Não creio ser o caso. Como diz Todorov: "não podemos conceber uma linguagem sem a possibilidade da mentira, assim como não há palavra que ignore as metáforas. Mas uma sociedade pode favorecer, ou, ao contrário, desencorajar completamente toda palavra que, em vez de descrever fielmente as coisas preocupa-se principalmente com seu efeito, e desconsidera, pois, a dimensão da verdade". Las Casas revela, isso sim, algo sobre os cristãos e sobre a racionalidade renascentista: o cristão, ao aplicar a razão no lugar da tradição para justificar a crença, torna-se fluido, adapta-se às circunstâncias conforme as conveniências a fim de que Deus esteja, ao fim e ao cabo, na retaguarda de suas ações - a retórica do padre Vieira, na sua inigualável beleza com efeitos muito bem sucedidos, é um bom exemplo disso. Muito semelhante ao proceder político em que a verdade factual é o menos importante: fiat iustitia, et pereat mundus... Mundo, no caso, como habitação ou familiaridade do ser-aí, que no conflito, na assimetria com o outro (o espanhol contra o mexicano) significa aniquilação. Para não perecer o mundo, este mundo, esqueça-se a justiça, mas lembre-se de Deus. Sua graça suprema e verdade infinita nos fundamenta e legitima.

Cena Cinza

A cena é o finito do palco. Corta o horizonte trágico nas escadarias dos palácios de onde emanam as mortes dos nobres. A cena é o tempo: o atemporal que nos temporaliza, a nos impor a triste ou jubilosa condição da nossa finitude, a condição de que todos os estados de coisas – todos os sentidos – são efêmeros. A cena é o Hades.

A cena propõe o entendimento. A cena localiza. A cena é a lucidez do protagonista, sua pertinência, para onde convergem as ações e de onde parte o futuro. Sem cena, não há porvir; sem cena, o eterno é apatia, é tédio, o sempre-igual do sempiterno. A cena é o fim, como fim que interrompe o curso das coisas, mas também como fim que o curso das coisas deseja. A cena é o Céu.

No fim, o que foi são cinzas. Cinzas, escombros do passado que não tornará a ser, senão como fantasma eternamente recorrente na sua indefinível cor de cinzas, o cinza do espírito que se disfarça em nossas palavras e feições.

E se a cena é cinza? O fim do horizonte se camufla com passado e nos oferece nada. Melhor, oferece o nada, e não apenas nada. Eis que o passado com que se une é o nosso próprio, anunciando nossa futura finitude. O nada nos localiza: na corda sobre o abismo, oferta-nos inexorável e generosamente a reflexão. A cena cinza não dá repostas – tudo está cinza! –, obriga-nos a buscá-las antes que o nada concretize sua ameaça.

Porque estamos no horizonte demasiadamente aberto, perdemos os sentidos. A cena cinza perturbará, não porque nos colocará no nosso lugar, mas porque já estamos nele sem perceber. Ela espelha, mas não multiplica os homens.

domingo, abril 05, 2009

Brasil

...e Jerônimo abrasileirou-se.
Aluísio Azevedo

madeira de labareda:
vermelha rubra brasa
abrasado fogo da cumeeira
vermelha velha telha
do róseo sol que bruxuleia
ao rútilo mar da sexta-feira

domingo, março 29, 2009

A ontologia das classes

Devera, doce amigo, sim, devera
Regular os natais conforme os gênios.
Quem tivesse a virtude de fidalgo,
Nascesse de fidalgo e quem tivesse
Os vícios de vilão, nascesse embora,
Se devesse nascer, de algum lacaio,
Como as pombas, que geram fracas pombas,
Como os tigres, que geram tigres bravos.

Tomás Antônio Gonzaga, Cartas Chilenas, 1ª Carta, v. 214-221.



Aos atreides, de que o grão-lider dos gregos na guerra em Troia Agamêmnon faz parte, pesa uma maldição. A morte de Crisipo pelos seus meio-irmãos Atreu e Tiestes os fez dignos de uma sina: seu pai, Pélope, os expulsou da cidade de Olimpo, onde governava (donde a península chama-se Peloponeso). Desde então, a descendência de Atreu é fadada à maldição familiar (das quais a tragédia de Tiestes - que Sêneca, dentre outros, teatralizou - é a mais sorumbática), herdada até a purificação de Orestes no tribunal presidido por Atena. Quem retratou as tragédias de Agamêmnon, filho de Atreu, e de Orestes, filho de Agamêmnon, com mestria foi Ésquilo, para quem as maldições familiares são passadas de pai para filho.

Como se sabe, não só as maldições: reinos e stati políticos também eram herdados na Grécia Antiga. E não apenas naquele tempo, assim o foi por muitas outras épocas. De tal modo que o mito encontra seu duplo no cotidiano, em que outras formas de maldição se herdam. A isso deve-se que do escravo nascerá o servo, do estrangeiro o filho gentio. Tal era o estado de coisas que as viravoltas eram apenas lances do destino, acasos da fortuna, nunca um beneplácito do sistema vigente.

Destaquem-se cá os feudos, tempos nos quais o nobre nasce do nobre, o povo do povo; e entre eles havia um corredor de ascensão social representado pelo clero que, por sua vez, dividia-se em tão rígida hierarquia, de modo que ainda se podia separar um clero vilão dum mais luxuoso e privilegiado. Sempre com a loteria que perfaz a exceção e faz fulano migrar duma proutra ponta.

Essa é a ontologia das classes. São classes apriorísticas, às quais ao homem já é dado o pertencimento por direito divino, ou, digamos, pelo seu abandono ao mundo. Como os genes que determinam os fenótipos, o sangue carrega também o quinhão de mundo que é permitido ao que nasce: nada depende do homem em sua responsabilidade perante seu próprio ser, já que este ponto lhe é externo e se lhe impõe.

A marca de liberdade do capitalismo, que segue ao questionamento iluminista dessa herança das maldições, é a mobilidade social. É dizer, não existe, no nosso sistema, uma ontologia de classes entificadas. O nobre não é nobre por certidão de nascimento, mas por mérito, ao que corresponde que não há garantias de que este ou aquele pertencerá a esta ou aquela classe. Tudo está a depender do seu desempenho social. Finalmente o homem é senhor de sua história, é aquilo que faz.

Essa é uma espécie de sonho realizado, um sonho antes mitologizado pelo Padre Vieira, o mais brilhante orador e grande escultor da língua portuguesa. No conflito estabelecido entre uma sociedade de castas e o ideal cristão da igualdade de todo homem, Vieira precisou localizar um ponto em que o conflito se anula, mas não nesse mundo de imperfeições. Próximo à concepção de Lutero, a de que o homem salva-se mais pela sua ação que propriamente por sua fé ("o que fazeis, isso sois, nada mais"), Vieira deposita sua esperança na ressurreição do homem, em que ele será aquilo que fez em vida, e o sangue não mais lhe garantirá o direito.

Grandes cousas e lastimosamente grandes haverá que ver e considerar naquele acto da ressurreição universal! Mas entre todas as considerações a que me prece mais própria deste lugar e mais digna de sentimento, é esta. E quanta gente bem nascida se verá naquele dia mal ressuscitada! Entre a ressurreição natural e a sobrenatural há ma grande diferença: que na ressurreição natural cada um ressuscita como nasce; na ressurreição sobrenatural, cada um ressuscita como vive; na ressurreição natural nasce Pedro e ressuscita Pedro; na ressurreição sobrenatural nasce pescador, e ressuscita príncipe: sedebitis in regeneratione judicantes duodecim tribus Israel. Oh que grande consolação esta para aqueles a quem não alcançou a fortuna dos altos nascimentos! Bem me parecia a mim que não podia faltar Deus a dar uma grande satisfação no dia do juízo à desigualdade com que nascem os homens, sendo todos da mesma natureza. (Sermão da Primeira Dominga do Advento, de 1650)


Ah! Mas os iluministas não puderam com essa. Vencida a carolagem barroca, o ideal do Padre Vieira permanecia: mas agora por que não criar tal paraíso em terra, no chão duro em que pisamos? Afinal, a burguesia emergiu daquele sistema rígido, e representou uma ruptura sem precedentes: ela significava a vitória do mérito. Não se trata de uma novidade, os comerciantes sempre viram no comércio a burla para os stati políticos. Não chegavam à aristocracia, mas não se comparavm à ralé. Bastava então tornar o ideal burguês universal, et voilà!, a igualdade dos céus nivelou a terra.

Mas quantos dos que me leem, ao volver os olhos para as janelas de seus apartamentos, verão aquilo que disse? Quem aqui vê a bem-aventurança do favelado, a quem basta que trabalhe para chegar à elite? Levanta-se a hipótese de que são mais iguais os povos que foram bem-sucedidos nesse projeto. A isso se opõe o fato de que nada é viável em análises microlocalizadas num mundo cosmopolita - à Europa eu ofereço a África, à Manhattam o Brooklin. Alguém sempre paga o preço no capitalismo, e não é o trabalho ou suas ações que o salvam.

Bosi mostrou como o Padre Vieira considerava que o homem é o que é pelas ações. Quando disse João aos judeus "eu sou a voz que clama no deserto", o Padre Vieira destaca, no Sermão da Terceira Dominga do Advento, o verbo "clamar". O homem é o predicado verbal - a ação - que lhe particulariza, afinal a voz só é voz enquanto se clama. A isso soma-se o pior dos pecados para Vieira, os pecados de omissão, aos quais os governantes e os clérigos são mais suscetíveis, dada a sua maior responsabilidade. Diz Bosi: "O sermão, pregado aos nobres, insiste em dar prioridade ao fazer, e não à substância".

Será? Será que não importa o que diz essa voz no deserto? De que vale ser João a voz que balbucia, e não que articula? Dar prioridade ao fazer, sim, mas ao fazer o quê? Fazer é transitivo, não se basta. Bosi, na continuação do texto, aponta que o fazer está em contraposição ao especular. Sim, Vieira quer o fazer o bem (que, no seu caso, é mais mundano do que se pensa: ele está preocupado com o futuro econômico de Portugal), não meramente o especular o que é o bem.

É exatamente o que quer o capitalismo: faça, clame, mas clame em consonância com a minha voz. E qual é o melhor sistema coercitivo de que dispõe? Pois, olha só, a herança! As maldições, assim que desmascaradas nos setecentos, encontraram novos disfarces, e disfarces multifacetados. Pois que a mobilidade social que caracteriza o nosso tempo é um dos nossos mitos constitutivos. Acreditar nela nos faz bem, ajuda-nos a suportar a realidade. Mas a crença cai por terra quando se vê a criança parida no barraco: quem é o louco que diz que o trabalho a salvará? Como disse certa vez Horácio, a propósito da poesia, o poeta vai parir a montanha e vê nascer um camundongo ("parturient montes, nascetur ridiculus mus" - Ars Poetica, v. 139). Há promessa demais no nosso mito, que não sabe corresponder. Tal criança herda do pai a desgraça, o rosto estereotipado do bandido, a moda antiestética do operário, o linguajar sem letramento, enfim, o seu lugar no mundo.

Pois que o rico lega ao filho o que o filho não fez nem é, e que não precisará fazer para ser. O pobre lega fados, fados triplos, o de não ser o que fez, o de ser o que não é e, finalmente, o de não ser, pura e simplesmente. Como crer que não há ontologias de classes? E que não há direitos divinos de nobreza e de servilismo? Sim, temos nossos exemplos dos acasos da sorte, Lula é um deles (ainda assim com a pecha do ignorante beberrão eleito pela corja ignóbil); a própria ideia de país emergente nos diz a possibilidade de que um dia todos serão ricos. Mas basta que essa ideia insista em se concretizar que a realidade cai como bigorna em desenho animado: voltam as xenofobias - o europeu não aceita de volta os genes que espalharam no mundo -, as guerras de conquista, e os povos finalmente entendem que seu lugar no mundo já foi há muito decidido. Há gente que é turista; há gente que é ponto turístico; o cosmopolita multicultural tolerante se fascina com aquele que jamais verá no tapete de sua sala. Tudo por causa da certidão de nascimento, que define nossas maldições.

Talvez exagere para mostrar minhas razões. Sim, existe o mérito e o seu prêmio. O ponto é: antes dele temos milhares de condições pré-estabelecidas, ainda há que se esperar muito da sorte. Não temos uma medalhinha que o sorridente capital bota no peito dos homens; aliás, é apesar dele que os homens se fazem homens e não engrenagens de uma máquina. Contra nossas maldições, é preciso a boa vontade do deus, é preciso que Atena desça e purifique Orestes.

antiergo

I would prefer not to.
Bartleby, de Melville


é preciso sal
var-se é não pre
ciso siso pre
cisão não é ne
cessár(i)o trabalho

antiergo
ergo sum

o ócio, Catulo,
te Catulum fecit;
no ócio de ontem
ferimos as tábuas
para os milênios que vem.

quinta-feira, março 26, 2009

Câncer

Há 1 célula em mim que quer respirar e não pode.
Vinícius de Moraes


se te quero
ao vitupério
basta teu câncer nome

se te faço
clímax no baço
meu baço é bastante

se te metaforizo
inimigo ao riso
rebusco-te em que bastas

porque te bastas muito
té figuras consomes:
basta teu câncer nome

segunda-feira, março 23, 2009

Aula de história

paremos
aqui:
peri
gosa
mente
pertos

a cerca
nia se avi
zinha da
ave que aqui
se aninha

paremos:
provocada
a rapina do tempo
logo mais
cinzas das horas
devassado o que
não compreendemos
ultrapassados
do ouvido ao olvido
e então não
passado seremos

quinta-feira, março 12, 2009

Os índios (!!)

A língua deste gentio toda pela Costa é uma: carece de três letras - não se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.

Pero Magalhães Gândavo - Tratado da Terra do Brasil (séc. XVI)

A pergunta do Véio: mas isso é bom ou é ruim?

sábado, março 07, 2009

A morte de Hylas

Tirado do Livro I dos Argonautas, de Apolônio de Rodes. Uma das mais belas pinturas poéticas que já li. Tradução do século XIX - na mesma ortografia de então - de José Maria da Costa e Silva.
Os nautas estão em terra, em Cyanea, onde ceiam. Hércules (chamado também no poema de Alcides - Alcides Hércules) saiu em busca de uma árvore para fazer seu remo; e Hylas de uma fonte para misturar ao vinho água e então presenteá-lo a Hércules.

Hylas a fonte deparou que chamam
O manancial as comvisinhas Gentes,
Que fosse o acaso permittiu no tempo
Das choreas das Nymphas, porque todas
Que habitam junto da nascente amavel
Tinham por uso celebrar Diana
Com cantares noctisonos, aquellas
A quem coubera o pincaro dos montes,
A quem grutas, ou bosques, de mui longe
Por ordem alli vem. Da fonte ha pouco
Pulchi-fluente tinha a Nympha sua
Ephydotea a cabeça alçado, e víra
Perto o mancebo, que brilhava ornado
De bellesa sem par, e amaveis graças.
Porque então plena a Lua, a luz em cheio
Sobre elle derramou; Venus da Nympha
O espirito amentou, que de conselho,
A custo, falta, o animo recobra.
Tanto porém que curvi-obliquo o Moço
Lançou á fonte a urna, e nella entrando
A agoa murmura no sonoro bronze,
A Nympha co'sinistro braço* cerca
O nivio cólo co'a avidez d'um beijo
Sobre os dois labios lhe imprimir; co'a dextra
Lhe aferra o braço, e o submergiu na fonte.



*Braço esquerdo. O significado remoto, no latim, de "sinister" é "esquerda(o)" ("sinistra" sendo "mão esquerda"), assim também, portanto, num português mais arcaico ou num uso arcaizante da língua. O sentido da palavra que temos hoje - monstruoso, assustador - creio que deve ter vindo da oposição ao lado direito ("dexter"), que acabou tendo o sentido d'"o que é certo".

sexta-feira, março 06, 2009

Horácio e o ser-para-a-morte

debemur morti nos nostraque.
Horácio - De Arte Poetica - v. 63

[Devemos à morte, nós e nossas coisas. Ou: "Somos um haver da morte, nós e nossas coisas." - na feliz tradução de Jaime Bruna]


.................................................O beati Sesti,
uitae summa breuis spem nos uetat inchoare longam.
Horácio, Ode I, 4, v. 14-15

[Ó feliz Séstio, a vida tão breve nos proíbe empreender uma longa esperança. Ou, na tradução de Bento Prado de Almeida Ferraz:
Ó feliz Séstio, esta vida
breve não nos promete uma esperança
longa.]

sábado, fevereiro 28, 2009

Juó Bananére

Juó Bananére é o pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado, poeta da época premodernista que conviveu com os imigrantes italianos que vieram morar em São Paulo, nos bairros do Bom Retiro, do Brás e do Bexiga.

Escreveu poemas no dialeto dos imigrantes, parodiando grandes autores da época - como Olavo Bilac e Machado de Assis - além do futurismo de Marinetti e até Edgar Allan Poe. Seu único livro chama-se La Divina Increnca, em referência a Dante.

Me apresentou o Juó o Chrysantho, ao que parece de notícias havidas de João Rosa. O poeta é uma pérola, a quem até o Otto Maria Carpeaux dedicou um estudo. O Juó foi, em 1912, a escolha de Annibale Scipione (nada menos que Oswald de Andrade, que mais tarde demitiu Juó porque Andrade era amigo de Olavo Bilac (!), que Bananére parodiava) para substituí-lo no hebdomadário O Pirralho. Scipione também escrevera no dialeto macarrônico, porém Juó inovou mesmo, em relação ao antecessor, nas suas paródias poéticas, com versos com bom ritmo e rimados, sem, no entanto, o endeusamento dos versos nobres e da linguagem esotérica de que se utilizavam os parnasianos. Aliás, é justamente na questão da linguagem que se centra toda a poética bananeriana: o macarrônico impõe a comicidade, não há efeito sério que se possa, na primeira aproximação ao poema, extrair dos seus textos. O melhor exemplo é a paródia d'O Corvo, de Allan Poe. O poema do americano tem toda uma estrutura montada para o efeito sombrio que percorre o poema, além do tema sorumbático que emerge da morte e da imagem negra do corvo. Em Bananére, tudo se resolve no corriqueiro, e ao efeito cômico do macarrônico soma-se a alusão a Poe, que quebra as expectativas taciturnas quando o poeta recebe o gorvo expansivamente, tendo nele reconhecido seu amigo Raule. O nevermore de Poe é o da irreversibilidade da morte; o nunga maise de Bananère é o da vergonha, raiva ou decepção do gorvo!

Segue o poema que parodia Allan Poe:

O Gorvo
P'ru Raule

A NOTTE stava sombria,
I tenia a ventania,
Chi assuprava nu terrêro
Come o folli du ferrêro.

Io estava c'un brutto medó
Lá dentro du migno saló,
Quano a gianella si abri
I non s'imagine o ch'io vi!

Un brutto gorvo chi entrô,
I mesimo na gabeza mi assentô!
I disposa di pensá un pochigno,
Mi dissi di vagarigno:

_ Come vá sô giurnaliste?
Vucê apparece chi stá triste?
_ Nos signore, sô dottore...
Io stô c'un medo do signore

_ Non tegna medo, Bananére,
Che io non sô disordiére!
_ Poise intó desça di lá
I vamos acunversá.

Ma assí che illo descê
I p'ra gara delli io ogliê
O Raule ariconecí,
I disse p'ra elli assí:

- Boa noute Raule, come vá!
Intó vuce come stá?
Vendosi adiscobrido o rapaise,
Abatê as aza, avuô, i disse: nunga maise!

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Rimer

Por Ambrose Bierce

The rimer quenches his unheeded fires,
The sound surceases and the sense expires.
Then the domestic dog, to east and west,
Expounds the passions burning in his breast.
The rising moon o'er that enchanted land
Pauses to hear and yearns to understand.

Rimador
Tradução minha

Sacia o rimador seu fogo oculto,
Suspende-se o som, o sentido é vulto.
O cachorrinho então a tudo canta,
De seu peito a paixão a voz levanta.
Sobre a terra encantada a flutuar,
Pra entender, para pra ouvir o luar.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Rei primevo

Plebeus, que vos envergonhais do nome,
Porque sem honrarias o carregais;
Plebeus, por quem morro quando carcome
A praga a lavoura que cultivais;

Plebeus, os primeiros que mata a fome
Se nos faltam chuvas torrenciais;
Se da planta não tirais o que se come,
Se morrem nos campos os animais.

Plebeus, não invejais minha distinção!
Sou rei, súditos sois: qual privilégio
Tenho, se todo mal é crime régio?

Sois isentos de toda imputação!
A desdita fortuita é falta minha.
Devo morrer, pois culpa, só eu a tinha!

tradição

hoje leio cinquenta páginas de Heráclito
de quem dez não restaram
hoje tenho nos dedos a Bíblia
que é as colunas de uma biblioteca imensa
o nome da voz no deserto era João
que a tantos Joões designa
e Homero que somente a um chama
é o poeta de toda a poesia

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Versos estoicos e neoestoicos

Enriqueces; e daí? Quando morreres, a riqueza por acaso
te seguirá ao te arrastarem para o túmulo?
No juntá-la gastaste o teu tempo de vida; não poderias
pagar por ela preço mais exorbitante.


Paladas de Alexandria (séc. IV a.C.)

Si no temo perder lo que poseo,
ni deseo tener lo que no gozo,
poco de la Fortuna en mí el destrozo
valdrá, cuando me elija actor o reo.

Ya su familia reformó el deseo;
no palidez al susto, o risa al gozo
le debe de mi edad el postrer trozo,
ni anhelar a la Parca su rodeo.

Sólo ya el no querer es lo que quiero;
prendas de la alma son las prendas mías;
cobre el puesto la muerte, y el dinero.

A las promesas miro como a espías;
morir al paso de la edad espero:
pues me trajeron, llévenme los días.


Francisco de Quevedo (séc. XVI/XVII d.C.)


Quem por desgraça se casou com mulher feia
vê o escuro da noite quando acende as lâmpadas.


Paladas de Alexandria

Muy discretas y muy feas,
mala cara y buen lenguaje,
pidan cátedra y no coche,
tengan oyente y no amante.
No las den sino atención,
por más que pidan y parlen,
y las joyas y el dinero,
para las tontas se guarde.
Al que sabia y fea busca,
el Señor se la depare:
a malos conceptos muera,
malos equívocos pase.
Aunque a su lado la tenga,
y aunque más favor alcance,
un catedrático goza,
y a Pitágoras en carnes.
Muy docta lujuria tiene,
muy sabios pecados hace,
gran cosa será de ver
cuando a Platón requebrare.
En vez de una cara hermosa,
una noche, y una tarde,
¿qué gustos darán a un hombre
dos cláusulas elegantes?
¿Qué gracia puede tener
mujer con fondos de fraile,
que de sermones y chismes,
sus razonamientos hace?
Quien deja lindas por necias,
y busca feas que hablen,
por sabias, como las zorras,
por simples deje las aves.
Filósofos amarillos
con barbas de colegiales,
o duende dama pretenda,
que se escuche, no ose halle.
Échese luego a dormir
entre bártulos y abades,
y amanecerá abrazado
de Zenón y de Cleantes.
Que yo para mi traer,
en tanto que argumentaren
los cultos con sus arpías,
algo buscaré que palpe.


Francisco de Quevedo

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Pela poesia

Perguntei outro dia: poesia para quê? Se for para dar ao mundo covardes e tiranos, de que serve?

Quem concorda com a pergunta, que já traz em si a resposta de que não serve para nada, e ainda é prejudicial, é porque não refletiu muito sobre covardes e tiranos. Postula-se desde sempre que é melhor não contar com covardes e tiranos, mas tal posição – que é a posição mais cômoda de se tomar – é a de quem à face de um covarde é um tirano, e à vista de um tirano é covarde.

Não se pode negar que tiranos erigiram monumentos históricos que definiram nossos rumos, e muito menos que monumentos da espécie não nos admirem. Tiranos são expressões individuais de uma consciência de época: eles não emergem do nada e contra todos. Pelo contrário, há uma corresponsabilidade de todos na sua existência. Não temo em dizer que existe hoje um tirano no mundo de que não desconfiamos, porque compactuamos com sua tirania – e isso subtrai ao nosso juízo o a possibilidade de julgá-la como tirania. Pode-se tratar de uma totalidade que com mais ou menos violência se impôs acima de suas negações ou pode-se tratar desta ou daquela pessoa, ou o que seja. Tal afirmação posso fazer com pouca pugna, entretanto nomear o tirano é mais difícil, pois também sou produto do nosso tempo.

Com a eventual objeção de que no meu texto anterior citei nomes, identifiquei tiranias com este ou aquele, concordo, pois tratava especificamente da poesia e do poeta, como tratarei novamente mais adiante. Chamar uma totalidade, uma conjuntura, um estado de coisas de tirania seria outra coisa? É outra coisa, com efeito, mas o ponto específico da argumentação do parágrafo anterior permanece intacto: a diferença entre um e outro não é da natureza da totalidade, mas apenas que este ou aquele estado político de coisas (a totalidade) se pode identificar com um nome, enquanto outros são mais impessoais. O nazismo não é Hitler: é um povo, um espaço e uma época inteiros. Aliás, nem alemão o nazismo é, toda a Europa - diz-nos isso, por exemplo, o caso Dreyfus na França, ou, na ficção, Leopold Bloom em Dublin - era xenófoba à época (e é hoje): seu horror com o holocausto é o horror de quem se olhou no espelho e, assustado com o que viu, quebrou o espelho. Nem o helenismo é Alexandre, nem a cruz é César, nem a inquisição é o papa, nem a democracia liberal é... quem? E aí está a nossa covardia perante o tirano: a esquerda, por exemplo, prefere simplesmente negar Stálin, e muitas vezes o próprio comunismo, e assim nega que um tirano tal tenha emergido dela. O fato é que Stálin é filho do marxismo, direta ou indiretamente, mesmo que por vias bastante oblíquas; quando a esquerda o nega nega a própria responsabilidade de evitar novos Gulags. A direita admite aos poucos discursos como os ambientais: mas tem coragem de admitir que desenvolvimento e meio ambiente são inconciliáveis, ou que a fome na África e a aniquilação indígena americana se dá sob sua bênção? Você que me lê também nega a violência que há por trás da democracia liberal na condição de discurso total: você é um covarde.

Por outro lado, frente ao covarde somos tirânicos. Porque não se pode admitir a força da palavra recolhida na sua própria discrição: há que se exigir a ação. Porque frente a tudo uma posição tem que ser tomada, e na hora que se a pede. Por que o medo da teoria e das reflexões e da boa poesia? Sempre há o discurso de que aquele que porventura defende o comunismo tem que aceitar dividir o próprio quarto, abster-se do consumo, pegar em armas e destituir governos. Destituir para quê, se nem sabe contra o que se deve lutar – e correr o risco de matar em nome do mesmo espírito que vige? A vantagem do covarde é que não caminha sobre os terrenos seguros da certeza do homem de ação. O covarde é pessimista: sabe que deve desconfiar dos consensos. O covarde é otimista: sabe que deve confiar no estudo e no ouvir o silêncio das coisas. Mas se exigirá dele, e quem o fará será o tirano que no parágrafo anterior era o covarde, que fale quando o silêncio é pertinente, que aja quando não há nenhuma articulação possível para ações. Para o covarde, o homem sozinho não pode agir, porque a articulação dos homens - no plural - é uma necessidade. Mas a articulação recolhe em si a potência da manipulação de massas: e assim o covarde se suspende sobre o abismo da incerteza – a sua covardia aos nossos olhos. Há a guerra e há a paz, e o covarde sabe que elas não se negam: interdependem-se, sua diferença harmoniza-se consigo mesma, e ele hesita sempre no conflito – Aquiles é heroi que vence Heitor, é heroi que perde Pátroclo.

E que isso vem a calhar à poesia? Por tudo que se fez constar, sabe-se que a poesia não faz de ninguém melhor. Porque desde há muito ela se desvinculou de qualquer necessidade pedagógica – ao contrário, por exemplo, dos poemas de Homero, elevados à sacralidade pelos gregos até que Arquíloco e sua lira a contestasse com nova totalidade, e então que Heráclito tirasse a voz dos deuses e das musas dos versos e neles identificasse o puramente humano: na poesia, na boa poesia, há o não-dito, o silêncio, as impossibilidades, a covardia, o conflito – o tirânico e seu contrário, sim e não. Por fim Platão, ao expulsar os poetas de sua República, não os expulsa, mas expulsa quem deles diz portarem a criação; a palavra é palavra na incompletude, por isso é sempre simulacro das coisas de seu céu ideal, resguarda sempre recessos de sombra. “Instituída em lugar do ausente, quem a toleraria na clara presença do que se declara?”, diz Donaldo Schüler.

Palavras não criam nada. Palavras não fazem de ninguém melhor. Diversamente pensam os cabalistas: no princípio era o Verbo. Deus cria com fórmulas verbais: fiat lux! - declara – e eis a luz. Na Torá tudo que existe está dito, o que revela que a linguagem tem natureza divina e pode dizer tudo. Interpretar a Torá é enveredar por um texto absoluto que encerra em si todas as coisas do mundo. O Golem nasce de fórmulas verbais de homens que aprenderam a dominar a criação, ou parte dela. A luz existe porque existe a palavra luz. Este seria o domínio dos poetas? O de criar, e fazer brotar da palavra a coisa, e não aquela desta? Se é, a poesia é perigosa. Toda letra na história da criação tem sua razão de ser, toda ela manifesta a natureza da divindade, e sua combinação é divina. A criação advém de tal articulação: mudá-la é criar monstros, aniquilar o tempo, inverter os espaços. O poeta tem uma arma na poesia: manejá-la é destruir o mundo. E quem pode nos garantir que a tristeza não seja obra dos poetas covardes? E a fome dos tiranos, os maus poetas? Escrevi certa vez, tentando imitar o estilo bíblico: “Eis que ao homem da terra só é dado escrever a Revelação que o anjo do Senhor inspira, jamais alguém poderá dominar a Criação.Vós, portanto, que com a tinta da vossas penas crieis mundos e homens novos em vossos papeis, sois indignos hoje, e abalados são os caminhos que vossos pés pisam pela ira do Senhor, Deus dos exércitos”.

Assim, além de não fazer de ninguém melhor, a poesia ainda pode modificar o projeto de Deus para o mundo, e é claro que sempre para pior, pois o poeta não pode ser perfeito. Ou seja, qualquer resposta que se dê tentando justificar a poesia contra a dúvida do seu para quê, ela será insuficiente. Como defendê-la, contra toda a evidência de que ela realmente não serve para nada?

A poesia não serve para nada, e pour si muove! Existe, apesar de tudo. E talvez existirá ainda, e talvez seja eterna. Se a poesia sobrevive ao seu para-quê e impõe-se contra toda acusação de sua inutilidade, é porque a pergunta em si precisa se justificar. Para que para-quês? Hannah Arendt perguntou uma vez: “a que é útil a utilidade?”, ou “de que serve a serventia?”. A poesia, portanto, serve para pôr em cheque a própria necessidade de justificar-se, ou ainda, fará com que nunca essa necessidade se satisfaça, para que o para-quê seja eterno. E com isso consegue nos colocar no abismo da incerteza, do desassossego, do conflito, ou nos angustia a tomar posições, a agir. Torna-nos cientes da nossa própria covardia frente ao já-sempre-sabido, e eventualmente nos impele a sermos tirânicos e fazer emergir uma nova totalidade, ou assumir explicitamente os nossos princípios silenciados. A poesia, seja na sua timidez, na sua discrição, ou na pobreza de sua grandiloquência, impõe-nos perguntas. Uns acham que as respondem, outros as multiplicam.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Guerra antiga. Guerra nova.

É a guerra. E é a paz do mau augúrio,
que brotará no fim, quando esquecido
dessa memória injusta o corpo ido
do guerreiro que morre em campo fúrio.

Talvez não fosse, fosse o poeta lido,
o que dá ao morto a glória no perjúrio
ao fim brotada em paz de tempo espúrio
que assim se engana até novo conflito.

Mas fosse ao menos guerra... É a chacina.
É a paz que jamais brota, que mal veio,
é um homem a morrer e um que extermina.

E é sem rosto a cair no morticínio
e é sem nome a matar no bombardeio.
Sem poeta que canta no extermínio.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Kaspar Hauser

Gaspar Hauser
Por Murilo Mendes

Ninguém mais pode escolher
A vida que lhe apetece.
Ninguém mais pode ser só:
As almas são reveladas
À luz de mil holofotes.

Em torno de mim se agita
Uma conspiração de olhares.
Vou tomar a carruagem,
Comunicam ao mundo inteiro.
Cheiro uma rosa - explodiu.
Só tive consolo e paz
No ventre de minha mãe.

A quinta-coluna que existe
Desde o princípio do tempo
Não me deixa respirar.
Sou sempre triste, no escuro.

Adeus universo padrasto,
Que rejeitas o inocente,
O órfão, o pobre, o nu.
Não acho irmandade em ninguém:
Morrendo, sou livre enfim.

Canção de Kasparhauser
Por Georg Trakl. Tradução de Cláudia Cavalcante.

Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo,
Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro
E a alegria do verde.

Sisuda era sua morada à sombra da árvore
E puro o seu rosto.
Deus disse ao seu coração uma doce chama:
Homem!

Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite;
O lamento sombrio de sua boca:
Quero tomar-me cavaleiro.

Seguiram-no porém arbusto e animal,
Casa e jardim crepuscular de gente branca,
E procurava-o seu assassino.

Primavera, verão e belo o outono
Do justo, seu passo leve
Pelos quartos escuros de sonhadores.
À noite ficava sozinho com sua estrela;

Viu que nevava em galhos nus,
E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa.

Prateada, tombou a cabeça do não-nascido.

O enigma de Kaspar Hauser
Sinopse. Filme dirigido por Werner Herzog.

Kaspar Hauser é um jovem que foi trancado a vida inteira num cativeiro, desconhecendo toda a existência exterior. Quando ele é solto nas ruas sem motivo aparente, a sociedade se organiza para ajudar Kaspar, que sequer conseguia falar ou andar, mas este logo acaba se tornando uma atração popular. Baseado em uma história real.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Ao acordar

a noite que não
existia existiu

Rio sem discurso

Por João Cabral de Melo Neto. Um poema heraclitiano.

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água quebra-se em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O discurso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a sede ele combate.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Meu lirismo de funcionário

Certa vez, o bonde andando já há muito, disseram que leram essa coisa blog desde o primeiro texto. Outra vez, comentaram que gostavam muito de minhas crônicas. Houve tempos em que machuquei pessoas - minhas palavras infelizes.

Desde então tenho uma fantasia ideológica, daquelas que nos moldam e nos constitui, de que haverá sempre quem me leia. E talvez por isso tenho sido tão verborrágico. Mas se isso não for verdade, também não é providencial que me desenganem, pelo menos para que algo exista.

Sei da enorme falha que sou como gente - eu que sinto cumplicidade com a covardia de que falei outro dia. Mas também não me desminto nem me desculpo, e já anuncio: haverá um tempo, muito tempo depois de ter desistido dessas coisas, em que eu voltarei para ler todo grande erro aqui escrito (e uns poucos acertos). Nesse tempo, terei ao menos vocês para culpar!

Afinal, isto é um reduto de palavras órfãs que não assumirei.

The two trees

Por William Butler Yeats, poeta irlandês

Beloved, gaze in thine own heart,
The holy tree is growing there;
From joy the holy branches start,
And all the trembling flowers they bear.
The changing colours of its fruit
Have dowered the stars with merry light;
The surety of its hidden root
Has planted quiet in the night;
The shaking of its leafy head
Has given the waves their melody,
And made my lips and music wed,
Murmuring a wizard song for thee.
There the Loves a circle go,
The flaming circle of our days,
Gyring, spiring to and fro
In those great ignorant leafy ways;
Remembering all that shaken hair
And how the wingèd sandals dart,
Thine eyes grow full of tender care:
Beloved, gaze in thine own heart.

Gaze no more in the bitter glass
The demons, with their subtle guile,
Lift up before us when they pass,
Or only gaze a little while;
For there a fatal image grows
That the stormy night receives,
Roots half hidden under snows,
Broken boughs and blackened leaves.
For all things turn to barrenness
In the dim glass the demons hold,
The glass of outer weariness,
Made when God slept in times of old.
There, through the broken branches, go
The ravens of unresting thought;
Flying, crying, to and fro,
Cruel claw and hungry throat,
Or else they stand and sniff the wind,
And shake their ragged wings; alas!
Thy tender eyes grow all unkind:
Gaze no more in the bitter glass.

[Vê em teu coração, amada,/Ali a sagrada árvore cresce;/Da alegria brotam os ramos sagrados,/E todas as flores tremulantes que eles portam./As cores cambiantes de suas frutas/
Legaram às estrelas a espirituosa luz/A fortaleza de sua raiz oculta/Quieta na noite se plantou;/A vibração de sua copa de folhas/Deu às ondas sua melodia,/E casou meus lábios à música,/A murmurar a ti uma canção mágica./À sua volta os Amores fazem um círculo,/Os ardentes círculos de nossos dias,/Girando, rodando, pra frente e pra trás/Naqueles grandes caminhos de folhas ignorados/Lembrando aqueles cabelos tremulantes./E como as sandálias aladas se lançam,/Teus olhos crescem cheios de ternura:/Vê em teu coração, amada.///Não vejas mais na amara lente/Os demônios, com seus hábeis ardis,/Levantam-se ante nós quando passam,/Ou vê apenas por um breve momento;/Para isso, uma imagem mortal se faz/Que recebe a noite tempestuosa,/Raízes meio ocultas sob a neve,/Galhos quebrados e folhas enegrecidas./Porque tudo se torna ermo/Nos vidros trevosos que os demônios seguram,/O vidro de uma moda alienígena,/Feitos quando Deus dormia nos remotos tempos/Lá, pelos ramos quebrados, vão/Os corvos de alma incansável;/Voando, chorando, pra frente e pra trás,/Garra cruel e garganta faminta,/Ou então eles param e inspiram o vento,/E balouçam suas rotas asas, que pena!/Teus olhos ternos se enchem de maldade:/Não vejas mais na amara lente.]

sábado, janeiro 31, 2009

Contra a poesia

Já se disse que Mein Kampf é mal escrito, e se submeteu a revisões estilísticas e gramaticais por assessores, na ocasião da ascensão do nazismo na Alemanha.

Sabe-se também que Borges era conivente com a ditadura militar argentina; talvez não a defendesse de forma ativa justamente por não ser da índole dos bons escritores assumir causas que não essencialmente as suas.

Uma generalização irresponsável a partir desses dois exemplos nos daria alguns problemas. Adianto um deles: com fundamento nas reflexões seguintes, se dogmáticas, não haveria outra maneira de considerar Sartre se não como um mau escritor. E Sartre, creio eu, não é um mau escritor. Mas vá lá, sejamos um pouco irresponsáveis.

O que é significante no Mein Kampf, assim como nos relatos duros de Júlio César sobre suas guerras, e nas poesias sem qualidade da juventude de Stálin, é que maus escritores acham-se capazes de escrever, de assenhorar-se das palavras escritas e de todo o poder mágico que cada nome e cada verbo pode produzir nos rumos da humanidade. E por se acharem capazes de manipular algo tão místico e sagrado, adquirem uma grandiloquência magnífica, e poderão então se tornar magníficos tiranos na impostação de suas vozes com palavras que, quais as de Homero, ganham asas. E que das tribunas dos magníficos palácios voam como ordens a mover exércitos, para o bem ou para o mal, mas sempre interferindo na vida das outras pessoas. Os maus escritores são também homens de ação e fazem a história na ação: pouco se lê de seus escritos. Fazer análise dos ensaios de Robespierre - este sim um jovem premiado na escola (recebera inclusive o galardão das mãos de Louis XVI...), mas nunca próximo ao gênio satírico de um Voltaire - mal dirá sobre seu constitucionalismo revolucionário, e menos ainda do Terror dos Comitês sob domínio jacobino, se a análise for de conteúdo. O que interessa em textos tais é a manifestação justamente da grandiloquência, dessa auto-imagem do portador do logos, do verdadeiro portador do logos e, como tal, como senhor da ação. A grandiloquência não é própria do discurso, ou não se esgota nele: é própria do homem, do homem cuja palavra escrita não é mais do que a latência ou potência de uma força a se irromper mais cedo ou mais tarde nisso que é tão louvado pelos inimigos da erudição, a atitude. Mas falo do mau-escritor que se habilita e se anuncia como escritor, o mau-escritor público, e não o mau-escritor da gaveta, o mau-escritor de diários, ou de blogs que esperam as visitas fortuitas: este se aproxima do bom escritor na vida política, mas não na escrita ou na altivez.

O bom escritor é o oposto. Tem tudo para dominar a grandiloquência, pois adquiriu tamanha intimidade com as palavras e se resignou a aceitar seus mistérios que estas não se esquivariam de torná-lo grande - e não se esquivam, pois sabemos que eles são bons escritores. Porém, a palavra o torna grande porque o bom escritor aprendeu a ser seu súdito, não seu manipulador. Resignou-se demais. O bom escritor é então o covarde, por mais palavras que diga não age. Não pode agir. Poderá defender aqui e acolá os piores regimes, se estes lhes deixam em paz. O que importa ao bom escritor, como Borges, é este isolamento, a paciente contemplação do que lhe envolve e lhe angustia, a fim de manter o silêncio do inescrutável nas suas palavras. Ele poderá cantar as revoluções, mas não apertará os gatilhos. Poderá difamar o tirano, mas será o primeiro a perdoá-lo quando ele estiver deposto. O narrador da Récherche proustiana, no seu desejo de ser um escritor, vê-se obrigado a renegar toda forma de amor e amizade: não pode suportar que outros dependam dele e de suas decisões, porque ele não sabe agir; e, evitando o risco de ter que se deixar furtar o tempo pela companhia dos outros, ele precisa escrever (bem). O bom escritor precisa, pois, deste egoísmo pueril, não para negar os outros, mas para não impor o seu eu sobre eles. Bem ao contrário do tirano. Mas acaba que também não pode ajudar, não pode salvar, não pode fazer ninguém feliz. Por isso o protótipo do bom escritor é o cego - Homero, Milton, Borges - que perscruta a pureza das palavras, mas não enxerga o alvo quando deve dar o tiro (Euclides da Cunha que o diga). É o bon vivant - Horácio, Byron, Vinícius de Moraes - que se entrega aos prazeres egotistas e erige monumentos nos versos, mas não move o mundo. É o tísico - Manuel Bandeira e Álvares de Azevedo; o funcionário hermético de ombros encolhidos - Carlos Drummond de Andrade; é o misantropo - Dalton Trevisan, Thomas Pynchon; é o tímido - Foster Wallace. É como disse Álvaro de Campos: "Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;/Mas acordámos e ele é opaco,/Levantámo-nos e ele é alheio".

Covardes e tiranos. Poesia para quê?

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Uma pergunta

Por que no Brasil se insiste em imitar a pior fase da literatura norte-americana (Bukowski, Kerouac, Ginsburg), quando eles nos oferecem Faulkner, Mailer, Capote, Updike, Hemingway, Foster Wallace, Thomas Pynchon, Phillip Roth?

Dá uma réiva.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Torre de Babel (revisado)

Houve um tempo em que toda a terra tinha uma só língua e servia-se das mesmas palavras. E todas as coisas sobre o mundo e além do mundo e ocultas sob o véu das luzes que cobrem os olhos e dos sons que acalentam os ouvidos, todas essas coisas podiam ser ditas. Isso era em Senaar. Os filhos dum antigo dilúvio vieram de um só ramo, e todos tinham a mesma origem, e serviam-se das mesmas palavras. As palavras designavam a partir das mais simples formas das formas simples, que quais peças de montar se conjugavam em possibilidades quase infinitas; porque não eram infinitas as coisas a serem ditas, apenas muitas.

E o nosso sonho de prosa, este nosso sonho escravo de representações, o nosso sonho de ter o tudo nas páginas dos livros e em cada boca, de ver tudo excluído do não-dito, da ambigüidade, do inominável, do desconhecido, esse nosso sonho foi uma vez realidade. Nenhuma palavra planava no céu da linguagem como abstrações que flutuam nos dias sem a nossa mínima suspeita, mas dava com nossas caras na dureza ou leveza das coisas e de cada coisa, na verdade dos atos, na mais clara forma do pensamento. Podia-se falar da origem das coisas, das transcendências, das essências ocultas sob as superfícies, das imaginações e dos sonhos, e sem erros, e sem que um ao ouvi-las pudesse pensar em algo distinto daquele que as dizia. O amor, bibliotecas de dicionários registravam algumas centenas de formas diferentes para dizê-lo, esta palavra que para nós abraça tanta coisa e não diz nada. Dizia o namorado à namorada que não a amava mais, mas que a amava, e cada amor era diferente, e a namorada que o amava ainda, mas não o amava já, compreendia que era diferente e que não podiam mais partilhar os leitos e roçar os corpos na planície pulsante ao rio Tigre cheio de vida. E hoje só se pode amar ou não, e o te amo à mãe é igual ao que se dá àquela que se emaranha nas tuas pernas, e o nosso desespero é o desespero de que algo ficou por dizer.

Deus viu aquele povo e pensou que tal povo poderia executar todos os empreendimentos e assim seriam como Deus. Mas Deus não rivaliza, é uno. Lançou a confusão no solo de Senaar e nunca mais a mesma língua foi partilhada.

Dizem-nos de tal história que houve um povo que construía uma torre para alcançar os céus. Engana-se quem pensa nos tijolos cozidos e nos vitrais e nos pórticos e nas colunas e nas enormes paredes interrompendo o horizonte, isso tudo que se faria à custa das fundações – e até Deus sabia disso. A torre de Babel era a língua dos filhos de Noé. O subentendido, o por-dizer, aquilo para o que a garganta nos falta, isso tudo é um vapor que emerge dos infernos: o céu alcança quem os elimina e quem assim elimina todas as possibilidades, todos os progressos, que são próprios de quem é dominado pelo que somente aparece quando faltam os nomes – o desejo. Houve um povo, esse povo, estagnado na impossibilidade infinita, mas a impossibilidade infinita é o apanágio de Deus.

Que só semeou a confusão porque por um momento foi a Ele que faltaram as palavras.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Consolo-me

Consolo-me.
Agora a morte tem
o sopro terno
e eterna é a ternura.
Retorno, e retorna-
rá sempre meu sempre
retorno, ainda que tarde.
Talvez mesmo eu tarde,
mas nesse entanto interminável
é a vitória de mim
contra o termo irrevogável
do tartárico decreto
do torpe e tormentoso

fim.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Enjambement - outro estudo

Você consegue
acompanhar
a
Lei
tura?

Ou há também aquele
.
.
.
martelo!

a pregar os
ouvidos na
Voz?

Cesura - um estudo

Vai pensando bastante e tenta não parar.
Não freias, meu senhor: quer o mundo o pensar.

- Mas por que te deténs, no meio do meu verso?
Por que tu então paras se parar não deves?
- É preciso...
......................- Parar?
....................................- ...pensar.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Desengaño de las Mujeres

Puto es el hombre que de putas fía,
y puto el que sus gustos apetece;
puto es el estipendio que se ofrece
en pago de su puta compañía.

Puto es el gusto, y puta la alegría
que el rato putaril nos encarece;
y yo diré que es puto a quien parece
que no sois puta vos, señora mía.

Mas llámenme a mí puto enamorado,
si al cabo para puta no os dejare;
y como puto muera yo quemado

si de otras tales putas me pagare,
porque las putas graves son costosas,
y las putillas viles, afrentosas.

*Por Francisco de Quevedo, poeta do barroco seiscentista, nome maior do conceptismo espanhol. Partidário do neo-estoicismo, um neo-estoicismo cristão. Segundo Borges, é o artífice da língua espanhola.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Falso amor sincero

Por Nelson Sargento

O nosso amor é tão bonito
Ela finge que me ama
E eu finjo que acredito!

Por isso eu vivo a dizer
Que o nosso amor é tão bonito
Ela finge que me ama
E eu finjo que acredito!

O nosso falso amor é tão sincero
Isto me faz bem feliz
Ela faz tudo que eu quero
Eu faço tudo que ela diz
Aqueles que se amam de verdade
Invejam a nossa felicidade!

quarta-feira, janeiro 14, 2009

poemas ligeiros e irresponsáveis

mal posso o ferir o céu, como vates
que mendigam a vida no verso
mal contenho as multidões
estes nadas no vão do universo:
meu toque esmaga o espaço.
crescido sou, e as cidades trespasso
não com miríades de mapas
com a contagem infinda de passos;
não é no asfalto de suas malhas
que posso alguma hora perder.
meu toque destrói o tempo
os deuses calados do templo
a chuva, a onda, o vento:
não podem cidades me conter.
sou maior que os prédios
cujos rebites cheios de aço
as bases de tantos ferros
não logram além de mim ser.
sou e significo, sozinho e só
meu nome é o único nome,
basto-me, sou todo o homem,
o homem do todo, o todo eu,
o tudo, pura e simplesmente;
nada pode me ser indiferente:
de toda a gente o rosto é meu.

domingo, janeiro 11, 2009

Citações

"A primeira vítima da guerra é a verdade."
Senador Hiram W. Johnson (1866-1945)

"Não param de dizer que 'toda nação tem o direito de proteger seus cidadãos', como se fosse apenas isso, e as pessoas acabam por acreditar que é disso que se trata."
Philip Knightley, do Sunday Times, sobre a propaganda israelense de guerra.

"Concordo que Israel tem um enorme desafio para explicar isso [o ataque a uma escola em Gaza], mas se o mundo não entender, paciência. Se o outro lado não cumpre as regras básicas, Israel não pode ser culpado."
Eitan Gilboa, da Universidade Bar-Ilan.

"Nós, israelenses, precisamos mudar nossa mentalidade automática, que diz sempre que a ação militar vai resolver nossos problemas."
Nir Baram, escritor israelense.

"O governo israelense achou necessário agir militarmente devido à pressão da opinião pública, da mídia e da direita. Afinal, estamos no meio de uma campanha eleitoral. E as regras da vida no Oriente Médio ditam que não se pode demonstrar fraqueza. É essa mentalidade a que Baram se referiu".
Hillel Schenker, jornalista do Palestine-Israel Journal, em Tel-Aviv, mostrando que não se trata de legítima defesa, mas uma manobra eleitoral para impedir a eleição de Benyamin Netanyahu, da extrema-direita (pois, se o Hamas pôs fim à trégua pelo lançamento de foguetes, foi em razão de que Israel se recusara a pôr fim ao bloqueio à Faixa de Gaza, como previa o acordo do armistício de junho).

"Seria bom se a comunidade internacional deixasse de tratar membros do Hamas como pobres coitados e os visse como são: genocidas."
Gustavo Ioschpe, para a Folha de S. Paulo, e, não por acaso, colaborador da Veja.

sábado, janeiro 10, 2009

Soneto XC de Shakespeare

Then hate me when thou wilt, if ever, now,
Now while the world is bent my deeds to cross,
Join with the spite of fortune, make me bow,
And do not drop in for an after-loss:
Ah do not, when my heart hath scap'd this sorrow,
Come in the reaward of a conquer'd woe,
Give not a windy night a rainy morrow,
To linger out a purpos'd overthrow.
If thou wilt leave me, do not leave me last,
When other petty griefs have done their spite,
But in the onset come, so shall I taste
At first the very worst of fortune's might.
....And other strains of woe, which now seem woe
....Compar'd with loss of thee, will not seem so.

[Então me odeia quando quiseres, ou mesmo agora,/Agora enquanto o mundo coloca meus feitos na cruz,/Junta-te ao rancor da sorte, faze-me curvar,/E não apareças para um novo prejuízo:/Ah não, quando meu coração tiver fugido desta tristeza,/Não venhas, quando dos prêmios de uma dor vencida,/Não dês um amanhã de chuva a uma noite de ventos,/Para prolongar uma ruína resolvida./Se tu me queres deixar, não o faças no fim,/Quando todas as mágoas triviais tiverem passado,/Mas no começo, quando eu experimentarei/Duma e na primeira vez o pior dos desígnios da fortuna./E outros tipos de dor, agora não parecerão dor,/Comparado com a tua perda, não parecerão dor.]

Na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos:

Odeia-me, portanto; agora, se é preciso:
Agora, em tudo, o mundo insiste em contrariar-me;
Não me causes mais tarde um súbito prejuízo,
Une-te logo à sorte cruel, vem humilhar-me.
Quando minh'alma houver fugido ao meu tormento,
Não surjas no último escalão de dor vencida:
Não dês manhã de chuva à noite com seu vento,
A fim de prolongar a derrota decidida.
Se me deixares, não me deixes só no fim,
Quando se houver cumprido tanta dor menor;
Vem no primeiro ataque: eu sofrerei assim,
De plano, o que a fortuna oferecer de pior.
....E outras formas de dor, que ora parecem dor,
....Junto de tua perda não terão tal cor.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Adendo às notas abaixo

Duas notícias (aqui e aqui) de hoje confirmaram duas das minhas opiniões de ontem. A primeira, a de que a guerra não é feita por legítima defesa. As declarações de Shimon Peres, as de que Israel pretende evitar que Gaza se torne satélite de Irã, são indisfarçáveis indicativos de o que ocorre é mais uma daquelas guerras preventivas, na toada da doutrina de segurança internacional do pós-11 de setembro. Não há respaldo em nenhum tratado internacional para este tipo de manobra militar, que é fruto de um saber construído às pressas e sobre fatos inventados que mais se parecem com fábulas do lobo mau que querem incutir medo nas crianças desobedientes (ou revolucionárias...).

Não bastasse a guerra injusta, Israel nos brinda com a cereja da sobremesa: a segunda notícia mais que escancara o caráter criminoso e desproporcional da ofensiva.

É isso.

Outras notas sobre Gaza

Os contemporâneos da minha geração não lutamos por um país para chamar de nosso. Aliás, tal luta é de difícil concepção num período em que o espaço público não representa outra coisa a não ser vias que medeiam núcleos privados de convivência. Disso parece advir a natural conclusão de que julgar as lutas dos palestinos e dos israelenses nos é vedado, ou que pelo menos qualquer juízo deve vir acompanhado de mil ressalvas.

A minha ressalva é essa de que falei, a da distância representada pela apatia da minha geração, mas acaba aqui. Ainda tenho o poder de imaginar, e creio também ter certa capacidade de me fazer outro algumas vezes. Este é, em verdade, o exercício mais fascinante da literatura, o da alteridade, o de emudecer o imperioso eu e dar voz a outro, ainda que ficção da própria cabeça (que nunca é inteiramente própria, como dizem os anunciadores da morte do solipsismo). Por isso me proponho a fazer alguns comentários sobre a situação dos outros, correndo o risco do juízo equivocado; que de resto nem é tanta novidade, eis que assumo o grande erro que sou.

O que me interessa expressar aqui – e o texto será estranho para quem tem me acompanhado – é a raiva que de repente adquiri pela cobertura do conflito. Não reduzo minha crítica à cobertura midiática. A mídia já um monstro muito batido, facílimo de criticar, mas impossível de abandonar. Falo também da cobertura – ou das interpretações – dos protagonistas políticos do cenário mundial. Que também são joões-bobos a levar paulada de todo canto, porém sem qualquer direito de reclamar por isso.

É risível ter que agüentar governos e jornalistas do mundo pedir pelo cessar-fogo de Israel, reconhecendo, por outro lado, inevitavelmente o direito de existência do país e pela luta de suas raízes. Digo inevitavelmente porque toda e qualquer condenação (ou melhor, pedidos de trégua – ninguém condena tanto assim) tem que vir acompanhada por qualquer expressão que livre o comentarista da pecha do anti-semitismo. Coisas como excesso de legítima defesa, morte de inocentes no ataque a terroristas e utilização da população palestina pelo Hamas como escudo humano são praticamente rotinas inescapáveis da menção de qualquer um que apele pelo fim do conflito. Ninguém comemora a morte dos palestinos, mas se há alguém a ser efetivamente condenado, só podem ser eles.

Ousar condenar Israel é ser nazista. Críticas podem ser bem-vindas, mas sempre se acompanhadas daquelas ressalvas que reservam a verdadeira condenação aos terroristas do Hamas. Esse é o teor do politicamente correto para tratar do conflito, é a cartilha da abordagem do assunto. Porém, se for lembrar o que meus amigos hegelianos diriam, o politicamente correto não passa de uma universalização política de uma visão parcial e fragmentada do acontecer social, agora assumida como natural e com pleno direito de ser assim porque..., enfim, as coisas têm que ser assim. Vou ousar seguir a contracorrente dessa universalização, correndo o risco de cair no discurso negativista de uma esquerda irrefletida, e mais ainda o risco de ser tratado por nazista.

O ataque israelense é crime de guerra e não há ressalvas possíveis para salvá-lo. É ato covarde, desproporcional e não se baseia em nenhum pressuposto de legítima defesa que permita a declaração unilateral de guerra. Ehud Olmert encabeça um movimento tão desastroso quanto à Guerra no Iraque ou o massacre dos tutsis. (Se eu mencionasse então o holocausto seria eu o excessivamente irônico, e não a história?) Continuemos: trata-se de um ataque contra algo que não teve até hoje a mínima estrutura de se aparelhar como nação; uma organização a que sempre se negou efetiva voz, relegando a atos de violência isolados e de pouca capacidade destrutiva. A Faixa de Gaza se espreme contra o mar e o Egito, uma região densamente povoada pela população palestina, que desde há muito teve que se contentar com atos de caridade ou boa-vontade de Israel e da ONU para ter uma terra para chamar de sua.

A ofensiva mata. Dizer que mata crianças ou inocentes é apenas um apelo ao desespero e à pieguice humanas. A morte seria tão covarde estivessem elas a salvo em algum reduto ou no Egito. Mostram-no o placar de caídos de cada lado: Israel não passou da segunda dezena de mortos, sendo que mais da metade deles é de fogo amigo! Mata-se um povo espremido, arrasado por 35% de desemprego e uma igual faixa de pessoas vivendo na linha da miséria. Um povo que, desarmado, não logra sequer ajuda de forças de paz da ONU, que o máximo que sabe fazer é mandar observadores para a fronteira. Observadores estes que manterão a lenga-lenga de pedir o cessar-fogo reconhecendo a culpa palestina.

Todas as mais de seiscentas mortes palestinas foram devidas ao armamento israelense. Até uma escola foi atacada. E de quem é a culpa? Do Hamas. O governo israelense, entre lamentos falsos numa gravidade pomposamente ridícula, diz isso mesmo: a culpa é do Hamas. Eles é que são os covardes que utilizam a população como escudo humano para encobrirem-se e continuarem com suas maldades fundamentalistas – maldades estas baseadas num vil sentimento de acabar com Israel a todo custo...

Ora, como se pode dizer que os que defendem Gaza estão utilizando a população de escudo humano se estão lutando numa região super-povoada, não havendo a mínima possibilidade de se retirar para um campo de batalha isolado? Israel pratica a ofensiva dentro das cidades palestinas, não seria de se surpreender que o próprio povo - aí sim em legítima defesa – procurasse atirar e atingir o algoz com o que lhe está ao alcance da mão. Essa é a principal característica das longas Intifadas que ocorreram no Oriente Médio, e a culpa não se pode atribuir à Palestina: é uma conjunção de fatores de atos de unilaterais de poder e de uma desastrosa solução que transferiu um problema nascido no seio do mundo ocidental para o mundo islâmico.

O que complica nossa história é que o Hamas foi bem sucedido em alcançar o nome de terroristas. Não há como deixar de ser nominalista nestas horas: a velha lição aristotélica dos semas e remas nos deixa um triste exemplo de aplicação. As informações lingüísticas se dividem em um sujeito – o sema – e um predicado – o rema; e as novidades sempre ocorrem no rema, enquanto uma nominação bem sucedida transforma todo um conjunto de informações (de sintagmas descritivos em Bertrand Russel ou, o que prefiro, de conjunto de possibilidades em Wittgenstein) em um nome, um sujeito, no sema (lembrem-se da palavra ‘semântica’), e a partir disso são tidas como naturais e fechadas. Se digo que o cachorro morreu, a morte – o rema da frase - é a informação nova; o fato de ser um cachorro – o sema da construção - já é dado. Se eu digo que o Hamas é terrorista, enquadro aquela organização num nome e as novas construções frasais terão tal enquadramento como dada. “Os terroristas do Hamas lançaram morteiros”: aqui, todos já aceitarão como natural o caráter terrorista do partido palestino, pois a informação nova é o lançamento dos foguetes (que, no caso, retroalimenta a idéia contida no sema). Se tivemos uma nominação bem-sucedida, a de terrorista, o falatório humano já o terá como dado e não o submeterá a questionamento. Questioná-lo implica um grande exercício de desconstrução do sema, que é sempre complicado e demorado: é exatamente o que tento fazer aqui. Enquanto os atos de Israel forem nominados de legítima defesa e os do Hamas de terroristas, toda análise deverá partir destes pressupostos. A tendência humana à decadência do já-sempre-sabido pouco procurará superar esses pressupostos, e aí que toda morte palestina fatalmente será culpa do Hamas.

Não mais, a depender de mim. O Hamas é um exemplo fascinante – e não podemos relegá-lo ao esquecimento – da crise da democracia. Demonstra cabalmente que ninguém a defende a todo custo, e que ninguém crê piamente em suas bases. Quando, por exemplo, as opiniões publicadas se voltam contra garantias individuais em nome de um poder coercitivo e violento do Estado, na luta contra a criminalidade de rua, um dos grandes pilares da democracia, o da liberdade individual, é questionado, mas ninguém desses opinantes se chamaria de antidemocrático. O caso do Hamas, porém, é mais explícito, é uma chaga que sangra, uma fratura exposta. O partido foi eleito segundo as regras democráticas pelo povo palestino, mas isso não foi suficiente para granjear apoio do país que se julga porta-voz da liberdade e da democracia – os Estados Unidos. Pelo contrário, há já um histórico daquele país em suspender a regra democrática do voto quando, a seu juízo, o povo é irresponsável o suficiente para não escolher um governo que lhe apeteça. O caso das ditaduras militares latino-americanas é emblemático. Odeio citações da espécie, porque são tiradas da minha mais falha memória, mas já li em algum lugar a manifestação de um alto secretário do governo americano da década de setenta que apoiou o golpe contra Allende no Chile porque o povo foi irresponsável de o eleger. Não precisamos de muito para aumentar os exemplos: o golpe sofrido por Hugo Chavez na Venezuela foi exatamente a mesma situação.

A mim parece que os porta-vozes da democracia serão os responsáveis pela sua derrocada, que, creio eu, há de vir. Nominações destrutivas unilaterais e ofensivas militares contra um povo desarmado são configuradoras de um ancien régime globalizado. A Israel não interessa a democracia palestina, nem se o Hamas não for o eleito. O próprio Fatah – organização laica e com canal muito maior de comunicação com o ocidente – já sofreu imposições unilaterais de Israel, com o cerco empreendido pelo país contra prédios em que se localizava Yasser Arafat, porque este não aceitava mais um dos atos de boa vontade do Estado judeu.

Toquei na palavra tabu. Mas persisto em condenar Israel, não como senhor da justiça, mas como portador de uma opinião que, creio eu, encontra-se cá fundamentada. Não arredarei pé, e dessa vez abstenho-me completamente de suavizar os crimes de guerra defendendo o direito de existência e de defesa do estado judaico, ou desmistificando - como sempre fiz - o absurdo cristão de condenar a etnia pela usura e, contemporaneamente, pelo capitalismo financeiro selvagem. Quem sofre hoje são os palestinos, e os judeus nacionalmente organizados guardam em si, como qualquer outro povo, a possibilidade de ser a vítima de tempos idos e o carrasco das novas auroras.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Se eu estiver bem,
e o meu cavalo alazão,
pouco se me dá
que a mulher para ou não.

Oração que um padre deu a uma gestante, com a ressalva de que ela só deveria lê-la após o parto, quando o padre já estaria muito distante. De uma das histórias da Dona Beatriz, avó do Chrysantho.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Estupro

Início da ação.
O Estuprador:

quando as pernas abro
não são as pernas que forço
mas a força de não me querer

A Estuprada:

queres o gozo e não lho dou
não lho dou o que de mim roubas
mas não roubas porque lhe dou

O Estuprador:

dás-me em não me dando
não darias desses
e do não-dada dada está

A Estuprada:

recuso o dada dada estando
porque é possível tudo ser
mas só sou possível se mulher


O Estuprador:

por ser mulher não
por sê-la sim
sofres? por ser mulher

A Estuprada:

sofro por ser mulher
mas porque mulher sendo
não me te devia dar

O Estuprador:

sofro porque sofro
só porque sofres e só
sofrendo sou feliz

A Estuprada:

sofres porque não sabes
se és feliz ou não o és
não há nome para o teu sofrer

O Estuprador:

sofro porque não há nome
e porque só o teu sofrer
sofrimento se chamar pode

A Estuprada:

sofro onde chorando gozas
porque negando te me dei
e a culpa negando herdei

Fim da ação.

sexta-feira, dezembro 26, 2008

Alteridade

sou-te a ti que sendo és-me
somo-los todos que nos são
e nos vivem quando foram
e nos morrem quando vão

és tu sendo de mim a parte
em que inteiro sendo sou
havendo és-me contra além
em que inteiro te anti-vou

oposto são do que nós somos
e exato o contra somos nós
somos eles que não nos são
sendo-nos eles o que sois vós

chamo-os de vós o nós de ti
é tanto ser que nos confundo
morrer-te-ão e viver-vos-emos
sendo-me todo em parte mundo

Desbocada

beijar-te, mulheres,
é beijar-me a própria boca.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Meme Literário?

Pediram-me que participasse de um Meme Literário e respondesse a questionamentos sobre algumas experiências minhas com a literatura.

Aqui, entretanto, tento evitar minhas memórias. Há, sempre há, mas é preciso literalizar. Deus me livre das minhas biografias, a menos que sejam mentirosas! A quem poderá interessar meu fascínio infantil por enciclopédias e atlas? Pra que dizer que o que me marcou a infância foram o volume 14 da Barsa de 1976 da casa da minha avó, um Atlas do Corpo Humano e o Guia dos Curiosos? Seria bem melhor dizer, qual um Stuart Mill, que li aos oito Esopo e Xenofonte no grego antigo, cujo alfabeto aprendera aos três. Porque, a ficar na verdade, além daqueles, meu primeiro hábito real foi com Agatha Christie - traduzida - e os seus homicidas do Assassinato no Expresso do Oriente. Talvez interessasse um pouco mais minha adolescência, e minha paixão pela Capitu, cuja fidelidade defendi ardentemente num júri em que a acusavam de trair Bentinho. E meu encanto pela poesia que veio de um poeta... parnasiano! Sim, era Raimundo Correa e o seu soneto Mal Secreto: Quanta gente que ri, talvez, consigo, guarda um atroz, recôndito inimigo como invisível chaga cancerosa! É, rio pelo que andei lendo esses anos todos, mas escondendo que todo o edifício da literatura me é inimiga oculta por ser intransponível. Hei de viver na interminável - e por tal sempre frustrante - Biblioteca de Babel, qual imaginada por Jorge Luis Borges, nome que está - e isso não é segredo a ninguém - no topo dos meus tops qualquer número. Todos os livros por ler são espinhos n'alma, e alguns lidos não se desencravaram: entranharam-se mais nas minhas dores. Seja porque me impõem o dever de serem relidos - os de sempre: Homero, Shakespeare, Joyce, Proust, Kafka... -, seja porque me dão a impressão da maior perda de tempo. Isso porque também não é segredo da minha desconfiança com a literatura urbana contemporânea, que queima um maço de cigarros por página. Se Caio Fernando Abreu desce corroendo as vísceras, os beatniks meio que entalam na garganta. Mas os que estão em atividade no Brasil..., livrai-me, senhor! Não posso agüentar três linhas do Marçal Aquino, Mirisola ou Mutarelli. Dos contemporâneos, então, fico com o Tezza, e com Oswaldo Martins, que, alardeado na sua desgraça, revelou-se agradável surpresa. Não. Melhor não falar das minhas memórias, que mal as tenho. E por ser sempre nisso falho, nas matérias da memória, tenho a terrível mania de querer retê-la sempre, como que cerrando os pulsos para segurar a água que escorre. Fico sempre tentando desenvolver algum jeito de salvá-la, e o mais recente foram os post-it's em tudo quanto é página. Como sempre, inútil.

Perdoarás, Daniel, mas não responderei o Meme Literário que me propuseste.