segunda-feira, março 31, 2008

O silêncio tudo rasga
Tudo mata,
Tudo destrói
Nas bocas brumosas.

Não a palavra
Não os versos que escrevo
Nem mesmo as demagogias
Das belas tribunas
Faltam.
Isso não: há demais.

Faltam ouvidos que os aceitem.

quarta-feira, março 26, 2008

W. B. Yeats

Sempre gostei deste poema do poeta irlandês W. B. Yeats:

The sorrow of love

The quarrel of the sparrows in the eaves,
The full round moon and the star-laden sky,
And the loud song of the ever-singing leaves,
Had hid away earth's old and weary cry.

And then you came with those red mournful lips,
And with you came the whole of the world's tears,
And all the trouble of her labouring ships,
And all the trouble of her myriad years.

And now the sparrows warring in the eaves,
The courd-pale moon, the white stars in the sky,
And the loud chaunting of the unquiet leaves,
Are shaken with earth's old and weary cry.

sexta-feira, março 21, 2008

Desafio

Letra de Tom Zé e Gilberto Assis

Doutor:
Meus senhores, vou lhes apresentar
A figura do homem popular,
Esse tipo idiota e muquirana
É um bicho que imita a raça humana

O homem:
O doutor exagera e desatina,
Pois quando o pobre tem no seu repasto
O direito a escola e proteína
O seu cérebro cresce qual um astro
E começa a nascer pra todo lado
Jesus Cristo e muito Fidel Castro

Refrão
Africara mingüê e favelará
Mérica de verme que deusará
Iocuné Tatuapé Irará

Doutor:
Vejo o pobre de hoje: quer tratar
Do direito, da lei, ecologia.
É na merda que eles vão parar
Ou na peste, maleita, hidropisia.

O homem:
Mas o direito, na sua amplitude
Serve o grande e o pequeno também.
Além disso quem chega-se à virtude
E da lei se aproxima e se convém
Tá mostrando no patrão solicitude
Por querer o que dele advém.

quinta-feira, março 13, 2008

Belespáduas se insinuam
Sob a blusa sorrateiras;

Divombros com pintescuras,
tuas inevitaventuras.

Noitinsones e negrolheiras
Infundem-me em silêncio.

Ah, dona e aliada minha,
nem meu sono eu mereço?

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Soneto

Ao gosto dos modernos alguém brada,
em garboso louvor à pasmaceira.
Aos gritos de vã excluída sem eira,
condena-se à morte a métrica amada.

Que sim morram os detratores! Queira
a Morte – ou a altiva e bela fada
Tortura – saquear-lhes d’alma cada
estro dessa poesia rameira.

Sim, pois é moda desses modernosos
democratizar o verso aos incultos
com os poemas papalvos e estultos.

Liberdade não! Vivam os pomposos
versos da mais pomposa Poesia,
ao jugo da Forma e da Tirania!

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Poemeto erótico

Mar teu corpo; tua saliva, espuma;
Desce rija do morto Urano a agulha:
Eis a distinta ira de Afrodite
Que com rápida fome te alvoroça,
Em guarda pronta, com minh’alma troça,
Dócil criada que é do apetite.

Da minha boca meu cigarro fumas,
Tão sagaz e langorosa, com umas
Tragadas que de meu logo rendido
Pudor chupam o último vestígio.
Sou em vestes plenas já teu nu lígio,
Que o que não és abandona ao olvido.

E nas trilhas do que não deixo esquecer-me
Busco as serras que vem a oferecer-me
Tua blusa que ao chão pronto se arria.
Mas se mais baixo num repente aponto,
Danças, disfarças, me afastas no conto
de qu’é cedo para chegar à pia.

Como dizer que o encontro é primeiro
Com solene voz em corpo faceiro?!
Mas nada vale insistir eu perplexo,
Que por ti bastam as preliminares
- O vão júbilo das preliminares,
que sequer põe tua boca em meu sexo.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

O caseiro da chácara de Camaquã

Meu amigo João Falavigna jantou outro dia em minha casa. Há tempos que não nos víamos. Contou-me que o Rondinelli, caseiro de sua chácara, morrera há pouco. Simplesmente não acordou mais de seu derradeiro sono. Falavigna acredita, e eu concordo com ele, que a causa da morte não foi a parada cardíaca que consta do seu obituário, senão a falta de propósito para continuar vivendo. A sua história, a qual fiquei sabendo só agora, é extremamente curiosa e justifica plenamente nossa opinião. Aquele imperceptível Rondinelli ostentava um portentoso nome de policial ou de político, porém não passava de um discreto senhor de voz submissa e ombros encolhidos, de face circunspeta sob a inevitável calvície que ameaçava os cabelos nas entradas da testa. Na verdade, tamanha era sua discrição que sua figura só me tocou a memória em virtude de um estranho sotaque ítalo-castelhano que excedia, nessa estranheza, ao já extravagante modo de falar dos sul-rio-grandenses. Pareço descrever um mordomo vulgar, mas era isso que, no fundo, Rondinelli era. Essa peculiaridade arquivou-se em minha lembrança e foi suficiente para que eu pudesse associar toda a história ao seu protagonista.

Muito do que eu contar pode não ser a realidade, já que tudo que dele se sabe não veio de sua boca. Quem falou da vida do caseiro a Falavigna foi um dos filhos do Major Alcindo Garcez, um pica-pau da Revolução Federalista. Garcez parece ter salvado Rondinelli, maragato italiano que veio do Uruguai em busca de dinheiro, da sangüinária degola de Cherengue, e ainda ofertara ao mal-sucedido soldado o emprego de caseiro em sua chácara à beira do rio Camaquã. É o que se diz.

A gratidão – essa é a palavra-mestra – de Rondinelli foi infinita. A chácara em suas mãos estava seguramente nas melhores mãos em que poderiam estar. Há nela uma enorme casa, cheia de redes e camas, ornada com vários bibelôs cuja temática é a pescaria. Outra casa, mais modesta, é onde vivia Rondinelli com sua esposa, que conheceu em Camaquã mesmo. Um delicioso pomar, dois cavalos e o próprio rio a completavam. No princípio, Garcez ia de Porto Alegre ao sítio com assídua freqüência, muitas vezes acompanhado de amigos pescadores e da família para os churrascos de chão. Após a prematura morte da esposa de Rondinelli, suportada com singular indiferença pelo chacareiro, aliada à madureza alcançada pelos filhos do major, que trouxeram consigo o desinteresse pelas questões interioranas, a chácara passou a ser menos visitada. Passaram-se anos em que apenas Garcez, com rigorosa periodicidade quinzenal, ia à fazenda para matear com Rondinelli e pescar no rio Camaquã. E mesmo assim o afinco do caseiro era o mesmo, como se sempre esperasse as irrepetidas festas do passado. É que o seu trabalho era para o major, era a este que ele devia a própria vida. A ninguém mais. E não parecia fazer outra coisa: quando Garcez chegava o quarto estava arrumado, a geladeira cheia, o chimarrão pronto, a sela no cavalo, a linha no caniço, o anzol na linha, a grama cortada, as frutas colhidas, a lenha cortada e o fogo aceso contra a invernada. Rondinelli só não se dedicava à chácara quando ia a galope ao armazém na cidade jogar o truco ou o dominó e beber o mate com outros velhos senhores. Uma vez só, sob insistência do major, aceitou viajar ao Uruguai. Mas não achou ninguém de que pudesse se lembrar.

Num dia do ano de 1927, no entanto, Garcez, que tinha mais ou menos a mesma idade de Rondinelli, não veio. A realidade foi apenas pressentida pelo caseiro, mas solenemente denegada. Com uma semana de atraso do major, recebeu uma carta. Não a abriu: colocou-a sob a fruteira no centro da mesa de sua cozinha. Rondinelli não fugiu à rotina, tudo era detalhadamente realizado conforme sempre fora, com o cuidado que jamais faltou aos seus afazeres.

Falavigna, amigo também do major, convidado já das churrascadas que ele organizava, buscou comprar a chácara do espólio do ximango. Os herdeiros, dois filhos e uma filha, tinham já seus planos de vida, e o dinheiro valia mais que a propriedade. Marcos Garcez contou-lhe do caseiro, Rubens, seu irmão, levou-o ao sítio.

Meu amigo, devo dizê-lo, é uma pessoa extraordinária. Sua empatia é invejável, e essa deve ser a razão de ter conquistado tanta gente ao longo de sua vida. É um diplomata nato, embora seja apenas comerciante. Seu proceder para com o caseiro, como mostrarei a seguir, foi decisivo para a preservação dessa história, que pelo menos a mim impressionou muito.

Chegaram à chácara meu amigo e Rubens, homem exatamente oposto a Falavigna, bronco e de difícil lida, e o acesso foi de pronto franqueado por Rondinelli. Um pouco atordoado pela surpresa, o caseiro tratou de acomodá-los. Rubens praticamente dele não tomava conhecimento: falava ininterruptamente sobre o negócio que estava prestes a celebrar e mal ouvia as ofertas de mate ou café por parte de Rondinelli. À primeira trégua, o chacareiro fez a infeliz pergunta:

- Senhor, como bai seu papá?

Rubens ergueu-se com olhar ferino sobre o caseiro e bradou:

- Você só pode estar de brincadeira, uruguaio inútil!

E puxou meu amigo para fora para mostrar-lhe o rio. A cena bastante estranha foi geniosamente interpretada por Falavigna, que sabendo da história do caseiro a compreendeu sem maiores delongas. Então procurou não unir novamente Rubens e Rondinelli, para evitar outros mal-entendidos. Quem não a deve ter compreendido foi Rondinelli, que, imagino, deve ter ficado algum tempo paralisado para depois, como um bom servo, não fazer mais perguntas a si mesmo e voltar às suas ocupações.

A compra foi ultimada e o caseiro mantido na chácara, ainda submergido na pequena ilusão que guardara para si, a de que seu chefe, o major, ainda vivia. Falavigna nada fez para mudar esta convicção. Pelo contrário, viu-se obrigado a fingir-se, e a fazer todos os que visitavam a agora sua chácara fingirem-se igualmente, de convidado de Alcindo Garcez. O ardil arquitetado, admitamos, é um tanto quanto fácil de ser desmascarado. Mas antes de me acusarem de um fantasista que amarra mal os nós de suas mentiras, podemos ver também o porquê do sucesso dos atos de Falavigna: estamos aqui lidando com um homem cuja razão de viver é a quitação de uma impagável dívida. Obviamente que ele já sentia, nessas obscuridades da mente, a morte do seu chefe, porém simplesmente não acreditava nela. E era importante não acreditar: sua crença era deliberada. Qualquer coisa que a tornasse um pouco mais fundada seria preciosa para Rondinelli, e as dúvidas, como veremos, colocariam sua própria vida em risco.

O que fez o novo, mas secreto, patrão do nosso herói foi freqüentar a chácara sempre, inapelavelmente, munido de uma falsa autorização pretensamente assinada do próprio punho do falecido Garcez. Às eventuais perguntas de Rondinelli, Falavigna já preparara a desculpa de que o major estaria em uma longa viagem à América do Norte, em missão oficial.

O método não ficou isento de problemas: o caseiro não impunha nenhum empecilho a que meu amigo entrasse na chácara, andasse a cavalo, usasse o pomar e também os serviços de Rondinelli. Entretanto, ele jamais permitia que se dormisse no quarto do major ou que se utilizassem os equipamentos de pesca do finado. Uma vez apenas, após muita insistência, o caseiro permitiu que um dos visitantes usasse um dos puçás do major. Mas o puçá foi mal amarrado a uma raiz à beira do rio, e acabou sendo levado pela correnteza. Rondinelli suava copiosamente de nervoso, e chegou a erguer sua costumeiramente invariável voz com um discreto “jamais deveria ter deixado”.

O puçá foi encontrado pelo chacareiro alguns metros rio abaixo. Foi devolvido ao seu devido lugar e nunca ninguém mais ousou pedi-lo novamente.

Ocorre que, no começo, Rondinelli era o mais cortês e solícito empregado. Não media esforços para bem acomodar e agradar Falavigna, ao seu ver um insigne convidado do major. Encanta-me essa idéia: um homem tão infinitamente grato que, numa íntima promessa de servidão absoluta, permanece preso a esse laço muito além da morte do seu credor. Não se trata, como pode parecer a um julgamento mais imediato, de uma medíocre subserviência. Pelo contrário, Rondinelli obteve o que a muitos de nós sempre faltou: um significado da vida. Claro, se o significado que escolheu é bom ou ruim, isso vai depender de nosso juízo e de nossa busca particular do próprio sentido de existir. Mas é extraordinária a inabdicável missão a que se entregou o caseiro. Entretanto, os dias passavam e o major nunca mais deu notícias. Sub-repticiamente, a convicção de Rondinelli esvanecia. Sua energia para o labor diminuía, aqui e ali apareciam falhas do seu trabalho, imperdonables erros no dizer do uruguaio. Começou a precisar da cidade mais amiúde, substituiu no armazém o chimarrão pela cachaça. Foi duas ou três vezes ao médico. Creio que já não conseguia mais fantasiar: o major morreu. A situação foi se agravando até que chegou o dia que já conhecemos: o da morte do caseiro em sua cama.

Quem achou o corpo foi o próprio Falavigna. Descansava, na cabeceira, aquela carta cujo envelope estava, enfim, violado.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Bicicleta

Sempre julguei que à medida que os anos se vão, menos inteligente fico. Do que se extrai, acertadamente, que quando as palavras eram-me desconexas seqüências de sons balbuciadas por aquela boca cuja voz possuía poderes mágicos contra os meus maus ânimos eu era mais esperto. É que tinha todas as possibilidades diante de mim. Enquanto vivo e escolho, reduzo seus números até uma mediocridade que hoje só me permite optar o prato do cardápio.

Não mudo de idéia: ano que vem mais burro serei. Isso é irretocável. E será assim até que só me restará esperar a morte, com a apática resignação de quem a negou desde o início. Hoje, porém, ao reviver os vestígios jogados na memória dos meus tempos idos, finalmente consigo datar com certa precisão a fundação da mais aguda ingremidade de meu abismo.

Tinha oito anos de idade. Os meus sucessos nas provas escolares, com os famigerados cartazezinhos que colocavam meu nome à frente de todos meus colegas, deram aos meus queridos pais um motivo para o exibicionismo. Alguma auto-afirmação de que talvez necessitassem encontrou em mim sua razão de existir. Era eu o brilhante aluno, comportado e de boas notas, xodó de todos na escola. Enfim, o prezável e enfadonho filho exemplar.

Alguém deve ter mencionado à minha mãe o lugar-comum da época: os testes de Q.I. Ora, estava aí mais uma possível prova do meu talento, que já não era desconhecido. E tudo estava à mão: minha tia, mulher do irmão de meu pai, era psicóloga de crianças. Pronto. Mais uma chance de mostrar minha genialidade, minha estéril genialidade moldada pelo bom-mocismo.

Arrancaram-me certa tarde do jogo de bola da Rua Desembargador Motta. Era para o teste. Fui com os pés grossos de sujeira à sala de limpos carpetes da minha tia. Deram-me chinelos, mas teimei por um banho antes. Não convenci.

Aquilo me deixou demasiadamente nervoso. Se não provasse, que seria de mim? Todo meu castelo de sólidas fortificações estava ali ameaçado por um capricho de meus pais. Mas sem desgastar-lhes com minhas frivolidades, já lhes digo que foi coisa que passou: o resultado não poderia ser melhor.

Quero, porém, me referir, voltando à introdução do assunto, ao que me desterrou das fartas terras da fertilidade imaginativa. Foi uma inocente pergunta feita no meio do teste. Tinha que definir o que eram as coisas do meu cotidiano. Disse minha tia:

- O que é uma bicicleta?

Respondi como o teria feito uma razão científica que se alija de toda forma de poesia:

- Um veículo não-motorizado de duas rodas que utiliza a força das nossas pernas, por meio de um pedal e de uma correia, para andar.

Meu Deus! Como eu me orgulhei dessa resposta! “Veículo”, “não-motorizado”: mas isso era genial! Quem de meus amigos diria tais palavras?

Antes tivesse sido qualquer um deles e não eu. Desde então, a bicicleta é um entulho de alumínio e rodas e aros e espias. Jamais minha nave, meu cavalo de cavaleiro, meu lugarzinho de namoro, meu vento a soprar uma suave melopéia em meus ouvidos.

sábado, novembro 17, 2007

Cidade

Faringe que nos degusta,
Sou o gancho que se prendeu
EM
sua glote.
Quantos iguais a mim à mesma
Recusa procederam?

Não sou:
Líquido que escorre livremente
EM
suas vias.
Não me situo nem me movimento.

Não sou:
Pedra fundamental
EM
Uma sua estrutura.
Falta-me endereço.

Por uma estranha forma de vê-la
Sinto-a inacessível como também sou ao que me circunda
EM
Você.

terça-feira, agosto 28, 2007

Hoje eu limpo minha sala,
Ansiando algo melhor em ser.

Com a sala limpa imagino-me comendo todas as páginas de todos os livros de todos os saberes.

Amanhã eu só domino a modorra,

Que minhas muletas não sabem evitar.

domingo, agosto 12, 2007

Embalasse-me a gota rubra
Que de rubro brilho enche minha face
Rumo a cantilenas fervorosas a
Extirpar deste corpo as exatas cadeias
Do contumaz palavrear que a razão
Domina,
Ergueriam as uvas um antes embaraçado
Agora intrépido sei-la-o-quê que motoriza
As paixões - quiçá coração mesmo –
Entoando melopéias de destilado júbilo
Para me alçar à grandeza de suas íris
Sobranceiras.

Mas é patético e inútil o escrever.

Desencantado e desvendado o amor,
Vulgarizado e medíocre.
Matematizado; psicoanalisado, geneticamente localizado:
Nem o vinho é capaz de fazer-me cantá-lo.

domingo, março 25, 2007

Um Tales no meio de nós

Certas surpresas a vida nos reserva com tamanha discrição, desfeita daquele reverso da curiosidade que não raras vezes nos (me) ataca, aquela comichão que acomete o portador de prazeres inesperados que se atropela e surpreende seu alvo antes do tempo, que o timing da vida para nos espantar parece ser perfeito. Quero referir-me aqui a algo singular que me ocorreu anos após ter encontrado na Biblioteca Pública do Paraná um exemplar de um caderno meio tosco, não catalogado nos sistemas, com anotações de pensamentos não muito mais profundos que os que constam das prateleiras mais visíveis das livrarias, essas que escondem os melhores livros nos cantos menos visitados.
O caderno a que aludo era bem velho, muitas das páginas do seu interior estavam separadas da sua lombada, embora estivessem ali mantidas. Era de brochura costurada, com uma capa de papelão, todo manuscrito. Estava no setor da história das religiões, entre livros sobre o judaísmo. Vi-o não porque me interessasse nas questões hebraicas, mas porque as sobrenaturalidades do destino me alojaram na mesa que defrontava a estante onde se encontrava. Sua cor alaranjada sobressaía-se sobre as capas demasiadamente sóbrias dos livros vizinhos – não sei quais eram – e entre um e outro descanso da leitura que empreendia chamou-me a atenção.
Abri-o. Seus manuscritos eram os mais variados: a caneta – azuis, pretas e coloridas; esferográficas, hidrográficas, de pena; a lápis, lápis de cor e até giz de cera. Letras cursivas, bem desenhadas, infantis, da mais fina caligrafia, de fôrma, garranchos. Dizia a folha de rosto que aquele era um “Livro de Conselhos” (abaixo a inscrição “Passe adiante”), a iniciar pelo que dizia “só se vive uma vez, aproveite o máximo”. Não posso recordar agora do teor literal dos outros, não os li todos, e nem teria paciência. Afinal, como disse antes, os pensamentos eram reles como o citado, ocultos sob a comodidade de estarem todos os escreventes eximidos do dever da assinatura. Ali, sob o manto do anonimato, faces cujo semblante não sei nem imaginar devem ter passado horas se divertindo numa leitura rápida, fácil, às vezes frutífera, mas certamente ansiosa: penso que nem bem se chegaria à metade e logo vinha aquele ímpeto de marcar o próprio texto na última página escrita. O tal livro – um caderno, sabemos – já estava quase findando suas folhas em branco.
Maravilhei-me com a idéia: um livro de sabedorias anônimas e de contribuições plúrimas. O modelo formal que deu a luz àquela atitude material era perfeito, sem querer me demorar com a metafísica das formas eternas. Só que a matéria em si era medonha e enfadonha, pois o pessoal escrevia somente para “passar adiante”, para fazer parte, sem qualquer auto-exigência de criatividade. Também não tinha eu qualquer idéia para botar no papel, e não obstante ruminava alucinadamente – não muito além dos clichês – uma frase para colocar ali.
Por isso eu, como imaginei os demais, não me ative muito tempo e fui direto à última página. Ali estava o único conselho que trouxe na memória além do inaugural: “É da água que a vida, com tudo que existe, retirou seu princípio, nela a mantém, por ela morrerá. A quem disso souber com profundidade, o tempo será generoso e abundante.”
Em vista desse texto, animei-me a construir um igualmente ininteligível. Afinal, não pude atinar com o seu significado num primeiro momento. Que conselho era aquele? Que eu tinha que beber água? Tomar banho? Viver numa comunidade ribeirinha ou na beira do mar? Não havia um propósito claro, e assim devia ser o meu conselho, copiador barato que sou.
O que mesmo que escrevi? Era algo sobre fogo; sequer diversifiquei, em relação ao meu predecessor, o assunto dos elementos. É com sinceridade que relato o esquecimento de meu alvitre, mas é com igual lisura que garanto que se cá o transcrevesse, tê-lo-ia feito com um sentimento de autocomiseração acerca da minha própria futilidade. Olvidemos do detalhe; afinal, nem sei por que essa obsessão minha em sublinhar como fossem ninharias as mediocridades alheias, quando todos sabemos que é impossível não partilhar da mesma decadência, e tentar dela se esquivar como faço torna tudo mais ridículo ainda.
Não sabia bem o procedimento a partir dali. O livro apenas dizia “passe adiante”. Pairava a dúvida: passar adiante deixando ele sempre ali onde o achei ou levando-o para outro lugar? Esta alternativa era mais crível que aquela, certamente, pois a instrução exige claramente uma postura ativa do escrevinhador. Mesmo assim, devolvi ao mesmo lugar onde o achei: era demandar demais da minha parca criatividade procurar algum outro para colocá-lo.
Nem voltei à leitura a que havia me lançado antes de encontrar o caderno. Eu reouve a bolsa que deixara no guarda-volumes e parti para beber café no Lucca ali perto. Por uns momentos, o pequeno acontecimento na biblioteca ficou esquecido e ocupei-me de tormentas outras que sempre rondam meu exausto cérebro. Bastou, entretanto, que uma senhora excessivamente ornada com uma pesada maquiagem, topetuda, e com um daqueles horrendos lenços de seda no pescoço, sentada à mesa à minha frente, pedisse uma garrafa de água que o conselho antecedente viesse a lume novamente.
Mas que diabos aquilo queria dizer?
A garçonete veio carregando o mistério em sua bandeja, todo o mistério do mundo pra mim naquele segundo. Na garrafa, a água sacolejava e mudava a cada passo o plano primeiro de sua superfície, ao sabor dos ângulos que formaria o encontro de uma bandeja idealmente distendida com o chão. O segredo de toda a mecânica em que se engendrou nosso planeta balançava sem autoconsciência nem sentimentos nem percepções. É da água que a vida e tudo que existe retiraram seu princípio e nela que inexoravelmente se renovam. A água segurou em seus hipotéticos ombros todo o motor da história e mesmo assim se deixa apreender numa mísera garrafa de plástico! Passiva, passa ao copo, e do copo ao corpo, e do corpo a sei lá quantos mil outros fenômenos com os quais nem posso atinar. É humilde herói, é o nosso começo, é de onde tudo parte e o porquê de tudo existir. É o princípio de Tales; são, pois, ela só, os deuses que ele inventou, do qual todas as coisas estão cheias!
Sejam o piche do asfalto e o concreto do pilar, sejam a nuvem, a terra e o vidro. O humor vítreo que conhece o espectro das cores: o arco-íris é água. Tudo se define pelo seco e pelo molhado, tudo é fluido solidificado ou gaseificado. Tales nos fez da mesma substância, e desde então todos os filósofos que o mundo teve enxugam gelo. Exsurge das teorias a incredulidade, e sempre uma revoga a anterior, e sempre se quedam em um encastelado clube a ponto de não alcançar interlocutores muito além de suas barbacãs.
Acreditar nesse princípio tão inverossímil hoje parece absurdo, e no entanto é tão fácil e atraente seu enunciado. A racionalidade extremada de nossas impassíveis ciências não nos fez mais do que nos atirar mais fundo no abismo das incógnitas que a simples palavra vida nos oferece. É preciso então nos agarrar na simplicidade daquela antiga Jônia, que atravessou todos os séculos e se imprimiu numa singela página de um Livro de Conselhos simplório, e que ali naquele café havia me convencido por completo da sua legitimidade. Restava agora esperar que o tempo me fosse generoso e abundante, como deveria ter sido a... Tales.
A reflexão me conduziu a uma mais fantástica. E se não foi o próprio filósofo que tivesse escrito o conselho naquele caderno? Ora, um tempo abundante poderia certamente significar vinte e seis séculos. Imagino Tales, um homem de bastas barbas e compleição forte e exuberante, vagando por toda a história da ocidentalidade, daquela esquecida Mileto que durante toda sua vida foi também de Roma, de Bizâncio, de Constantinopla, do Império Otomano e da Turquia. Tales nos deu a physis e foi além: conseguiu ser ele mesmo o deus cuja substância nos tenta impingir com frases obscuras em velhas prateleiras de bibliotecas ou em alguma pregação em praça pública, sem jamais ter se identificado.
Tales vivia, só podia ser. Segurava consigo toda a história, como a água. Como ele, imagino, uns outro quatro podem ter realizado a mesma descoberta, a que agora eu tentava descobrir a todo custo. Sabia que a água era o princípio, mas como aplicar esse conhecimento profundamente como me dizia o conselho? Criei a necessidade de domar o mistério e guardá-lo comigo por outros vinte e tantas centenas de anos. Só uma palestra com o mestre talvez poderia me auxiliar.
Fui passeando por associações infantis enquanto eu mesmo pedia uma garrafa de água para mim. Tales me trouxe a imagem do talo da flor, que vive pela água; e daí passei à tala que imobilizou meu braço há uns quinze anos e deu chance para que o sangue, esse fluido vermelho, revigorasse minha fratura. E da tala à tela, que ganha da tinta vida, e da tela ao cinema, que flui no projetor como um rio, bravio ou não, rumo à foz. Tudo pulsava seca ou umidamente, e era desse tudo que eu participava sem saber. Vi-me como uma gota em meio ao infinito oceano do universo, que, sem tê-lo em conta na exata medida, era dos seus torvelinhos um títere, de cujas cordas Tales há muito se livrou. Somos a gota, ele conseguiu ser o mar inteiro.
Ignorava, porém, como conseguir encontrar o homem. A única coisa que existia era aquele caderno, o único elo possível. Pensei: o conselho de Tales era tão apaixonado que talvez ele ficaria incomodado em ver o livro no mesmo lugar, incólume e ignorado. Fiz bem em deixá-lo onde o achei. O que me cabia fazer agora era vigiar, por uma semana, até que ele voltasse para colocá-lo em algum lugar mais popular.
Dito e feito. Já no dia seguinte, estava eu sentado no mesmo lugar quando um rapaz magrelo e cabeludo, ostentando um crachá da biblioteca, foi retirar o caderno da estante. Imaginei na hora que, como funcionário do lugar, ele teria estranhado e apenas retiraria o livro dali por não estar na seção correta. Mas não: abriu-o e conferiu o meu conselho. Resmungou alguma coisa quando percebeu que talvez sua sugestão tivesse sido só mais uma, dada a pouca atenção do seu sucessor, eu. Mal sabia ele que eu já tinha ciência de sua identidade. Mal sabia eu, por outro lado, que isso foi uma enorme alegoria da minha própria cabeça – como me iludi tanto? Óbvio que Tales já estava morto, óbvio que eu teria que cedo ou tarde voltar à razão desencantadora dos nossos tempos, que fui crédulo demais numa fantasia boba. Veja-se o que sucedeu: segui discretamente o rapaz, que escreveu uma outra frase e colocou o caderno entre os livros de José de Alencar. Não demorei muito e o retomei. A letra do mais novo conselho era a mesma do anterior, o que provou minha tese da paixão de que era eivado. A água era o mote recorrente, pois assim estava escrito: “Alguns renegam que estamos ao fim dos tempos, e que a água nos mutilará, porque jamais a respeitamos. O fogo – estava aludindo a mim, creio – trouxe um progresso frágil e falso demais”. Estava começando a compreender. Fui à mesa do rapaz e mostrei-lhe o livro.
- Foi você que escreveu isto?
Fui impolido e muito brusco, o que justifica uma pausa assustada da parte dele.
- Sim.
- Conhece Tales?
- Quem?
- Tales de Mileto.
- Não.
- Não mesmo? Aquele filósofo a quem a água é o princípio de tudo que existe.
- Ah, não lembrei.
- Eu escrevi do fogo.
Ele enrubesceu. Nessa hora vi um adesivo do Greenpeace na sua mesa. Entendi tudo.
- Você tá certo – comprazi-me em dizer.
- Obrigado. O pessoal não dá atenção, né, mas a água tá acabando, e o mundo também, não acha?
- Acho. Tenha uma boa tarde.
Deixei com ele o livro. Não escrevi nada de novo. Dali, fui pra casa. Esse rapaz foi o motivo de uma grande decepção. Esperava encontrar a grandiosidade que juvenilmente imaginei por horas, e deparei-me com um simples ecologista que quer salvar o mundo. Nada mais.

domingo, fevereiro 25, 2007

Contra o tempo não-revisitado

Temo que é tempo do mesmo velho tempo
Chegamos aonde? Não há chegar
Passos – há passos? – sobre a mesma:
mesma eterna fôrma das pegadas
passadas, inculcando os seus deletérios sulcos

Evoluir na inarredável
Condição de homem
Indecomponível paradoxo

Pirâmides e arranha-céus
O que muda é o mundo plástico.

Força motriz
da história:
a insolubilidade da nossa pequenez.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Mil e uma noites

Versos extraído da 1ª noite das espantosas histórias das mil e uma noites, traduzido do ramo sírio por Mamede Mustafa Jarouche

O tempo é composto de dois dias, um seguro, outro ameaçador,
e a vida é composta de duas partes, uma pura, outra turva.
Pergunte a quem urdiu as idas e vindas do tempo:
será que o tempo só maltrata a quem tem importância?
Acaso não se vê que a ventania, ao formar as tempestades,
não atinge senão as árvores de altas copas?
De tantas plantas verdes e secas existentes sobre a terra,
somente se apedrejam aquelas que têm frutas;
nos céus existem incontáveis estrelas,
mas em eclipse só entram o sol e a lua.
Pois é, você pensa bem dos dias quando tudo vai bem,
e nâo teme as reviravoltas que o destino reserva;
nas noites você passa bem, e com elas se ilude,
mas no sossego da noite é que sucede a torpeza.

sábado, dezembro 30, 2006

Ocaso

Veio uma palavra, veio
veio pela noite,
queria brilhar, queria brilhar
Cinzas
Cinzas, cinzas
Paul Celan
Engravidei
de uma palavra.
Mas abortei(amos).

Foi para o céu,
escarrapachada no chão.

Engravidei
de uma idéia.
Mas a matei(amos).

Foi para o céu,
apunhalada no chão.

Engravidei,
Mas era um ruído.
Evaporou sozinho.

Foi para o céu
desaparecido do chão.

A última vez que engravidei
Foi de um homem mudo.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Desonra

Texto meu escrito para o antigo blog Realismo Superfantástico.

Fato é: houve duelo. Conto-te como foi, e não te importes com o motivo, que motivos de duelos são coisas às quais nem duelistas dão importância. Já houve caso contado, e não raro deve ser, em que se duelaram dois dos mais nobres espadachins da França por questão de onde apor a cerca. Vê bem: querelavam por cinco palmos de terra, nada mais, talvez menos. E achas que tal motivo lhes valeu a luta e o sangue esvaído? Óbvio que não. Razão por razão, a luta por si só já é suficiente, o resto estopim é.

O fato é: houve duelo, e nada mais pode interessar.

As horas eram altas, os duelos já eram proibidos na época. Mas a honra, que em lei da natureza o decreto do homem não se mete, ainda é a honra, e defendê-la é ainda defendê-la. O Espadachim vê o Espadachim e fica certo da vitória. O Espadachim, o outro, devolve a certeza ao Espadachim e o grito de en gard. Ambos, espadas em riste, pelejam então. Sabres cortam o ar refletindo as duas tochas que fracamente alumiam a cancha da batalha, os metais tilintam, os homens gemem e a noite, calada, só assiste à cena. Os inimigos são bons à mesma altura, mas não são precisos mais que segundos.

Touché!

No fim, talvez meio minuto seja pouco para horas, dias e semanas de aflição. Tanto preparo e tudo tão rápido se completa. Decepciona. O Espadachim vivo vê o Espadachim morto e não mais fica certo da vitória. A certeza que nele se dissipa, no morto se cristaliza, já que morreu com o que viveu no último momento. Um fio de sangue escorre pelos veios da terra e a rega com a exuberância da ruína, levando consigo tudo quanto na vida se construiu, talvez aos céus, talvez aos infernos. E se a espada não leva, leva a fé para que se arme no purgatório, se para lá foi.

Algo então de extraordinário ocorre: o vivo vê a si mesmo morto. Toma o lugar do outro, e põe em si vivo o outro morto, desesperando aos arrepios toda a sua alma. E percebe que perdeu tanto quanto o outro venceu; e que o que perdeu, perdeu tanto quanto o que ele mesmo, o vivo, perdia quando o sabre se enterrava por entre as costelas do inimigo. Eram iguais no nome - Espadachins -, eram iguais nas artes de lutar, eram iguais na certeza de vencer, e apenas por terem corpos separados não eram a mesma pessoa. Por tal e qual, eram iguais também na derrota. O Espadachim no qual pulsa ainda o pulso, vê o sangue do morto fazendo-se de si mesmo um com o planeta, e vê que não por honra vive, mas por sorte. Entende, enfim, que o duelo foi inútil, como todos o são. Podes alegar tu que o duelo ao menos lhe ensinou lições, mas inútil o Espadachim continua o tendo, porque, para aprendê-las, não era necessária, por pura fortuna que quiçá algum deus lhe concedeu, a morte do Espadachim outro.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Da traição e da passividade

Trecho de Uilisses, de James Joyce.
(Blazes Boylan se inclina acima do vão interno do carro, com seu chapéu de palha de abas largas de lado, uma flor vermelha na boca. Lenehan de boné de iatista e sapatos brancos intrometidamente destaca um fio longo de cabelo da ombreira do paletó de Blazes Boylan.)
LENEHAN
Oh! O que é que eu estou vendo aqui? Você andou escovando as teiasdearanha de algumas bocetas?
BOYLAN
(satisfeito, sorri) Trepando.
LENEHAN
Uma boa tarefa noturna.
BOYLAN
(erguendo alto quatro dedos largos grossosungulados, pisca o olho) Inflama Kate! Pra cima para mostrar para que veio ou seu dinheiro de volta. (ele estende um dedo indicador) Cheire isso.
LENEHAN
(cheira alegremente) Ah! Lagosta e maionese. Ah!
ZOE E FLORRY
(riem juntas) Ha ha ha ha.
BOYLAN
(salta com segurança do carro e grita bem alto para todos ouvirem) Olá, Bloom! A Sra. Bloom já esta vestida?
BLOOM
(num paletó de lacaio de pelúcia cor de ameixa e calções, meias compridas cor de camurça e peruca empoada) Receio que não, senhor. Os últimos acessórios...
BOYLAN
(atira seis pence para ele) Tome, para comprar gim com soda para você. (ele pendura rapidamente seu chapéu num prendedor da cabeça cornuda de Bloom) Faça-me entrar. Eu tenho um pequeno negócio particular com sua mulher, entende?
BLOOM
Obrigado, senhor. Sim, senhor. Madame Tweedy está no banho, senhor.
MARION (A sra. Bloom)
Ele devia se sentir profundamente honrado. (ela faz barulho ao sair espadanando da água) Raoul querido, venha e me enxugue. Estou na minha pele. Só de chapéu novo e uma esponja pra carro.
BOYLAN
(com um brilho alegre nos olhos) Ótimo!
BELLA
O quê? O que foi?
(Zoe segreda para ela.)
MARION
Que ele olhe, o enfeitiçado! Alcoviteiro! E se flagele! Eu vou escrever a uma poderosa prostituta ou Bartholomona, a mulher barbada, para que ela produza vergões nele de uma polegada de espessura e faça com que ele me traga um recibo assinado e selado.
BOYLAN
(aperta suas mãos) Vamos, eu não posso segurar esta coisinha por muito mais tempo. (ele sai com passadas largas de pernas rijas de cavalaria)
BELLA
(rindo) Ho ho ho ho.
BOYLAN
(falando para Bloom por cima do ombro) Você pode colocar seu olho no buraco da fechadura e se masturbar enquanto eu simplesmente penetro nela algumas vezes.
BLOOM
Obrigado, senhor. Vou fazer isso, senhor. Posso trazer dois camaradas para testemunhar o feito e bater um instantâneo? (ele segura uma jarra de ungüento) Vaselina, senhor? Flor de laranjeira...? Água morna...?
KITTY
(do sofá) Conte pra nós, Florry. Conte pra nós. O que...
(Florry sussurra para ela. Sussurrando murmúrios de palavrasdeamor, lábiolambendo ruidosamente, flopplop.)
MINA KENNEDY
(com os olhos revirados) Ó, deve ser como o perfume de gerânios e pêssegos deliciosos! Ó, ele simplesmente idolatra cada pedacinho dela! Grudados um no outro! Coberta de beijos.
LYDIA DOUCE
(abrindo a boca) Iumium. Ó! Ele a está carregando pelo quarto afora fazendo isso! Cavalgar um cavalo-de-pau. Podiam ser ouvidos em Paris e Nova York. Como bocas cheias de morango com creme.
KITTY
(rindo) Hi, hi, hi.
A VOZ DE BOYLAN
(docemente, roucamente, na boca do estômago) Oh! Fogocelestialgurkbrkarcrast!
A VOZ DE MARION
(roucamente, docemente, se elevando até a garganta) Oh! Uinaskissinapuisbuapuhue?
BLOOM
(com os olhos ultra-arregalados aperta as mãos contra o corpo) Mostre! Esconda! Mostre! Penetre nela! Mais! Se atire!
*************
Outro exemplo da genialidade, exatamente oposto do post (boa aliteração) anterior. Enquanto Proust disseca o homem com um lirismo incomensurável e um rigor estilístico baseado em frases longas e truncadas, perfeitamente encadeadas, Joyce explora o agir e o sentir humano com a linguagem inspirada na própria situação, permitindo-se subverter a realidade - confundido objetividades e subjetividades, que formam uma unidade indissociável - a ponto de descrever cada hora do dia 16 de junho de 1904 sem descrevê-la, isto é, por impressões que a própria sintaxe, que varia durante toda a obra, e a miríade de gêneros literários que encaixou no romance nos deixam. No trecho transcrito, a realidade é alucinada e absurda, própria para um homem de alma atormentada em tarde da noite, embriagado num bordel de Dublin; e, entretanto, temos uma medida ainda mais exata do que é real.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Do sadismo

Trecho de No Caminho de Swann, de Marcel Proust

"A Srta. Vinteuil estava de luto fechado, pois o pai morrera há pouco. Não tínhamos ido visitá-la, minha mãe não quis fazê-lo devido a uma virtude que nela ainda limitava os efeitos da bondade: o pudor. Mas lastimava-a profundamente. Lembrava-se do triste fim de vida do Sr. Vinteuil, absorvido primeiro pelos cuidados de mãe e de babá que prestava à filha, depois pelos sofrimentos que esta lhe causara; ela revia o rosto torturado que, velho, apresentava nos últimos tempos; sabia que ele renunciara para sempre a terminar de passar a limpo sua obra dos últimos anos, pobres esboços de um velho professor de piano, de um antigo organista de aldeia, que imaginávamos de quase nenhum valor, mas que não desprezávamos porque valiam muito para ele e tinham sido a razão de ser de sua vida antes de sacrificá-la pela filha e que, na maioria, nem sequer eram transcritos, sendo conservados apenas de memória, alguns rabiscados em folhas avulsas, ilegíveis, e assim permaneceriam desconhecidos; minha mãe pensava nessa outra renúincia, mais cruel ainda, que o Sr. Vinteuil se vira obrigado: a renúncia a um futuro de felicidade honesta e respeitada para a sua filha; quando relembrava toda essa desgraça suprema do antigo professor de piano da minhas tias, sentia um verdadeiro desgosto e pensava horrizada nessa outra aflição que a Srta. Vinteuil deveria experimentar, bem mais amarga, a de viver cheia de remorsos por ter aos poucos matado o pai. "Pobre Sr. Vinteuil" - dizia minha mãe - "viveu e morreu pela filha, sem ter recebido sua paga. Será que a recebe, depois de morto? E de que forma? Só poderá vir dela."

No fundo do salão da Srta. Vinteuil, sobre a lareira, havia um pequeno retrato do seu pai, que ela foi buscar às pressas no momento em que ressoou o rodar de um carro na estrada. Depois, atirou-se sobre um canapé e puxou para junto de si uma mesinha sobre a qual pôs o retrato, como outrora o Sr. Vinteuil pusera a seu lado o trecho que gostaria de tocar para meus pais. Logo entrou a sua amiga. A Srta. Vinteuil recebeu-a sem se levantar, com as duas mãos enlaçadas na nuca e recuou para o lado oposto do canapé como para lhe dar lugar. Mas logo sentiu que assim parecia lhe impor uma atitude que talvez lhe fosse inoportuna. Pensou que talvez a amiga gostaria mais de ficar longe dela, numa cadeira, achou-se indiscreta, e com isso a delicadeza de seu coração se alarmou; retomando todo o espaço do sofá, fechou os olhos e pôs-se a bocejar para indicar que o desejo de dormir era o motivo único de estar assim estendida. Apesar da familiaridade rude e dominadora que tinha para com a amiga, eu reconhecia os gestos reticentes e obsequiosos, os súbitos escrúpulos de seu pai. Em breve se levantou, fingiu querer fechar os postigos e que não conseguia.

- Deixa tudo aberto, tenho calor - disse a amiga.
-Mas é um perigo, podem nos ver - replicou a Srta. Vinteuil.

Mas, sem dúvida, ela adivinhou que a amiga pensaria que ela dissera estas palavras só para provocá-la, para que respondesse com outras que ela, de fato, desejaria ouvir, ma que, por discrição, queria deixar-lhe a iniciativa de pronunciá-las. Portanto, seu olhar, queeu não podia discernir, deve ter assumido a expressão que tanto agradava à minha avó quando acrescetou com vivacidade:

- Quando digo "nos ver", quero dizer nos ver lendo, é perigoso, pois qualquer coisa insignificante que se faça, é desagradável pensar que olhos estranhos nos possam estar vendo.

Por uma generosidade instintiva e uma involuntária polidez, ela calava as palavras premeditadas que julgara indispensáveis à realização completa de seu desejo. E em todos os instantes, no fundo de si mesma, uma virgem tímida e suplicante implorava e fazia recuar um velho soldado áspero e vencedor.

- Sim, é provável que nos olhem a esta hora, nesse campo tão freqüentado - disse a amiga ironicamente. - E depois, que importa? - acrescentou (achando dever juntar um piscar de olhos malicioso e terno a essas palavras que recitou por bondade, como um texteo que sentia ser agradável à Srta. Vinteuil, com um tom que ela se esforçava em tornar cínico). - Se nos virem, melhor.

A Srta. Vinteuil estremeceu e levantou-se. Seu coração, escrupuloso e sensível, ignorava quais palavras deviam vir espontaneamente se adaptar à cena que seus sentidos exigiam. Buscava, o mais longe possível de sua verdadeira natureza moral, encontrar a linguagem própria à moça viçosa que desejava ser, mas as palavras que esta última pronunciara com sinceridade pareciam-lhe falsas em seus lábios. E o pouquinho que ela se permitia nesse campo era dito num tom afetado, no qual seus hábitos de timidez paralisavam suas veleidades de audácia, tudo entremeado de "não estás com frio, não tens muito calor, não queres ler sozinha?"

- A senhorita parece ter pensamentos bastante lúbricos esta noite - acabou por dizer, sem dúvida repetindo uma frase que ouvira antes na boca da amiga.

No decote de seu corpinho de crepe, a Srta. Vinteuil sentiu que a amiga lhe dava um beijo, soltou um gritinho, fugiu, e as duas se perseguiram aos saltos, fazendo revoar as largas mangas como asas e gorjeando e chilreando como dois pássaros amorosos. Por fim, a Srta. Vinteuil caiu sobre o sofá, coberta pelo corpo da amiga. Mas esta encontrava-se de costas para a mesinha onde estava o retrato do velho professor de piano. A Srta. Vinteuil compreendeu que a amiga não o veria se não lhe atraísse a atenção, e lhe disse, como se apenas agora tivesse reparado nele:

- Oh, este retrato de meu pai que nos olha, não sei quem o pôs aí, já falei mil vezes que não é este o seu lugar.

Lembrei que estas eram as palavras que o Sr. Vinteuil havia dito a meu pai a propósito de uma partitura musical. Esse retrato lhes servia habitualmente para profanações rituais, pois a amiga lhe respondeu com estas palavras que deviam fazer parte de suas respostas litúrgicas:

- Ora, deixe-o aí mesmo, ele não se acha mais aqui para nos aborrecer. Imagina como não haveria de lamentar-se, o macaco velho, e querer pôr-te um xale, se te visse agora com a janela aberta.

A Srta. Vinteuil retrucou com palavras de suave censura: "O que é isso? O que é isso?", que demonstravam sua boa formação, não que fossem ditadas pela indignação que semelhante modo de falar de seu pai pudesse lhe causar (evidentemente, esse era um sentimento que já se habituara a calar em si mesma, sabe-se lá à custa de quais sofismas?), mas porque eram como que um freio que, para não se mostrar egoísta, ela mesma punha no prazer que a amiga procurava lhe dar. E, além disso, essa moderação risonha em responder a tais blasfêmias, essa censura hipócrita e terna, pareceriam talvez à sua índole franca e generosa uma forma particularmente infame, uma forma adocicada daquela perversidade que ela procurava assimilar. Porém não pôde resistir à atração do prazer que sentiria em ser tratada com doçura por uma pessoa tão implacável em face a um morto indefeso; saltou sobre os joelhos da amiga e lhe estendeu castamente a testa para ser beijada, como o teria feito se fosse sua filha, sentindo deliciada que ambas alcançariam nesse modo o limite da crueldade, roubando o Sr. Vinteuil, até na sepultura, a sua paternidade. Sua amiga lhe pegou a cabeça entre as mãos e lhe deu um beijo na testa com a docilidade que lhe era facilitada pelo grande afeto que lhe votava, e o seu desejo de oferecer um pouco de distração à vida agora tão triste de pobre órfã.

- Sabe o que eu gostaria de fazer com esse velho pavoroso? - disse ela pegando o retrato.
E murmurou ao ouvido da Srta. Vinteuil algo que não pude perceber.
- Oh, você não se atreveria.
- Não me atreveria a escarrar em cima disso? - disse a amiga com uma brutalidade intencional.

Não ouvi mais nada, pois a Srta. Vinteuil, com um ar abatido, sem jeito, ocupado, honesto e triste, veio a fechar os postigos e a janela, mas sabia agora, por todos os sofrimentos que durante a vida inteira o Sr. Vinteuil suportara por causa da filha, o que, após a morte, recebera dela em paga.

E contudo, desde então pensei que o Sr. Vinteuil tivesse podido assistir a essa cena, mesmo assim nçao teria perdido a fé no bom coração da filha, e talvez não estivesse de todo enganado. Certamente, nos hábitos da Srta. Vinteuil a aparência do mal era tão completa que seria difícil ver sua realização perfeita senão numa natureza sádica; é de preferência à luz da ribalta dos teatros do bulevar, do que sob a lâmpada de uma verdadeira casa de campo, que se pode ver uma moça fazer a amiga cuspir sobre o retrato de um pai que só viveu para ela; e somente o sadismo pode dar um fundamento, na vida, à estética do melodrama. Na realidade, afora os casos de sadismo, talvez uma moça possa cometer faltas tão cruéis como a da Srta. Vinteuil à memória e contra as vontades do pai morto, mas não os resumiria expressamente em um ato de um simbolismo tão rudimentar e tão ingênuo; o que sua conduta teria de criminosa seria mais velado aos olhos dos outros e até a seus próprios olhos, pois ela faria o mal sem confessá-lo. Mas, para além da aparência, no coração da Srta. Vinteuil, o mal, ao menos no começo, sem dúvida não era exclusivo. Uma sádica feito ela é uma artista do mal, o que uma criatura inteiramente má não poderia ser, pois o mal não lhe seria externo, antes lhe pareceria muito natural; não se distinguiria dela, até; e a virtude, a memória dos mortos, a ternura filial, como não as cultuasse, não sentiria nenhum prazer sacrílego em profaná-las. As sádicas do tipo da Srta. Vinteuil são seres tão puramente sentimentais, tão naturalmente virtuosos, que até o prazer sensual lhes parece algo de maldoso, privilégio dos malvados. E, quando permitem a si mesmos se entregarem a eles por um momento, é na pele dos maus que tentam se pôr e de fazer entrar seu cúmplice, de modo a ter um instante de ilusão de estarem se evadindo de suas almas escrupulosas e brandas para o mundo desumano de prazer..."


Isso é o limiar da perfeição do romance que se ocupa dos mais sutis detalhes da complexidade humana. Vale um culto, uma homenagem, e, na tradição das mitologias, e aqui estabeleço o mítico ser do escritor, o sacrifício de um filho.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Rosebud

(Versão definitiva)
To Citizen Kane
A rose that shall forever be
under sands of the hourglass;
from the far and unglorious past,
'til the fading eternity.

La lengua de las mariposas

Tendo saído do que se convencionou chamar academia, quando em realidade se trata do ginásio, local onde modelamos nosso corpo para a adequação estética dum padrão consensual – o qual seria hipocrisia criticar, haja vista que dele também partilho, sob o pretexto de buscar saúde, numa valorização excessiva a uma vida sem significados, sofri inicialmente um momento de euforia, natural para quem pratica esportes logo após interrompê-los, para chegar a um estado de moleza total do corpo, uma fatiga que ultrapassa o mero cansaço: trata-se daquele torpor físico que o estarrece por completo simultaneamente à presença de uma certa comichão que o diz para não parar, embora você seja incapaz de continuar. Você cai escarrapachado no colchão, impossibilitado, no entanto, de dormir.

Mais ou menos era esse o estado em que me encontrava quando mergulhei num filme em minha sala. E julgo agora que minha paradoxal apatia é efeito do filme! Tal é a admiração que me causou, a emoção que descobri viva quando pensava estar já endurecida pela trajetória que o acaso traçou ao longo da vida. Embasbaquei-me.

Não importa se exagero. Encantei-me. O que o faz valer à pena.