quarta-feira, outubro 28, 2009

Redondilhas da Ação Penal

Morre a tinta das sentenças
e o sangue dos enforcados...
Cecília Meireles


Aqui vos suspende
Suspeitos que sois
Da senda dos justos
No injusto clamor

A pena sem regras
Das regras penais
A vós que há já léguas
Sustais sendas tais

Por terdes nascido
Com marcas do crime
Pois o vosso rosto
Se julga e reprime

sexta-feira, outubro 23, 2009

Poéticas - Interpretação do Bicho do Bandeira

O homem é
o bicho na rua:
cata o mesmo amanhã
do lixo e da pena.

O poeta é
o homem na janela:
o bicho é o lixo
em que cata seu poema.

terça-feira, outubro 20, 2009

Poéticas

Ao Rufatto

Eu careço Deus di lê
O francês du Mallarmé
Por amor di afrancesá
Pra qui eu tenha di-cumê

Qui poeta nessa terra
Tem-di mais sê um Zè-Rimbaud
Sê um gênio i gênio é poco
Pra qui leia os dotô

Ou virá mei abestado
Qui-nem-qui um Cê-Éfi-Abreu
Pros jóvi arbuguesado
Bebê café i pitá breu

Florais

Que estramônio amarílis,
Um hibisco cá jacinto:
Tulipas as hortências
E miosótis de lírios!

Rosa,
Belladona de estrelícias,
Ciclame tua boca-de-leão
Eu gladíolo todo íris aos teus copos-de-leite
E me flox feito cravo na tua dália
De fuc-fúcsias sempre-vivas!
Tu és minha rainha-da-noite,
A mais gloriosa-dos-jardins,
E eu rododendro em teus junquilhos...

Ah, que amor-perfeito!
Jasmim a ti, a ti jasmim,
E mandevilla à pupunha!

segunda-feira, outubro 19, 2009

Matinais

os agora-pouco de tua pele
pronto se fizeram ontem;
sei-o pelo perfume no lençol...
Não: ele mal te evoca
pois nada te supera in loco;
Não: ele não te significa
pois somente indica tua união
à massa amorfa do passado...

- Mas... que tal?
(diz-me a Esperança Ardilosa
que Pandora doou aos meus enganos)
Que tal lançá-la à grã-fornalha
da forja encantada dos teus acasos?

segunda-feira, setembro 21, 2009

Na sociedade dos poetas

um beijou o verso escrotal do outro
- com as cautelas do estilo -
e beberam vinho, chá dos malditos

sexta-feira, setembro 18, 2009

O outro azul

Tudo em ti traz o traço humano e vivo:
Teu rosto chora, ri teu rosto e grita,
O cabelo ondula, toca o ombro e salta
E cai na boca, e a boca morde e vibra;

Até mesmo o inorgânico olho azul
De água e pedra dura, atroz safira,
Azul de infinito céu, de céu já morto
De morte absoluta, azul e linda.

Nestes olhos se vê morte, a loucura
De Ismália amanhecida entre suas luas
No vôo azul do mar, profundo mito.

Ironia serena do tom vivo!
Azul é a cor da morte, coisa humana,
Que teu olho de minfeliz reclama.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Urbanas

do promontório que é este prédio
– a funda falésia de ferro –
– o golpe fatal contra o céu –
vejo homens e as sombras dos homens
e as insuspeitas sombras de homens
que fluem em feitas formas e refluem
em fatos feitos e afluem à sempiterna
palavra passageira

alta montanha
de ferro e concreto
guindaste e dinheiro
escada e trabalho,
de teu cimo disponho
a interrompida planície.
somo e calculo
todos os zeros que te compõem;
que rico e profícuo
o colorido do vácuo
de tanto valor!
e como escapa à trupe urbana
essa delicada trama
de tirania que enfeita
as ruas com placas
sinaleiros e bons dias?

são quatro mil anos que me contemplam
desde o mesmo olho da raça humana:
dos homens que vejo
registrarão os copistas
o lombo doído de Valdir
a nova correia de Gilmar?

ah, tudo que digo!
homens sem tragédia
sem canto a exigir
na letra sempiterna
do distraído existir;
lhes faz a história
copioso arquivo:
e legam à memória
o censo, o consenso e o olvido.

ah, tudo que digo!
essa filosofia superior
que me leva num carro de bois
às veredas do sol!
ah, mas minha verdade ficou
nas sílabas que corto
para caber na conta;
e minha lucidez está lá
na rima interna dum sorriso no outdoor

bem sei que sou Alheio
a tudo que daqui vejo;
cai a chuva e a enchente é espelho
sou homem e sou outro de mim.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Agradeço a Andrea Mondragon pela revisão do texto.

.

Esta era la hora en que yo desnudaría tu hombro, y de allí hasta el final, no sin antes cubrir con un paciente beso tu clavícula. Pero hay una sencilla sensualidad en tus palabras, hay el tu saberte bella – esencialmente ese hecho de que tú te conoces bella y que mi cuerpo confirmaría tu certeza… Eso todo me da ganas de leer poesía, de verte dibujada en la retórica versificada de la mímesis imposible, y entonces de hacerte saber que en todo eso fáltate algo, y ese algo es el justo espejo que jamás vendrá, y que jamás habrá semejante justicia, y de hacernos saber también que mis besos no te cubrirán sino en un despreciable espacio de tiempo, que es injustamente ínfimo en presencia de tu concreta realidad. ¿De qué vale tenerte sino para siempre? ¿Y cómo tenerte para siempre si el tiempo te consumirá, como lo ha hecho conmigo? ¿Sólo en un verso?, ¿un verso malogrado que contendrá más silencio que fidelidad, y ni ese silencio sabrá ser en él leído? El verso, ese pedazo de la nada, será sólo un vestigio que insinúa sin denunciar la falta de palabras que eres tú; tú, un símbolo vivo de la afasia que no se apacigua ni cuando te alejas.

sábado, setembro 05, 2009

À Caneta

Assim queria:
‘ideias tantas
e pouca tinta’.
Mas tudo escreve
e nada pinta.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Ideia de poeta

Quando a Musa estridente
invadiu o aposento
estava histérica.

Numa mão a vanguarda de ordem
noutra, o metro de guerra.

O poeta
deu o seu grito redondilho,
a palavra manifesta –
entre uma e outro
epicatártico e liricômico
escolheu a janela.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Poemas rápidos

ΠΕΡΙ ΥΨΟΥΣ

eu elucido
o que Longino exprime:
no teu vestido
se desenha o Sublime.

O beijo

insinuas
com meias palavras
o que falo

faço tuas
as minhas palavras
e me calo

Hairoikai bíblico

não tem choro nem vela
tá provado que o cérebro dos homens
ficou preso à costela

Haikai light

se não me redime
o espelho, segunda o boto
num puta regime

segunda-feira, agosto 31, 2009

São Jerônimo e a delação premiada

São Jerônimo (347-419/420) traduziu, na Palestina, uma carta do Papa Epifânio reverenciada por seu estilo e elegância, para um monge chamado Eusébio de Cremona. A carta fora escrita em grego, língua que Eusébio não dominava, e este pedira a Jerônimo que a traduzisse simplificando as formas, de maneira que a pudesse entender. Jerônimo, o grande tradutor da Vulgata, assim o fez, considerando e tendo assim acordado que a tradução era para uso particular e seria mantida como documento privado.

Ocorre que a tradução vazou dezoito meses depois, e suas cópias caíram na mão de seus inimigos - Jerônimo era um polemista profícuo e irascível, o que lhe rendeu muitos inimigos na comunidade clerical. Em vista disso, viu-se obrigado a defender-se. O primeiro argumento é que a tradução era para uso privado, e sua posse por outrem, assim pública, só poderia ser fruto de fraude e traição, isto é, delação indevida que ressaltava ninharias como o fato de ter o tradutor colocado "caríssimo amigo" no lugar de "honorável senhor" e coisas do gênero.

A defesa de Jerônimo, na Carta a Panmaquio, escrita no ano 395, é um libelo claro contra a traição e a delação. Como se sabe, dedos-duros nunca tiveram boa reputação no decorrer da história - o caso de Joaquim Silvério dos Reis ilustra a brasileira, enquanto Judas ilustra a cristã. Não se reserva a tais personagens papel digno de canto em qualquer tematização de episódios tais. Quando se lê o curto trecho escrito por Jerônimo contra a traição, tem-se a impressão que o direito processual penal de hoje em dia se arvora num tecnicismo pragmático de punição pela mera criminalização da conduta na lei, sem qualquer consideração da dimensão ético-política, e ainda das estruturas latentes de poder e de configuração social das personalidades, na condenação penal de um homem. Quando se vale, pelo pragmatismo, da figura da delação premiada - na qual o dedo-duro participante menor de uma organização criminosa revela as atividades ilegais ou seus principais responsáveis em troca de benesses na própria punição - temos a realização de um direito desvinculado da política e do campo da honra e da palavra, a que pouco importa a criação de laços sociais e estruturas paralelas de poder que, por mais que sejam criminalizados, não podem ser relegados a uma mera condição de párias sociais. E isso em virtude da simples constatação de que a articulação entre homens é o princípio básico da política e da movimentação social.

Pois é em estimulando a traição que o direito se fecha na sua letra morta, já que assim sufoca as possibilidades de mudanças e reversões da ordem. Limita, assim, em favor da realidade posta, as tentativas de seu aprimoramento rumo à realização de um programa de radicalização democrática (este mesmo que parecia estar no fundamento da existência da ordem jurídica). Tudo em nome de uma estrutura econômica desigual que, para ser mantida, acabará, pelos canais constitucionais normais (e formalmente "democráticos"), desdemocratizando-se - como de fato tem ocorrido - para contenção das levas marginalizadas do campo produtivo das nações.

Mas mais do que minhas palavras, a eloquência do belo texto de Jerônimo fala por si. A tradução é minha, porém de segunda mão, eis que baseada nas traduções de Paul Carroll e de Daniel Ruiz Moreno para o inglês e o espanhol, respectivamente.

De início, antes de defender minha tradução, quero perguntar a estes homens que chamam a inteligência de maldade: onde vocês obtiveram sua cópia da tradução? Quem lhes deu-a? Com que cara ousais apresentar aquilo que comprastes a preço de um crime? Que haverá de seguro aos homens se não se pode manter segredos nem entre as paredes de seus aposentos ou dentro de seus cofres? Se eu levasse tais acusações aos tribunais, eu vos faria cair sob o peso das leis, que estabelecem castigos mesmo aos delatores em favor do fisco. A informação trazida pode servir-lhes, aos tribunais, mas estes condenam o traidor. Ou melhor, aprovam o resultado da ganância, mas desaprovam o motivo por trás da delação. Não faz muito tempo, o imperador Teodósio condenou à morte Heséquio, cônsul contra quem o patriarca Gamaliel (ou Gamamiel) promoveu batalhas, porque tivera a posse de alguns documentos oficiais subornando a um notário. E nas histórias antigas lemos que um mestre-escola que traiu os filhos dos faliscos foi entregue amarrado aos próprios meninos traídos, pois o povo romano não aceitaria uma vitória por meio da desonra oferecida. E quando Pirro, rei de Epiro, estava ferido em seu acampamento, seu médico foi ter com o inimigo e ofereceu-se para envenená-lo. Mas Fabricio, o rei adversário, considerou esse ato uma desgraça e devolveu o traidor acorrentado ao seu senhor, pois não aprovaria um crime mesmo que a vítima fosse seu inimigo. Isto que as leis públicas e mesmo os inimigos respeitaram, o que se tem por sagrado mesmo no meio das batalhas e das espadas, não o questionamos entre os monges e sacerdotes de Cristo. Pode algum dentre eles atrever-se agora, franzindo as sobrancelhas e estalando os dedos, arrotar palavras como estas: "Que importa se um monge subornou ou se valeu de algum outro ardil? Ele apenas fez o que se adequava a seus propósitos". Bela defesa do crime! Como se aquilo que fazem os bandidos, ladrões e piratas não é feito conforme seus propósitos! Pois é certo que Anás e Caifás, quando seduziram o miserável Judas, apenas faziam o que acreditavam lhes convir.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Meu amor ao álcool gel

Nunca pensei ter nas mãos
tua realidade que escapa e evapora.
Até ontem tu não existias,
e agora te tenho em cada fuga
mais que a vida que sobre tua pele
brincando de morte se apavora
e sob tua pele se debruça.

segunda-feira, agosto 24, 2009

Poema inspirado no novo prédio da Thá na Visconde de Nácar com a Emiliano

- Insolência!
o solo em sal
a sala aberta
- silêncio seco -
na suma sorte
daqui do centro

Absurdo!
Na urbe-mundo
vazio urdido
útero mudo
fendido muro
do hiato surdo.

Que nojento!
Baldio terreno
pro molambento!
O ermo laço
É o crasso termo do
Governo lasso.

Que avista
O capitalista
E nele invista
Concreto e ferro.

Que construa
Patrola e grua
Até a lua
O prédio, o cerro.

- De que adianta
Pedra e manta
A cobrir a pança
Da mansa terra?
A vista é rança:
O prédio a enterra.

E o horizonte?
Que é da ponte
Do olho ao céu?
É tal labéu
Que é a fonte
Do teu laurel?

Pois esta tinta
É toda cinza
E este vidro
Reflete o cinza
No fundo cinza
Do centro cinza.

Ah, que praça
Ah, que casa
Ah, o que faça:
Não vale nada.

Vale o prédio
O vidro nédio
O vil assédio
Da patacada.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Sobre a verdade

Anuncio a grande mentira da busca pela verdade: a de que se pode parti-la em quantas partes for, e a de que cada parte será igual ao seu todo, sem pôr nem tirar, e a de que cada um tem a possibilidade de possuir uma dessas partes, tendo assim direito pela parte à plenitude.

A verdade, todavia, é que a verdade não se partilha - possui-se e é uma. Como qualquer propriedade, tê-la é exclui-la do domínio de outrem. Acalmai, portanto, vossa busca, pois a tenho eu. É o que basta, não negocio. Partilharia, não me governasse o impossível.

Mas, se não quereis apenas entrevê-la através dos vãos da minha cerca, concedo-vos o roubo, o roubo pela mais sanguinária violência. Que é o único jeito tomar de mim (como também a obtive) a verdade.

domingo, agosto 09, 2009

O amigo atrevido

- Se liga naquela gostosa. Meu, comia frouxo.
- Você não deveria falar assim.
- Ué, e por quê?
- Esqueceu que o nosso narrador preza pela elegância?
- Puta merda, é mesmo!
- E, além disso, ele devota um respeito quase pudico a toda mulher. Toda a vez que ele nos dá direito ao discurso direto, vigia atentamente cada palavrinha e também o ato descrito. Não se faz amor, pura e simplesmente. Canta-se antes até o lóbulo da orelha feminina, que até isso ele ama, então se a despe e se faz uma vaga referência metonímica ou metafórica à congregação final. Ele também não se dá bem com a imitação dos discursos da vida real, você bem sabe. Temos que falar com a gramática nos aplaudindo.
- É um viado, isso sim. Ter-mos e-le-va-dos, uiuiui, é o que esse viadinho sempre quer.
- Melhor tomar cuidado. Se bem que... Ele não o está ouvindo agora?
- Pois é. Tô falando um monte de merda e o cara tá susse.
- Estranho...
- É...
- ...
- Caralho?
- Xito!
- Não! Olhe que massa: buceta?
- ...
- Bu-ce... ta?
- ...
- BUCETA!
- Nada.
- Nada!
- Será que aconteceu algo?
- Como ‘algo’? Pode falar: que merda deu?!
- Eu preferia não fazê-lo.
- Blé blé blé. Que porra, ainda faz referência... Cara, não precisa disso agora não. O cara se foi.
- Como pode? E nós?
- Ah, deixa isso pros críticos. Eles sempre resolvem essas lambanças.
- Ainda assim prefiro...
- GOSTOSA!
- Que é isso?!
- Ah, vô dá umas cantadas tosca. Faz tempo que eu queria avacalhá. E também, aquela gostosa ali, meu, eu pegava ela assim e...
- Pare com isso, que coisa deselegante! Devolva os erres aos infinitivos agora! E preste atenção à concordância. Aquiete esses braços.
- Tomá no cu você! Tu parece que é que nem ele.
- Pareço o quê?
- Parece o viadinho do narrador.
- E se...
- Se o quê?
- E se eu for o narrador?
- Você?! Má tu é personagem que nem eu.
- Você sabe o que eu posso fazer se eu for o narrador, não? Ou se o narrador repentinamente o ouve deblaterando com tais vitupérios?
- Sei, mas ele não ta ouvindo. E tu é personagem que nem eu.
- É verdade. Eu sou um personagem...
- Há! Tava querendo botar pressão é?
- ...mas você olvidou que a narrativa é em primeira pessoa.

Neste momento, o rosto relaxado do meu atrevido amigo perdeu o sorriso e estatelou de pavor. Havia uma arma na minha mão. A bela moça do outro lado da rua ouviu o estampido e o surdo baque de um corpo caindo na calçada. Tenho a impressão de que também sorriu.

sexta-feira, agosto 07, 2009

Urbanismo

que imponha
à sombra verde
sua presença

que tire
ao campo vasto
minha ausência

terça-feira, agosto 04, 2009

Catavento

acorda
cada vento
acalma
pensamento

cata
todo vento
mata
movimento

para
o teu vento
vara
virulento

o fazer do instante um evento.

Procuro um verso

se tergiverso
é porque verso
é o inverso
desse jogo
fácil
(desse fóssil
jugo)
que sei jogar

o que falo
não fala
falha
o que é falo
não fila
fale

é
filha
d’alva
folha
feita
alho
fato