segunda-feira, fevereiro 16, 2009
Pela poesia
Perguntei outro dia: poesia para quê? Se for para dar ao mundo covardes e tiranos, de que serve?
Quem concorda com a pergunta, que já traz em si a resposta de que não serve para nada, e ainda é prejudicial, é porque não refletiu muito sobre covardes e tiranos. Postula-se desde sempre que é melhor não contar com covardes e tiranos, mas tal posição – que é a posição mais cômoda de se tomar – é a de quem à face de um covarde é um tirano, e à vista de um tirano é covarde.
Não se pode negar que tiranos erigiram monumentos históricos que definiram nossos rumos, e muito menos que monumentos da espécie não nos admirem. Tiranos são expressões individuais de uma consciência de época: eles não emergem do nada e contra todos. Pelo contrário, há uma corresponsabilidade de todos na sua existência. Não temo em dizer que existe hoje um tirano no mundo de que não desconfiamos, porque compactuamos com sua tirania – e isso subtrai ao nosso juízo o a possibilidade de julgá-la como tirania. Pode-se tratar de uma totalidade que com mais ou menos violência se impôs acima de suas negações ou pode-se tratar desta ou daquela pessoa, ou o que seja. Tal afirmação posso fazer com pouca pugna, entretanto nomear o tirano é mais difícil, pois também sou produto do nosso tempo.
Com a eventual objeção de que no meu texto anterior citei nomes, identifiquei tiranias com este ou aquele, concordo, pois tratava especificamente da poesia e do poeta, como tratarei novamente mais adiante. Chamar uma totalidade, uma conjuntura, um estado de coisas de tirania seria outra coisa? É outra coisa, com efeito, mas o ponto específico da argumentação do parágrafo anterior permanece intacto: a diferença entre um e outro não é da natureza da totalidade, mas apenas que este ou aquele estado político de coisas (a totalidade) se pode identificar com um nome, enquanto outros são mais impessoais. O nazismo não é Hitler: é um povo, um espaço e uma época inteiros. Aliás, nem alemão o nazismo é, toda a Europa - diz-nos isso, por exemplo, o caso Dreyfus na França, ou, na ficção, Leopold Bloom em Dublin - era xenófoba à época (e é hoje): seu horror com o holocausto é o horror de quem se olhou no espelho e, assustado com o que viu, quebrou o espelho. Nem o helenismo é Alexandre, nem a cruz é César, nem a inquisição é o papa, nem a democracia liberal é... quem? E aí está a nossa covardia perante o tirano: a esquerda, por exemplo, prefere simplesmente negar Stálin, e muitas vezes o próprio comunismo, e assim nega que um tirano tal tenha emergido dela. O fato é que Stálin é filho do marxismo, direta ou indiretamente, mesmo que por vias bastante oblíquas; quando a esquerda o nega nega a própria responsabilidade de evitar novos Gulags. A direita admite aos poucos discursos como os ambientais: mas tem coragem de admitir que desenvolvimento e meio ambiente são inconciliáveis, ou que a fome na África e a aniquilação indígena americana se dá sob sua bênção? Você que me lê também nega a violência que há por trás da democracia liberal na condição de discurso total: você é um covarde.
Por outro lado, frente ao covarde somos tirânicos. Porque não se pode admitir a força da palavra recolhida na sua própria discrição: há que se exigir a ação. Porque frente a tudo uma posição tem que ser tomada, e na hora que se a pede. Por que o medo da teoria e das reflexões e da boa poesia? Sempre há o discurso de que aquele que porventura defende o comunismo tem que aceitar dividir o próprio quarto, abster-se do consumo, pegar em armas e destituir governos. Destituir para quê, se nem sabe contra o que se deve lutar – e correr o risco de matar em nome do mesmo espírito que vige? A vantagem do covarde é que não caminha sobre os terrenos seguros da certeza do homem de ação. O covarde é pessimista: sabe que deve desconfiar dos consensos. O covarde é otimista: sabe que deve confiar no estudo e no ouvir o silêncio das coisas. Mas se exigirá dele, e quem o fará será o tirano que no parágrafo anterior era o covarde, que fale quando o silêncio é pertinente, que aja quando não há nenhuma articulação possível para ações. Para o covarde, o homem sozinho não pode agir, porque a articulação dos homens - no plural - é uma necessidade. Mas a articulação recolhe em si a potência da manipulação de massas: e assim o covarde se suspende sobre o abismo da incerteza – a sua covardia aos nossos olhos. Há a guerra e há a paz, e o covarde sabe que elas não se negam: interdependem-se, sua diferença harmoniza-se consigo mesma, e ele hesita sempre no conflito – Aquiles é heroi que vence Heitor, é heroi que perde Pátroclo.
E que isso vem a calhar à poesia? Por tudo que se fez constar, sabe-se que a poesia não faz de ninguém melhor. Porque desde há muito ela se desvinculou de qualquer necessidade pedagógica – ao contrário, por exemplo, dos poemas de Homero, elevados à sacralidade pelos gregos até que Arquíloco e sua lira a contestasse com nova totalidade, e então que Heráclito tirasse a voz dos deuses e das musas dos versos e neles identificasse o puramente humano: na poesia, na boa poesia, há o não-dito, o silêncio, as impossibilidades, a covardia, o conflito – o tirânico e seu contrário, sim e não. Por fim Platão, ao expulsar os poetas de sua República, não os expulsa, mas expulsa quem deles diz portarem a criação; a palavra é palavra na incompletude, por isso é sempre simulacro das coisas de seu céu ideal, resguarda sempre recessos de sombra. “Instituída em lugar do ausente, quem a toleraria na clara presença do que se declara?”, diz Donaldo Schüler.
Palavras não criam nada. Palavras não fazem de ninguém melhor. Diversamente pensam os cabalistas: no princípio era o Verbo. Deus cria com fórmulas verbais: fiat lux! - declara – e eis a luz. Na Torá tudo que existe está dito, o que revela que a linguagem tem natureza divina e pode dizer tudo. Interpretar a Torá é enveredar por um texto absoluto que encerra em si todas as coisas do mundo. O Golem nasce de fórmulas verbais de homens que aprenderam a dominar a criação, ou parte dela. A luz existe porque existe a palavra luz. Este seria o domínio dos poetas? O de criar, e fazer brotar da palavra a coisa, e não aquela desta? Se é, a poesia é perigosa. Toda letra na história da criação tem sua razão de ser, toda ela manifesta a natureza da divindade, e sua combinação é divina. A criação advém de tal articulação: mudá-la é criar monstros, aniquilar o tempo, inverter os espaços. O poeta tem uma arma na poesia: manejá-la é destruir o mundo. E quem pode nos garantir que a tristeza não seja obra dos poetas covardes? E a fome dos tiranos, os maus poetas? Escrevi certa vez, tentando imitar o estilo bíblico: “Eis que ao homem da terra só é dado escrever a Revelação que o anjo do Senhor inspira, jamais alguém poderá dominar a Criação.Vós, portanto, que com a tinta da vossas penas crieis mundos e homens novos em vossos papeis, sois indignos hoje, e abalados são os caminhos que vossos pés pisam pela ira do Senhor, Deus dos exércitos”.
Assim, além de não fazer de ninguém melhor, a poesia ainda pode modificar o projeto de Deus para o mundo, e é claro que sempre para pior, pois o poeta não pode ser perfeito. Ou seja, qualquer resposta que se dê tentando justificar a poesia contra a dúvida do seu para quê, ela será insuficiente. Como defendê-la, contra toda a evidência de que ela realmente não serve para nada?
A poesia não serve para nada, e pour si muove! Existe, apesar de tudo. E talvez existirá ainda, e talvez seja eterna. Se a poesia sobrevive ao seu para-quê e impõe-se contra toda acusação de sua inutilidade, é porque a pergunta em si precisa se justificar. Para que para-quês? Hannah Arendt perguntou uma vez: “a que é útil a utilidade?”, ou “de que serve a serventia?”. A poesia, portanto, serve para pôr em cheque a própria necessidade de justificar-se, ou ainda, fará com que nunca essa necessidade se satisfaça, para que o para-quê seja eterno. E com isso consegue nos colocar no abismo da incerteza, do desassossego, do conflito, ou nos angustia a tomar posições, a agir. Torna-nos cientes da nossa própria covardia frente ao já-sempre-sabido, e eventualmente nos impele a sermos tirânicos e fazer emergir uma nova totalidade, ou assumir explicitamente os nossos princípios silenciados. A poesia, seja na sua timidez, na sua discrição, ou na pobreza de sua grandiloquência, impõe-nos perguntas. Uns acham que as respondem, outros as multiplicam.
Quem concorda com a pergunta, que já traz em si a resposta de que não serve para nada, e ainda é prejudicial, é porque não refletiu muito sobre covardes e tiranos. Postula-se desde sempre que é melhor não contar com covardes e tiranos, mas tal posição – que é a posição mais cômoda de se tomar – é a de quem à face de um covarde é um tirano, e à vista de um tirano é covarde.
Não se pode negar que tiranos erigiram monumentos históricos que definiram nossos rumos, e muito menos que monumentos da espécie não nos admirem. Tiranos são expressões individuais de uma consciência de época: eles não emergem do nada e contra todos. Pelo contrário, há uma corresponsabilidade de todos na sua existência. Não temo em dizer que existe hoje um tirano no mundo de que não desconfiamos, porque compactuamos com sua tirania – e isso subtrai ao nosso juízo o a possibilidade de julgá-la como tirania. Pode-se tratar de uma totalidade que com mais ou menos violência se impôs acima de suas negações ou pode-se tratar desta ou daquela pessoa, ou o que seja. Tal afirmação posso fazer com pouca pugna, entretanto nomear o tirano é mais difícil, pois também sou produto do nosso tempo.
Com a eventual objeção de que no meu texto anterior citei nomes, identifiquei tiranias com este ou aquele, concordo, pois tratava especificamente da poesia e do poeta, como tratarei novamente mais adiante. Chamar uma totalidade, uma conjuntura, um estado de coisas de tirania seria outra coisa? É outra coisa, com efeito, mas o ponto específico da argumentação do parágrafo anterior permanece intacto: a diferença entre um e outro não é da natureza da totalidade, mas apenas que este ou aquele estado político de coisas (a totalidade) se pode identificar com um nome, enquanto outros são mais impessoais. O nazismo não é Hitler: é um povo, um espaço e uma época inteiros. Aliás, nem alemão o nazismo é, toda a Europa - diz-nos isso, por exemplo, o caso Dreyfus na França, ou, na ficção, Leopold Bloom em Dublin - era xenófoba à época (e é hoje): seu horror com o holocausto é o horror de quem se olhou no espelho e, assustado com o que viu, quebrou o espelho. Nem o helenismo é Alexandre, nem a cruz é César, nem a inquisição é o papa, nem a democracia liberal é... quem? E aí está a nossa covardia perante o tirano: a esquerda, por exemplo, prefere simplesmente negar Stálin, e muitas vezes o próprio comunismo, e assim nega que um tirano tal tenha emergido dela. O fato é que Stálin é filho do marxismo, direta ou indiretamente, mesmo que por vias bastante oblíquas; quando a esquerda o nega nega a própria responsabilidade de evitar novos Gulags. A direita admite aos poucos discursos como os ambientais: mas tem coragem de admitir que desenvolvimento e meio ambiente são inconciliáveis, ou que a fome na África e a aniquilação indígena americana se dá sob sua bênção? Você que me lê também nega a violência que há por trás da democracia liberal na condição de discurso total: você é um covarde.
Por outro lado, frente ao covarde somos tirânicos. Porque não se pode admitir a força da palavra recolhida na sua própria discrição: há que se exigir a ação. Porque frente a tudo uma posição tem que ser tomada, e na hora que se a pede. Por que o medo da teoria e das reflexões e da boa poesia? Sempre há o discurso de que aquele que porventura defende o comunismo tem que aceitar dividir o próprio quarto, abster-se do consumo, pegar em armas e destituir governos. Destituir para quê, se nem sabe contra o que se deve lutar – e correr o risco de matar em nome do mesmo espírito que vige? A vantagem do covarde é que não caminha sobre os terrenos seguros da certeza do homem de ação. O covarde é pessimista: sabe que deve desconfiar dos consensos. O covarde é otimista: sabe que deve confiar no estudo e no ouvir o silêncio das coisas. Mas se exigirá dele, e quem o fará será o tirano que no parágrafo anterior era o covarde, que fale quando o silêncio é pertinente, que aja quando não há nenhuma articulação possível para ações. Para o covarde, o homem sozinho não pode agir, porque a articulação dos homens - no plural - é uma necessidade. Mas a articulação recolhe em si a potência da manipulação de massas: e assim o covarde se suspende sobre o abismo da incerteza – a sua covardia aos nossos olhos. Há a guerra e há a paz, e o covarde sabe que elas não se negam: interdependem-se, sua diferença harmoniza-se consigo mesma, e ele hesita sempre no conflito – Aquiles é heroi que vence Heitor, é heroi que perde Pátroclo.
E que isso vem a calhar à poesia? Por tudo que se fez constar, sabe-se que a poesia não faz de ninguém melhor. Porque desde há muito ela se desvinculou de qualquer necessidade pedagógica – ao contrário, por exemplo, dos poemas de Homero, elevados à sacralidade pelos gregos até que Arquíloco e sua lira a contestasse com nova totalidade, e então que Heráclito tirasse a voz dos deuses e das musas dos versos e neles identificasse o puramente humano: na poesia, na boa poesia, há o não-dito, o silêncio, as impossibilidades, a covardia, o conflito – o tirânico e seu contrário, sim e não. Por fim Platão, ao expulsar os poetas de sua República, não os expulsa, mas expulsa quem deles diz portarem a criação; a palavra é palavra na incompletude, por isso é sempre simulacro das coisas de seu céu ideal, resguarda sempre recessos de sombra. “Instituída em lugar do ausente, quem a toleraria na clara presença do que se declara?”, diz Donaldo Schüler.
Palavras não criam nada. Palavras não fazem de ninguém melhor. Diversamente pensam os cabalistas: no princípio era o Verbo. Deus cria com fórmulas verbais: fiat lux! - declara – e eis a luz. Na Torá tudo que existe está dito, o que revela que a linguagem tem natureza divina e pode dizer tudo. Interpretar a Torá é enveredar por um texto absoluto que encerra em si todas as coisas do mundo. O Golem nasce de fórmulas verbais de homens que aprenderam a dominar a criação, ou parte dela. A luz existe porque existe a palavra luz. Este seria o domínio dos poetas? O de criar, e fazer brotar da palavra a coisa, e não aquela desta? Se é, a poesia é perigosa. Toda letra na história da criação tem sua razão de ser, toda ela manifesta a natureza da divindade, e sua combinação é divina. A criação advém de tal articulação: mudá-la é criar monstros, aniquilar o tempo, inverter os espaços. O poeta tem uma arma na poesia: manejá-la é destruir o mundo. E quem pode nos garantir que a tristeza não seja obra dos poetas covardes? E a fome dos tiranos, os maus poetas? Escrevi certa vez, tentando imitar o estilo bíblico: “Eis que ao homem da terra só é dado escrever a Revelação que o anjo do Senhor inspira, jamais alguém poderá dominar a Criação.Vós, portanto, que com a tinta da vossas penas crieis mundos e homens novos em vossos papeis, sois indignos hoje, e abalados são os caminhos que vossos pés pisam pela ira do Senhor, Deus dos exércitos”.
Assim, além de não fazer de ninguém melhor, a poesia ainda pode modificar o projeto de Deus para o mundo, e é claro que sempre para pior, pois o poeta não pode ser perfeito. Ou seja, qualquer resposta que se dê tentando justificar a poesia contra a dúvida do seu para quê, ela será insuficiente. Como defendê-la, contra toda a evidência de que ela realmente não serve para nada?
A poesia não serve para nada, e pour si muove! Existe, apesar de tudo. E talvez existirá ainda, e talvez seja eterna. Se a poesia sobrevive ao seu para-quê e impõe-se contra toda acusação de sua inutilidade, é porque a pergunta em si precisa se justificar. Para que para-quês? Hannah Arendt perguntou uma vez: “a que é útil a utilidade?”, ou “de que serve a serventia?”. A poesia, portanto, serve para pôr em cheque a própria necessidade de justificar-se, ou ainda, fará com que nunca essa necessidade se satisfaça, para que o para-quê seja eterno. E com isso consegue nos colocar no abismo da incerteza, do desassossego, do conflito, ou nos angustia a tomar posições, a agir. Torna-nos cientes da nossa própria covardia frente ao já-sempre-sabido, e eventualmente nos impele a sermos tirânicos e fazer emergir uma nova totalidade, ou assumir explicitamente os nossos princípios silenciados. A poesia, seja na sua timidez, na sua discrição, ou na pobreza de sua grandiloquência, impõe-nos perguntas. Uns acham que as respondem, outros as multiplicam.
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
Guerra antiga. Guerra nova.
É a guerra. E é a paz do mau augúrio,
que brotará no fim, quando esquecido
dessa memória injusta o corpo ido
do guerreiro que morre em campo fúrio.
Talvez não fosse, fosse o poeta lido,
o que dá ao morto a glória no perjúrio
ao fim brotada em paz de tempo espúrio
que assim se engana até novo conflito.
Mas fosse ao menos guerra... É a chacina.
É a paz que jamais brota, que mal veio,
é um homem a morrer e um que extermina.
E é sem rosto a cair no morticínio
e é sem nome a matar no bombardeio.
Sem poeta que canta no extermínio.
que brotará no fim, quando esquecido
dessa memória injusta o corpo ido
do guerreiro que morre em campo fúrio.
Talvez não fosse, fosse o poeta lido,
o que dá ao morto a glória no perjúrio
ao fim brotada em paz de tempo espúrio
que assim se engana até novo conflito.
Mas fosse ao menos guerra... É a chacina.
É a paz que jamais brota, que mal veio,
é um homem a morrer e um que extermina.
E é sem rosto a cair no morticínio
e é sem nome a matar no bombardeio.
Sem poeta que canta no extermínio.
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
Kaspar Hauser
Gaspar Hauser
Por Murilo Mendes
Ninguém mais pode escolher
A vida que lhe apetece.
Ninguém mais pode ser só:
As almas são reveladas
À luz de mil holofotes.
Em torno de mim se agita
Uma conspiração de olhares.
Vou tomar a carruagem,
Comunicam ao mundo inteiro.
Cheiro uma rosa - explodiu.
Só tive consolo e paz
No ventre de minha mãe.
A quinta-coluna que existe
Desde o princípio do tempo
Não me deixa respirar.
Sou sempre triste, no escuro.
Adeus universo padrasto,
Que rejeitas o inocente,
O órfão, o pobre, o nu.
Não acho irmandade em ninguém:
Morrendo, sou livre enfim.
Canção de Kasparhauser
Por Georg Trakl. Tradução de Cláudia Cavalcante.
Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo,
Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro
E a alegria do verde.
Sisuda era sua morada à sombra da árvore
E puro o seu rosto.
Deus disse ao seu coração uma doce chama:
Homem!
Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite;
O lamento sombrio de sua boca:
Quero tomar-me cavaleiro.
Seguiram-no porém arbusto e animal,
Casa e jardim crepuscular de gente branca,
E procurava-o seu assassino.
Primavera, verão e belo o outono
Do justo, seu passo leve
Pelos quartos escuros de sonhadores.
À noite ficava sozinho com sua estrela;
Viu que nevava em galhos nus,
E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa.
Prateada, tombou a cabeça do não-nascido.
O enigma de Kaspar Hauser
Sinopse. Filme dirigido por Werner Herzog.
Kaspar Hauser é um jovem que foi trancado a vida inteira num cativeiro, desconhecendo toda a existência exterior. Quando ele é solto nas ruas sem motivo aparente, a sociedade se organiza para ajudar Kaspar, que sequer conseguia falar ou andar, mas este logo acaba se tornando uma atração popular. Baseado em uma história real.
Por Murilo Mendes
Ninguém mais pode escolher
A vida que lhe apetece.
Ninguém mais pode ser só:
As almas são reveladas
À luz de mil holofotes.
Em torno de mim se agita
Uma conspiração de olhares.
Vou tomar a carruagem,
Comunicam ao mundo inteiro.
Cheiro uma rosa - explodiu.
Só tive consolo e paz
No ventre de minha mãe.
A quinta-coluna que existe
Desde o princípio do tempo
Não me deixa respirar.
Sou sempre triste, no escuro.
Adeus universo padrasto,
Que rejeitas o inocente,
O órfão, o pobre, o nu.
Não acho irmandade em ninguém:
Morrendo, sou livre enfim.
Canção de Kasparhauser
Por Georg Trakl. Tradução de Cláudia Cavalcante.
Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo,
Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro
E a alegria do verde.
Sisuda era sua morada à sombra da árvore
E puro o seu rosto.
Deus disse ao seu coração uma doce chama:
Homem!
Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite;
O lamento sombrio de sua boca:
Quero tomar-me cavaleiro.
Seguiram-no porém arbusto e animal,
Casa e jardim crepuscular de gente branca,
E procurava-o seu assassino.
Primavera, verão e belo o outono
Do justo, seu passo leve
Pelos quartos escuros de sonhadores.
À noite ficava sozinho com sua estrela;
Viu que nevava em galhos nus,
E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa.
Prateada, tombou a cabeça do não-nascido.
O enigma de Kaspar Hauser
Sinopse. Filme dirigido por Werner Herzog.
Kaspar Hauser é um jovem que foi trancado a vida inteira num cativeiro, desconhecendo toda a existência exterior. Quando ele é solto nas ruas sem motivo aparente, a sociedade se organiza para ajudar Kaspar, que sequer conseguia falar ou andar, mas este logo acaba se tornando uma atração popular. Baseado em uma história real.
quarta-feira, fevereiro 04, 2009
Rio sem discurso
Por João Cabral de Melo Neto. Um poema heraclitiano.
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água quebra-se em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O discurso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a sede ele combate.
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água quebra-se em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O discurso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a sede ele combate.
terça-feira, fevereiro 03, 2009
Meu lirismo de funcionário
Certa vez, o bonde andando já há muito, disseram que leram essa coisa blog desde o primeiro texto. Outra vez, comentaram que gostavam muito de minhas crônicas. Houve tempos em que machuquei pessoas - minhas palavras infelizes.
Desde então tenho uma fantasia ideológica, daquelas que nos moldam e nos constitui, de que haverá sempre quem me leia. E talvez por isso tenho sido tão verborrágico. Mas se isso não for verdade, também não é providencial que me desenganem, pelo menos para que algo exista.
Sei da enorme falha que sou como gente - eu que sinto cumplicidade com a covardia de que falei outro dia. Mas também não me desminto nem me desculpo, e já anuncio: haverá um tempo, muito tempo depois de ter desistido dessas coisas, em que eu voltarei para ler todo grande erro aqui escrito (e uns poucos acertos). Nesse tempo, terei ao menos vocês para culpar!
Afinal, isto é um reduto de palavras órfãs que não assumirei.
Desde então tenho uma fantasia ideológica, daquelas que nos moldam e nos constitui, de que haverá sempre quem me leia. E talvez por isso tenho sido tão verborrágico. Mas se isso não for verdade, também não é providencial que me desenganem, pelo menos para que algo exista.
Sei da enorme falha que sou como gente - eu que sinto cumplicidade com a covardia de que falei outro dia. Mas também não me desminto nem me desculpo, e já anuncio: haverá um tempo, muito tempo depois de ter desistido dessas coisas, em que eu voltarei para ler todo grande erro aqui escrito (e uns poucos acertos). Nesse tempo, terei ao menos vocês para culpar!
Afinal, isto é um reduto de palavras órfãs que não assumirei.
The two trees
Por William Butler Yeats, poeta irlandês
Beloved, gaze in thine own heart,
The holy tree is growing there;
From joy the holy branches start,
And all the trembling flowers they bear.
The changing colours of its fruit
Have dowered the stars with merry light;
The surety of its hidden root
Has planted quiet in the night;
The shaking of its leafy head
Has given the waves their melody,
And made my lips and music wed,
Murmuring a wizard song for thee.
There the Loves a circle go,
The flaming circle of our days,
Gyring, spiring to and fro
In those great ignorant leafy ways;
Remembering all that shaken hair
And how the wingèd sandals dart,
Thine eyes grow full of tender care:
Beloved, gaze in thine own heart.
Gaze no more in the bitter glass
The demons, with their subtle guile,
Lift up before us when they pass,
Or only gaze a little while;
For there a fatal image grows
That the stormy night receives,
Roots half hidden under snows,
Broken boughs and blackened leaves.
For all things turn to barrenness
In the dim glass the demons hold,
The glass of outer weariness,
Made when God slept in times of old.
There, through the broken branches, go
The ravens of unresting thought;
Flying, crying, to and fro,
Cruel claw and hungry throat,
Or else they stand and sniff the wind,
And shake their ragged wings; alas!
Thy tender eyes grow all unkind:
Gaze no more in the bitter glass.
[Vê em teu coração, amada,/Ali a sagrada árvore cresce;/Da alegria brotam os ramos sagrados,/E todas as flores tremulantes que eles portam./As cores cambiantes de suas frutas/
Legaram às estrelas a espirituosa luz/A fortaleza de sua raiz oculta/Quieta na noite se plantou;/A vibração de sua copa de folhas/Deu às ondas sua melodia,/E casou meus lábios à música,/A murmurar a ti uma canção mágica./À sua volta os Amores fazem um círculo,/Os ardentes círculos de nossos dias,/Girando, rodando, pra frente e pra trás/Naqueles grandes caminhos de folhas ignorados/Lembrando aqueles cabelos tremulantes./E como as sandálias aladas se lançam,/Teus olhos crescem cheios de ternura:/Vê em teu coração, amada.///Não vejas mais na amara lente/Os demônios, com seus hábeis ardis,/Levantam-se ante nós quando passam,/Ou vê apenas por um breve momento;/Para isso, uma imagem mortal se faz/Que recebe a noite tempestuosa,/Raízes meio ocultas sob a neve,/Galhos quebrados e folhas enegrecidas./Porque tudo se torna ermo/Nos vidros trevosos que os demônios seguram,/O vidro de uma moda alienígena,/Feitos quando Deus dormia nos remotos tempos/Lá, pelos ramos quebrados, vão/Os corvos de alma incansável;/Voando, chorando, pra frente e pra trás,/Garra cruel e garganta faminta,/Ou então eles param e inspiram o vento,/E balouçam suas rotas asas, que pena!/Teus olhos ternos se enchem de maldade:/Não vejas mais na amara lente.]
Beloved, gaze in thine own heart,
The holy tree is growing there;
From joy the holy branches start,
And all the trembling flowers they bear.
The changing colours of its fruit
Have dowered the stars with merry light;
The surety of its hidden root
Has planted quiet in the night;
The shaking of its leafy head
Has given the waves their melody,
And made my lips and music wed,
Murmuring a wizard song for thee.
There the Loves a circle go,
The flaming circle of our days,
Gyring, spiring to and fro
In those great ignorant leafy ways;
Remembering all that shaken hair
And how the wingèd sandals dart,
Thine eyes grow full of tender care:
Beloved, gaze in thine own heart.
Gaze no more in the bitter glass
The demons, with their subtle guile,
Lift up before us when they pass,
Or only gaze a little while;
For there a fatal image grows
That the stormy night receives,
Roots half hidden under snows,
Broken boughs and blackened leaves.
For all things turn to barrenness
In the dim glass the demons hold,
The glass of outer weariness,
Made when God slept in times of old.
There, through the broken branches, go
The ravens of unresting thought;
Flying, crying, to and fro,
Cruel claw and hungry throat,
Or else they stand and sniff the wind,
And shake their ragged wings; alas!
Thy tender eyes grow all unkind:
Gaze no more in the bitter glass.
[Vê em teu coração, amada,/Ali a sagrada árvore cresce;/Da alegria brotam os ramos sagrados,/E todas as flores tremulantes que eles portam./As cores cambiantes de suas frutas/
Legaram às estrelas a espirituosa luz/A fortaleza de sua raiz oculta/Quieta na noite se plantou;/A vibração de sua copa de folhas/Deu às ondas sua melodia,/E casou meus lábios à música,/A murmurar a ti uma canção mágica./À sua volta os Amores fazem um círculo,/Os ardentes círculos de nossos dias,/Girando, rodando, pra frente e pra trás/Naqueles grandes caminhos de folhas ignorados/Lembrando aqueles cabelos tremulantes./E como as sandálias aladas se lançam,/Teus olhos crescem cheios de ternura:/Vê em teu coração, amada.///Não vejas mais na amara lente/Os demônios, com seus hábeis ardis,/Levantam-se ante nós quando passam,/Ou vê apenas por um breve momento;/Para isso, uma imagem mortal se faz/Que recebe a noite tempestuosa,/Raízes meio ocultas sob a neve,/Galhos quebrados e folhas enegrecidas./Porque tudo se torna ermo/Nos vidros trevosos que os demônios seguram,/O vidro de uma moda alienígena,/Feitos quando Deus dormia nos remotos tempos/Lá, pelos ramos quebrados, vão/Os corvos de alma incansável;/Voando, chorando, pra frente e pra trás,/Garra cruel e garganta faminta,/Ou então eles param e inspiram o vento,/E balouçam suas rotas asas, que pena!/Teus olhos ternos se enchem de maldade:/Não vejas mais na amara lente.]
sábado, janeiro 31, 2009
Contra a poesia
Já se disse que Mein Kampf é mal escrito, e se submeteu a revisões estilísticas e gramaticais por assessores, na ocasião da ascensão do nazismo na Alemanha.
Sabe-se também que Borges era conivente com a ditadura militar argentina; talvez não a defendesse de forma ativa justamente por não ser da índole dos bons escritores assumir causas que não essencialmente as suas.
Uma generalização irresponsável a partir desses dois exemplos nos daria alguns problemas. Adianto um deles: com fundamento nas reflexões seguintes, se dogmáticas, não haveria outra maneira de considerar Sartre se não como um mau escritor. E Sartre, creio eu, não é um mau escritor. Mas vá lá, sejamos um pouco irresponsáveis.
O que é significante no Mein Kampf, assim como nos relatos duros de Júlio César sobre suas guerras, e nas poesias sem qualidade da juventude de Stálin, é que maus escritores acham-se capazes de escrever, de assenhorar-se das palavras escritas e de todo o poder mágico que cada nome e cada verbo pode produzir nos rumos da humanidade. E por se acharem capazes de manipular algo tão místico e sagrado, adquirem uma grandiloquência magnífica, e poderão então se tornar magníficos tiranos na impostação de suas vozes com palavras que, quais as de Homero, ganham asas. E que das tribunas dos magníficos palácios voam como ordens a mover exércitos, para o bem ou para o mal, mas sempre interferindo na vida das outras pessoas. Os maus escritores são também homens de ação e fazem a história na ação: pouco se lê de seus escritos. Fazer análise dos ensaios de Robespierre - este sim um jovem premiado na escola (recebera inclusive o galardão das mãos de Louis XVI...), mas nunca próximo ao gênio satírico de um Voltaire - mal dirá sobre seu constitucionalismo revolucionário, e menos ainda do Terror dos Comitês sob domínio jacobino, se a análise for de conteúdo. O que interessa em textos tais é a manifestação justamente da grandiloquência, dessa auto-imagem do portador do logos, do verdadeiro portador do logos e, como tal, como senhor da ação. A grandiloquência não é própria do discurso, ou não se esgota nele: é própria do homem, do homem cuja palavra escrita não é mais do que a latência ou potência de uma força a se irromper mais cedo ou mais tarde nisso que é tão louvado pelos inimigos da erudição, a atitude. Mas falo do mau-escritor que se habilita e se anuncia como escritor, o mau-escritor público, e não o mau-escritor da gaveta, o mau-escritor de diários, ou de blogs que esperam as visitas fortuitas: este se aproxima do bom escritor na vida política, mas não na escrita ou na altivez.
O bom escritor é o oposto. Tem tudo para dominar a grandiloquência, pois adquiriu tamanha intimidade com as palavras e se resignou a aceitar seus mistérios que estas não se esquivariam de torná-lo grande - e não se esquivam, pois sabemos que eles são bons escritores. Porém, a palavra o torna grande porque o bom escritor aprendeu a ser seu súdito, não seu manipulador. Resignou-se demais. O bom escritor é então o covarde, por mais palavras que diga não age. Não pode agir. Poderá defender aqui e acolá os piores regimes, se estes lhes deixam em paz. O que importa ao bom escritor, como Borges, é este isolamento, a paciente contemplação do que lhe envolve e lhe angustia, a fim de manter o silêncio do inescrutável nas suas palavras. Ele poderá cantar as revoluções, mas não apertará os gatilhos. Poderá difamar o tirano, mas será o primeiro a perdoá-lo quando ele estiver deposto. O narrador da Récherche proustiana, no seu desejo de ser um escritor, vê-se obrigado a renegar toda forma de amor e amizade: não pode suportar que outros dependam dele e de suas decisões, porque ele não sabe agir; e, evitando o risco de ter que se deixar furtar o tempo pela companhia dos outros, ele precisa escrever (bem). O bom escritor precisa, pois, deste egoísmo pueril, não para negar os outros, mas para não impor o seu eu sobre eles. Bem ao contrário do tirano. Mas acaba que também não pode ajudar, não pode salvar, não pode fazer ninguém feliz. Por isso o protótipo do bom escritor é o cego - Homero, Milton, Borges - que perscruta a pureza das palavras, mas não enxerga o alvo quando deve dar o tiro (Euclides da Cunha que o diga). É o bon vivant - Horácio, Byron, Vinícius de Moraes - que se entrega aos prazeres egotistas e erige monumentos nos versos, mas não move o mundo. É o tísico - Manuel Bandeira e Álvares de Azevedo; o funcionário hermético de ombros encolhidos - Carlos Drummond de Andrade; é o misantropo - Dalton Trevisan, Thomas Pynchon; é o tímido - Foster Wallace. É como disse Álvaro de Campos: "Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;/Mas acordámos e ele é opaco,/Levantámo-nos e ele é alheio".
Covardes e tiranos. Poesia para quê?
Sabe-se também que Borges era conivente com a ditadura militar argentina; talvez não a defendesse de forma ativa justamente por não ser da índole dos bons escritores assumir causas que não essencialmente as suas.
Uma generalização irresponsável a partir desses dois exemplos nos daria alguns problemas. Adianto um deles: com fundamento nas reflexões seguintes, se dogmáticas, não haveria outra maneira de considerar Sartre se não como um mau escritor. E Sartre, creio eu, não é um mau escritor. Mas vá lá, sejamos um pouco irresponsáveis.
O que é significante no Mein Kampf, assim como nos relatos duros de Júlio César sobre suas guerras, e nas poesias sem qualidade da juventude de Stálin, é que maus escritores acham-se capazes de escrever, de assenhorar-se das palavras escritas e de todo o poder mágico que cada nome e cada verbo pode produzir nos rumos da humanidade. E por se acharem capazes de manipular algo tão místico e sagrado, adquirem uma grandiloquência magnífica, e poderão então se tornar magníficos tiranos na impostação de suas vozes com palavras que, quais as de Homero, ganham asas. E que das tribunas dos magníficos palácios voam como ordens a mover exércitos, para o bem ou para o mal, mas sempre interferindo na vida das outras pessoas. Os maus escritores são também homens de ação e fazem a história na ação: pouco se lê de seus escritos. Fazer análise dos ensaios de Robespierre - este sim um jovem premiado na escola (recebera inclusive o galardão das mãos de Louis XVI...), mas nunca próximo ao gênio satírico de um Voltaire - mal dirá sobre seu constitucionalismo revolucionário, e menos ainda do Terror dos Comitês sob domínio jacobino, se a análise for de conteúdo. O que interessa em textos tais é a manifestação justamente da grandiloquência, dessa auto-imagem do portador do logos, do verdadeiro portador do logos e, como tal, como senhor da ação. A grandiloquência não é própria do discurso, ou não se esgota nele: é própria do homem, do homem cuja palavra escrita não é mais do que a latência ou potência de uma força a se irromper mais cedo ou mais tarde nisso que é tão louvado pelos inimigos da erudição, a atitude. Mas falo do mau-escritor que se habilita e se anuncia como escritor, o mau-escritor público, e não o mau-escritor da gaveta, o mau-escritor de diários, ou de blogs que esperam as visitas fortuitas: este se aproxima do bom escritor na vida política, mas não na escrita ou na altivez.
O bom escritor é o oposto. Tem tudo para dominar a grandiloquência, pois adquiriu tamanha intimidade com as palavras e se resignou a aceitar seus mistérios que estas não se esquivariam de torná-lo grande - e não se esquivam, pois sabemos que eles são bons escritores. Porém, a palavra o torna grande porque o bom escritor aprendeu a ser seu súdito, não seu manipulador. Resignou-se demais. O bom escritor é então o covarde, por mais palavras que diga não age. Não pode agir. Poderá defender aqui e acolá os piores regimes, se estes lhes deixam em paz. O que importa ao bom escritor, como Borges, é este isolamento, a paciente contemplação do que lhe envolve e lhe angustia, a fim de manter o silêncio do inescrutável nas suas palavras. Ele poderá cantar as revoluções, mas não apertará os gatilhos. Poderá difamar o tirano, mas será o primeiro a perdoá-lo quando ele estiver deposto. O narrador da Récherche proustiana, no seu desejo de ser um escritor, vê-se obrigado a renegar toda forma de amor e amizade: não pode suportar que outros dependam dele e de suas decisões, porque ele não sabe agir; e, evitando o risco de ter que se deixar furtar o tempo pela companhia dos outros, ele precisa escrever (bem). O bom escritor precisa, pois, deste egoísmo pueril, não para negar os outros, mas para não impor o seu eu sobre eles. Bem ao contrário do tirano. Mas acaba que também não pode ajudar, não pode salvar, não pode fazer ninguém feliz. Por isso o protótipo do bom escritor é o cego - Homero, Milton, Borges - que perscruta a pureza das palavras, mas não enxerga o alvo quando deve dar o tiro (Euclides da Cunha que o diga). É o bon vivant - Horácio, Byron, Vinícius de Moraes - que se entrega aos prazeres egotistas e erige monumentos nos versos, mas não move o mundo. É o tísico - Manuel Bandeira e Álvares de Azevedo; o funcionário hermético de ombros encolhidos - Carlos Drummond de Andrade; é o misantropo - Dalton Trevisan, Thomas Pynchon; é o tímido - Foster Wallace. É como disse Álvaro de Campos: "Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;/Mas acordámos e ele é opaco,/Levantámo-nos e ele é alheio".
Covardes e tiranos. Poesia para quê?
sexta-feira, janeiro 30, 2009
Uma pergunta
Por que no Brasil se insiste em imitar a pior fase da literatura norte-americana (Bukowski, Kerouac, Ginsburg), quando eles nos oferecem Faulkner, Mailer, Capote, Updike, Hemingway, Foster Wallace, Thomas Pynchon, Phillip Roth?
Dá uma réiva.
Dá uma réiva.
quarta-feira, janeiro 28, 2009
Torre de Babel (revisado)
Houve um tempo em que toda a terra tinha uma só língua e servia-se das mesmas palavras. E todas as coisas sobre o mundo e além do mundo e ocultas sob o véu das luzes que cobrem os olhos e dos sons que acalentam os ouvidos, todas essas coisas podiam ser ditas. Isso era em Senaar. Os filhos dum antigo dilúvio vieram de um só ramo, e todos tinham a mesma origem, e serviam-se das mesmas palavras. As palavras designavam a partir das mais simples formas das formas simples, que quais peças de montar se conjugavam em possibilidades quase infinitas; porque não eram infinitas as coisas a serem ditas, apenas muitas.
E o nosso sonho de prosa, este nosso sonho escravo de representações, o nosso sonho de ter o tudo nas páginas dos livros e em cada boca, de ver tudo excluído do não-dito, da ambigüidade, do inominável, do desconhecido, esse nosso sonho foi uma vez realidade. Nenhuma palavra planava no céu da linguagem como abstrações que flutuam nos dias sem a nossa mínima suspeita, mas dava com nossas caras na dureza ou leveza das coisas e de cada coisa, na verdade dos atos, na mais clara forma do pensamento. Podia-se falar da origem das coisas, das transcendências, das essências ocultas sob as superfícies, das imaginações e dos sonhos, e sem erros, e sem que um ao ouvi-las pudesse pensar em algo distinto daquele que as dizia. O amor, bibliotecas de dicionários registravam algumas centenas de formas diferentes para dizê-lo, esta palavra que para nós abraça tanta coisa e não diz nada. Dizia o namorado à namorada que não a amava mais, mas que a amava, e cada amor era diferente, e a namorada que o amava ainda, mas não o amava já, compreendia que era diferente e que não podiam mais partilhar os leitos e roçar os corpos na planície pulsante ao rio Tigre cheio de vida. E hoje só se pode amar ou não, e o te amo à mãe é igual ao que se dá àquela que se emaranha nas tuas pernas, e o nosso desespero é o desespero de que algo ficou por dizer.
Deus viu aquele povo e pensou que tal povo poderia executar todos os empreendimentos e assim seriam como Deus. Mas Deus não rivaliza, é uno. Lançou a confusão no solo de Senaar e nunca mais a mesma língua foi partilhada.
Dizem-nos de tal história que houve um povo que construía uma torre para alcançar os céus. Engana-se quem pensa nos tijolos cozidos e nos vitrais e nos pórticos e nas colunas e nas enormes paredes interrompendo o horizonte, isso tudo que se faria à custa das fundações – e até Deus sabia disso. A torre de Babel era a língua dos filhos de Noé. O subentendido, o por-dizer, aquilo para o que a garganta nos falta, isso tudo é um vapor que emerge dos infernos: o céu alcança quem os elimina e quem assim elimina todas as possibilidades, todos os progressos, que são próprios de quem é dominado pelo que somente aparece quando faltam os nomes – o desejo. Houve um povo, esse povo, estagnado na impossibilidade infinita, mas a impossibilidade infinita é o apanágio de Deus.
Que só semeou a confusão porque por um momento foi a Ele que faltaram as palavras.
E o nosso sonho de prosa, este nosso sonho escravo de representações, o nosso sonho de ter o tudo nas páginas dos livros e em cada boca, de ver tudo excluído do não-dito, da ambigüidade, do inominável, do desconhecido, esse nosso sonho foi uma vez realidade. Nenhuma palavra planava no céu da linguagem como abstrações que flutuam nos dias sem a nossa mínima suspeita, mas dava com nossas caras na dureza ou leveza das coisas e de cada coisa, na verdade dos atos, na mais clara forma do pensamento. Podia-se falar da origem das coisas, das transcendências, das essências ocultas sob as superfícies, das imaginações e dos sonhos, e sem erros, e sem que um ao ouvi-las pudesse pensar em algo distinto daquele que as dizia. O amor, bibliotecas de dicionários registravam algumas centenas de formas diferentes para dizê-lo, esta palavra que para nós abraça tanta coisa e não diz nada. Dizia o namorado à namorada que não a amava mais, mas que a amava, e cada amor era diferente, e a namorada que o amava ainda, mas não o amava já, compreendia que era diferente e que não podiam mais partilhar os leitos e roçar os corpos na planície pulsante ao rio Tigre cheio de vida. E hoje só se pode amar ou não, e o te amo à mãe é igual ao que se dá àquela que se emaranha nas tuas pernas, e o nosso desespero é o desespero de que algo ficou por dizer.
Deus viu aquele povo e pensou que tal povo poderia executar todos os empreendimentos e assim seriam como Deus. Mas Deus não rivaliza, é uno. Lançou a confusão no solo de Senaar e nunca mais a mesma língua foi partilhada.
Dizem-nos de tal história que houve um povo que construía uma torre para alcançar os céus. Engana-se quem pensa nos tijolos cozidos e nos vitrais e nos pórticos e nas colunas e nas enormes paredes interrompendo o horizonte, isso tudo que se faria à custa das fundações – e até Deus sabia disso. A torre de Babel era a língua dos filhos de Noé. O subentendido, o por-dizer, aquilo para o que a garganta nos falta, isso tudo é um vapor que emerge dos infernos: o céu alcança quem os elimina e quem assim elimina todas as possibilidades, todos os progressos, que são próprios de quem é dominado pelo que somente aparece quando faltam os nomes – o desejo. Houve um povo, esse povo, estagnado na impossibilidade infinita, mas a impossibilidade infinita é o apanágio de Deus.
Que só semeou a confusão porque por um momento foi a Ele que faltaram as palavras.
segunda-feira, janeiro 26, 2009
Consolo-me
Consolo-me.
Agora a morte tem
o sopro terno
e eterna é a ternura.
Retorno, e retorna-
rá sempre meu sempre
retorno, ainda que tarde.
Talvez mesmo eu tarde,
mas nesse entanto interminável
é a vitória de mim
contra o termo irrevogável
do tartárico decreto
do torpe e tormentoso
fim.
Agora a morte tem
o sopro terno
e eterna é a ternura.
Retorno, e retorna-
rá sempre meu sempre
retorno, ainda que tarde.
Talvez mesmo eu tarde,
mas nesse entanto interminável
é a vitória de mim
contra o termo irrevogável
do tartárico decreto
do torpe e tormentoso
fim.
sexta-feira, janeiro 23, 2009
Enjambement - outro estudo
Você consegue
acompanhar
a
Lei
tura?
Ou há também aquele
.
.
.
martelo!
a pregar os
ouvidos na
Voz?
acompanhar
a
Lei
tura?
Ou há também aquele
.
.
.
martelo!
a pregar os
ouvidos na
Voz?
Cesura - um estudo
Vai pensando bastante e tenta não parar.
Não freias, meu senhor: quer o mundo o pensar.
- Mas por que te deténs, no meio do meu verso?
Por que tu então paras se parar não deves?
- É preciso...
......................- Parar?
....................................- ...pensar.
Não freias, meu senhor: quer o mundo o pensar.
- Mas por que te deténs, no meio do meu verso?
Por que tu então paras se parar não deves?
- É preciso...
......................- Parar?
....................................- ...pensar.
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Desengaño de las Mujeres
Puto es el hombre que de putas fía,
y puto el que sus gustos apetece;
puto es el estipendio que se ofrece
en pago de su puta compañía.
Puto es el gusto, y puta la alegría
que el rato putaril nos encarece;
y yo diré que es puto a quien parece
que no sois puta vos, señora mía.
Mas llámenme a mí puto enamorado,
si al cabo para puta no os dejare;
y como puto muera yo quemado
si de otras tales putas me pagare,
porque las putas graves son costosas,
y las putillas viles, afrentosas.
*Por Francisco de Quevedo, poeta do barroco seiscentista, nome maior do conceptismo espanhol. Partidário do neo-estoicismo, um neo-estoicismo cristão. Segundo Borges, é o artífice da língua espanhola.
y puto el que sus gustos apetece;
puto es el estipendio que se ofrece
en pago de su puta compañía.
Puto es el gusto, y puta la alegría
que el rato putaril nos encarece;
y yo diré que es puto a quien parece
que no sois puta vos, señora mía.
Mas llámenme a mí puto enamorado,
si al cabo para puta no os dejare;
y como puto muera yo quemado
si de otras tales putas me pagare,
porque las putas graves son costosas,
y las putillas viles, afrentosas.
*Por Francisco de Quevedo, poeta do barroco seiscentista, nome maior do conceptismo espanhol. Partidário do neo-estoicismo, um neo-estoicismo cristão. Segundo Borges, é o artífice da língua espanhola.
sexta-feira, janeiro 16, 2009
Falso amor sincero
Por Nelson Sargento
O nosso amor é tão bonito
Ela finge que me ama
E eu finjo que acredito!
Por isso eu vivo a dizer
Que o nosso amor é tão bonito
Ela finge que me ama
E eu finjo que acredito!
O nosso falso amor é tão sincero
Isto me faz bem feliz
Ela faz tudo que eu quero
Eu faço tudo que ela diz
Aqueles que se amam de verdade
Invejam a nossa felicidade!
O nosso amor é tão bonito
Ela finge que me ama
E eu finjo que acredito!
Por isso eu vivo a dizer
Que o nosso amor é tão bonito
Ela finge que me ama
E eu finjo que acredito!
O nosso falso amor é tão sincero
Isto me faz bem feliz
Ela faz tudo que eu quero
Eu faço tudo que ela diz
Aqueles que se amam de verdade
Invejam a nossa felicidade!
quarta-feira, janeiro 14, 2009
poemas ligeiros e irresponsáveis
mal posso o ferir o céu, como vates
meu toque esmaga o espaço.
crescido sou, e as cidades trespasso
não com miríades de mapas
com a contagem infinda de passos;
não é no asfalto de suas malhas
que posso alguma hora perder.
meu toque destrói o tempo
os deuses calados do templo
a chuva, a onda, o vento:
não podem cidades me conter.
sou maior que os prédios
cujos rebites cheios de aço
as bases de tantos ferros
não logram além de mim ser.
sou e significo, sozinho e só
meu nome é o único nome,
basto-me, sou todo o homem,
o homem do todo, o todo eu,
o tudo, pura e simplesmente;
nada pode me ser indiferente:
de toda a gente o rosto é meu.
que mendigam a vida no verso
mal contenho as multidões
estes nadas no vão do universo:meu toque esmaga o espaço.
crescido sou, e as cidades trespasso
não com miríades de mapas
com a contagem infinda de passos;
não é no asfalto de suas malhas
que posso alguma hora perder.
meu toque destrói o tempo
os deuses calados do templo
a chuva, a onda, o vento:
não podem cidades me conter.
sou maior que os prédios
cujos rebites cheios de aço
as bases de tantos ferros
não logram além de mim ser.
sou e significo, sozinho e só
meu nome é o único nome,
basto-me, sou todo o homem,
o homem do todo, o todo eu,
o tudo, pura e simplesmente;
nada pode me ser indiferente:
de toda a gente o rosto é meu.
domingo, janeiro 11, 2009
Citações
"A primeira vítima da guerra é a verdade."
Senador Hiram W. Johnson (1866-1945)
"Não param de dizer que 'toda nação tem o direito de proteger seus cidadãos', como se fosse apenas isso, e as pessoas acabam por acreditar que é disso que se trata."
Philip Knightley, do Sunday Times, sobre a propaganda israelense de guerra.
"Concordo que Israel tem um enorme desafio para explicar isso [o ataque a uma escola em Gaza], mas se o mundo não entender, paciência. Se o outro lado não cumpre as regras básicas, Israel não pode ser culpado."
Eitan Gilboa, da Universidade Bar-Ilan.
"Nós, israelenses, precisamos mudar nossa mentalidade automática, que diz sempre que a ação militar vai resolver nossos problemas."
Nir Baram, escritor israelense.
"O governo israelense achou necessário agir militarmente devido à pressão da opinião pública, da mídia e da direita. Afinal, estamos no meio de uma campanha eleitoral. E as regras da vida no Oriente Médio ditam que não se pode demonstrar fraqueza. É essa mentalidade a que Baram se referiu".
Hillel Schenker, jornalista do Palestine-Israel Journal, em Tel-Aviv, mostrando que não se trata de legítima defesa, mas uma manobra eleitoral para impedir a eleição de Benyamin Netanyahu, da extrema-direita (pois, se o Hamas pôs fim à trégua pelo lançamento de foguetes, foi em razão de que Israel se recusara a pôr fim ao bloqueio à Faixa de Gaza, como previa o acordo do armistício de junho).
"Seria bom se a comunidade internacional deixasse de tratar membros do Hamas como pobres coitados e os visse como são: genocidas."
Gustavo Ioschpe, para a Folha de S. Paulo, e, não por acaso, colaborador da Veja.
Senador Hiram W. Johnson (1866-1945)
"Não param de dizer que 'toda nação tem o direito de proteger seus cidadãos', como se fosse apenas isso, e as pessoas acabam por acreditar que é disso que se trata."
Philip Knightley, do Sunday Times, sobre a propaganda israelense de guerra.
"Concordo que Israel tem um enorme desafio para explicar isso [o ataque a uma escola em Gaza], mas se o mundo não entender, paciência. Se o outro lado não cumpre as regras básicas, Israel não pode ser culpado."
Eitan Gilboa, da Universidade Bar-Ilan.
"Nós, israelenses, precisamos mudar nossa mentalidade automática, que diz sempre que a ação militar vai resolver nossos problemas."
Nir Baram, escritor israelense.
"O governo israelense achou necessário agir militarmente devido à pressão da opinião pública, da mídia e da direita. Afinal, estamos no meio de uma campanha eleitoral. E as regras da vida no Oriente Médio ditam que não se pode demonstrar fraqueza. É essa mentalidade a que Baram se referiu".
Hillel Schenker, jornalista do Palestine-Israel Journal, em Tel-Aviv, mostrando que não se trata de legítima defesa, mas uma manobra eleitoral para impedir a eleição de Benyamin Netanyahu, da extrema-direita (pois, se o Hamas pôs fim à trégua pelo lançamento de foguetes, foi em razão de que Israel se recusara a pôr fim ao bloqueio à Faixa de Gaza, como previa o acordo do armistício de junho).
"Seria bom se a comunidade internacional deixasse de tratar membros do Hamas como pobres coitados e os visse como são: genocidas."
Gustavo Ioschpe, para a Folha de S. Paulo, e, não por acaso, colaborador da Veja.
sábado, janeiro 10, 2009
Soneto XC de Shakespeare
Then hate me when thou wilt, if ever, now,
Now while the world is bent my deeds to cross,
Join with the spite of fortune, make me bow,
And do not drop in for an after-loss:
Ah do not, when my heart hath scap'd this sorrow,
Come in the reaward of a conquer'd woe,
Give not a windy night a rainy morrow,
To linger out a purpos'd overthrow.
If thou wilt leave me, do not leave me last,
When other petty griefs have done their spite,
But in the onset come, so shall I taste
At first the very worst of fortune's might.
....And other strains of woe, which now seem woe
....Compar'd with loss of thee, will not seem so.
[Então me odeia quando quiseres, ou mesmo agora,/Agora enquanto o mundo coloca meus feitos na cruz,/Junta-te ao rancor da sorte, faze-me curvar,/E não apareças para um novo prejuízo:/Ah não, quando meu coração tiver fugido desta tristeza,/Não venhas, quando dos prêmios de uma dor vencida,/Não dês um amanhã de chuva a uma noite de ventos,/Para prolongar uma ruína resolvida./Se tu me queres deixar, não o faças no fim,/Quando todas as mágoas triviais tiverem passado,/Mas no começo, quando eu experimentarei/Duma e na primeira vez o pior dos desígnios da fortuna./E outros tipos de dor, agora não parecerão dor,/Comparado com a tua perda, não parecerão dor.]
Na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
Odeia-me, portanto; agora, se é preciso:
Agora, em tudo, o mundo insiste em contrariar-me;
Não me causes mais tarde um súbito prejuízo,
Une-te logo à sorte cruel, vem humilhar-me.
Quando minh'alma houver fugido ao meu tormento,
Não surjas no último escalão de dor vencida:
Não dês manhã de chuva à noite com seu vento,
A fim de prolongar a derrota decidida.
Se me deixares, não me deixes só no fim,
Quando se houver cumprido tanta dor menor;
Vem no primeiro ataque: eu sofrerei assim,
De plano, o que a fortuna oferecer de pior.
....E outras formas de dor, que ora parecem dor,
....Junto de tua perda não terão tal cor.
Now while the world is bent my deeds to cross,
Join with the spite of fortune, make me bow,
And do not drop in for an after-loss:
Ah do not, when my heart hath scap'd this sorrow,
Come in the reaward of a conquer'd woe,
Give not a windy night a rainy morrow,
To linger out a purpos'd overthrow.
If thou wilt leave me, do not leave me last,
When other petty griefs have done their spite,
But in the onset come, so shall I taste
At first the very worst of fortune's might.
....And other strains of woe, which now seem woe
....Compar'd with loss of thee, will not seem so.
[Então me odeia quando quiseres, ou mesmo agora,/Agora enquanto o mundo coloca meus feitos na cruz,/Junta-te ao rancor da sorte, faze-me curvar,/E não apareças para um novo prejuízo:/Ah não, quando meu coração tiver fugido desta tristeza,/Não venhas, quando dos prêmios de uma dor vencida,/Não dês um amanhã de chuva a uma noite de ventos,/Para prolongar uma ruína resolvida./Se tu me queres deixar, não o faças no fim,/Quando todas as mágoas triviais tiverem passado,/Mas no começo, quando eu experimentarei/Duma e na primeira vez o pior dos desígnios da fortuna./E outros tipos de dor, agora não parecerão dor,/Comparado com a tua perda, não parecerão dor.]
Na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos:
Odeia-me, portanto; agora, se é preciso:
Agora, em tudo, o mundo insiste em contrariar-me;
Não me causes mais tarde um súbito prejuízo,
Une-te logo à sorte cruel, vem humilhar-me.
Quando minh'alma houver fugido ao meu tormento,
Não surjas no último escalão de dor vencida:
Não dês manhã de chuva à noite com seu vento,
A fim de prolongar a derrota decidida.
Se me deixares, não me deixes só no fim,
Quando se houver cumprido tanta dor menor;
Vem no primeiro ataque: eu sofrerei assim,
De plano, o que a fortuna oferecer de pior.
....E outras formas de dor, que ora parecem dor,
....Junto de tua perda não terão tal cor.
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Adendo às notas abaixo
Duas notícias (aqui e aqui) de hoje confirmaram duas das minhas opiniões de ontem. A primeira, a de que a guerra não é feita por legítima defesa. As declarações de Shimon Peres, as de que Israel pretende evitar que Gaza se torne satélite de Irã, são indisfarçáveis indicativos de o que ocorre é mais uma daquelas guerras preventivas, na toada da doutrina de segurança internacional do pós-11 de setembro. Não há respaldo em nenhum tratado internacional para este tipo de manobra militar, que é fruto de um saber construído às pressas e sobre fatos inventados que mais se parecem com fábulas do lobo mau que querem incutir medo nas crianças desobedientes (ou revolucionárias...).
Não bastasse a guerra injusta, Israel nos brinda com a cereja da sobremesa: a segunda notícia mais que escancara o caráter criminoso e desproporcional da ofensiva.
É isso.
Não bastasse a guerra injusta, Israel nos brinda com a cereja da sobremesa: a segunda notícia mais que escancara o caráter criminoso e desproporcional da ofensiva.
É isso.
Outras notas sobre Gaza
Os contemporâneos da minha geração não lutamos por um país para chamar de nosso. Aliás, tal luta é de difícil concepção num período em que o espaço público não representa outra coisa a não ser vias que medeiam núcleos privados de convivência. Disso parece advir a natural conclusão de que julgar as lutas dos palestinos e dos israelenses nos é vedado, ou que pelo menos qualquer juízo deve vir acompanhado de mil ressalvas.
A minha ressalva é essa de que falei, a da distância representada pela apatia da minha geração, mas acaba aqui. Ainda tenho o poder de imaginar, e creio também ter certa capacidade de me fazer outro algumas vezes. Este é, em verdade, o exercício mais fascinante da literatura, o da alteridade, o de emudecer o imperioso eu e dar voz a outro, ainda que ficção da própria cabeça (que nunca é inteiramente própria, como dizem os anunciadores da morte do solipsismo). Por isso me proponho a fazer alguns comentários sobre a situação dos outros, correndo o risco do juízo equivocado; que de resto nem é tanta novidade, eis que assumo o grande erro que sou.
O que me interessa expressar aqui – e o texto será estranho para quem tem me acompanhado – é a raiva que de repente adquiri pela cobertura do conflito. Não reduzo minha crítica à cobertura midiática. A mídia já um monstro muito batido, facílimo de criticar, mas impossível de abandonar. Falo também da cobertura – ou das interpretações – dos protagonistas políticos do cenário mundial. Que também são joões-bobos a levar paulada de todo canto, porém sem qualquer direito de reclamar por isso.
É risível ter que agüentar governos e jornalistas do mundo pedir pelo cessar-fogo de Israel, reconhecendo, por outro lado, inevitavelmente o direito de existência do país e pela luta de suas raízes. Digo inevitavelmente porque toda e qualquer condenação (ou melhor, pedidos de trégua – ninguém condena tanto assim) tem que vir acompanhada por qualquer expressão que livre o comentarista da pecha do anti-semitismo. Coisas como excesso de legítima defesa, morte de inocentes no ataque a terroristas e utilização da população palestina pelo Hamas como escudo humano são praticamente rotinas inescapáveis da menção de qualquer um que apele pelo fim do conflito. Ninguém comemora a morte dos palestinos, mas se há alguém a ser efetivamente condenado, só podem ser eles.
Ousar condenar Israel é ser nazista. Críticas podem ser bem-vindas, mas sempre se acompanhadas daquelas ressalvas que reservam a verdadeira condenação aos terroristas do Hamas. Esse é o teor do politicamente correto para tratar do conflito, é a cartilha da abordagem do assunto. Porém, se for lembrar o que meus amigos hegelianos diriam, o politicamente correto não passa de uma universalização política de uma visão parcial e fragmentada do acontecer social, agora assumida como natural e com pleno direito de ser assim porque..., enfim, as coisas têm que ser assim. Vou ousar seguir a contracorrente dessa universalização, correndo o risco de cair no discurso negativista de uma esquerda irrefletida, e mais ainda o risco de ser tratado por nazista.
O ataque israelense é crime de guerra e não há ressalvas possíveis para salvá-lo. É ato covarde, desproporcional e não se baseia em nenhum pressuposto de legítima defesa que permita a declaração unilateral de guerra. Ehud Olmert encabeça um movimento tão desastroso quanto à Guerra no Iraque ou o massacre dos tutsis. (Se eu mencionasse então o holocausto seria eu o excessivamente irônico, e não a história?) Continuemos: trata-se de um ataque contra algo que não teve até hoje a mínima estrutura de se aparelhar como nação; uma organização a que sempre se negou efetiva voz, relegando a atos de violência isolados e de pouca capacidade destrutiva. A Faixa de Gaza se espreme contra o mar e o Egito, uma região densamente povoada pela população palestina, que desde há muito teve que se contentar com atos de caridade ou boa-vontade de Israel e da ONU para ter uma terra para chamar de sua.
A ofensiva mata. Dizer que mata crianças ou inocentes é apenas um apelo ao desespero e à pieguice humanas. A morte seria tão covarde estivessem elas a salvo em algum reduto ou no Egito. Mostram-no o placar de caídos de cada lado: Israel não passou da segunda dezena de mortos, sendo que mais da metade deles é de fogo amigo! Mata-se um povo espremido, arrasado por 35% de desemprego e uma igual faixa de pessoas vivendo na linha da miséria. Um povo que, desarmado, não logra sequer ajuda de forças de paz da ONU, que o máximo que sabe fazer é mandar observadores para a fronteira. Observadores estes que manterão a lenga-lenga de pedir o cessar-fogo reconhecendo a culpa palestina.
Todas as mais de seiscentas mortes palestinas foram devidas ao armamento israelense. Até uma escola foi atacada. E de quem é a culpa? Do Hamas. O governo israelense, entre lamentos falsos numa gravidade pomposamente ridícula, diz isso mesmo: a culpa é do Hamas. Eles é que são os covardes que utilizam a população como escudo humano para encobrirem-se e continuarem com suas maldades fundamentalistas – maldades estas baseadas num vil sentimento de acabar com Israel a todo custo...
Ora, como se pode dizer que os que defendem Gaza estão utilizando a população de escudo humano se estão lutando numa região super-povoada, não havendo a mínima possibilidade de se retirar para um campo de batalha isolado? Israel pratica a ofensiva dentro das cidades palestinas, não seria de se surpreender que o próprio povo - aí sim em legítima defesa – procurasse atirar e atingir o algoz com o que lhe está ao alcance da mão. Essa é a principal característica das longas Intifadas que ocorreram no Oriente Médio, e a culpa não se pode atribuir à Palestina: é uma conjunção de fatores de atos de unilaterais de poder e de uma desastrosa solução que transferiu um problema nascido no seio do mundo ocidental para o mundo islâmico.
O que complica nossa história é que o Hamas foi bem sucedido em alcançar o nome de terroristas. Não há como deixar de ser nominalista nestas horas: a velha lição aristotélica dos semas e remas nos deixa um triste exemplo de aplicação. As informações lingüísticas se dividem em um sujeito – o sema – e um predicado – o rema; e as novidades sempre ocorrem no rema, enquanto uma nominação bem sucedida transforma todo um conjunto de informações (de sintagmas descritivos em Bertrand Russel ou, o que prefiro, de conjunto de possibilidades em Wittgenstein) em um nome, um sujeito, no sema (lembrem-se da palavra ‘semântica’), e a partir disso são tidas como naturais e fechadas. Se digo que o cachorro morreu, a morte – o rema da frase - é a informação nova; o fato de ser um cachorro – o sema da construção - já é dado. Se eu digo que o Hamas é terrorista, enquadro aquela organização num nome e as novas construções frasais terão tal enquadramento como dada. “Os terroristas do Hamas lançaram morteiros”: aqui, todos já aceitarão como natural o caráter terrorista do partido palestino, pois a informação nova é o lançamento dos foguetes (que, no caso, retroalimenta a idéia contida no sema). Se tivemos uma nominação bem-sucedida, a de terrorista, o falatório humano já o terá como dado e não o submeterá a questionamento. Questioná-lo implica um grande exercício de desconstrução do sema, que é sempre complicado e demorado: é exatamente o que tento fazer aqui. Enquanto os atos de Israel forem nominados de legítima defesa e os do Hamas de terroristas, toda análise deverá partir destes pressupostos. A tendência humana à decadência do já-sempre-sabido pouco procurará superar esses pressupostos, e aí que toda morte palestina fatalmente será culpa do Hamas.
Não mais, a depender de mim. O Hamas é um exemplo fascinante – e não podemos relegá-lo ao esquecimento – da crise da democracia. Demonstra cabalmente que ninguém a defende a todo custo, e que ninguém crê piamente em suas bases. Quando, por exemplo, as opiniões publicadas se voltam contra garantias individuais em nome de um poder coercitivo e violento do Estado, na luta contra a criminalidade de rua, um dos grandes pilares da democracia, o da liberdade individual, é questionado, mas ninguém desses opinantes se chamaria de antidemocrático. O caso do Hamas, porém, é mais explícito, é uma chaga que sangra, uma fratura exposta. O partido foi eleito segundo as regras democráticas pelo povo palestino, mas isso não foi suficiente para granjear apoio do país que se julga porta-voz da liberdade e da democracia – os Estados Unidos. Pelo contrário, há já um histórico daquele país em suspender a regra democrática do voto quando, a seu juízo, o povo é irresponsável o suficiente para não escolher um governo que lhe apeteça. O caso das ditaduras militares latino-americanas é emblemático. Odeio citações da espécie, porque são tiradas da minha mais falha memória, mas já li em algum lugar a manifestação de um alto secretário do governo americano da década de setenta que apoiou o golpe contra Allende no Chile porque o povo foi irresponsável de o eleger. Não precisamos de muito para aumentar os exemplos: o golpe sofrido por Hugo Chavez na Venezuela foi exatamente a mesma situação.
A mim parece que os porta-vozes da democracia serão os responsáveis pela sua derrocada, que, creio eu, há de vir. Nominações destrutivas unilaterais e ofensivas militares contra um povo desarmado são configuradoras de um ancien régime globalizado. A Israel não interessa a democracia palestina, nem se o Hamas não for o eleito. O próprio Fatah – organização laica e com canal muito maior de comunicação com o ocidente – já sofreu imposições unilaterais de Israel, com o cerco empreendido pelo país contra prédios em que se localizava Yasser Arafat, porque este não aceitava mais um dos atos de boa vontade do Estado judeu.
Toquei na palavra tabu. Mas persisto em condenar Israel, não como senhor da justiça, mas como portador de uma opinião que, creio eu, encontra-se cá fundamentada. Não arredarei pé, e dessa vez abstenho-me completamente de suavizar os crimes de guerra defendendo o direito de existência e de defesa do estado judaico, ou desmistificando - como sempre fiz - o absurdo cristão de condenar a etnia pela usura e, contemporaneamente, pelo capitalismo financeiro selvagem. Quem sofre hoje são os palestinos, e os judeus nacionalmente organizados guardam em si, como qualquer outro povo, a possibilidade de ser a vítima de tempos idos e o carrasco das novas auroras.
A minha ressalva é essa de que falei, a da distância representada pela apatia da minha geração, mas acaba aqui. Ainda tenho o poder de imaginar, e creio também ter certa capacidade de me fazer outro algumas vezes. Este é, em verdade, o exercício mais fascinante da literatura, o da alteridade, o de emudecer o imperioso eu e dar voz a outro, ainda que ficção da própria cabeça (que nunca é inteiramente própria, como dizem os anunciadores da morte do solipsismo). Por isso me proponho a fazer alguns comentários sobre a situação dos outros, correndo o risco do juízo equivocado; que de resto nem é tanta novidade, eis que assumo o grande erro que sou.
O que me interessa expressar aqui – e o texto será estranho para quem tem me acompanhado – é a raiva que de repente adquiri pela cobertura do conflito. Não reduzo minha crítica à cobertura midiática. A mídia já um monstro muito batido, facílimo de criticar, mas impossível de abandonar. Falo também da cobertura – ou das interpretações – dos protagonistas políticos do cenário mundial. Que também são joões-bobos a levar paulada de todo canto, porém sem qualquer direito de reclamar por isso.
É risível ter que agüentar governos e jornalistas do mundo pedir pelo cessar-fogo de Israel, reconhecendo, por outro lado, inevitavelmente o direito de existência do país e pela luta de suas raízes. Digo inevitavelmente porque toda e qualquer condenação (ou melhor, pedidos de trégua – ninguém condena tanto assim) tem que vir acompanhada por qualquer expressão que livre o comentarista da pecha do anti-semitismo. Coisas como excesso de legítima defesa, morte de inocentes no ataque a terroristas e utilização da população palestina pelo Hamas como escudo humano são praticamente rotinas inescapáveis da menção de qualquer um que apele pelo fim do conflito. Ninguém comemora a morte dos palestinos, mas se há alguém a ser efetivamente condenado, só podem ser eles.
Ousar condenar Israel é ser nazista. Críticas podem ser bem-vindas, mas sempre se acompanhadas daquelas ressalvas que reservam a verdadeira condenação aos terroristas do Hamas. Esse é o teor do politicamente correto para tratar do conflito, é a cartilha da abordagem do assunto. Porém, se for lembrar o que meus amigos hegelianos diriam, o politicamente correto não passa de uma universalização política de uma visão parcial e fragmentada do acontecer social, agora assumida como natural e com pleno direito de ser assim porque..., enfim, as coisas têm que ser assim. Vou ousar seguir a contracorrente dessa universalização, correndo o risco de cair no discurso negativista de uma esquerda irrefletida, e mais ainda o risco de ser tratado por nazista.
O ataque israelense é crime de guerra e não há ressalvas possíveis para salvá-lo. É ato covarde, desproporcional e não se baseia em nenhum pressuposto de legítima defesa que permita a declaração unilateral de guerra. Ehud Olmert encabeça um movimento tão desastroso quanto à Guerra no Iraque ou o massacre dos tutsis. (Se eu mencionasse então o holocausto seria eu o excessivamente irônico, e não a história?) Continuemos: trata-se de um ataque contra algo que não teve até hoje a mínima estrutura de se aparelhar como nação; uma organização a que sempre se negou efetiva voz, relegando a atos de violência isolados e de pouca capacidade destrutiva. A Faixa de Gaza se espreme contra o mar e o Egito, uma região densamente povoada pela população palestina, que desde há muito teve que se contentar com atos de caridade ou boa-vontade de Israel e da ONU para ter uma terra para chamar de sua.
A ofensiva mata. Dizer que mata crianças ou inocentes é apenas um apelo ao desespero e à pieguice humanas. A morte seria tão covarde estivessem elas a salvo em algum reduto ou no Egito. Mostram-no o placar de caídos de cada lado: Israel não passou da segunda dezena de mortos, sendo que mais da metade deles é de fogo amigo! Mata-se um povo espremido, arrasado por 35% de desemprego e uma igual faixa de pessoas vivendo na linha da miséria. Um povo que, desarmado, não logra sequer ajuda de forças de paz da ONU, que o máximo que sabe fazer é mandar observadores para a fronteira. Observadores estes que manterão a lenga-lenga de pedir o cessar-fogo reconhecendo a culpa palestina.
Todas as mais de seiscentas mortes palestinas foram devidas ao armamento israelense. Até uma escola foi atacada. E de quem é a culpa? Do Hamas. O governo israelense, entre lamentos falsos numa gravidade pomposamente ridícula, diz isso mesmo: a culpa é do Hamas. Eles é que são os covardes que utilizam a população como escudo humano para encobrirem-se e continuarem com suas maldades fundamentalistas – maldades estas baseadas num vil sentimento de acabar com Israel a todo custo...
Ora, como se pode dizer que os que defendem Gaza estão utilizando a população de escudo humano se estão lutando numa região super-povoada, não havendo a mínima possibilidade de se retirar para um campo de batalha isolado? Israel pratica a ofensiva dentro das cidades palestinas, não seria de se surpreender que o próprio povo - aí sim em legítima defesa – procurasse atirar e atingir o algoz com o que lhe está ao alcance da mão. Essa é a principal característica das longas Intifadas que ocorreram no Oriente Médio, e a culpa não se pode atribuir à Palestina: é uma conjunção de fatores de atos de unilaterais de poder e de uma desastrosa solução que transferiu um problema nascido no seio do mundo ocidental para o mundo islâmico.
O que complica nossa história é que o Hamas foi bem sucedido em alcançar o nome de terroristas. Não há como deixar de ser nominalista nestas horas: a velha lição aristotélica dos semas e remas nos deixa um triste exemplo de aplicação. As informações lingüísticas se dividem em um sujeito – o sema – e um predicado – o rema; e as novidades sempre ocorrem no rema, enquanto uma nominação bem sucedida transforma todo um conjunto de informações (de sintagmas descritivos em Bertrand Russel ou, o que prefiro, de conjunto de possibilidades em Wittgenstein) em um nome, um sujeito, no sema (lembrem-se da palavra ‘semântica’), e a partir disso são tidas como naturais e fechadas. Se digo que o cachorro morreu, a morte – o rema da frase - é a informação nova; o fato de ser um cachorro – o sema da construção - já é dado. Se eu digo que o Hamas é terrorista, enquadro aquela organização num nome e as novas construções frasais terão tal enquadramento como dada. “Os terroristas do Hamas lançaram morteiros”: aqui, todos já aceitarão como natural o caráter terrorista do partido palestino, pois a informação nova é o lançamento dos foguetes (que, no caso, retroalimenta a idéia contida no sema). Se tivemos uma nominação bem-sucedida, a de terrorista, o falatório humano já o terá como dado e não o submeterá a questionamento. Questioná-lo implica um grande exercício de desconstrução do sema, que é sempre complicado e demorado: é exatamente o que tento fazer aqui. Enquanto os atos de Israel forem nominados de legítima defesa e os do Hamas de terroristas, toda análise deverá partir destes pressupostos. A tendência humana à decadência do já-sempre-sabido pouco procurará superar esses pressupostos, e aí que toda morte palestina fatalmente será culpa do Hamas.
Não mais, a depender de mim. O Hamas é um exemplo fascinante – e não podemos relegá-lo ao esquecimento – da crise da democracia. Demonstra cabalmente que ninguém a defende a todo custo, e que ninguém crê piamente em suas bases. Quando, por exemplo, as opiniões publicadas se voltam contra garantias individuais em nome de um poder coercitivo e violento do Estado, na luta contra a criminalidade de rua, um dos grandes pilares da democracia, o da liberdade individual, é questionado, mas ninguém desses opinantes se chamaria de antidemocrático. O caso do Hamas, porém, é mais explícito, é uma chaga que sangra, uma fratura exposta. O partido foi eleito segundo as regras democráticas pelo povo palestino, mas isso não foi suficiente para granjear apoio do país que se julga porta-voz da liberdade e da democracia – os Estados Unidos. Pelo contrário, há já um histórico daquele país em suspender a regra democrática do voto quando, a seu juízo, o povo é irresponsável o suficiente para não escolher um governo que lhe apeteça. O caso das ditaduras militares latino-americanas é emblemático. Odeio citações da espécie, porque são tiradas da minha mais falha memória, mas já li em algum lugar a manifestação de um alto secretário do governo americano da década de setenta que apoiou o golpe contra Allende no Chile porque o povo foi irresponsável de o eleger. Não precisamos de muito para aumentar os exemplos: o golpe sofrido por Hugo Chavez na Venezuela foi exatamente a mesma situação.
A mim parece que os porta-vozes da democracia serão os responsáveis pela sua derrocada, que, creio eu, há de vir. Nominações destrutivas unilaterais e ofensivas militares contra um povo desarmado são configuradoras de um ancien régime globalizado. A Israel não interessa a democracia palestina, nem se o Hamas não for o eleito. O próprio Fatah – organização laica e com canal muito maior de comunicação com o ocidente – já sofreu imposições unilaterais de Israel, com o cerco empreendido pelo país contra prédios em que se localizava Yasser Arafat, porque este não aceitava mais um dos atos de boa vontade do Estado judeu.
Toquei na palavra tabu. Mas persisto em condenar Israel, não como senhor da justiça, mas como portador de uma opinião que, creio eu, encontra-se cá fundamentada. Não arredarei pé, e dessa vez abstenho-me completamente de suavizar os crimes de guerra defendendo o direito de existência e de defesa do estado judaico, ou desmistificando - como sempre fiz - o absurdo cristão de condenar a etnia pela usura e, contemporaneamente, pelo capitalismo financeiro selvagem. Quem sofre hoje são os palestinos, e os judeus nacionalmente organizados guardam em si, como qualquer outro povo, a possibilidade de ser a vítima de tempos idos e o carrasco das novas auroras.
segunda-feira, janeiro 05, 2009
sexta-feira, janeiro 02, 2009
Estupro
Início da ação.
O Estuprador:
quando as pernas abro
não são as pernas que forço
mas a força de não me querer
A Estuprada:
queres o gozo e não lho dou
não lho dou o que de mim roubas
mas não roubas porque lhe dou
O Estuprador:
dás-me em não me dando
não darias desses
e do não-dada dada está
A Estuprada:
recuso o dada dada estando
porque é possível tudo ser
mas só sou possível se mulher
O Estuprador:
por ser mulher não
por sê-la sim
sofres? por ser mulher
A Estuprada:
sofro por ser mulher
mas porque mulher sendo
não me te devia dar
O Estuprador:
sofro porque sofro
só porque sofres e só
sofrendo sou feliz
A Estuprada:
sofres porque não sabes
se és feliz ou não o és
não há nome para o teu sofrer
O Estuprador:
sofro porque não há nome
e porque só o teu sofrer
sofrimento se chamar pode
A Estuprada:
sofro onde chorando gozas
porque negando te me dei
e a culpa negando herdei
Fim da ação.
O Estuprador:
quando as pernas abro
não são as pernas que forço
mas a força de não me querer
A Estuprada:
queres o gozo e não lho dou
não lho dou o que de mim roubas
mas não roubas porque lhe dou
O Estuprador:
dás-me em não me dando
não darias desses
e do não-dada dada está
A Estuprada:
recuso o dada dada estando
porque é possível tudo ser
mas só sou possível se mulher
O Estuprador:
por ser mulher não
por sê-la sim
sofres? por ser mulher
A Estuprada:
sofro por ser mulher
mas porque mulher sendo
não me te devia dar
O Estuprador:
sofro porque sofro
só porque sofres e só
sofrendo sou feliz
A Estuprada:
sofres porque não sabes
se és feliz ou não o és
não há nome para o teu sofrer
O Estuprador:
sofro porque não há nome
e porque só o teu sofrer
sofrimento se chamar pode
A Estuprada:
sofro onde chorando gozas
porque negando te me dei
e a culpa negando herdei
Fim da ação.
sexta-feira, dezembro 26, 2008
Alteridade
sou-te a ti que sendo és-me
somo-los todos que nos são
e nos vivem quando foram
e nos morrem quando vão
és tu sendo de mim a parte
em que inteiro sendo sou
havendo és-me contra além
em que inteiro te anti-vou
oposto são do que nós somos
e exato o contra somos nós
somos eles que não nos são
sendo-nos eles o que sois vós
chamo-os de vós o nós de ti
é tanto ser que nos confundo
morrer-te-ão e viver-vos-emos
sendo-me todo em parte mundo
somo-los todos que nos são
e nos vivem quando foram
e nos morrem quando vão
és tu sendo de mim a parte
em que inteiro sendo sou
havendo és-me contra além
em que inteiro te anti-vou
oposto são do que nós somos
e exato o contra somos nós
somos eles que não nos são
sendo-nos eles o que sois vós
chamo-os de vós o nós de ti
é tanto ser que nos confundo
morrer-te-ão e viver-vos-emos
sendo-me todo em parte mundo
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Meme Literário?
Pediram-me que participasse de um Meme Literário e respondesse a questionamentos sobre algumas experiências minhas com a literatura.
Aqui, entretanto, tento evitar minhas memórias. Há, sempre há, mas é preciso literalizar. Deus me livre das minhas biografias, a menos que sejam mentirosas! A quem poderá interessar meu fascínio infantil por enciclopédias e atlas? Pra que dizer que o que me marcou a infância foram o volume 14 da Barsa de 1976 da casa da minha avó, um Atlas do Corpo Humano e o Guia dos Curiosos? Seria bem melhor dizer, qual um Stuart Mill, que li aos oito Esopo e Xenofonte no grego antigo, cujo alfabeto aprendera aos três. Porque, a ficar na verdade, além daqueles, meu primeiro hábito real foi com Agatha Christie - traduzida - e os seus homicidas do Assassinato no Expresso do Oriente. Talvez interessasse um pouco mais minha adolescência, e minha paixão pela Capitu, cuja fidelidade defendi ardentemente num júri em que a acusavam de trair Bentinho. E meu encanto pela poesia que veio de um poeta... parnasiano! Sim, era Raimundo Correa e o seu soneto Mal Secreto: Quanta gente que ri, talvez, consigo, guarda um atroz, recôndito inimigo como invisível chaga cancerosa! É, rio pelo que andei lendo esses anos todos, mas escondendo que todo o edifício da literatura me é inimiga oculta por ser intransponível. Hei de viver na interminável - e por tal sempre frustrante - Biblioteca de Babel, qual imaginada por Jorge Luis Borges, nome que está - e isso não é segredo a ninguém - no topo dos meus tops qualquer número. Todos os livros por ler são espinhos n'alma, e alguns lidos não se desencravaram: entranharam-se mais nas minhas dores. Seja porque me impõem o dever de serem relidos - os de sempre: Homero, Shakespeare, Joyce, Proust, Kafka... -, seja porque me dão a impressão da maior perda de tempo. Isso porque também não é segredo da minha desconfiança com a literatura urbana contemporânea, que queima um maço de cigarros por página. Se Caio Fernando Abreu desce corroendo as vísceras, os beatniks meio que entalam na garganta. Mas os que estão em atividade no Brasil..., livrai-me, senhor! Não posso agüentar três linhas do Marçal Aquino, Mirisola ou Mutarelli. Dos contemporâneos, então, fico com o Tezza, e com Oswaldo Martins, que, alardeado na sua desgraça, revelou-se agradável surpresa. Não. Melhor não falar das minhas memórias, que mal as tenho. E por ser sempre nisso falho, nas matérias da memória, tenho a terrível mania de querer retê-la sempre, como que cerrando os pulsos para segurar a água que escorre. Fico sempre tentando desenvolver algum jeito de salvá-la, e o mais recente foram os post-it's em tudo quanto é página. Como sempre, inútil.
Perdoarás, Daniel, mas não responderei o Meme Literário que me propuseste.
Aqui, entretanto, tento evitar minhas memórias. Há, sempre há, mas é preciso literalizar. Deus me livre das minhas biografias, a menos que sejam mentirosas! A quem poderá interessar meu fascínio infantil por enciclopédias e atlas? Pra que dizer que o que me marcou a infância foram o volume 14 da Barsa de 1976 da casa da minha avó, um Atlas do Corpo Humano e o Guia dos Curiosos? Seria bem melhor dizer, qual um Stuart Mill, que li aos oito Esopo e Xenofonte no grego antigo, cujo alfabeto aprendera aos três. Porque, a ficar na verdade, além daqueles, meu primeiro hábito real foi com Agatha Christie - traduzida - e os seus homicidas do Assassinato no Expresso do Oriente. Talvez interessasse um pouco mais minha adolescência, e minha paixão pela Capitu, cuja fidelidade defendi ardentemente num júri em que a acusavam de trair Bentinho. E meu encanto pela poesia que veio de um poeta... parnasiano! Sim, era Raimundo Correa e o seu soneto Mal Secreto: Quanta gente que ri, talvez, consigo, guarda um atroz, recôndito inimigo como invisível chaga cancerosa! É, rio pelo que andei lendo esses anos todos, mas escondendo que todo o edifício da literatura me é inimiga oculta por ser intransponível. Hei de viver na interminável - e por tal sempre frustrante - Biblioteca de Babel, qual imaginada por Jorge Luis Borges, nome que está - e isso não é segredo a ninguém - no topo dos meus tops qualquer número. Todos os livros por ler são espinhos n'alma, e alguns lidos não se desencravaram: entranharam-se mais nas minhas dores. Seja porque me impõem o dever de serem relidos - os de sempre: Homero, Shakespeare, Joyce, Proust, Kafka... -, seja porque me dão a impressão da maior perda de tempo. Isso porque também não é segredo da minha desconfiança com a literatura urbana contemporânea, que queima um maço de cigarros por página. Se Caio Fernando Abreu desce corroendo as vísceras, os beatniks meio que entalam na garganta. Mas os que estão em atividade no Brasil..., livrai-me, senhor! Não posso agüentar três linhas do Marçal Aquino, Mirisola ou Mutarelli. Dos contemporâneos, então, fico com o Tezza, e com Oswaldo Martins, que, alardeado na sua desgraça, revelou-se agradável surpresa. Não. Melhor não falar das minhas memórias, que mal as tenho. E por ser sempre nisso falho, nas matérias da memória, tenho a terrível mania de querer retê-la sempre, como que cerrando os pulsos para segurar a água que escorre. Fico sempre tentando desenvolver algum jeito de salvá-la, e o mais recente foram os post-it's em tudo quanto é página. Como sempre, inútil.
Perdoarás, Daniel, mas não responderei o Meme Literário que me propuseste.
domingo, dezembro 14, 2008
O terceiro homicídio
Recebi um telegrama. Um encontro na Biblioteca Nacional, não num bar na Boca, como sói. É que desta vez é um ministro do Yrigoyen, recém eleito presidente pelo Partido Radical. Achei criativo o lugar do encontro; a Argentina sob os últimos liberais se apegou demasiadamente ao progresso, abriram escolas para refinar nossas crianças, impuseram a Buenos Aires o apelido de Paris sul-americana, cuja elegância se deve seguir ocultando a argentinidade dos portenhos. E assim também as letras, afetadas demais pela prosa francesa, e todos os cafés abarrotados de críticos e leitores cheios de razão – porque apenas repetem os jornais – e de pompa literária. Mas chega-se à biblioteca e tudo se desmancha, duvida-se do interesse argentino pelos livros no vazio de seus corredores, e confirma-se o escandaloso fato, que não é de bom-tom mencionar nesta Paris Meridional, do amor portenho pelo discurso frívolo, cheio de gestos e palavras de efeito.
Nada mais convinha, portanto, à discrição necessária ao meu trabalho e aos que me contratam que a Biblioteca Nacional. Levei meu pince-nez e minha barba intelectual. Uma tradução espanhola de Schopenhauer sob o braço. Schopenhauer é bom: se o vêem com ele sob o braço, terão medo de você, porque parecerá que realmente leu o filósofo, além de meramente o citar. Sentei-me a um canto, fingindo deleitar-me com a leitura. Pouco tempo depois o ministro chegava, ostentando um sorriso nervoso e um livro de Julián Martel. Tentou ser natural, cumprimentando-me como quem encontra do nada um amigo há muito perdido, e manteve esse sorriso o tempo todo, até que a esperança dos radicais parecesse mais verossímil que os dentes prodigalizados por aquela boca.
- Preciso dos seus serviços.
Sou assassino por encomenda, e tenho fama nas altas rodas. Não é segredo que estes tipos de sociedade trabalham de uma forma a segregar-se o máximo dos indesejáveis. As ruas da Recoleta são tão públicas quanto às da Boca, mas não se há de ver com freqüência o morador daquelas andando nestas, e os que vivem próximos ao Riachuelo sempre se sentem mais pobres e mais reles quando pisam nos bairros nobres. Dar conta dessa classe de indesejáveis não é meu trabalho, o sistema já funciona para isso. O meu trabalho é necessário quando os indesejáveis estão nas próprias altas rodas, ou ainda quando são das parcelas contíguas da pequena-burguesia portenha que se alimenta dos restos dos protagonistas sociais. Eu livro o mundo dos impertinentes aos planos privados de ascensão pública. Não sou mau, nem carrego a culpa nos meus ombros. Não passo de uma demanda, de uma necessidade do poder: sou apenas uma das rodas da engrenagem política. Tanto é verdade que não devo ser desconhecido das autoridades policiais. Mas minha prisão não interessa a muita gente; e minha morte exigiria outro igual a mim, mas não tenho notícia de concorrência em Buenos Aires.
- Bernardo Brenman é um empreiteiro de Tucumán. Há algum tempo me procurou oferecendo-me dinheiro. Entregou-me trezentos mil pesos semana passada. Em troca, devo direcionar os gastos da minha pasta para a sua empresa. Mas eu não posso fazer isso, compreende?
- Se ele pagou, você deve fazê-lo.
- O senhor não me compreende, ah ah. – riu alto para dar ares de conversa entre amigos. Ri também para sustentar o jogo – Eu aceitei o dinheiro porque tive medo. Naturalmente que aceitei porque gosto e preciso de dinheiro, ah ah, mas tive medo também. Parece que ele já tinha o mesmo esquema no tempo do Sáenz Peña. Ele já está muito bem familiarizado com os grandes nomes do país, não lhe seria difícil acabar com minha carreira, compreende?
- E o senhor quer que eu o mate, ah ah?
- Ah ah. O senhor é muito direto, ah ah.
- O senhor é quem disse que precisa dos meus serviços.
- O que é isso? Schopenhauer? Bem, seria isso sim.
- Matá-lo?
- O senhor fica com metade do que recebi. Eu preciso que não haja testemunhas da origem deste dinheiro. Então seriam três mortes.
- Mas ainda não compreendi por que o senhor simplesmente não cumpre o acordo.
- O senhor não vê que caso isso venha à tona seria o fim para Yrigoyen? Nosso presidente se elegeu depois de tanta luta popular, depois das greves, e de todo o acordão para a Lei Sáenz Peña. Não posso eu, pelas minhas necessidades monetárias, subtrair-lhe a legitimidade democrática. É preciso não dar poder de fogo aos liberais, o senhor me compreende?
- Perfeitamente. Quem deverei matar?
- Ah ah. O senhor me assusta. Pois bem: deverá matar o senhor Brenman; o senhor Ricardo Castillo Pérez, diretor da repartição responsável pelas concorrências nos gastos ministeriais, que também estava nas tratativas; e um funcionário de Brenman, cujo nome não sei, mas posso lhe indicar o lugar onde encontrá-lo.
- E como o senhor sabe que ninguém mais sabe do negócio?
- Porque todos precisam de discrição nestas horas. Brenman negocia pessoalmente nestes assuntos, não abre o jogo com ninguém nem delega essa função. Somente ele e aquele funcionário, de sua total confiança, estão inteirados no assunto. E é isso que me faz procurar o senhor, preciso da sua experiência e sua discrição. O senhor não pode me faltar.
Aceitei o trabalho. Deveria matar os três. Começaria, por óbvio, no funcionário público, pessoa menos notória, cuja morte não deixaria de sobreaviso os outros dois. Conheço esse tipo de gente: arrivista típico do serviço público, que prefere não dar as caras e assumir responsabilidades para ser sempre mera peça do fisiologismo estatal. Corporativista, carreirista, o que lhe importava era o salário e os meios de incrementá-lo, sem jamais ocupar o topo da hierarquia funcional para isentar-se de dedos apontando-lhe a cara. O homem estava no negócio por promessa de parte daquele dinheiro recebido pelo ministro, o que tornava fácil me aproximar. Fiz-me empregado da empreiteira de Tucumán, entrei em contato com sua repartição. Nem precisei insinuar, ele já me dizia que não era conveniente nos encontrarmos em seu trabalho. Sugeri – sabendo da sua recusa – o hotel onde eu estaria hospedado. Ele me convidou para seu apartamento em San Telmo.
Numa manhã de domingo, sob a névoa de uma Buenos Aires fria, era julho, fui visitá-lo. Morava com a mulher e um filho. Serviu-me café, medialunas e bolo com cremes. Fechamo-nos em seu living e comecei a perguntar sobre as perspectivas de contratos públicos, estradas novas, aumento da rede do metrô, portos por construir. Eu andava pela sala enquanto ele me expunha os projetos do Partido Radical para a Argentina. Parei para olhar um quadro de natureza morta, daqueles artistas que vendem na Plaza de Mayo, iguais a todos as outras telas de folhas e frutas e flores em vasos. Castillo Pérez não parava de me apontar as boas perspectivas para minha suposta empresa. Ele estava era entorpecido nas suas próprias perspectivas de dinheiro sujo, mal dava por mim atrás de seu sofá, puxando o garrote da manga para envolver-lhe o pescoço até o último sufoco. Caiu do sofá sobre a mesa de centro, xícaras se quebraram no chão. No que sua mulher entrou na sala, o mesmo arame impediu-lhe o grito, e a vida. A criança estava na cozinha, entretida em sua comida, que salguei com sonífero. Morreu na própria cama, por causa do travesseiro que pressionei contra seu rosto. A névoa da cidade dissipava e o sol vencia.
Uma semana depois, o ministro deu-me a notícia de que Brenman e seu funcionário estariam em Buenos Aires. Forneceu-me o endereço do apartamento do empresário na capital, na Rua Rivadavia, e disse-me que o funcionário ficaria em um apartamento dois pisos abaixo. Para encontrar Brenman, utilizei o expediente inverso do de Castillo Pérez. Fingi ser funcionário do ministério; aliás, o próprio Castillo Pérez. Fui diretamente à portaria de seu prédio, tarde da noite, anunciei meu nome e que precisava tratar de assuntos de seu interesse junto ao governo. Enquanto o porteiro subia para avisar o empreiteiro, envenenei seu mate. Pessoas que devem são fáceis de matar, pois Brenman de pronto aceitou me receber também em seu próprio apartamento. Quando abriu a porta, assustou-se com minha insígnia da Polícia Federal e minha arma. Avisei-o de que sabia de todo o esquema junto ao ministro, mas que estava disposto a negociar. Rapidamente me convidou a entrar. Quando se virou para me conduzir para dentro, encostei o cano em seus rins gordos e puxei o gatilho. Dei outro tiro à queima-roupa, Brenman já estava no chão, na altura de seu peito. Tomei-lhe as chaves e o tranquei ali dentro.
Desci dois andares para então dar conta da última parte do meu trabalho. Ninguém respondeu às minhas batidas na porta. Forcei a fechadura, a porta, aberta, cedeu. O apartamento estava vazio, nada mais havia que um espelho enorme na parede ao fundo do hall de entrada. Vasculhei todas as salas e quartos, e o que encontrei foi apenas um jornal com um anúncio marcado. O anúncio dizia que aquele mesmo apartamento estava disponível para alugar.
Precisava, no entanto, terminar meu trabalho. Não poderia manchar meu nome deixando-o por realizar. Certo de que nova audiência com o ministro seria tarde demais, pois logo descobririam Brenman, resolvi empreender algumas diligências para me informar rapidamente. Desci à portaria, o porteiro suava frio, respirava com dificuldades. Perguntei-lhe o que tinha, disse-me que estava mal do estômago. Nada soube dizer sobre eventual funcionário de Brenman naquele prédio. Sobre o apartamento do anúncio, falou-me que o imóvel já havia sido alugado por um senhor chamado Alfredo Ugarte, e que as chaves estavam na portaria aguardando sua chegada.
Algo não estava correto. Por um momento, temi que me enredassem numa caçada. Eu deveria matar alguém sem nome, cujo endereço era aquele apartamento. E aquele apartamento estava alugado a Alfredo Ugarte. Mas eu conhecia Ugarte, que certamente não era funcionário de nenhuma empreiteira. Ugarte tem nome e rosto, e bem familiares, ao contrário da vítima contra a qual fui contratado. De volta ao apartamento, olhei novamente ao espelho. O ministro precisava da morte de todas as testemunhas da sua corrupção e eu era o seu instrumento. Eu, com toda a minha fama, com meu nome, com meu prestígio no serviço sujo da política. Não houve falhas na minha trajetória, tudo fiz de modo que sempre os favores me fossem devidos, por mais dinheiro que me pagassem. Eu era protegido por meus feitos, que poderiam derrubar metade desta capital. Não era agora que eu falharia. Todas as testemunhas seriam mortas, bem como quis o ministro, que me pediu que eu não lhe faltasse. Havia, então, uma coisa a ser feita. Em frente ao grande espelho, toquei o cano da arma no meu coração. E agora puxarei o gatilho. Porque eu, Alfredo Ugarte, testemunha das corrupções portenhas, não posso pretender ser maior e mais longevo que a minha própria reputação.
Nada mais convinha, portanto, à discrição necessária ao meu trabalho e aos que me contratam que a Biblioteca Nacional. Levei meu pince-nez e minha barba intelectual. Uma tradução espanhola de Schopenhauer sob o braço. Schopenhauer é bom: se o vêem com ele sob o braço, terão medo de você, porque parecerá que realmente leu o filósofo, além de meramente o citar. Sentei-me a um canto, fingindo deleitar-me com a leitura. Pouco tempo depois o ministro chegava, ostentando um sorriso nervoso e um livro de Julián Martel. Tentou ser natural, cumprimentando-me como quem encontra do nada um amigo há muito perdido, e manteve esse sorriso o tempo todo, até que a esperança dos radicais parecesse mais verossímil que os dentes prodigalizados por aquela boca.
- Preciso dos seus serviços.
Sou assassino por encomenda, e tenho fama nas altas rodas. Não é segredo que estes tipos de sociedade trabalham de uma forma a segregar-se o máximo dos indesejáveis. As ruas da Recoleta são tão públicas quanto às da Boca, mas não se há de ver com freqüência o morador daquelas andando nestas, e os que vivem próximos ao Riachuelo sempre se sentem mais pobres e mais reles quando pisam nos bairros nobres. Dar conta dessa classe de indesejáveis não é meu trabalho, o sistema já funciona para isso. O meu trabalho é necessário quando os indesejáveis estão nas próprias altas rodas, ou ainda quando são das parcelas contíguas da pequena-burguesia portenha que se alimenta dos restos dos protagonistas sociais. Eu livro o mundo dos impertinentes aos planos privados de ascensão pública. Não sou mau, nem carrego a culpa nos meus ombros. Não passo de uma demanda, de uma necessidade do poder: sou apenas uma das rodas da engrenagem política. Tanto é verdade que não devo ser desconhecido das autoridades policiais. Mas minha prisão não interessa a muita gente; e minha morte exigiria outro igual a mim, mas não tenho notícia de concorrência em Buenos Aires.
- Bernardo Brenman é um empreiteiro de Tucumán. Há algum tempo me procurou oferecendo-me dinheiro. Entregou-me trezentos mil pesos semana passada. Em troca, devo direcionar os gastos da minha pasta para a sua empresa. Mas eu não posso fazer isso, compreende?
- Se ele pagou, você deve fazê-lo.
- O senhor não me compreende, ah ah. – riu alto para dar ares de conversa entre amigos. Ri também para sustentar o jogo – Eu aceitei o dinheiro porque tive medo. Naturalmente que aceitei porque gosto e preciso de dinheiro, ah ah, mas tive medo também. Parece que ele já tinha o mesmo esquema no tempo do Sáenz Peña. Ele já está muito bem familiarizado com os grandes nomes do país, não lhe seria difícil acabar com minha carreira, compreende?
- E o senhor quer que eu o mate, ah ah?
- Ah ah. O senhor é muito direto, ah ah.
- O senhor é quem disse que precisa dos meus serviços.
- O que é isso? Schopenhauer? Bem, seria isso sim.
- Matá-lo?
- O senhor fica com metade do que recebi. Eu preciso que não haja testemunhas da origem deste dinheiro. Então seriam três mortes.
- Mas ainda não compreendi por que o senhor simplesmente não cumpre o acordo.
- O senhor não vê que caso isso venha à tona seria o fim para Yrigoyen? Nosso presidente se elegeu depois de tanta luta popular, depois das greves, e de todo o acordão para a Lei Sáenz Peña. Não posso eu, pelas minhas necessidades monetárias, subtrair-lhe a legitimidade democrática. É preciso não dar poder de fogo aos liberais, o senhor me compreende?
- Perfeitamente. Quem deverei matar?
- Ah ah. O senhor me assusta. Pois bem: deverá matar o senhor Brenman; o senhor Ricardo Castillo Pérez, diretor da repartição responsável pelas concorrências nos gastos ministeriais, que também estava nas tratativas; e um funcionário de Brenman, cujo nome não sei, mas posso lhe indicar o lugar onde encontrá-lo.
- E como o senhor sabe que ninguém mais sabe do negócio?
- Porque todos precisam de discrição nestas horas. Brenman negocia pessoalmente nestes assuntos, não abre o jogo com ninguém nem delega essa função. Somente ele e aquele funcionário, de sua total confiança, estão inteirados no assunto. E é isso que me faz procurar o senhor, preciso da sua experiência e sua discrição. O senhor não pode me faltar.
Aceitei o trabalho. Deveria matar os três. Começaria, por óbvio, no funcionário público, pessoa menos notória, cuja morte não deixaria de sobreaviso os outros dois. Conheço esse tipo de gente: arrivista típico do serviço público, que prefere não dar as caras e assumir responsabilidades para ser sempre mera peça do fisiologismo estatal. Corporativista, carreirista, o que lhe importava era o salário e os meios de incrementá-lo, sem jamais ocupar o topo da hierarquia funcional para isentar-se de dedos apontando-lhe a cara. O homem estava no negócio por promessa de parte daquele dinheiro recebido pelo ministro, o que tornava fácil me aproximar. Fiz-me empregado da empreiteira de Tucumán, entrei em contato com sua repartição. Nem precisei insinuar, ele já me dizia que não era conveniente nos encontrarmos em seu trabalho. Sugeri – sabendo da sua recusa – o hotel onde eu estaria hospedado. Ele me convidou para seu apartamento em San Telmo.
Numa manhã de domingo, sob a névoa de uma Buenos Aires fria, era julho, fui visitá-lo. Morava com a mulher e um filho. Serviu-me café, medialunas e bolo com cremes. Fechamo-nos em seu living e comecei a perguntar sobre as perspectivas de contratos públicos, estradas novas, aumento da rede do metrô, portos por construir. Eu andava pela sala enquanto ele me expunha os projetos do Partido Radical para a Argentina. Parei para olhar um quadro de natureza morta, daqueles artistas que vendem na Plaza de Mayo, iguais a todos as outras telas de folhas e frutas e flores em vasos. Castillo Pérez não parava de me apontar as boas perspectivas para minha suposta empresa. Ele estava era entorpecido nas suas próprias perspectivas de dinheiro sujo, mal dava por mim atrás de seu sofá, puxando o garrote da manga para envolver-lhe o pescoço até o último sufoco. Caiu do sofá sobre a mesa de centro, xícaras se quebraram no chão. No que sua mulher entrou na sala, o mesmo arame impediu-lhe o grito, e a vida. A criança estava na cozinha, entretida em sua comida, que salguei com sonífero. Morreu na própria cama, por causa do travesseiro que pressionei contra seu rosto. A névoa da cidade dissipava e o sol vencia.
Uma semana depois, o ministro deu-me a notícia de que Brenman e seu funcionário estariam em Buenos Aires. Forneceu-me o endereço do apartamento do empresário na capital, na Rua Rivadavia, e disse-me que o funcionário ficaria em um apartamento dois pisos abaixo. Para encontrar Brenman, utilizei o expediente inverso do de Castillo Pérez. Fingi ser funcionário do ministério; aliás, o próprio Castillo Pérez. Fui diretamente à portaria de seu prédio, tarde da noite, anunciei meu nome e que precisava tratar de assuntos de seu interesse junto ao governo. Enquanto o porteiro subia para avisar o empreiteiro, envenenei seu mate. Pessoas que devem são fáceis de matar, pois Brenman de pronto aceitou me receber também em seu próprio apartamento. Quando abriu a porta, assustou-se com minha insígnia da Polícia Federal e minha arma. Avisei-o de que sabia de todo o esquema junto ao ministro, mas que estava disposto a negociar. Rapidamente me convidou a entrar. Quando se virou para me conduzir para dentro, encostei o cano em seus rins gordos e puxei o gatilho. Dei outro tiro à queima-roupa, Brenman já estava no chão, na altura de seu peito. Tomei-lhe as chaves e o tranquei ali dentro.
Desci dois andares para então dar conta da última parte do meu trabalho. Ninguém respondeu às minhas batidas na porta. Forcei a fechadura, a porta, aberta, cedeu. O apartamento estava vazio, nada mais havia que um espelho enorme na parede ao fundo do hall de entrada. Vasculhei todas as salas e quartos, e o que encontrei foi apenas um jornal com um anúncio marcado. O anúncio dizia que aquele mesmo apartamento estava disponível para alugar.
Precisava, no entanto, terminar meu trabalho. Não poderia manchar meu nome deixando-o por realizar. Certo de que nova audiência com o ministro seria tarde demais, pois logo descobririam Brenman, resolvi empreender algumas diligências para me informar rapidamente. Desci à portaria, o porteiro suava frio, respirava com dificuldades. Perguntei-lhe o que tinha, disse-me que estava mal do estômago. Nada soube dizer sobre eventual funcionário de Brenman naquele prédio. Sobre o apartamento do anúncio, falou-me que o imóvel já havia sido alugado por um senhor chamado Alfredo Ugarte, e que as chaves estavam na portaria aguardando sua chegada.
Algo não estava correto. Por um momento, temi que me enredassem numa caçada. Eu deveria matar alguém sem nome, cujo endereço era aquele apartamento. E aquele apartamento estava alugado a Alfredo Ugarte. Mas eu conhecia Ugarte, que certamente não era funcionário de nenhuma empreiteira. Ugarte tem nome e rosto, e bem familiares, ao contrário da vítima contra a qual fui contratado. De volta ao apartamento, olhei novamente ao espelho. O ministro precisava da morte de todas as testemunhas da sua corrupção e eu era o seu instrumento. Eu, com toda a minha fama, com meu nome, com meu prestígio no serviço sujo da política. Não houve falhas na minha trajetória, tudo fiz de modo que sempre os favores me fossem devidos, por mais dinheiro que me pagassem. Eu era protegido por meus feitos, que poderiam derrubar metade desta capital. Não era agora que eu falharia. Todas as testemunhas seriam mortas, bem como quis o ministro, que me pediu que eu não lhe faltasse. Havia, então, uma coisa a ser feita. Em frente ao grande espelho, toquei o cano da arma no meu coração. E agora puxarei o gatilho. Porque eu, Alfredo Ugarte, testemunha das corrupções portenhas, não posso pretender ser maior e mais longevo que a minha própria reputação.
sexta-feira, dezembro 12, 2008
No cárcere de Argel (revisado)
Acusado injustamente em minhas viagens de embaixada de D. João I pelo Marrocos, condenaram-me ao cadafalso em Fez. Diziam que a condenação de cristãos à morte superava em muito o número de seus crimes, mas creio que descortinavam nossas intenções por algum brilho oblíquo de nossos olhos. Os mouros, como cães prenunciando o dilúvio, têm alguma ligação com o inexplicável, um contato íntimo com divindades que mal podem compreender, eles apenas os sentem, todos estes milhares de Alás diferentes que parecem existir. Por milagres tais, na indizível leitura de seus cotidianos, sentem eles também todos os nossos desejos e nossas aspirações.
A notícia chegou aos meus ouvidos antes que as mãos do carrasco alcançassem meu pescoço, e minha pele corada pelo sol do deserto me deu a vantagem de ser um dissimulado mouro que empreendeu fuga pelas areias rumo a Argel, onde meu irmão comercializava linho e azeite. Já havia passado mais tempo no deserto que em minha própria casa, e, sem entretanto perder o fio da identidade que ainda era a minha, sabia as direções a tomar em meio as dunas eternamente cambiantes da eternamente desigual e injusta paisagem do Sahara.
Meti-me, na quarta noite, numa caravana de cameleiros mercadores que nada sabiam da minha sentença de morte. Sei que não deram falta por mim em Fez, tão banais eram as forcas, e sempre havia um novo cristão a perseguir em meu lugar na forma sangrenta que os mouros tinham de brincar. Assim, não havia ninguém em meu encalço, e, caso houvesse, vender-se-ia facilmente pelo ouro que carrego.
No vigésimo dia, já próximos ao litoral, fomos assaltados por bandidos com insígnias terrivelmente famosas. Os mercenários que nos acompanhavam deles deram conta, mas quando descobriram que dentre os mortos encontrava-se o filho dum emir não houve dúvidas em atribuir a culpa ao estrangeiro. Mal despontou no horizonte a guarda real fui amarrado. Tudo foi tão rápido que cheguei a Argel e antes que pudesse dizer palavra tive minha sentença de prisão perpétua decretada.
De todas as cidades da África, diz-se que nenhuma pena é mais cruel que a de Argel. Qualquer um que seja submetido à sua justiça preferirá o cadafalso de Fez, as fogueiras de Castela ou a antiga crucificação dos romanos. Mas eu ainda tinha a esperança de que a prisão perpétua, chegasse ao conhecimento do meu irmão, fá-lo-ia prontamente pagar meu resgate, e logo eu estaria na Lusitânia com os pés lá cravados para nunca mais sair. Ou então, enquanto vivo, sempre há a chance de fuga, eis que a prisão é inevitavelmente menos inexorável que a morte. Levaram-me à jaula num porão fedorento, onde passei a noite com um prato de comida que jamais pude identificar o que é. Dormi encolhido a um canto mais por cansaço que por oportunidade. Acordei com o sol batendo quente em meu rosto, a porta da minha cela aberta diretamente para uma rua repleta de azevinhos. Sonoras águas correm por aquedutos na sarjeta das ruas, larguíssimas e desoladas, embora incrivelmente belas. As pedras escuras que as pavimentam tem fina sintonia com o verde-escuro dos arbustos. Pontos vermelhos cá e ali das drupas pontilham as veredas pelas quais caminhava, de um cruzamento a outro, todos eles perfeitamente retos e amplos, cujos centros mantêm uma praça circular com fontes e coretos.
Ladeiam as ruas altos prédios com cúpulas de vidro e ouro, e minaretes com escadas externas em caracol. Todas as quadras tem um palácio assim no meio, rodeado de incontáveis casas: de uma esquina a outra se contam uns quinhentos metros de logradouro. O barulho da água a correr pelos aquedutos começou como um som agradável naquela época. Homens, sim, havia. Mas somente homens, não vi mulheres. O primeiro que cruzou por mim ao me ver baixou os olhos, com uma expressão que misturava comiseração e solidariedade em relação a mim. Todos andavam assim, e ainda andam, como que atordoados pela imponente cidade que a todos apequena.
Não é difícil descobrir por quê. Cada quadra tem suas casas e seu palácio ao centro, cada cruzamento sua praça, todas as ruas seus azevinhos e suas negras pedras polidas que ao fim da tarde refletem o sol diretamente em nossos olhos. E o céu acima é um invariável céu sem nuvens cujos astros descrevem rigorosamente a mesma trajetória todos os dias. Não há ventos, dilúvios ou tempestades de areia. Nem brisas, chuviscos e poeira. Não há mudança nenhuma na cidade, a não ser nos homens que perambulam por seu labirinto de ruas perfeitamente perpendiculares. Os dias aqui são demasiadamente homogêneos, de modo que perscrutar a memória de todos os anos vividos nesta cidade é ver nada além do mesmo imperioso dia. Como se eu, na velhice em que relato, desde meu derradeiro dia de fuga para Argel, tivesse vivido apenas este dia, ou um dia estendido em que a única mudança perceptível ocorreu em mim. E por pouco tempo até a resignação absoluta.
Mas não era só o tédio do tempo que arrasa os cidadãos desta cidade. Quando cheguei, os homens – um aqui e outro já lá longe, e depois de um tempo outro aparecia – andavam e andavam, todos aparentemente agindo por uma causa comum mas não partilhada, e todos tão centrados nesta causa que a máxima empatia era aquele mesmo olhar de comiseração, que logo aprendi a devolver na mesma medida. As casas das quadras não diziam nada, não pareciam oferecer nada, e aquele palácio ao centro tinha um ínfimo acesso por entre elas e era tão quieto e tão impassível que sua beleza passou a significar somente um desespero pela falta do viço que meus estereótipos me fizeram esperar de um palácio como aquele. Mas andava, como todos, à próxima quadra e ao próximo palácio e a próxima quadra e o próximo palácio eram ponto por ponto, sem pôr nem tirar, iguais ao que havia na quadra anterior. E assim a próxima e a outra e até hoje todas pelas quais percorri. Que podem ter sido a mesma: as ruas retas esconderiam um círculo disfarçado por – imaginei – um jogo de espelhos favorecido pelo sol que abrasa a nossa nuca.
A incrível composição da cidade e o absurdo que ela representa me fizeram desrespeitar a introspecção dos meus concidadãos. Instei um deles, com um chacoalho um tanto violento, a me dizer o que era aquilo. O homem foi de uma solicitude inesperada – e depois aprendi que todos deverão ser assim aqui, como eu próprio, e todos mais dia ou menos dia também serão interpelados com a mesma violência por algum neófito, e darão a mesma resposta que recebi. Perguntado onde estou, o que era aquilo, aquelas quadras, aquelas praças, aquelas ruas, aqueles palácios, o nome – a coisa mais inútil de se saber – daquela cidade, tudo ao mesmo tempo, respondeu-me placidamente:
- É novo aqui, bem-vindo. Ninguém deu nome a esta cidade, mas não se preocupe, tudo de que necessita nela você acha, em quaisquer destas casas. Elas são a nossa necessidade. Da cidade, há quem dela já saiu, ninguém sabe como. O que dizem é que se deve querer muito, e então se descortinará a saída. É isso que procuro agora. É isso que todos procuram, e é isso o que você provavelmente vai fazer.
Ali compreendi a prisão perpétua de Argel.
- Você é também um condenado? – perguntei.
- E também injustamente, por mais crimes que tenha feito ou que nenhum deles tenha algum dia perpetrado.
Pediu-me licença e continuou naquela efeméride do seu automatismo adquirido sem que o cego desejo de sair daquele lugar suspeitasse.
E o que pensei – agora o cego desejo era o meu – foi que bastava caminhar sem descanso. Se todos os cruzamentos fossem verdadeiramente iguais, teríamos que postular um espaço infinito na superfície da terra, o que é impossível. Este detalhe me engendrou o plano de centrar minha atenção peregrina justamente nos cruzamentos: o primeiro cuja distância do anterior fosse maior que a distância padrão do intervalo entre as esquinas seria o indicativo que a cidade não era a mesma, que não haveria próximo cruzamento, mas uma estrada, talvez especialmente curta, até a Lusitânia.
Por outro lado, o primeiro obstáculo para o meu plano não era a cidade, mas eu mesmo. O trabalho exigia que eu sobrevivesse, precisava de casa, banhos e comida. O meu interlocutor, porém, estava certo: cada casa tinha tudo que precisava. O banho com água quente, o carneiro assado (as coisas eram assim, não havia fogo), sucos e doces. Havia cama de penas e cachimbos e narguilés com fumos de vários aromas e ópio, que queimavam com as baforadas, sem que os fogueasse. Havia linho, tecidos das Índias, sal, pimenta, almofadas e até cítaras e flautas. Tinha em minhas mãos ungüentos de qualquer cheiro, óleo para os banhos, jóias de ouro e incensos calmantes, e pastas de ervas pra calos e feridas.
No entanto, a primeira coisa de que dei por falta foi o vinho, injúria dos mouros e sangue dos cristãos. Logo notei ausência de outras coisas. Quando quis entalhar madeira para ter uma bengala que me servisse de apoio nas andanças, não havia madeira nem ferramentas; quando quis marcar as esquinas por que já havia passado, não havia estiletes ou tintas; não havia palha ou papel para fazer fogo por fricção. A cidade estava a julgar que minhas necessidades eram só as que ela podia prover, nenhuma outra. Ou o meu amigo mencionara as necessidades em que pensamos quando esquecemos, na pressa de fugir, que temos outras.
Depois pensei que tanto quanto a comida e o banho, a mulher era uma necessidade ao homem. E não havia como tê-las: mulheres sofriam lapidações e não prisões perpétuas. Pensei assim, mas por ainda estar preso à minha realidade anterior. Naquela cidade, a mulher seria um estorvo à incessante busca pela saída. Busca que logo transformou esta palavra, outrora fonte de desvarios juvenis, numa vazia evocação que assemelhava todas as palavras: não as usava mais, se não para responder ao fortuito chacoalho de um novo cidadão, que, pela mesma vontade de não me desviar da busca, era rigorosamente a mesma que recebi nos meus primeiros dias. De modo que, já no hábito das quadras iguais, as palavras – mulher, deserto, Lisboa, Homero – significavam todas a mesma coisa: que tive uma vida fora dali. E se você lê estas linhas, não é porque as escrevo, mas porque alguém me resgatou nas lembranças do mundo e me traduziu numa forma em que ainda os significados existem.
E se compartilha dos significados, também imagina o tédio imenso do tempo aqui. O silêncio lá de fora aqui se tornaria ruído, e o meu silêncio seria chamado de barulho de água correndo nos aquedutos. Os dias só mudavam nas escolhas dos perfumes a usar, dos fumos a fumar e das comidas a comer. E também dos rostos com que se cruzar. Os rostos, mas não os olhares: sempre os mesmos olhares de quem partilha aquela mesma situação que era a minha, aquela solidariedade impotente que também se espelhava em meus olhos. Alguém poderia aventar que uma resignação far-nos-ia reunir, ser convivas de mesas, trocar histórias e fazer histórias naquela cidade. Enfim, mudá-la por nossa própria força e convivência. Mas ninguém era capaz disso: cada interação seria um passo a menos rumo à saída.
O que fiz por alguns dias, para tornar um diferente do outro, era imaginar coisas de que precisasse e que a cidade não poderia me dar. Imaginei espadas e cimitarras: mas ninguém precisa disso. Imaginei governos e regras: inúteis. Imaginei bibliotecas, o Pentateuco e o Livro de Jó, o Corão, as Mil e Uma Noites e a Odisséia: deleites frívolos ou inspiração para um fanatismo estúpido. Imaginei carros e camelos: mas eles encurtam o mundo e fazem perder sua dimensão. A cidade vencia ao me mostrar que nada além dela me servia. Mas quando pensei em minha família e em meus amigos, não consegui ver a inutilidade, e isso a cidade não tinha. Percebi que a cidade me dominava: me fazia viver, e só viver, para aceitar sua força sobre mim, sua imutabilidade indiferente a toda angústia que eu pudesse ter. Era claro: se não havia fogo e estiletes, tintas e ferramentas, era justamente para que ela se mantivesse sempre da mesma forma, e que eu não pudesse jamais mudá-la. E isso se confirmou quando vi que as plantas não eram vivas, mas uma imagem sólida e resistente aos meus golpes. O movimento era contra a cidade, que só se permitia o correr das águas e a sucessão da noite ao dia e deste àquela.
Mudei então minha estratégia. Primeiro resolvi entrar em um dos palácios, o que eu nunca pensara para não me desviar das ruas. A única coisa que havia em suas naves e seus vãos eram os ecos de meus passos. Passei tempos que julgo ser vários anos investigando cada sala (eram quinhentas, pelas minhas contas, provavelmente erradas) de dois palácios. E eram iguais, e eram vazios, e não escondiam a saída. Então atentei para a água dos aquedutos, cujo correr destoava da imobilidade da cidade. Pensei que se eu seguisse sua corrente, que era como ratos fugindo das embarcações naufragantes, alcançaria os muros e os pórticos da cidade. E foi incrível como não havia notado isso antes: as águas corriam ao redor das quadras. Os aquedutos jamais se comunicavam. E era inexplicável sua corrente: a cidade era perfeitamente plana, que força impelia as águas?
Não me restou senão voltar ao primitivo plano das andanças sem fim. As quais andei até hoje, vendo a cidade infinita parada na mesma hora em que cheguei. Eu é que não parei, envelheci. E hoje sinto - como os mouros sentiram os crimes que fiquei por cometer - que descobri a saída, e a quero muito. Mas sinto também que é meu último dia. O que no fim das contas é a mesma coisa.
A notícia chegou aos meus ouvidos antes que as mãos do carrasco alcançassem meu pescoço, e minha pele corada pelo sol do deserto me deu a vantagem de ser um dissimulado mouro que empreendeu fuga pelas areias rumo a Argel, onde meu irmão comercializava linho e azeite. Já havia passado mais tempo no deserto que em minha própria casa, e, sem entretanto perder o fio da identidade que ainda era a minha, sabia as direções a tomar em meio as dunas eternamente cambiantes da eternamente desigual e injusta paisagem do Sahara.
Meti-me, na quarta noite, numa caravana de cameleiros mercadores que nada sabiam da minha sentença de morte. Sei que não deram falta por mim em Fez, tão banais eram as forcas, e sempre havia um novo cristão a perseguir em meu lugar na forma sangrenta que os mouros tinham de brincar. Assim, não havia ninguém em meu encalço, e, caso houvesse, vender-se-ia facilmente pelo ouro que carrego.
No vigésimo dia, já próximos ao litoral, fomos assaltados por bandidos com insígnias terrivelmente famosas. Os mercenários que nos acompanhavam deles deram conta, mas quando descobriram que dentre os mortos encontrava-se o filho dum emir não houve dúvidas em atribuir a culpa ao estrangeiro. Mal despontou no horizonte a guarda real fui amarrado. Tudo foi tão rápido que cheguei a Argel e antes que pudesse dizer palavra tive minha sentença de prisão perpétua decretada.
De todas as cidades da África, diz-se que nenhuma pena é mais cruel que a de Argel. Qualquer um que seja submetido à sua justiça preferirá o cadafalso de Fez, as fogueiras de Castela ou a antiga crucificação dos romanos. Mas eu ainda tinha a esperança de que a prisão perpétua, chegasse ao conhecimento do meu irmão, fá-lo-ia prontamente pagar meu resgate, e logo eu estaria na Lusitânia com os pés lá cravados para nunca mais sair. Ou então, enquanto vivo, sempre há a chance de fuga, eis que a prisão é inevitavelmente menos inexorável que a morte. Levaram-me à jaula num porão fedorento, onde passei a noite com um prato de comida que jamais pude identificar o que é. Dormi encolhido a um canto mais por cansaço que por oportunidade. Acordei com o sol batendo quente em meu rosto, a porta da minha cela aberta diretamente para uma rua repleta de azevinhos. Sonoras águas correm por aquedutos na sarjeta das ruas, larguíssimas e desoladas, embora incrivelmente belas. As pedras escuras que as pavimentam tem fina sintonia com o verde-escuro dos arbustos. Pontos vermelhos cá e ali das drupas pontilham as veredas pelas quais caminhava, de um cruzamento a outro, todos eles perfeitamente retos e amplos, cujos centros mantêm uma praça circular com fontes e coretos.
Ladeiam as ruas altos prédios com cúpulas de vidro e ouro, e minaretes com escadas externas em caracol. Todas as quadras tem um palácio assim no meio, rodeado de incontáveis casas: de uma esquina a outra se contam uns quinhentos metros de logradouro. O barulho da água a correr pelos aquedutos começou como um som agradável naquela época. Homens, sim, havia. Mas somente homens, não vi mulheres. O primeiro que cruzou por mim ao me ver baixou os olhos, com uma expressão que misturava comiseração e solidariedade em relação a mim. Todos andavam assim, e ainda andam, como que atordoados pela imponente cidade que a todos apequena.
Não é difícil descobrir por quê. Cada quadra tem suas casas e seu palácio ao centro, cada cruzamento sua praça, todas as ruas seus azevinhos e suas negras pedras polidas que ao fim da tarde refletem o sol diretamente em nossos olhos. E o céu acima é um invariável céu sem nuvens cujos astros descrevem rigorosamente a mesma trajetória todos os dias. Não há ventos, dilúvios ou tempestades de areia. Nem brisas, chuviscos e poeira. Não há mudança nenhuma na cidade, a não ser nos homens que perambulam por seu labirinto de ruas perfeitamente perpendiculares. Os dias aqui são demasiadamente homogêneos, de modo que perscrutar a memória de todos os anos vividos nesta cidade é ver nada além do mesmo imperioso dia. Como se eu, na velhice em que relato, desde meu derradeiro dia de fuga para Argel, tivesse vivido apenas este dia, ou um dia estendido em que a única mudança perceptível ocorreu em mim. E por pouco tempo até a resignação absoluta.
Mas não era só o tédio do tempo que arrasa os cidadãos desta cidade. Quando cheguei, os homens – um aqui e outro já lá longe, e depois de um tempo outro aparecia – andavam e andavam, todos aparentemente agindo por uma causa comum mas não partilhada, e todos tão centrados nesta causa que a máxima empatia era aquele mesmo olhar de comiseração, que logo aprendi a devolver na mesma medida. As casas das quadras não diziam nada, não pareciam oferecer nada, e aquele palácio ao centro tinha um ínfimo acesso por entre elas e era tão quieto e tão impassível que sua beleza passou a significar somente um desespero pela falta do viço que meus estereótipos me fizeram esperar de um palácio como aquele. Mas andava, como todos, à próxima quadra e ao próximo palácio e a próxima quadra e o próximo palácio eram ponto por ponto, sem pôr nem tirar, iguais ao que havia na quadra anterior. E assim a próxima e a outra e até hoje todas pelas quais percorri. Que podem ter sido a mesma: as ruas retas esconderiam um círculo disfarçado por – imaginei – um jogo de espelhos favorecido pelo sol que abrasa a nossa nuca.
A incrível composição da cidade e o absurdo que ela representa me fizeram desrespeitar a introspecção dos meus concidadãos. Instei um deles, com um chacoalho um tanto violento, a me dizer o que era aquilo. O homem foi de uma solicitude inesperada – e depois aprendi que todos deverão ser assim aqui, como eu próprio, e todos mais dia ou menos dia também serão interpelados com a mesma violência por algum neófito, e darão a mesma resposta que recebi. Perguntado onde estou, o que era aquilo, aquelas quadras, aquelas praças, aquelas ruas, aqueles palácios, o nome – a coisa mais inútil de se saber – daquela cidade, tudo ao mesmo tempo, respondeu-me placidamente:
- É novo aqui, bem-vindo. Ninguém deu nome a esta cidade, mas não se preocupe, tudo de que necessita nela você acha, em quaisquer destas casas. Elas são a nossa necessidade. Da cidade, há quem dela já saiu, ninguém sabe como. O que dizem é que se deve querer muito, e então se descortinará a saída. É isso que procuro agora. É isso que todos procuram, e é isso o que você provavelmente vai fazer.
Ali compreendi a prisão perpétua de Argel.
- Você é também um condenado? – perguntei.
- E também injustamente, por mais crimes que tenha feito ou que nenhum deles tenha algum dia perpetrado.
Pediu-me licença e continuou naquela efeméride do seu automatismo adquirido sem que o cego desejo de sair daquele lugar suspeitasse.
E o que pensei – agora o cego desejo era o meu – foi que bastava caminhar sem descanso. Se todos os cruzamentos fossem verdadeiramente iguais, teríamos que postular um espaço infinito na superfície da terra, o que é impossível. Este detalhe me engendrou o plano de centrar minha atenção peregrina justamente nos cruzamentos: o primeiro cuja distância do anterior fosse maior que a distância padrão do intervalo entre as esquinas seria o indicativo que a cidade não era a mesma, que não haveria próximo cruzamento, mas uma estrada, talvez especialmente curta, até a Lusitânia.
Por outro lado, o primeiro obstáculo para o meu plano não era a cidade, mas eu mesmo. O trabalho exigia que eu sobrevivesse, precisava de casa, banhos e comida. O meu interlocutor, porém, estava certo: cada casa tinha tudo que precisava. O banho com água quente, o carneiro assado (as coisas eram assim, não havia fogo), sucos e doces. Havia cama de penas e cachimbos e narguilés com fumos de vários aromas e ópio, que queimavam com as baforadas, sem que os fogueasse. Havia linho, tecidos das Índias, sal, pimenta, almofadas e até cítaras e flautas. Tinha em minhas mãos ungüentos de qualquer cheiro, óleo para os banhos, jóias de ouro e incensos calmantes, e pastas de ervas pra calos e feridas.
No entanto, a primeira coisa de que dei por falta foi o vinho, injúria dos mouros e sangue dos cristãos. Logo notei ausência de outras coisas. Quando quis entalhar madeira para ter uma bengala que me servisse de apoio nas andanças, não havia madeira nem ferramentas; quando quis marcar as esquinas por que já havia passado, não havia estiletes ou tintas; não havia palha ou papel para fazer fogo por fricção. A cidade estava a julgar que minhas necessidades eram só as que ela podia prover, nenhuma outra. Ou o meu amigo mencionara as necessidades em que pensamos quando esquecemos, na pressa de fugir, que temos outras.
Depois pensei que tanto quanto a comida e o banho, a mulher era uma necessidade ao homem. E não havia como tê-las: mulheres sofriam lapidações e não prisões perpétuas. Pensei assim, mas por ainda estar preso à minha realidade anterior. Naquela cidade, a mulher seria um estorvo à incessante busca pela saída. Busca que logo transformou esta palavra, outrora fonte de desvarios juvenis, numa vazia evocação que assemelhava todas as palavras: não as usava mais, se não para responder ao fortuito chacoalho de um novo cidadão, que, pela mesma vontade de não me desviar da busca, era rigorosamente a mesma que recebi nos meus primeiros dias. De modo que, já no hábito das quadras iguais, as palavras – mulher, deserto, Lisboa, Homero – significavam todas a mesma coisa: que tive uma vida fora dali. E se você lê estas linhas, não é porque as escrevo, mas porque alguém me resgatou nas lembranças do mundo e me traduziu numa forma em que ainda os significados existem.
E se compartilha dos significados, também imagina o tédio imenso do tempo aqui. O silêncio lá de fora aqui se tornaria ruído, e o meu silêncio seria chamado de barulho de água correndo nos aquedutos. Os dias só mudavam nas escolhas dos perfumes a usar, dos fumos a fumar e das comidas a comer. E também dos rostos com que se cruzar. Os rostos, mas não os olhares: sempre os mesmos olhares de quem partilha aquela mesma situação que era a minha, aquela solidariedade impotente que também se espelhava em meus olhos. Alguém poderia aventar que uma resignação far-nos-ia reunir, ser convivas de mesas, trocar histórias e fazer histórias naquela cidade. Enfim, mudá-la por nossa própria força e convivência. Mas ninguém era capaz disso: cada interação seria um passo a menos rumo à saída.
O que fiz por alguns dias, para tornar um diferente do outro, era imaginar coisas de que precisasse e que a cidade não poderia me dar. Imaginei espadas e cimitarras: mas ninguém precisa disso. Imaginei governos e regras: inúteis. Imaginei bibliotecas, o Pentateuco e o Livro de Jó, o Corão, as Mil e Uma Noites e a Odisséia: deleites frívolos ou inspiração para um fanatismo estúpido. Imaginei carros e camelos: mas eles encurtam o mundo e fazem perder sua dimensão. A cidade vencia ao me mostrar que nada além dela me servia. Mas quando pensei em minha família e em meus amigos, não consegui ver a inutilidade, e isso a cidade não tinha. Percebi que a cidade me dominava: me fazia viver, e só viver, para aceitar sua força sobre mim, sua imutabilidade indiferente a toda angústia que eu pudesse ter. Era claro: se não havia fogo e estiletes, tintas e ferramentas, era justamente para que ela se mantivesse sempre da mesma forma, e que eu não pudesse jamais mudá-la. E isso se confirmou quando vi que as plantas não eram vivas, mas uma imagem sólida e resistente aos meus golpes. O movimento era contra a cidade, que só se permitia o correr das águas e a sucessão da noite ao dia e deste àquela.
Mudei então minha estratégia. Primeiro resolvi entrar em um dos palácios, o que eu nunca pensara para não me desviar das ruas. A única coisa que havia em suas naves e seus vãos eram os ecos de meus passos. Passei tempos que julgo ser vários anos investigando cada sala (eram quinhentas, pelas minhas contas, provavelmente erradas) de dois palácios. E eram iguais, e eram vazios, e não escondiam a saída. Então atentei para a água dos aquedutos, cujo correr destoava da imobilidade da cidade. Pensei que se eu seguisse sua corrente, que era como ratos fugindo das embarcações naufragantes, alcançaria os muros e os pórticos da cidade. E foi incrível como não havia notado isso antes: as águas corriam ao redor das quadras. Os aquedutos jamais se comunicavam. E era inexplicável sua corrente: a cidade era perfeitamente plana, que força impelia as águas?
Não me restou senão voltar ao primitivo plano das andanças sem fim. As quais andei até hoje, vendo a cidade infinita parada na mesma hora em que cheguei. Eu é que não parei, envelheci. E hoje sinto - como os mouros sentiram os crimes que fiquei por cometer - que descobri a saída, e a quero muito. Mas sinto também que é meu último dia. O que no fim das contas é a mesma coisa.
quinta-feira, dezembro 04, 2008
Divulgación
Por Ernesto Sabato, tirado de Uno y el Universo. Tradução minha.
Alguém me pede uma explicação sobra a teoria de Einstein. Com muito entusiasmo, falo de tensores e geodésias tetradimensionais.
- Não entendi uma só palavra - me diz, estupefato.
Reflito uns instantes e logo, com menos entusiasmo, dou-lhe uma explicação menos técnica, conservando algumas geodésias, mas fazendo intervir aviadores e tiros de revólver.
- Já entendo quase tudo - diz meu amigo, com bastante alegria -. Mas há uma coisa que ainda não entendo: essas geodésias, essas coordenadas...
Deprimido, mergulho numa enorme concentração mental e acabo abandonando para sempre as geodésias e as coordenadas; com verdadeira ira, me dedico exclusivamente aos aviadores que fumam enquanto viajam na velocidade da luz, chefes de estação que disparam um revólver com a mão direita e verificam tempos depois com um cronômetro que têm na mão esquerda, trens e sinos.
- Agora sim, entendo a relatividade! - exclama meu amigo com alegria.
- Sim - respondo amargamente -, mas agora não é mais a relatividade.
Alguém me pede uma explicação sobra a teoria de Einstein. Com muito entusiasmo, falo de tensores e geodésias tetradimensionais.
- Não entendi uma só palavra - me diz, estupefato.
Reflito uns instantes e logo, com menos entusiasmo, dou-lhe uma explicação menos técnica, conservando algumas geodésias, mas fazendo intervir aviadores e tiros de revólver.
- Já entendo quase tudo - diz meu amigo, com bastante alegria -. Mas há uma coisa que ainda não entendo: essas geodésias, essas coordenadas...
Deprimido, mergulho numa enorme concentração mental e acabo abandonando para sempre as geodésias e as coordenadas; com verdadeira ira, me dedico exclusivamente aos aviadores que fumam enquanto viajam na velocidade da luz, chefes de estação que disparam um revólver com a mão direita e verificam tempos depois com um cronômetro que têm na mão esquerda, trens e sinos.
- Agora sim, entendo a relatividade! - exclama meu amigo com alegria.
- Sim - respondo amargamente -, mas agora não é mais a relatividade.
sábado, novembro 29, 2008
Carta a uma senhorita de Paris
Por Julio Cortázar. Tradução minha.
Andrée, eu não queria acabar morando em seu apartamento na rua Suipacha. Não tanto pelos coelhinhos, antes porque me dói ingressar em uma ordem fechada, já construída até nas mais finas malhas do ar, essas que em sua casa preservam a música da lavanda, o bater de asas de um cisne com poeira, o jogo do violino e da viola no quarteto de Rará. Me é amargo entrar em um âmbito onde alguém que vive belamente o dispôs inteiro como uma reiteração visível de sua alma, aqui os livros (de um lado em espanhol, do outro em francês e inglês), ali os almofadões verdes, neste lugar preciso da mesinha o cinzeiro de cristal que parece o corte de uma de uma bolha de sabão, e sempre um perfume, um som, um crescer de plantas, uma fotografia do amigo morto, ritual de bandejas com chá e as colherzinhas do açúcar... Ah, querida Andrée, como é difícil se opor, ainda aceitando-a com inteira submissão do próprio ser, à ordem minuciosa que uma mulher instaura em sua lânguida residência. Quão culpável é pegar uma tacinha de metal o colocá-la no outro extremo da mesa, colocá-la ali simplesmente porque alguém trouxe seus dicionários ingleses e é deste lado, ao alcance da mão, onde deverão estar. Mover essa tacinha vale por um horrível vermelho inesperado no meio de uma modulação de Ozenfant, como se de um golpe as cordas de todos os contrabaixos se rompessem ao mesmo tempo com a mesma espantosa chicotada no instante mais calado de uma sinfonia de Mozart. Mover essa tacinha altera o jogo de relações de toda a casa, de cada objeto com outro, de cada momento de sua alma com a alma inteira da casa e sua habitante distante. E eu não posso aproximar de um livro os dedos, cingir apenas o cone de luz de um abajur, destampar a caixa de música, sem que um sentimento de ultraje e desafio me passe pelos olhos como um bando de pardais.
Você sabe por que vim a sua casa, ao seu quieto salão solicitado ao meio-dia. Tudo parece tão natural, como sempre que não se sabe a verdade. Você se foi a Paris, eu fiquei com o apartamento da rua Suipacha, elaboramos um simples e satisfatório plano de mútua conveniência até que setembro lhe traga de novo a Buenos Aires e me lance a alguma outra casa onde talvez... Mas não lhe escrevo por isso, esta carta a envio por causa dos coelhinhos, parece-me justo deixá-la a par, e porque gosto de escrever cartas, e talvez porque chove.
Mudei-me na sexta-feira passada, às cinco da tarde, entre névoa e tédio. Fechei tantas malas em minha vida, passei tantas horas fazendo a bagagem que não levava a lugar nenhum, que a sexta foi um dia cheio de sombras e correias, porque quando eu vejo as correias das malas é como se visse sombras, elementos de um chicote que me açoita indiretamente, da maneira mais sutil e mais horrível. Mas fiz as malas, avisei a sua mucama que viria me instalar, e subi no elevador. Justo entre o primeiro e o segundo andar sentia que ia vomitar um coelhinho. Nunca o havia explicado antes, não creia que por deslealdade, mas é natural que alguém não se ponha a explicar às pessoas que de vez em quando vomita um coelhinho. Como sempre me sucedeu estando sozinho, guardava o fato como se guardam tantas vezes o que acontece (ou alguém faz acontecer) na privacidade total. Não me reprove, Andrée, não me reprove. De vez em quando me ocorre de vomitar um coelhinho. Não é razão para não viver em qualquer casa, não é razão para que alguém tenha que se envergonhar e estar ilhado e andar calando-se.
Quando sinto que vou vomitar um coelhinho, ponho dois dedos na boca como uma pinça aberta, e espero sentir na garganta a pelugem morna que sobe como uma efervescência de sal de frutas. Tudo é veloz e higiênico, transcorre num brevíssimo instante. Tiro os dedos da boca, e neles trago segurado pelas orelhas um coelhinho branco. O coelhinho parece contente, é um coelhinho normal e perfeito, só que muito pequeno, pequeno como um coelhinho de chocolate, mas branco, e inteiramente um coelhinho. Coloco-o na palma da mão, levanto-lhe a pelugem com um carinho dos dedos, o coelhinho parece satisfeito de ter nascido e se agita e gruda seu focinho contra minha pele, movendo-o com essa trituração silenciosa e que faz cócegas de um focinho contra a pele de uma mão. Procura comer e então eu (falo de quando isso ocorria no quintal da minha casa) eu o retiro comigo à sacada e o coloco no grande vaso onde cresce o trevo que a propósito plantei. O coelhinho levanta totalmente suas orelhas, envolve o trevo tenro com um veloz molinete do focinho, e eu sei que posso deixá-lo e ir, continuar por um tempo uma vida que não é diferente da de tantos que compram seus coelhos nas granjas.
Entre o primeiro e o segundo andar, Andrée, como um anúncio do que seria minha vida em sua casa, soube que ia vomitar um coelhinho. Em seguida tive medo (ou era estranheza? Não, medo da mesma estranheza, por acaso) porque antes de deixar minha casa, somente dois dias antes, havia vomitado um coelhinho e estava seguro por um mês, por cinco semanas, talvez seis com um pouco de sorte. Veja você, eu tinha resolvido perfeitamente o problema dos coelhinhos. Plantava trevo na sacada de minha outra casa, vomitava um coelhinho, colocava-o no trevo e ao cabo de um mês, quando suspeitava que de um momento a outro... então presenteava o coelho já crescido à senhora de Molina, que acreditava em um hobby e se calava. Já no outro vaso onde crescia um trevo jovem e propício, eu aguardava sem preocupação a manhã em que a coceguinha de uma pelugem subindo me fechava a garganta, e o novo coelhinho repetia desde essa hora a vida e os costumes do anterior. Os costumes, Andrée, são formas concretas do ritmo, são a quota de ritmo que nos ajuda a viver. Não era tão terrível vomitar coelhinhos, uma vez que se havia entrado no ciclo invariável, no método. Você desejará saber por que todo esse trabalho, porque todos esses trevos e a senhora de Molina. Seria preferível matar em seguida o coelhinho e... Ah, teria você que vomitar somente um, tomá-lo com os dedos e colocá-lo não mão aberta, aderido a você pelo mesmo ato, pela aura inefável de sua proximidade apenas rota. Um mês isso leva, um mês é o suficiente, pêlos compridos, saltos, olhos selvagens, diferença absoluta. Andrée, em um mês é um coelho, faz-se um coelho de verdade; mas o minuto inicial, quando o tufo morno e agitado encobre uma presença inalienável... Como um poema nos primeiros minutos, o fruto de uma noite de Iduméia: tão de alguém como alguém mesmo... e depois tão diferente, tão ilhado e distante em seu mundo branco plano do tamanho de uma carta.
Me decidi, contudo, a matar o coelho assim que nascesse. Eu viveria quatro meses na sua casa: quatro – talvez, com sorte, três – colheradas de álcool no focinho. (Sabe você que a misericórdia permite matar instantaneamente um coelhinho dando-lhe de beber uma colherada de álcool? Sua carne, logo, fica melhor, ainda que eu... Três ou quatro colheradas, e daí o banheiro ou um pacote somando-se aos resíduos).
Ao cruzar o terceiro andar o coelhinho se movia em minha mão aberta. Sara esperava lá em cima, para ajudar-me a carregar as malas... Como explicar-lhe que um capricho, uma loja de animais? Envolvi o coelhinho com meu lenço, coloquei-o no bolso do sobretudo, deixando o sobretudo aberto para não oprimi-lo. Só se movia. Sua consciência miúda devia estar-lhe resolvendo fatos importantes: que a vida é um movimento para cima com um click final, e que é também um céu baixo, branco, envolvente e cheirando a lavanda, no fundo de um poço morno.
Sara não viu nada, fascinava-a demais o problema árduo de ajustar seu sentido de ordem à minha mala-roupeiro, meus papéis e minha displicência perante suas elaboradas explicações onde abunda a expressão “por exemplo”. Só pude me fechar no banheiro, matá-lo agora. Uma fina zona de calor rodeava o lenço, o coelhinho era branquíssimo e creio que mais lindo que os outros. Não me olhava, somente de agitava e estava contente, o que era mais o mais horrível modo de me olhar. Tranquei-o na gaveta vazia e voltei para desfazer as malas, desorientado mas não infeliz, não culpado, não lavando minhas mãos para livrá-las de uma última convulsão.
Compreendi que não podia matá-lo. Mas nessa mesma noite vomitei um coelhinho preto. E dois dias depois um branco. E na quarta noite um coelhinho cinza.
Você amará o belo armário do seu dormitório, com a grande porta que se abre generosa, as prateleiras vazias à espera de minha roupa. Agora os tenho aqui, aqui dentro. Verdade que parece impossível, nem Sara o creria. Porque Sara não suspeita de nada, e o que não suspeita não procede da minha horrível tarefa, uma tarefa que leva meus dias e minhas noites num só golpe de ancinho e vai me calcinando por dentro e endurecendo como essa estrela de mar que você pôs sobre a banheira e que a cada banho parece encher a alguém o corpo de sal e açoites de sol e grandes rumores da profundidade.
De dia dormem. São dez. De dia dormem. Com a porta fechada, o armário é uma noite diurna somente para eles, ali dormem sua noite com sossegada obediência. Levo comigo as chaves do quarto ao partir para o meu serviço. Sara deve crer que desconfio de sua honradez e me olha com dúvida, vê-se todas as manhãs que está para me dizer algo, mas ao final se cala e eu fico tão feliz. (Quando limpa o quarto, das nove às dez, faço barulho no salão, coloco um disco de Benny Carter que ocupa toda a atmosfera, e como Sara é também amiga de saetas e pasodobles, o armário parece silencioso e, acaso assim esteja, é porque para os coelhinhos transcorre já a noite e o descanso).
Seu dia começa a essa hora que segue ao jantar, quando Sara leva a bandeja com um leve tilintar das colherzinhas do açúcar, me deseja boa noite – sim, me deseja, Andrée, o mais amargo é que me deseja uma boa noite – e se fecha em seu quarto e logo estou eu sozinho, só com o armário condenado, só com meu dever e minha tristeza.
Deixo-os sair, lançarem-se ágeis ao ataque do salão, cheirando vivazes o trevo que meus bolsos ocultavam e agora há no tapete efêmeros pontinhos que eles alteram, removem, acabam em um momento. Comem bem, calados e corretos, até esse instante nada tenho a dizer, olho-os somente desde o sofá, com um livro inútil na mão – eu que queria ler todos seus Giradoux, Andrée, e a história argentina de López, que você tem na prateleira mais baixa -; e comem o trevo.
São dez. Quase todos brancos. Levantam a cabeça leve para os abajures do salão, os três sóis imóveis de seu dia, eles que amam a luz porque sua noite não tem lua nem estrelas nem faróis. Olham seu triplo sol e estão contentes. Assim é que saltam pelo tapete, às cadeiras, dez manchas levianas se trasladam como uma constelação movente de uma parte a outra, enquanto eu queria vê-los quietos, vê-los aos meus pés e quietos – um pouco o sonho de todo deus, Andrée, o sonho nunca cumprido dos deuses -, não assim insinuando-se atrás do retrato de Miguel de Unamuno, em torno do vaso verde claro, pela negra cavidade da escrivaninha, sempre menos de dez, sempre seis ou oito e eu me perguntando onde andarão os dois que faltam, e se Sara se levantasse por qualquer coisa, e a presidência de Rivadavia que eu queria ler na história de López.
Não sei como resisto, Andrée. Você recorda que vim descansar em sua casa. Não é culpa minha se de vez em quando vomito um coelhinho, se esta mudança me alterou também por dentro – não é nominalismo, não é magia, somente que as coisas não se podem variar assim de repente, às vezes as coisas mudam brutalmente e quando você esperava a bofetada pela direita -. Assim, Andrée, ou de outro modo, mas sempre assim.
Escrevo-lhe de noite. São três da tarde, mas lhe escrevo na noite deles. De dia dormem. Que alívio este escritório coberto de gritos, ordens, máquinas Royal, vice-presidente e mimeógrafos! Que alívio, que paz, que horror, Andrée! Agora me chamam pelo telefone, são os amigos que se inquietam pelas minhas noites de retiro, é Luis que me convida para caminhar ou Jorge que me avisa de um concerto. Quase não me atrevo a dizer-lhes que não, invento prolongadas e ineficazes histórias de saúde ruim, de traduções atrasadas, de evasão. E quando volto e subo no elevador – esse trecho, entre o primeiro e o segundo andar – formulo-me noite a noite irremediavelmente a vã esperança de que não seja verdade.
Faço o que posso para que não destruam suas coisas. Roeram um pouco os livros da prateleira mais baixa, você os encontrará dissimulados para que Sara não se dê conta. Você queria muito seu abajur com a base de porcelana cheia de mariposas e cavaleiros antigos? Só se percebe o trinco, toda a noite trabalhei com um cimento especial que me venderam numa casa inglesa – você sabe que as casas inglesas têm os melhores cimentos – e agora me coloco ao lado para que nenhum o alcance outra vez com as patas (é quase bonito ver como gostam de ficar parados, nostalgia do humano distante, talvez imitação de seu deus andando e olhando-os áspero; além disso você terá percebido – em sua infância, quem sabe – que se pode deixar um coelhinho em penitência contra a parede, parado, as patinhas apoiadas e muito quieto por horas e horas).
Às cinco da manhã (dormi um pouco, estendido no sofá verde e acordando a cada corrida felpuda, a cada tilintar) coloco-os no armário e faço a limpeza. Por isso Sara encontra tudo certo ainda que às vezes tenha visto nela algum assombro contido, um ficar-se olhando um objeto, uma leve desbotado do tapete, e de novo o desejo de me perguntar algo, mas eu assoviando as variações sinfônicas de Franck, de maneira que nada acontece. Para que contar-lhe, Andrée, as minúcias desventuradas de esse amanhecer surdo e vegetal, em que caminho sonolento levantando hastes de trevo, folhas soltas, pelugem branca, me batendo contra os móveis, louco de sono, e meu Gide que se atrasa, Troyat que não traduzi, e minhas respostas a uma senhora distante que estará se perguntando já se... para que seguir com tudo isso, para que seguir esta carta que escrevo entre telefones e entrevistas.
Andrée, querida Andrée, meu consolo é que são dez e não mais. Faz quinze dias que retive na palma da mão um último coelhinho, depois nada, somente os dez comigo, sua noite diurna, e crescendo, já feios, e nascendo-lhes o pêlo comprido, já adolescentes e cheios de urgências e caprichos, saltando sobre o busto de Antínoo (é Antínoo, não, esse rapaz que olha cegamente?) ou perdendo-se na sala de estar onde seus movimentos criam ruídos ressoantes, tanto que dali devo tirá-los por medo que Sara os ouça e me apareça horripilada, talvez com camisola – porque Sara tem de ser assim, com camisola – e então... Somente dez, pense você essa pequena alegria que tenho no meio de tudo, a crescente calma com que percorro de volta os rígidos céus do primeiro e do segundo andar.
Interrompi esta carta porque devia assistir a um trabalho de comissões. Continuo-a aqui em sua casa, Andrée, sob uma surda grisaille do amanhecer. É realmente o dia seguinte, Andrée? Um espaço em branco da página será para você o intervalo, apenas a ponte que une minha letra de ontem e minha letra de hoje. Dizer-lhe que nesse intervalo tudo se perdeu, onde você olha a ponte eu fácilmente ouço se quebrar a cintura furiosa da água, para mim este lado do papel, este lado de minha carta não continua a calma com que vinha eu lhe escrevendo quando a deixei para assistir a um trabalho de comissões. Em sua cúbica noite sem tristeza dormem onze coelhinhos; acaso agora mesmo, mas não, não agora. No elevador, logo, ou ao entrar; já não importa onde, se o quando é agora, se pode ser em qualquer agora dos que me restam.
Já basta, escrevi isto porque me importa provar-lhe que não fui tão culpado na ruína inevitável de sua casa. Deixarei esta carta esperando-a, seria sórdido que o correio a entregasse numa manhã clara de Paris. À noite virei os livros da segunda estante; eles já os alcançavam, parando ou saltando, roeram as lombadas para afiar os dentes – não por fome, têm todo o trevo que lhes compro e ameixa nas gavetas da escrivaninha. Romperam as cortinas, o estofado das poltronas, a moldura do auto-retrato de Augusto Torres, encheram de pêlos o tapete e também gritaram, estiveram em círculo sob a luz da lâmpada, em círculo e como que me adorando, e de repente gritavam, gritavam como eu não creio que gritem os coelhos.
Quis em vão tirar os pêlos que estragam o tapete, alisar a moldura da tela roída, encerrá-los de novo no armário. O dia sobe, talvez Sara se levante logo. É quase estranho que Sara não me importe. É quase estranho que não me importe vê-los saltar na busca de brincadeiras. Não tive tanta culpa, você verá quando chegar que muitos dos destroços estão bem consertados com o cimento que comprei em uma casa inglesa, eu fiz o que pude para evitar-lhe que se zangue... Quanto a mim, do dez ao onze há como um eco insuperável. Você vê: dez estava bem, com um armário, trevo e esperança, quantas coisas se podem construir. Já não com onze, porque dizer onze é seguramente dizer doze, Andrée, doze que será treze. Então está o amanhecer e uma solidão fria na qual cabem a alegria, as lembranças, você e acaso muito mais. Está esta sacada sobre Suipacha cheio de aurora, os primeiros ruídos da cidade. Não creio que lhes seja difícil juntar onze coelhinhos salpicados sobre a calçada, talvez nem se fixem neles, atarefados com o outro corpo que convém levar rapidamente, antes que passem os primeiros estudantes.
Andrée, eu não queria acabar morando em seu apartamento na rua Suipacha. Não tanto pelos coelhinhos, antes porque me dói ingressar em uma ordem fechada, já construída até nas mais finas malhas do ar, essas que em sua casa preservam a música da lavanda, o bater de asas de um cisne com poeira, o jogo do violino e da viola no quarteto de Rará. Me é amargo entrar em um âmbito onde alguém que vive belamente o dispôs inteiro como uma reiteração visível de sua alma, aqui os livros (de um lado em espanhol, do outro em francês e inglês), ali os almofadões verdes, neste lugar preciso da mesinha o cinzeiro de cristal que parece o corte de uma de uma bolha de sabão, e sempre um perfume, um som, um crescer de plantas, uma fotografia do amigo morto, ritual de bandejas com chá e as colherzinhas do açúcar... Ah, querida Andrée, como é difícil se opor, ainda aceitando-a com inteira submissão do próprio ser, à ordem minuciosa que uma mulher instaura em sua lânguida residência. Quão culpável é pegar uma tacinha de metal o colocá-la no outro extremo da mesa, colocá-la ali simplesmente porque alguém trouxe seus dicionários ingleses e é deste lado, ao alcance da mão, onde deverão estar. Mover essa tacinha vale por um horrível vermelho inesperado no meio de uma modulação de Ozenfant, como se de um golpe as cordas de todos os contrabaixos se rompessem ao mesmo tempo com a mesma espantosa chicotada no instante mais calado de uma sinfonia de Mozart. Mover essa tacinha altera o jogo de relações de toda a casa, de cada objeto com outro, de cada momento de sua alma com a alma inteira da casa e sua habitante distante. E eu não posso aproximar de um livro os dedos, cingir apenas o cone de luz de um abajur, destampar a caixa de música, sem que um sentimento de ultraje e desafio me passe pelos olhos como um bando de pardais.
Você sabe por que vim a sua casa, ao seu quieto salão solicitado ao meio-dia. Tudo parece tão natural, como sempre que não se sabe a verdade. Você se foi a Paris, eu fiquei com o apartamento da rua Suipacha, elaboramos um simples e satisfatório plano de mútua conveniência até que setembro lhe traga de novo a Buenos Aires e me lance a alguma outra casa onde talvez... Mas não lhe escrevo por isso, esta carta a envio por causa dos coelhinhos, parece-me justo deixá-la a par, e porque gosto de escrever cartas, e talvez porque chove.
Mudei-me na sexta-feira passada, às cinco da tarde, entre névoa e tédio. Fechei tantas malas em minha vida, passei tantas horas fazendo a bagagem que não levava a lugar nenhum, que a sexta foi um dia cheio de sombras e correias, porque quando eu vejo as correias das malas é como se visse sombras, elementos de um chicote que me açoita indiretamente, da maneira mais sutil e mais horrível. Mas fiz as malas, avisei a sua mucama que viria me instalar, e subi no elevador. Justo entre o primeiro e o segundo andar sentia que ia vomitar um coelhinho. Nunca o havia explicado antes, não creia que por deslealdade, mas é natural que alguém não se ponha a explicar às pessoas que de vez em quando vomita um coelhinho. Como sempre me sucedeu estando sozinho, guardava o fato como se guardam tantas vezes o que acontece (ou alguém faz acontecer) na privacidade total. Não me reprove, Andrée, não me reprove. De vez em quando me ocorre de vomitar um coelhinho. Não é razão para não viver em qualquer casa, não é razão para que alguém tenha que se envergonhar e estar ilhado e andar calando-se.
Quando sinto que vou vomitar um coelhinho, ponho dois dedos na boca como uma pinça aberta, e espero sentir na garganta a pelugem morna que sobe como uma efervescência de sal de frutas. Tudo é veloz e higiênico, transcorre num brevíssimo instante. Tiro os dedos da boca, e neles trago segurado pelas orelhas um coelhinho branco. O coelhinho parece contente, é um coelhinho normal e perfeito, só que muito pequeno, pequeno como um coelhinho de chocolate, mas branco, e inteiramente um coelhinho. Coloco-o na palma da mão, levanto-lhe a pelugem com um carinho dos dedos, o coelhinho parece satisfeito de ter nascido e se agita e gruda seu focinho contra minha pele, movendo-o com essa trituração silenciosa e que faz cócegas de um focinho contra a pele de uma mão. Procura comer e então eu (falo de quando isso ocorria no quintal da minha casa) eu o retiro comigo à sacada e o coloco no grande vaso onde cresce o trevo que a propósito plantei. O coelhinho levanta totalmente suas orelhas, envolve o trevo tenro com um veloz molinete do focinho, e eu sei que posso deixá-lo e ir, continuar por um tempo uma vida que não é diferente da de tantos que compram seus coelhos nas granjas.
Entre o primeiro e o segundo andar, Andrée, como um anúncio do que seria minha vida em sua casa, soube que ia vomitar um coelhinho. Em seguida tive medo (ou era estranheza? Não, medo da mesma estranheza, por acaso) porque antes de deixar minha casa, somente dois dias antes, havia vomitado um coelhinho e estava seguro por um mês, por cinco semanas, talvez seis com um pouco de sorte. Veja você, eu tinha resolvido perfeitamente o problema dos coelhinhos. Plantava trevo na sacada de minha outra casa, vomitava um coelhinho, colocava-o no trevo e ao cabo de um mês, quando suspeitava que de um momento a outro... então presenteava o coelho já crescido à senhora de Molina, que acreditava em um hobby e se calava. Já no outro vaso onde crescia um trevo jovem e propício, eu aguardava sem preocupação a manhã em que a coceguinha de uma pelugem subindo me fechava a garganta, e o novo coelhinho repetia desde essa hora a vida e os costumes do anterior. Os costumes, Andrée, são formas concretas do ritmo, são a quota de ritmo que nos ajuda a viver. Não era tão terrível vomitar coelhinhos, uma vez que se havia entrado no ciclo invariável, no método. Você desejará saber por que todo esse trabalho, porque todos esses trevos e a senhora de Molina. Seria preferível matar em seguida o coelhinho e... Ah, teria você que vomitar somente um, tomá-lo com os dedos e colocá-lo não mão aberta, aderido a você pelo mesmo ato, pela aura inefável de sua proximidade apenas rota. Um mês isso leva, um mês é o suficiente, pêlos compridos, saltos, olhos selvagens, diferença absoluta. Andrée, em um mês é um coelho, faz-se um coelho de verdade; mas o minuto inicial, quando o tufo morno e agitado encobre uma presença inalienável... Como um poema nos primeiros minutos, o fruto de uma noite de Iduméia: tão de alguém como alguém mesmo... e depois tão diferente, tão ilhado e distante em seu mundo branco plano do tamanho de uma carta.
Me decidi, contudo, a matar o coelho assim que nascesse. Eu viveria quatro meses na sua casa: quatro – talvez, com sorte, três – colheradas de álcool no focinho. (Sabe você que a misericórdia permite matar instantaneamente um coelhinho dando-lhe de beber uma colherada de álcool? Sua carne, logo, fica melhor, ainda que eu... Três ou quatro colheradas, e daí o banheiro ou um pacote somando-se aos resíduos).
Ao cruzar o terceiro andar o coelhinho se movia em minha mão aberta. Sara esperava lá em cima, para ajudar-me a carregar as malas... Como explicar-lhe que um capricho, uma loja de animais? Envolvi o coelhinho com meu lenço, coloquei-o no bolso do sobretudo, deixando o sobretudo aberto para não oprimi-lo. Só se movia. Sua consciência miúda devia estar-lhe resolvendo fatos importantes: que a vida é um movimento para cima com um click final, e que é também um céu baixo, branco, envolvente e cheirando a lavanda, no fundo de um poço morno.
Sara não viu nada, fascinava-a demais o problema árduo de ajustar seu sentido de ordem à minha mala-roupeiro, meus papéis e minha displicência perante suas elaboradas explicações onde abunda a expressão “por exemplo”. Só pude me fechar no banheiro, matá-lo agora. Uma fina zona de calor rodeava o lenço, o coelhinho era branquíssimo e creio que mais lindo que os outros. Não me olhava, somente de agitava e estava contente, o que era mais o mais horrível modo de me olhar. Tranquei-o na gaveta vazia e voltei para desfazer as malas, desorientado mas não infeliz, não culpado, não lavando minhas mãos para livrá-las de uma última convulsão.
Compreendi que não podia matá-lo. Mas nessa mesma noite vomitei um coelhinho preto. E dois dias depois um branco. E na quarta noite um coelhinho cinza.
Você amará o belo armário do seu dormitório, com a grande porta que se abre generosa, as prateleiras vazias à espera de minha roupa. Agora os tenho aqui, aqui dentro. Verdade que parece impossível, nem Sara o creria. Porque Sara não suspeita de nada, e o que não suspeita não procede da minha horrível tarefa, uma tarefa que leva meus dias e minhas noites num só golpe de ancinho e vai me calcinando por dentro e endurecendo como essa estrela de mar que você pôs sobre a banheira e que a cada banho parece encher a alguém o corpo de sal e açoites de sol e grandes rumores da profundidade.
De dia dormem. São dez. De dia dormem. Com a porta fechada, o armário é uma noite diurna somente para eles, ali dormem sua noite com sossegada obediência. Levo comigo as chaves do quarto ao partir para o meu serviço. Sara deve crer que desconfio de sua honradez e me olha com dúvida, vê-se todas as manhãs que está para me dizer algo, mas ao final se cala e eu fico tão feliz. (Quando limpa o quarto, das nove às dez, faço barulho no salão, coloco um disco de Benny Carter que ocupa toda a atmosfera, e como Sara é também amiga de saetas e pasodobles, o armário parece silencioso e, acaso assim esteja, é porque para os coelhinhos transcorre já a noite e o descanso).
Seu dia começa a essa hora que segue ao jantar, quando Sara leva a bandeja com um leve tilintar das colherzinhas do açúcar, me deseja boa noite – sim, me deseja, Andrée, o mais amargo é que me deseja uma boa noite – e se fecha em seu quarto e logo estou eu sozinho, só com o armário condenado, só com meu dever e minha tristeza.
Deixo-os sair, lançarem-se ágeis ao ataque do salão, cheirando vivazes o trevo que meus bolsos ocultavam e agora há no tapete efêmeros pontinhos que eles alteram, removem, acabam em um momento. Comem bem, calados e corretos, até esse instante nada tenho a dizer, olho-os somente desde o sofá, com um livro inútil na mão – eu que queria ler todos seus Giradoux, Andrée, e a história argentina de López, que você tem na prateleira mais baixa -; e comem o trevo.
São dez. Quase todos brancos. Levantam a cabeça leve para os abajures do salão, os três sóis imóveis de seu dia, eles que amam a luz porque sua noite não tem lua nem estrelas nem faróis. Olham seu triplo sol e estão contentes. Assim é que saltam pelo tapete, às cadeiras, dez manchas levianas se trasladam como uma constelação movente de uma parte a outra, enquanto eu queria vê-los quietos, vê-los aos meus pés e quietos – um pouco o sonho de todo deus, Andrée, o sonho nunca cumprido dos deuses -, não assim insinuando-se atrás do retrato de Miguel de Unamuno, em torno do vaso verde claro, pela negra cavidade da escrivaninha, sempre menos de dez, sempre seis ou oito e eu me perguntando onde andarão os dois que faltam, e se Sara se levantasse por qualquer coisa, e a presidência de Rivadavia que eu queria ler na história de López.
Não sei como resisto, Andrée. Você recorda que vim descansar em sua casa. Não é culpa minha se de vez em quando vomito um coelhinho, se esta mudança me alterou também por dentro – não é nominalismo, não é magia, somente que as coisas não se podem variar assim de repente, às vezes as coisas mudam brutalmente e quando você esperava a bofetada pela direita -. Assim, Andrée, ou de outro modo, mas sempre assim.
Escrevo-lhe de noite. São três da tarde, mas lhe escrevo na noite deles. De dia dormem. Que alívio este escritório coberto de gritos, ordens, máquinas Royal, vice-presidente e mimeógrafos! Que alívio, que paz, que horror, Andrée! Agora me chamam pelo telefone, são os amigos que se inquietam pelas minhas noites de retiro, é Luis que me convida para caminhar ou Jorge que me avisa de um concerto. Quase não me atrevo a dizer-lhes que não, invento prolongadas e ineficazes histórias de saúde ruim, de traduções atrasadas, de evasão. E quando volto e subo no elevador – esse trecho, entre o primeiro e o segundo andar – formulo-me noite a noite irremediavelmente a vã esperança de que não seja verdade.
Faço o que posso para que não destruam suas coisas. Roeram um pouco os livros da prateleira mais baixa, você os encontrará dissimulados para que Sara não se dê conta. Você queria muito seu abajur com a base de porcelana cheia de mariposas e cavaleiros antigos? Só se percebe o trinco, toda a noite trabalhei com um cimento especial que me venderam numa casa inglesa – você sabe que as casas inglesas têm os melhores cimentos – e agora me coloco ao lado para que nenhum o alcance outra vez com as patas (é quase bonito ver como gostam de ficar parados, nostalgia do humano distante, talvez imitação de seu deus andando e olhando-os áspero; além disso você terá percebido – em sua infância, quem sabe – que se pode deixar um coelhinho em penitência contra a parede, parado, as patinhas apoiadas e muito quieto por horas e horas).
Às cinco da manhã (dormi um pouco, estendido no sofá verde e acordando a cada corrida felpuda, a cada tilintar) coloco-os no armário e faço a limpeza. Por isso Sara encontra tudo certo ainda que às vezes tenha visto nela algum assombro contido, um ficar-se olhando um objeto, uma leve desbotado do tapete, e de novo o desejo de me perguntar algo, mas eu assoviando as variações sinfônicas de Franck, de maneira que nada acontece. Para que contar-lhe, Andrée, as minúcias desventuradas de esse amanhecer surdo e vegetal, em que caminho sonolento levantando hastes de trevo, folhas soltas, pelugem branca, me batendo contra os móveis, louco de sono, e meu Gide que se atrasa, Troyat que não traduzi, e minhas respostas a uma senhora distante que estará se perguntando já se... para que seguir com tudo isso, para que seguir esta carta que escrevo entre telefones e entrevistas.
Andrée, querida Andrée, meu consolo é que são dez e não mais. Faz quinze dias que retive na palma da mão um último coelhinho, depois nada, somente os dez comigo, sua noite diurna, e crescendo, já feios, e nascendo-lhes o pêlo comprido, já adolescentes e cheios de urgências e caprichos, saltando sobre o busto de Antínoo (é Antínoo, não, esse rapaz que olha cegamente?) ou perdendo-se na sala de estar onde seus movimentos criam ruídos ressoantes, tanto que dali devo tirá-los por medo que Sara os ouça e me apareça horripilada, talvez com camisola – porque Sara tem de ser assim, com camisola – e então... Somente dez, pense você essa pequena alegria que tenho no meio de tudo, a crescente calma com que percorro de volta os rígidos céus do primeiro e do segundo andar.
Interrompi esta carta porque devia assistir a um trabalho de comissões. Continuo-a aqui em sua casa, Andrée, sob uma surda grisaille do amanhecer. É realmente o dia seguinte, Andrée? Um espaço em branco da página será para você o intervalo, apenas a ponte que une minha letra de ontem e minha letra de hoje. Dizer-lhe que nesse intervalo tudo se perdeu, onde você olha a ponte eu fácilmente ouço se quebrar a cintura furiosa da água, para mim este lado do papel, este lado de minha carta não continua a calma com que vinha eu lhe escrevendo quando a deixei para assistir a um trabalho de comissões. Em sua cúbica noite sem tristeza dormem onze coelhinhos; acaso agora mesmo, mas não, não agora. No elevador, logo, ou ao entrar; já não importa onde, se o quando é agora, se pode ser em qualquer agora dos que me restam.
Já basta, escrevi isto porque me importa provar-lhe que não fui tão culpado na ruína inevitável de sua casa. Deixarei esta carta esperando-a, seria sórdido que o correio a entregasse numa manhã clara de Paris. À noite virei os livros da segunda estante; eles já os alcançavam, parando ou saltando, roeram as lombadas para afiar os dentes – não por fome, têm todo o trevo que lhes compro e ameixa nas gavetas da escrivaninha. Romperam as cortinas, o estofado das poltronas, a moldura do auto-retrato de Augusto Torres, encheram de pêlos o tapete e também gritaram, estiveram em círculo sob a luz da lâmpada, em círculo e como que me adorando, e de repente gritavam, gritavam como eu não creio que gritem os coelhos.
Quis em vão tirar os pêlos que estragam o tapete, alisar a moldura da tela roída, encerrá-los de novo no armário. O dia sobe, talvez Sara se levante logo. É quase estranho que Sara não me importe. É quase estranho que não me importe vê-los saltar na busca de brincadeiras. Não tive tanta culpa, você verá quando chegar que muitos dos destroços estão bem consertados com o cimento que comprei em uma casa inglesa, eu fiz o que pude para evitar-lhe que se zangue... Quanto a mim, do dez ao onze há como um eco insuperável. Você vê: dez estava bem, com um armário, trevo e esperança, quantas coisas se podem construir. Já não com onze, porque dizer onze é seguramente dizer doze, Andrée, doze que será treze. Então está o amanhecer e uma solidão fria na qual cabem a alegria, as lembranças, você e acaso muito mais. Está esta sacada sobre Suipacha cheio de aurora, os primeiros ruídos da cidade. Não creio que lhes seja difícil juntar onze coelhinhos salpicados sobre a calçada, talvez nem se fixem neles, atarefados com o outro corpo que convém levar rapidamente, antes que passem os primeiros estudantes.
sábado, novembro 22, 2008
Inventário
Cortina
langorosamente
baila na brisa e convida
ao vôo. derradeiro.
Mesa
cúmplice de minhas
vergonhas, como cama e mesa
eu já lhe dei honras
Cadeira
sólida evidência
da existência: dura a nossa
pura realidade
Livro
as coisas estão
na superfície das coisas.
do teu livro não.
Armário
há coisas. e há coisas
que aos homens somente vivem
por viver às coisas
Fruteira
ó fruteira, quantos
de teus frutos são cobranças
e contas e custos?
Tapete
dois são meus pés
mas minhas solas são muitas
e mais tantas, e estas
Lustre
no século décimo
sétimo último jus
fez-se e cruz se foi
langorosamente
baila na brisa e convida
ao vôo. derradeiro.
Mesa
cúmplice de minhas
vergonhas, como cama e mesa
eu já lhe dei honras
Cadeira
sólida evidência
da existência: dura a nossa
pura realidade
Livro
as coisas estão
na superfície das coisas.
do teu livro não.
Armário
há coisas. e há coisas
que aos homens somente vivem
por viver às coisas
Fruteira
ó fruteira, quantos
de teus frutos são cobranças
e contas e custos?
Tapete
dois são meus pés
mas minhas solas são muitas
e mais tantas, e estas
Lustre
no século décimo
sétimo último jus
fez-se e cruz se foi
sábado, novembro 15, 2008
Ao curso de Letras
Explodiu DELEM
DELIN explodiu.
Quem deu por falta?
A quem falta fez?
A ninguém o DELEM;
A mim o DELIN.
DELIN explodiu.
Quem deu por falta?
A quem falta fez?
A ninguém o DELEM;
A mim o DELIN.
sexta-feira, novembro 14, 2008
Vindicação do acadêmico (ou refutação ao fetiche do 'mundo real')
De quem tem olhos e lá esteve
como portasse o justo título
de mais senhor e mais legítimo
da pura e crua, nua e limpa
.............realidade;
de quem desdenha, por altivo,
do amor à luta que se trava
neste domínio oculto e belo
e até humilde do conflito
.............entre as palavras;
do que é néscio e mui estulto,
assim tão certo do que vê,
que diz ser puro no que sabe
porque recusa, na verdade,
.............do outro saber;
de quem acusa a nós vivermos
encastelados nas palavras,
a quem ouvir é ganhar vício
e ser impuro, pois sozinho
.............não logrou ser;
de quem se julga então mais puro
pois com seus olhos, só com eles,
ficou sabendo o que conhece
e o que colheu (minguada messe!)
.............foi sem ajuda;
deste rirei, e rirei muito,
como de mim já muito rio,
porém de mim por ser humano,
por ter vivido e ter ouvido
.............e errado tido,
mas dele rio pelo alto dom
de ser o dono da verdade,
de ser tão puro em preconceitos,
que impuro é todo ser que vive
............com a linguagem.
como portasse o justo título
de mais senhor e mais legítimo
da pura e crua, nua e limpa
.............realidade;
de quem desdenha, por altivo,
do amor à luta que se trava
neste domínio oculto e belo
e até humilde do conflito
.............entre as palavras;
do que é néscio e mui estulto,
assim tão certo do que vê,
que diz ser puro no que sabe
porque recusa, na verdade,
.............do outro saber;
de quem acusa a nós vivermos
encastelados nas palavras,
a quem ouvir é ganhar vício
e ser impuro, pois sozinho
.............não logrou ser;
de quem se julga então mais puro
pois com seus olhos, só com eles,
ficou sabendo o que conhece
e o que colheu (minguada messe!)
.............foi sem ajuda;
deste rirei, e rirei muito,
como de mim já muito rio,
porém de mim por ser humano,
por ter vivido e ter ouvido
.............e errado tido,
mas dele rio pelo alto dom
de ser o dono da verdade,
de ser tão puro em preconceitos,
que impuro é todo ser que vive
............com a linguagem.
quinta-feira, novembro 13, 2008
e a rua
aquela luz apa
gou quando passei pelo prédio
e a rua
............meio que morreu
porque gente nas ruas
..- pode ver –
não parece viva
meus primeiros anos são inevitáveis
essa eterna recorrência que
sou eu
............achando que o mundo é meu
e de meus primeiros anos
vocês todos são robôs
nos meus primeiros enfins
contra mim e a luz
que me deixou só
gou quando passei pelo prédio
e a rua
............meio que morreu
porque gente nas ruas
..- pode ver –
não parece viva
meus primeiros anos são inevitáveis
essa eterna recorrência que
sou eu
............achando que o mundo é meu
e de meus primeiros anos
vocês todos são robôs
nos meus primeiros enfins
contra mim e a luz
que me deixou só
segunda-feira, novembro 10, 2008
O impossível ensaio sobre as Investigações Filosóficas
Wittgenstein escreveu um livro. Outros estudaram. E um professor da matéria sobre o cara mandou que os alunos escrevessem um ensaio sobre o livro.
O aluno pensou, pensou. Mas esse era o problema. Na vida real ensaios não eram textos, de modo que assim de prima tava difícil saber o que ia ser aceito como ensaio. E quando pensou veio o problema de pensar: mas isso é ensaio? Qual a ensaiedade do ensaio? Falar disso, falar daquilo, citar este e aquele, isso é ensaio? E se eu me exacerbar, e se faço um artigo, uma monografia, ou um verbete de dicionário filosófico? Vai que saia um esquete épico ou um poema cômico...
O aluno pensou tanto que filosofou, e a palavra já no débil uso do cotidiano ficou sem uso. Ou melhor, sem significado. Ou melhor, inexplicável. Ai resolveu sair por aí pra perguntar o que é ensaio, pra ver o que é usar a palavra ensaio. Se perdeu por aí. Como é que ia ensaiar a música, a peça, a entrada no palco pro dia da formatura e entregar isso pro professor? Ah, é, esqueceu do livro: e as investigações, onde ficam nisso? Podia ensaiar escrever o livro, que talvez fosse copiá-lo, copiá-lo, copiá-lo para ter enfim uma cópia definitiva, o não-ensaio. Só que bem mais que a página-e-meia limite.
Reconheceu que viajou demais. Era só - só! - escrever isso e aquilo sobre, sei lá, a falibilidade ou a limitação da ostensão como meio de aquisição e funcionamento da linguagem (!); descer às minúcias na explicação de um certo jogo de linguagem até chegar ao ponto em que a explicação tinha, afinal de contas, que acabar (!!); ou igualar o tal jogo à política: só existem onde há os homens, nunca o homem só (!!!). O aluno foi bem além, achando que tava chegando, mas não. Pensou em explicar a superação do solipsismo com um jogo de sym-pathia (!?). Palavras gregas - e com hífens! - sempre dão bons efeitos. Pros ingênuos. E o professor era um? A ver? Não, desistiu.
Mas por que um ensaio tinha que ser isto? Ah, de novo as perguntas, e o aluno se estrepou de vez. Resolveu que era pós-moderno, que não tinha essa de gênero, de funções discursivas não. É tudo um caldo só. Foi escrever é conto, como um conto-ensaio em que personagens wittgensteinianos - Groucho, Chico, Harpo - jogavam blocos, lajotas e tijolos um para o outro, testavam o martelo para ver se realmente mudava a posição do prego, mediam o metro do metro-padrão de Paris e ensacavam as cores em embalagens a vácuo, olhando pela janela pra ver se era o caso. Ou se iludiam - sem se iludir (jogavam um jogo, o narrador outro) -, pois eram besouros aquilo que tinham em suas caixinhas (dizem os personagens), quando um tinha uma formiga, outro uma borboleta e o terceiro o anel de uma latinha de coca-cola (diz o narrador).
Só que nem sabia - o narrador? os personagens? o aluno! - que jogo jogava quando se chamava de pós-moderno. Viu o que escreveu e entendeu um pouco: uma desculpa pra ser qualquer coisa, pra jogar qualquer jogo, pra entregar qualquer coisa pro professor, menos um ensaio.
Ia amargurar o zero, enfim. Ou, vai que dá?, escreveu um texto em terceira pessoa - arriscou o indireto livre por uma ponta de sofisticação - relatando as dúvidas que apareceram na tentativa de rabiscar qualquer coisa da matéria. A porra é que não lhe veio idéia bem definida nenhuma pra trabalhar a investigacidade das investigações, mas podia se entender, o LW levou sei lá quantos anos pra escrever, eu tive dois meses pra ler, enfim...
O professor leu aquilo (disse que), mas nada de sym-pathia. Ou um pouquinho. O texto lhe voltou com uma letra vermelha algo mais bonita que a sua própria. Um 4,0 suficiente não pra ele passar, mas pro professor não ter que corrigir prova final. E escrito assim: “Aprenda a jogar: ensaio é ensaio. Assim de simples”.
O aluno pensou, pensou. Mas esse era o problema. Na vida real ensaios não eram textos, de modo que assim de prima tava difícil saber o que ia ser aceito como ensaio. E quando pensou veio o problema de pensar: mas isso é ensaio? Qual a ensaiedade do ensaio? Falar disso, falar daquilo, citar este e aquele, isso é ensaio? E se eu me exacerbar, e se faço um artigo, uma monografia, ou um verbete de dicionário filosófico? Vai que saia um esquete épico ou um poema cômico...
O aluno pensou tanto que filosofou, e a palavra já no débil uso do cotidiano ficou sem uso. Ou melhor, sem significado. Ou melhor, inexplicável. Ai resolveu sair por aí pra perguntar o que é ensaio, pra ver o que é usar a palavra ensaio. Se perdeu por aí. Como é que ia ensaiar a música, a peça, a entrada no palco pro dia da formatura e entregar isso pro professor? Ah, é, esqueceu do livro: e as investigações, onde ficam nisso? Podia ensaiar escrever o livro, que talvez fosse copiá-lo, copiá-lo, copiá-lo para ter enfim uma cópia definitiva, o não-ensaio. Só que bem mais que a página-e-meia limite.
Reconheceu que viajou demais. Era só - só! - escrever isso e aquilo sobre, sei lá, a falibilidade ou a limitação da ostensão como meio de aquisição e funcionamento da linguagem (!); descer às minúcias na explicação de um certo jogo de linguagem até chegar ao ponto em que a explicação tinha, afinal de contas, que acabar (!!); ou igualar o tal jogo à política: só existem onde há os homens, nunca o homem só (!!!). O aluno foi bem além, achando que tava chegando, mas não. Pensou em explicar a superação do solipsismo com um jogo de sym-pathia (!?). Palavras gregas - e com hífens! - sempre dão bons efeitos. Pros ingênuos. E o professor era um? A ver? Não, desistiu.
Mas por que um ensaio tinha que ser isto? Ah, de novo as perguntas, e o aluno se estrepou de vez. Resolveu que era pós-moderno, que não tinha essa de gênero, de funções discursivas não. É tudo um caldo só. Foi escrever é conto, como um conto-ensaio em que personagens wittgensteinianos - Groucho, Chico, Harpo - jogavam blocos, lajotas e tijolos um para o outro, testavam o martelo para ver se realmente mudava a posição do prego, mediam o metro do metro-padrão de Paris e ensacavam as cores em embalagens a vácuo, olhando pela janela pra ver se era o caso. Ou se iludiam - sem se iludir (jogavam um jogo, o narrador outro) -, pois eram besouros aquilo que tinham em suas caixinhas (dizem os personagens), quando um tinha uma formiga, outro uma borboleta e o terceiro o anel de uma latinha de coca-cola (diz o narrador).
Só que nem sabia - o narrador? os personagens? o aluno! - que jogo jogava quando se chamava de pós-moderno. Viu o que escreveu e entendeu um pouco: uma desculpa pra ser qualquer coisa, pra jogar qualquer jogo, pra entregar qualquer coisa pro professor, menos um ensaio.
Ia amargurar o zero, enfim. Ou, vai que dá?, escreveu um texto em terceira pessoa - arriscou o indireto livre por uma ponta de sofisticação - relatando as dúvidas que apareceram na tentativa de rabiscar qualquer coisa da matéria. A porra é que não lhe veio idéia bem definida nenhuma pra trabalhar a investigacidade das investigações, mas podia se entender, o LW levou sei lá quantos anos pra escrever, eu tive dois meses pra ler, enfim...
O professor leu aquilo (disse que), mas nada de sym-pathia. Ou um pouquinho. O texto lhe voltou com uma letra vermelha algo mais bonita que a sua própria. Um 4,0 suficiente não pra ele passar, mas pro professor não ter que corrigir prova final. E escrito assim: “Aprenda a jogar: ensaio é ensaio. Assim de simples”.
terça-feira, novembro 04, 2008
Tradução de Calímaco
Para um leitor de um livroDisse tchau ao sol e jogou-se
Cleômbroto, de Ambrásquio filho,
dum alto muro para o inferno.
Não porque males o impeliram,
dignos de o à morte levar,
mas porque de Platão o livro,
e só este, sobre a alma leu.
OU
Dizendo "Hélio, tchau", Cleômbroto ambrasquieu
......llançou-se dum muro alto rumo ao Hades.
Não por mal digno de morte; mas por de Platão
......um e só o livro da psique ter lido.
segunda-feira, novembro 03, 2008
McCain e Obama
Amanhã, senhores, é o dia! E minha aposta é que vamos ter que deixar nossa esperança pro próximo pleito. Ou melhor, vocês terão. Eu já a perdi inteira.
Lasciate ogne speranza, voi che votate.
Lasciate ogne speranza, voi che votate.
domingo, novembro 02, 2008
Ao lago
triste é ter olhos
à frente do lago
ao lado de nada.
o lago é imenso
e imensa a vida
mas a gente nada
e tristes os olhos
deitando suas águas
são tristes por nada.
no lago imenso
as duas três gotas
são gotas de nada
e o sonho que dormes
sem lago nem olhos
sem nós e sem nada.
triste é ter lagos
à frente dos olhos
ao lado de nada.
são quantas tristezas
de quantos mil olhos
que tristes por nada
deitaram suas águas
para ter este lago
no meio do nada?
são mil os teu sonhos
que, gotas, se tornam
do lago um nada
e nadas com nadas
a vida se torna
um imenso
à frente do lago
ao lado de nada.
o lago é imenso
e imensa a vida
mas a gente nada
e tristes os olhos
deitando suas águas
são tristes por nada.
no lago imenso
as duas três gotas
são gotas de nada
e o sonho que dormes
sem lago nem olhos
sem nós e sem nada.
triste é ter lagos
à frente dos olhos
ao lado de nada.
são quantas tristezas
de quantos mil olhos
que tristes por nada
deitaram suas águas
para ter este lago
no meio do nada?
são mil os teu sonhos
que, gotas, se tornam
do lago um nada
e nadas com nadas
a vida se torna
um imenso
sábado, novembro 01, 2008
Foi o Cristovão que disse
Felipe. Um belo nome. Nítido como um cavaleiro recortado contra o horizonte. Um nome com contornos definidos. Uma dignidade simples, auto-evidente, ele vai fantasiando: Felipe. Repete o nome várias vezes, quase em voz alta, para conferir se ele não se desgasta pelo uso, se não se esfarela no próprio som, esvaziado pelo eco - Felipe, Felipe, Felipe, Felipe. Não: mantém-se intacto no horizonte, firme sobre o cavalo, a lança na mão direita. Felipe.
C. Tezza - O Filho Eterno
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