sábado, novembro 17, 2007

Cidade

Faringe que nos degusta,
Sou o gancho que se prendeu
EM
sua glote.
Quantos iguais a mim à mesma
Recusa procederam?

Não sou:
Líquido que escorre livremente
EM
suas vias.
Não me situo nem me movimento.

Não sou:
Pedra fundamental
EM
Uma sua estrutura.
Falta-me endereço.

Por uma estranha forma de vê-la
Sinto-a inacessível como também sou ao que me circunda
EM
Você.

terça-feira, agosto 28, 2007

Hoje eu limpo minha sala,
Ansiando algo melhor em ser.

Com a sala limpa imagino-me comendo todas as páginas de todos os livros de todos os saberes.

Amanhã eu só domino a modorra,

Que minhas muletas não sabem evitar.

domingo, agosto 12, 2007

Embalasse-me a gota rubra
Que de rubro brilho enche minha face
Rumo a cantilenas fervorosas a
Extirpar deste corpo as exatas cadeias
Do contumaz palavrear que a razão
Domina,
Ergueriam as uvas um antes embaraçado
Agora intrépido sei-la-o-quê que motoriza
As paixões - quiçá coração mesmo –
Entoando melopéias de destilado júbilo
Para me alçar à grandeza de suas íris
Sobranceiras.

Mas é patético e inútil o escrever.

Desencantado e desvendado o amor,
Vulgarizado e medíocre.
Matematizado; psicoanalisado, geneticamente localizado:
Nem o vinho é capaz de fazer-me cantá-lo.

domingo, março 25, 2007

Um Tales no meio de nós

Certas surpresas a vida nos reserva com tamanha discrição, desfeita daquele reverso da curiosidade que não raras vezes nos (me) ataca, aquela comichão que acomete o portador de prazeres inesperados que se atropela e surpreende seu alvo antes do tempo, que o timing da vida para nos espantar parece ser perfeito. Quero referir-me aqui a algo singular que me ocorreu anos após ter encontrado na Biblioteca Pública do Paraná um exemplar de um caderno meio tosco, não catalogado nos sistemas, com anotações de pensamentos não muito mais profundos que os que constam das prateleiras mais visíveis das livrarias, essas que escondem os melhores livros nos cantos menos visitados.
O caderno a que aludo era bem velho, muitas das páginas do seu interior estavam separadas da sua lombada, embora estivessem ali mantidas. Era de brochura costurada, com uma capa de papelão, todo manuscrito. Estava no setor da história das religiões, entre livros sobre o judaísmo. Vi-o não porque me interessasse nas questões hebraicas, mas porque as sobrenaturalidades do destino me alojaram na mesa que defrontava a estante onde se encontrava. Sua cor alaranjada sobressaía-se sobre as capas demasiadamente sóbrias dos livros vizinhos – não sei quais eram – e entre um e outro descanso da leitura que empreendia chamou-me a atenção.
Abri-o. Seus manuscritos eram os mais variados: a caneta – azuis, pretas e coloridas; esferográficas, hidrográficas, de pena; a lápis, lápis de cor e até giz de cera. Letras cursivas, bem desenhadas, infantis, da mais fina caligrafia, de fôrma, garranchos. Dizia a folha de rosto que aquele era um “Livro de Conselhos” (abaixo a inscrição “Passe adiante”), a iniciar pelo que dizia “só se vive uma vez, aproveite o máximo”. Não posso recordar agora do teor literal dos outros, não os li todos, e nem teria paciência. Afinal, como disse antes, os pensamentos eram reles como o citado, ocultos sob a comodidade de estarem todos os escreventes eximidos do dever da assinatura. Ali, sob o manto do anonimato, faces cujo semblante não sei nem imaginar devem ter passado horas se divertindo numa leitura rápida, fácil, às vezes frutífera, mas certamente ansiosa: penso que nem bem se chegaria à metade e logo vinha aquele ímpeto de marcar o próprio texto na última página escrita. O tal livro – um caderno, sabemos – já estava quase findando suas folhas em branco.
Maravilhei-me com a idéia: um livro de sabedorias anônimas e de contribuições plúrimas. O modelo formal que deu a luz àquela atitude material era perfeito, sem querer me demorar com a metafísica das formas eternas. Só que a matéria em si era medonha e enfadonha, pois o pessoal escrevia somente para “passar adiante”, para fazer parte, sem qualquer auto-exigência de criatividade. Também não tinha eu qualquer idéia para botar no papel, e não obstante ruminava alucinadamente – não muito além dos clichês – uma frase para colocar ali.
Por isso eu, como imaginei os demais, não me ative muito tempo e fui direto à última página. Ali estava o único conselho que trouxe na memória além do inaugural: “É da água que a vida, com tudo que existe, retirou seu princípio, nela a mantém, por ela morrerá. A quem disso souber com profundidade, o tempo será generoso e abundante.”
Em vista desse texto, animei-me a construir um igualmente ininteligível. Afinal, não pude atinar com o seu significado num primeiro momento. Que conselho era aquele? Que eu tinha que beber água? Tomar banho? Viver numa comunidade ribeirinha ou na beira do mar? Não havia um propósito claro, e assim devia ser o meu conselho, copiador barato que sou.
O que mesmo que escrevi? Era algo sobre fogo; sequer diversifiquei, em relação ao meu predecessor, o assunto dos elementos. É com sinceridade que relato o esquecimento de meu alvitre, mas é com igual lisura que garanto que se cá o transcrevesse, tê-lo-ia feito com um sentimento de autocomiseração acerca da minha própria futilidade. Olvidemos do detalhe; afinal, nem sei por que essa obsessão minha em sublinhar como fossem ninharias as mediocridades alheias, quando todos sabemos que é impossível não partilhar da mesma decadência, e tentar dela se esquivar como faço torna tudo mais ridículo ainda.
Não sabia bem o procedimento a partir dali. O livro apenas dizia “passe adiante”. Pairava a dúvida: passar adiante deixando ele sempre ali onde o achei ou levando-o para outro lugar? Esta alternativa era mais crível que aquela, certamente, pois a instrução exige claramente uma postura ativa do escrevinhador. Mesmo assim, devolvi ao mesmo lugar onde o achei: era demandar demais da minha parca criatividade procurar algum outro para colocá-lo.
Nem voltei à leitura a que havia me lançado antes de encontrar o caderno. Eu reouve a bolsa que deixara no guarda-volumes e parti para beber café no Lucca ali perto. Por uns momentos, o pequeno acontecimento na biblioteca ficou esquecido e ocupei-me de tormentas outras que sempre rondam meu exausto cérebro. Bastou, entretanto, que uma senhora excessivamente ornada com uma pesada maquiagem, topetuda, e com um daqueles horrendos lenços de seda no pescoço, sentada à mesa à minha frente, pedisse uma garrafa de água que o conselho antecedente viesse a lume novamente.
Mas que diabos aquilo queria dizer?
A garçonete veio carregando o mistério em sua bandeja, todo o mistério do mundo pra mim naquele segundo. Na garrafa, a água sacolejava e mudava a cada passo o plano primeiro de sua superfície, ao sabor dos ângulos que formaria o encontro de uma bandeja idealmente distendida com o chão. O segredo de toda a mecânica em que se engendrou nosso planeta balançava sem autoconsciência nem sentimentos nem percepções. É da água que a vida e tudo que existe retiraram seu princípio e nela que inexoravelmente se renovam. A água segurou em seus hipotéticos ombros todo o motor da história e mesmo assim se deixa apreender numa mísera garrafa de plástico! Passiva, passa ao copo, e do copo ao corpo, e do corpo a sei lá quantos mil outros fenômenos com os quais nem posso atinar. É humilde herói, é o nosso começo, é de onde tudo parte e o porquê de tudo existir. É o princípio de Tales; são, pois, ela só, os deuses que ele inventou, do qual todas as coisas estão cheias!
Sejam o piche do asfalto e o concreto do pilar, sejam a nuvem, a terra e o vidro. O humor vítreo que conhece o espectro das cores: o arco-íris é água. Tudo se define pelo seco e pelo molhado, tudo é fluido solidificado ou gaseificado. Tales nos fez da mesma substância, e desde então todos os filósofos que o mundo teve enxugam gelo. Exsurge das teorias a incredulidade, e sempre uma revoga a anterior, e sempre se quedam em um encastelado clube a ponto de não alcançar interlocutores muito além de suas barbacãs.
Acreditar nesse princípio tão inverossímil hoje parece absurdo, e no entanto é tão fácil e atraente seu enunciado. A racionalidade extremada de nossas impassíveis ciências não nos fez mais do que nos atirar mais fundo no abismo das incógnitas que a simples palavra vida nos oferece. É preciso então nos agarrar na simplicidade daquela antiga Jônia, que atravessou todos os séculos e se imprimiu numa singela página de um Livro de Conselhos simplório, e que ali naquele café havia me convencido por completo da sua legitimidade. Restava agora esperar que o tempo me fosse generoso e abundante, como deveria ter sido a... Tales.
A reflexão me conduziu a uma mais fantástica. E se não foi o próprio filósofo que tivesse escrito o conselho naquele caderno? Ora, um tempo abundante poderia certamente significar vinte e seis séculos. Imagino Tales, um homem de bastas barbas e compleição forte e exuberante, vagando por toda a história da ocidentalidade, daquela esquecida Mileto que durante toda sua vida foi também de Roma, de Bizâncio, de Constantinopla, do Império Otomano e da Turquia. Tales nos deu a physis e foi além: conseguiu ser ele mesmo o deus cuja substância nos tenta impingir com frases obscuras em velhas prateleiras de bibliotecas ou em alguma pregação em praça pública, sem jamais ter se identificado.
Tales vivia, só podia ser. Segurava consigo toda a história, como a água. Como ele, imagino, uns outro quatro podem ter realizado a mesma descoberta, a que agora eu tentava descobrir a todo custo. Sabia que a água era o princípio, mas como aplicar esse conhecimento profundamente como me dizia o conselho? Criei a necessidade de domar o mistério e guardá-lo comigo por outros vinte e tantas centenas de anos. Só uma palestra com o mestre talvez poderia me auxiliar.
Fui passeando por associações infantis enquanto eu mesmo pedia uma garrafa de água para mim. Tales me trouxe a imagem do talo da flor, que vive pela água; e daí passei à tala que imobilizou meu braço há uns quinze anos e deu chance para que o sangue, esse fluido vermelho, revigorasse minha fratura. E da tala à tela, que ganha da tinta vida, e da tela ao cinema, que flui no projetor como um rio, bravio ou não, rumo à foz. Tudo pulsava seca ou umidamente, e era desse tudo que eu participava sem saber. Vi-me como uma gota em meio ao infinito oceano do universo, que, sem tê-lo em conta na exata medida, era dos seus torvelinhos um títere, de cujas cordas Tales há muito se livrou. Somos a gota, ele conseguiu ser o mar inteiro.
Ignorava, porém, como conseguir encontrar o homem. A única coisa que existia era aquele caderno, o único elo possível. Pensei: o conselho de Tales era tão apaixonado que talvez ele ficaria incomodado em ver o livro no mesmo lugar, incólume e ignorado. Fiz bem em deixá-lo onde o achei. O que me cabia fazer agora era vigiar, por uma semana, até que ele voltasse para colocá-lo em algum lugar mais popular.
Dito e feito. Já no dia seguinte, estava eu sentado no mesmo lugar quando um rapaz magrelo e cabeludo, ostentando um crachá da biblioteca, foi retirar o caderno da estante. Imaginei na hora que, como funcionário do lugar, ele teria estranhado e apenas retiraria o livro dali por não estar na seção correta. Mas não: abriu-o e conferiu o meu conselho. Resmungou alguma coisa quando percebeu que talvez sua sugestão tivesse sido só mais uma, dada a pouca atenção do seu sucessor, eu. Mal sabia ele que eu já tinha ciência de sua identidade. Mal sabia eu, por outro lado, que isso foi uma enorme alegoria da minha própria cabeça – como me iludi tanto? Óbvio que Tales já estava morto, óbvio que eu teria que cedo ou tarde voltar à razão desencantadora dos nossos tempos, que fui crédulo demais numa fantasia boba. Veja-se o que sucedeu: segui discretamente o rapaz, que escreveu uma outra frase e colocou o caderno entre os livros de José de Alencar. Não demorei muito e o retomei. A letra do mais novo conselho era a mesma do anterior, o que provou minha tese da paixão de que era eivado. A água era o mote recorrente, pois assim estava escrito: “Alguns renegam que estamos ao fim dos tempos, e que a água nos mutilará, porque jamais a respeitamos. O fogo – estava aludindo a mim, creio – trouxe um progresso frágil e falso demais”. Estava começando a compreender. Fui à mesa do rapaz e mostrei-lhe o livro.
- Foi você que escreveu isto?
Fui impolido e muito brusco, o que justifica uma pausa assustada da parte dele.
- Sim.
- Conhece Tales?
- Quem?
- Tales de Mileto.
- Não.
- Não mesmo? Aquele filósofo a quem a água é o princípio de tudo que existe.
- Ah, não lembrei.
- Eu escrevi do fogo.
Ele enrubesceu. Nessa hora vi um adesivo do Greenpeace na sua mesa. Entendi tudo.
- Você tá certo – comprazi-me em dizer.
- Obrigado. O pessoal não dá atenção, né, mas a água tá acabando, e o mundo também, não acha?
- Acho. Tenha uma boa tarde.
Deixei com ele o livro. Não escrevi nada de novo. Dali, fui pra casa. Esse rapaz foi o motivo de uma grande decepção. Esperava encontrar a grandiosidade que juvenilmente imaginei por horas, e deparei-me com um simples ecologista que quer salvar o mundo. Nada mais.

domingo, fevereiro 25, 2007

Contra o tempo não-revisitado

Temo que é tempo do mesmo velho tempo
Chegamos aonde? Não há chegar
Passos – há passos? – sobre a mesma:
mesma eterna fôrma das pegadas
passadas, inculcando os seus deletérios sulcos

Evoluir na inarredável
Condição de homem
Indecomponível paradoxo

Pirâmides e arranha-céus
O que muda é o mundo plástico.

Força motriz
da história:
a insolubilidade da nossa pequenez.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Mil e uma noites

Versos extraído da 1ª noite das espantosas histórias das mil e uma noites, traduzido do ramo sírio por Mamede Mustafa Jarouche

O tempo é composto de dois dias, um seguro, outro ameaçador,
e a vida é composta de duas partes, uma pura, outra turva.
Pergunte a quem urdiu as idas e vindas do tempo:
será que o tempo só maltrata a quem tem importância?
Acaso não se vê que a ventania, ao formar as tempestades,
não atinge senão as árvores de altas copas?
De tantas plantas verdes e secas existentes sobre a terra,
somente se apedrejam aquelas que têm frutas;
nos céus existem incontáveis estrelas,
mas em eclipse só entram o sol e a lua.
Pois é, você pensa bem dos dias quando tudo vai bem,
e nâo teme as reviravoltas que o destino reserva;
nas noites você passa bem, e com elas se ilude,
mas no sossego da noite é que sucede a torpeza.

sábado, dezembro 30, 2006

Ocaso

Veio uma palavra, veio
veio pela noite,
queria brilhar, queria brilhar
Cinzas
Cinzas, cinzas
Paul Celan
Engravidei
de uma palavra.
Mas abortei(amos).

Foi para o céu,
escarrapachada no chão.

Engravidei
de uma idéia.
Mas a matei(amos).

Foi para o céu,
apunhalada no chão.

Engravidei,
Mas era um ruído.
Evaporou sozinho.

Foi para o céu
desaparecido do chão.

A última vez que engravidei
Foi de um homem mudo.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Desonra

Texto meu escrito para o antigo blog Realismo Superfantástico.

Fato é: houve duelo. Conto-te como foi, e não te importes com o motivo, que motivos de duelos são coisas às quais nem duelistas dão importância. Já houve caso contado, e não raro deve ser, em que se duelaram dois dos mais nobres espadachins da França por questão de onde apor a cerca. Vê bem: querelavam por cinco palmos de terra, nada mais, talvez menos. E achas que tal motivo lhes valeu a luta e o sangue esvaído? Óbvio que não. Razão por razão, a luta por si só já é suficiente, o resto estopim é.

O fato é: houve duelo, e nada mais pode interessar.

As horas eram altas, os duelos já eram proibidos na época. Mas a honra, que em lei da natureza o decreto do homem não se mete, ainda é a honra, e defendê-la é ainda defendê-la. O Espadachim vê o Espadachim e fica certo da vitória. O Espadachim, o outro, devolve a certeza ao Espadachim e o grito de en gard. Ambos, espadas em riste, pelejam então. Sabres cortam o ar refletindo as duas tochas que fracamente alumiam a cancha da batalha, os metais tilintam, os homens gemem e a noite, calada, só assiste à cena. Os inimigos são bons à mesma altura, mas não são precisos mais que segundos.

Touché!

No fim, talvez meio minuto seja pouco para horas, dias e semanas de aflição. Tanto preparo e tudo tão rápido se completa. Decepciona. O Espadachim vivo vê o Espadachim morto e não mais fica certo da vitória. A certeza que nele se dissipa, no morto se cristaliza, já que morreu com o que viveu no último momento. Um fio de sangue escorre pelos veios da terra e a rega com a exuberância da ruína, levando consigo tudo quanto na vida se construiu, talvez aos céus, talvez aos infernos. E se a espada não leva, leva a fé para que se arme no purgatório, se para lá foi.

Algo então de extraordinário ocorre: o vivo vê a si mesmo morto. Toma o lugar do outro, e põe em si vivo o outro morto, desesperando aos arrepios toda a sua alma. E percebe que perdeu tanto quanto o outro venceu; e que o que perdeu, perdeu tanto quanto o que ele mesmo, o vivo, perdia quando o sabre se enterrava por entre as costelas do inimigo. Eram iguais no nome - Espadachins -, eram iguais nas artes de lutar, eram iguais na certeza de vencer, e apenas por terem corpos separados não eram a mesma pessoa. Por tal e qual, eram iguais também na derrota. O Espadachim no qual pulsa ainda o pulso, vê o sangue do morto fazendo-se de si mesmo um com o planeta, e vê que não por honra vive, mas por sorte. Entende, enfim, que o duelo foi inútil, como todos o são. Podes alegar tu que o duelo ao menos lhe ensinou lições, mas inútil o Espadachim continua o tendo, porque, para aprendê-las, não era necessária, por pura fortuna que quiçá algum deus lhe concedeu, a morte do Espadachim outro.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Da traição e da passividade

Trecho de Uilisses, de James Joyce.
(Blazes Boylan se inclina acima do vão interno do carro, com seu chapéu de palha de abas largas de lado, uma flor vermelha na boca. Lenehan de boné de iatista e sapatos brancos intrometidamente destaca um fio longo de cabelo da ombreira do paletó de Blazes Boylan.)
LENEHAN
Oh! O que é que eu estou vendo aqui? Você andou escovando as teiasdearanha de algumas bocetas?
BOYLAN
(satisfeito, sorri) Trepando.
LENEHAN
Uma boa tarefa noturna.
BOYLAN
(erguendo alto quatro dedos largos grossosungulados, pisca o olho) Inflama Kate! Pra cima para mostrar para que veio ou seu dinheiro de volta. (ele estende um dedo indicador) Cheire isso.
LENEHAN
(cheira alegremente) Ah! Lagosta e maionese. Ah!
ZOE E FLORRY
(riem juntas) Ha ha ha ha.
BOYLAN
(salta com segurança do carro e grita bem alto para todos ouvirem) Olá, Bloom! A Sra. Bloom já esta vestida?
BLOOM
(num paletó de lacaio de pelúcia cor de ameixa e calções, meias compridas cor de camurça e peruca empoada) Receio que não, senhor. Os últimos acessórios...
BOYLAN
(atira seis pence para ele) Tome, para comprar gim com soda para você. (ele pendura rapidamente seu chapéu num prendedor da cabeça cornuda de Bloom) Faça-me entrar. Eu tenho um pequeno negócio particular com sua mulher, entende?
BLOOM
Obrigado, senhor. Sim, senhor. Madame Tweedy está no banho, senhor.
MARION (A sra. Bloom)
Ele devia se sentir profundamente honrado. (ela faz barulho ao sair espadanando da água) Raoul querido, venha e me enxugue. Estou na minha pele. Só de chapéu novo e uma esponja pra carro.
BOYLAN
(com um brilho alegre nos olhos) Ótimo!
BELLA
O quê? O que foi?
(Zoe segreda para ela.)
MARION
Que ele olhe, o enfeitiçado! Alcoviteiro! E se flagele! Eu vou escrever a uma poderosa prostituta ou Bartholomona, a mulher barbada, para que ela produza vergões nele de uma polegada de espessura e faça com que ele me traga um recibo assinado e selado.
BOYLAN
(aperta suas mãos) Vamos, eu não posso segurar esta coisinha por muito mais tempo. (ele sai com passadas largas de pernas rijas de cavalaria)
BELLA
(rindo) Ho ho ho ho.
BOYLAN
(falando para Bloom por cima do ombro) Você pode colocar seu olho no buraco da fechadura e se masturbar enquanto eu simplesmente penetro nela algumas vezes.
BLOOM
Obrigado, senhor. Vou fazer isso, senhor. Posso trazer dois camaradas para testemunhar o feito e bater um instantâneo? (ele segura uma jarra de ungüento) Vaselina, senhor? Flor de laranjeira...? Água morna...?
KITTY
(do sofá) Conte pra nós, Florry. Conte pra nós. O que...
(Florry sussurra para ela. Sussurrando murmúrios de palavrasdeamor, lábiolambendo ruidosamente, flopplop.)
MINA KENNEDY
(com os olhos revirados) Ó, deve ser como o perfume de gerânios e pêssegos deliciosos! Ó, ele simplesmente idolatra cada pedacinho dela! Grudados um no outro! Coberta de beijos.
LYDIA DOUCE
(abrindo a boca) Iumium. Ó! Ele a está carregando pelo quarto afora fazendo isso! Cavalgar um cavalo-de-pau. Podiam ser ouvidos em Paris e Nova York. Como bocas cheias de morango com creme.
KITTY
(rindo) Hi, hi, hi.
A VOZ DE BOYLAN
(docemente, roucamente, na boca do estômago) Oh! Fogocelestialgurkbrkarcrast!
A VOZ DE MARION
(roucamente, docemente, se elevando até a garganta) Oh! Uinaskissinapuisbuapuhue?
BLOOM
(com os olhos ultra-arregalados aperta as mãos contra o corpo) Mostre! Esconda! Mostre! Penetre nela! Mais! Se atire!
*************
Outro exemplo da genialidade, exatamente oposto do post (boa aliteração) anterior. Enquanto Proust disseca o homem com um lirismo incomensurável e um rigor estilístico baseado em frases longas e truncadas, perfeitamente encadeadas, Joyce explora o agir e o sentir humano com a linguagem inspirada na própria situação, permitindo-se subverter a realidade - confundido objetividades e subjetividades, que formam uma unidade indissociável - a ponto de descrever cada hora do dia 16 de junho de 1904 sem descrevê-la, isto é, por impressões que a própria sintaxe, que varia durante toda a obra, e a miríade de gêneros literários que encaixou no romance nos deixam. No trecho transcrito, a realidade é alucinada e absurda, própria para um homem de alma atormentada em tarde da noite, embriagado num bordel de Dublin; e, entretanto, temos uma medida ainda mais exata do que é real.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Do sadismo

Trecho de No Caminho de Swann, de Marcel Proust

"A Srta. Vinteuil estava de luto fechado, pois o pai morrera há pouco. Não tínhamos ido visitá-la, minha mãe não quis fazê-lo devido a uma virtude que nela ainda limitava os efeitos da bondade: o pudor. Mas lastimava-a profundamente. Lembrava-se do triste fim de vida do Sr. Vinteuil, absorvido primeiro pelos cuidados de mãe e de babá que prestava à filha, depois pelos sofrimentos que esta lhe causara; ela revia o rosto torturado que, velho, apresentava nos últimos tempos; sabia que ele renunciara para sempre a terminar de passar a limpo sua obra dos últimos anos, pobres esboços de um velho professor de piano, de um antigo organista de aldeia, que imaginávamos de quase nenhum valor, mas que não desprezávamos porque valiam muito para ele e tinham sido a razão de ser de sua vida antes de sacrificá-la pela filha e que, na maioria, nem sequer eram transcritos, sendo conservados apenas de memória, alguns rabiscados em folhas avulsas, ilegíveis, e assim permaneceriam desconhecidos; minha mãe pensava nessa outra renúincia, mais cruel ainda, que o Sr. Vinteuil se vira obrigado: a renúncia a um futuro de felicidade honesta e respeitada para a sua filha; quando relembrava toda essa desgraça suprema do antigo professor de piano da minhas tias, sentia um verdadeiro desgosto e pensava horrizada nessa outra aflição que a Srta. Vinteuil deveria experimentar, bem mais amarga, a de viver cheia de remorsos por ter aos poucos matado o pai. "Pobre Sr. Vinteuil" - dizia minha mãe - "viveu e morreu pela filha, sem ter recebido sua paga. Será que a recebe, depois de morto? E de que forma? Só poderá vir dela."

No fundo do salão da Srta. Vinteuil, sobre a lareira, havia um pequeno retrato do seu pai, que ela foi buscar às pressas no momento em que ressoou o rodar de um carro na estrada. Depois, atirou-se sobre um canapé e puxou para junto de si uma mesinha sobre a qual pôs o retrato, como outrora o Sr. Vinteuil pusera a seu lado o trecho que gostaria de tocar para meus pais. Logo entrou a sua amiga. A Srta. Vinteuil recebeu-a sem se levantar, com as duas mãos enlaçadas na nuca e recuou para o lado oposto do canapé como para lhe dar lugar. Mas logo sentiu que assim parecia lhe impor uma atitude que talvez lhe fosse inoportuna. Pensou que talvez a amiga gostaria mais de ficar longe dela, numa cadeira, achou-se indiscreta, e com isso a delicadeza de seu coração se alarmou; retomando todo o espaço do sofá, fechou os olhos e pôs-se a bocejar para indicar que o desejo de dormir era o motivo único de estar assim estendida. Apesar da familiaridade rude e dominadora que tinha para com a amiga, eu reconhecia os gestos reticentes e obsequiosos, os súbitos escrúpulos de seu pai. Em breve se levantou, fingiu querer fechar os postigos e que não conseguia.

- Deixa tudo aberto, tenho calor - disse a amiga.
-Mas é um perigo, podem nos ver - replicou a Srta. Vinteuil.

Mas, sem dúvida, ela adivinhou que a amiga pensaria que ela dissera estas palavras só para provocá-la, para que respondesse com outras que ela, de fato, desejaria ouvir, ma que, por discrição, queria deixar-lhe a iniciativa de pronunciá-las. Portanto, seu olhar, queeu não podia discernir, deve ter assumido a expressão que tanto agradava à minha avó quando acrescetou com vivacidade:

- Quando digo "nos ver", quero dizer nos ver lendo, é perigoso, pois qualquer coisa insignificante que se faça, é desagradável pensar que olhos estranhos nos possam estar vendo.

Por uma generosidade instintiva e uma involuntária polidez, ela calava as palavras premeditadas que julgara indispensáveis à realização completa de seu desejo. E em todos os instantes, no fundo de si mesma, uma virgem tímida e suplicante implorava e fazia recuar um velho soldado áspero e vencedor.

- Sim, é provável que nos olhem a esta hora, nesse campo tão freqüentado - disse a amiga ironicamente. - E depois, que importa? - acrescentou (achando dever juntar um piscar de olhos malicioso e terno a essas palavras que recitou por bondade, como um texteo que sentia ser agradável à Srta. Vinteuil, com um tom que ela se esforçava em tornar cínico). - Se nos virem, melhor.

A Srta. Vinteuil estremeceu e levantou-se. Seu coração, escrupuloso e sensível, ignorava quais palavras deviam vir espontaneamente se adaptar à cena que seus sentidos exigiam. Buscava, o mais longe possível de sua verdadeira natureza moral, encontrar a linguagem própria à moça viçosa que desejava ser, mas as palavras que esta última pronunciara com sinceridade pareciam-lhe falsas em seus lábios. E o pouquinho que ela se permitia nesse campo era dito num tom afetado, no qual seus hábitos de timidez paralisavam suas veleidades de audácia, tudo entremeado de "não estás com frio, não tens muito calor, não queres ler sozinha?"

- A senhorita parece ter pensamentos bastante lúbricos esta noite - acabou por dizer, sem dúvida repetindo uma frase que ouvira antes na boca da amiga.

No decote de seu corpinho de crepe, a Srta. Vinteuil sentiu que a amiga lhe dava um beijo, soltou um gritinho, fugiu, e as duas se perseguiram aos saltos, fazendo revoar as largas mangas como asas e gorjeando e chilreando como dois pássaros amorosos. Por fim, a Srta. Vinteuil caiu sobre o sofá, coberta pelo corpo da amiga. Mas esta encontrava-se de costas para a mesinha onde estava o retrato do velho professor de piano. A Srta. Vinteuil compreendeu que a amiga não o veria se não lhe atraísse a atenção, e lhe disse, como se apenas agora tivesse reparado nele:

- Oh, este retrato de meu pai que nos olha, não sei quem o pôs aí, já falei mil vezes que não é este o seu lugar.

Lembrei que estas eram as palavras que o Sr. Vinteuil havia dito a meu pai a propósito de uma partitura musical. Esse retrato lhes servia habitualmente para profanações rituais, pois a amiga lhe respondeu com estas palavras que deviam fazer parte de suas respostas litúrgicas:

- Ora, deixe-o aí mesmo, ele não se acha mais aqui para nos aborrecer. Imagina como não haveria de lamentar-se, o macaco velho, e querer pôr-te um xale, se te visse agora com a janela aberta.

A Srta. Vinteuil retrucou com palavras de suave censura: "O que é isso? O que é isso?", que demonstravam sua boa formação, não que fossem ditadas pela indignação que semelhante modo de falar de seu pai pudesse lhe causar (evidentemente, esse era um sentimento que já se habituara a calar em si mesma, sabe-se lá à custa de quais sofismas?), mas porque eram como que um freio que, para não se mostrar egoísta, ela mesma punha no prazer que a amiga procurava lhe dar. E, além disso, essa moderação risonha em responder a tais blasfêmias, essa censura hipócrita e terna, pareceriam talvez à sua índole franca e generosa uma forma particularmente infame, uma forma adocicada daquela perversidade que ela procurava assimilar. Porém não pôde resistir à atração do prazer que sentiria em ser tratada com doçura por uma pessoa tão implacável em face a um morto indefeso; saltou sobre os joelhos da amiga e lhe estendeu castamente a testa para ser beijada, como o teria feito se fosse sua filha, sentindo deliciada que ambas alcançariam nesse modo o limite da crueldade, roubando o Sr. Vinteuil, até na sepultura, a sua paternidade. Sua amiga lhe pegou a cabeça entre as mãos e lhe deu um beijo na testa com a docilidade que lhe era facilitada pelo grande afeto que lhe votava, e o seu desejo de oferecer um pouco de distração à vida agora tão triste de pobre órfã.

- Sabe o que eu gostaria de fazer com esse velho pavoroso? - disse ela pegando o retrato.
E murmurou ao ouvido da Srta. Vinteuil algo que não pude perceber.
- Oh, você não se atreveria.
- Não me atreveria a escarrar em cima disso? - disse a amiga com uma brutalidade intencional.

Não ouvi mais nada, pois a Srta. Vinteuil, com um ar abatido, sem jeito, ocupado, honesto e triste, veio a fechar os postigos e a janela, mas sabia agora, por todos os sofrimentos que durante a vida inteira o Sr. Vinteuil suportara por causa da filha, o que, após a morte, recebera dela em paga.

E contudo, desde então pensei que o Sr. Vinteuil tivesse podido assistir a essa cena, mesmo assim nçao teria perdido a fé no bom coração da filha, e talvez não estivesse de todo enganado. Certamente, nos hábitos da Srta. Vinteuil a aparência do mal era tão completa que seria difícil ver sua realização perfeita senão numa natureza sádica; é de preferência à luz da ribalta dos teatros do bulevar, do que sob a lâmpada de uma verdadeira casa de campo, que se pode ver uma moça fazer a amiga cuspir sobre o retrato de um pai que só viveu para ela; e somente o sadismo pode dar um fundamento, na vida, à estética do melodrama. Na realidade, afora os casos de sadismo, talvez uma moça possa cometer faltas tão cruéis como a da Srta. Vinteuil à memória e contra as vontades do pai morto, mas não os resumiria expressamente em um ato de um simbolismo tão rudimentar e tão ingênuo; o que sua conduta teria de criminosa seria mais velado aos olhos dos outros e até a seus próprios olhos, pois ela faria o mal sem confessá-lo. Mas, para além da aparência, no coração da Srta. Vinteuil, o mal, ao menos no começo, sem dúvida não era exclusivo. Uma sádica feito ela é uma artista do mal, o que uma criatura inteiramente má não poderia ser, pois o mal não lhe seria externo, antes lhe pareceria muito natural; não se distinguiria dela, até; e a virtude, a memória dos mortos, a ternura filial, como não as cultuasse, não sentiria nenhum prazer sacrílego em profaná-las. As sádicas do tipo da Srta. Vinteuil são seres tão puramente sentimentais, tão naturalmente virtuosos, que até o prazer sensual lhes parece algo de maldoso, privilégio dos malvados. E, quando permitem a si mesmos se entregarem a eles por um momento, é na pele dos maus que tentam se pôr e de fazer entrar seu cúmplice, de modo a ter um instante de ilusão de estarem se evadindo de suas almas escrupulosas e brandas para o mundo desumano de prazer..."


Isso é o limiar da perfeição do romance que se ocupa dos mais sutis detalhes da complexidade humana. Vale um culto, uma homenagem, e, na tradição das mitologias, e aqui estabeleço o mítico ser do escritor, o sacrifício de um filho.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Rosebud

(Versão definitiva)
To Citizen Kane
A rose that shall forever be
under sands of the hourglass;
from the far and unglorious past,
'til the fading eternity.

La lengua de las mariposas

Tendo saído do que se convencionou chamar academia, quando em realidade se trata do ginásio, local onde modelamos nosso corpo para a adequação estética dum padrão consensual – o qual seria hipocrisia criticar, haja vista que dele também partilho, sob o pretexto de buscar saúde, numa valorização excessiva a uma vida sem significados, sofri inicialmente um momento de euforia, natural para quem pratica esportes logo após interrompê-los, para chegar a um estado de moleza total do corpo, uma fatiga que ultrapassa o mero cansaço: trata-se daquele torpor físico que o estarrece por completo simultaneamente à presença de uma certa comichão que o diz para não parar, embora você seja incapaz de continuar. Você cai escarrapachado no colchão, impossibilitado, no entanto, de dormir.

Mais ou menos era esse o estado em que me encontrava quando mergulhei num filme em minha sala. E julgo agora que minha paradoxal apatia é efeito do filme! Tal é a admiração que me causou, a emoção que descobri viva quando pensava estar já endurecida pela trajetória que o acaso traçou ao longo da vida. Embasbaquei-me.

Não importa se exagero. Encantei-me. O que o faz valer à pena.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Kierkegaard

Os segundos se sucedem e dão ao anterior desde já o teor de passado: tudo fica eqüidistante, a uma distância infinita, na medida do jamais alcançável. Desde o livro que acabo de largar sobre a mesa, cujas letras pequenas me fazem doer os olhos, que tentam apreendê-las sem o costumeiro auxílio do pince-nez deixado não sei onde, até o vergão disciplinador que meu pai fez marcar em minhas nádegas no dia em que ousei em público tocar minha genitália, tudo é terminantemente passado, tudo sou eu e segue à minha frente a determinar meus passos e a dar a medida do meu desespero.

Vivi tempo suficiente para consolidar meu eu e enfrentar esse desespero dando a ele a melhor e mais nobre configuração possível: a de desesperadamente ser eu mesmo, com a fé que em mim é peculiar. Mas mesmo com tantos anos que se contam em meus papéis, creio que não consegui passar ao largo de toda crise, sempre recorrente, o que prova minha tese de que o desespero é a doença mortal – não porque mata, mas porque à nossa morte o levamos - e só na eternidade é que dele podemos nos curar.

De que a Europa vai à bancarrota tenho certeza. Nossos sacerdotes pregam uma fé sem significado, destituída de valor intramundano porque sem sentido aparente, dirigida ao nada e passada de gerações a gerações pela comodidade da tradição, que não costumamos questionar ou sequer dela dar-nos conta. Os jovens de hoje são uns arruaceiros sedutores, estetas signatários de alguma associação metafísica do mais vil hedonismo, tão vazio quanto pode ser uma vida vazia de decisões.

Os ingênuos intelectuais de nossa época insistem no romantismo que nos iguala a nada, e não na fé que atesta o absurdo da existência mas que a ela confere um porto seguro em que posso atracar, aceitando o fato de que existo e por tal é dever meu assumir para mim esta existência. É preciso que nos apropriemos de nós mesmos, sendo nós cada vez eu. Pobres senhores! Sentem-se parte funcional de um todo espacial e temporal, alienando-se ao mundo por não se reconhecerem uma unidade total, um eu. Mal sabem que derrelitos ao mundo e ao tempo, encontram-se seu eu com o dever de sê-lo nestas dimensões, das quais não participam, senão que os têm como constituintes de si mesmos!

Se sou desesperado, é porque as decisões são sempre minhas: ouso escolher.

domingo, dezembro 03, 2006

Não busco um futuro,
essa máquina de desenganos.
Não planto nem planejo.

Se eu me for agora,
Antes que perca meus humanos
direitos
, ainda valerei uma reza.

Soneto antigo

De um lado trevas, d’outra parte luzes,
Tijolos crus, os afrescos suaves,
Combinam-se rosários e cruzes,
Ocultam-se temores nessas naves.

-Tu, padre, que na igreja me conduzes,
Dize-me, pois me medram tais entraves
No meu livre pensar (tu não me induzes):
Por que está Deus entre os temas mais graves?

-Deves temê-Lo, filho! Pensa assim!
Sua onisciência vê teus pecados,
Não queiras penas! Sê dentre almas puras!

-Temê-Lo? Como se incute isso a mim?
Enfrentá-Lo-ei, pois, se vê meus atos!
Como temer quem me espreita às escuras?

sábado, novembro 25, 2006

ESTUDOS ONTOLÓGICOS

Projeções

O livro deitado sobre a sacola,
A caneta, o desodorante, o cortador de unha.
Ao meu lado, o vigor de sua independência
Com a minha, no pequeno logos deste quarto,
Jamais verão ou saberão que os observo,
E, no entanto, são tão parte de mim,
Quanto tudo o que de sentido lhes foi dado
Pelo ser que me contém.

Vigoram ainda, repousados na minha contemplação.
E enquanto dados a mim, sempre assim.

Tenho medo de saber:
Coisas tão inertes são meus órgãos.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Tempo de sonhar

Nos estágios perturbadores do sono, justamente aqueles em que a mente se aviva de sua pequena hibernação, permitindo-se deturpar qualquer regra do mundo físico e representar o próprio corpo livre dos grilhões da substancialidade, em que nada dizem as propriedades e impropriedades da minha matéria – posso voar, ser incapaz de andar ou ainda enfiar no estômago comida suficiente para encher barrigas de elefantes, sempre há a possibilidade de sofrer certo terror, não tanto por entrar em tais estágios, mas precisamente por deles sair. Eis que, acordado, descubro certas verdades de mim mesmo que só meu sonho faz perceber.

Se é verdade que os sonhos se constroem de elementos empíricos que captamos durante o dia, ou durante os últimos dias, fico ainda atinando com o que pode ter sido o substrato fático que fundou todo o temor que sofri noite passada. De antemão já tenho uma idéia pré-concebida, e acho que é nela que basearei o arrimo condutor de toda minha divagação acerca do que, por assim dizer, vivi: meus dias, e creio que de todo mundo, são pautados por horários previamente estabelecidos, horários esses que se fazem lei porque não indicam compromisso de mim comigo mesmo, vez que envolve outros que comigo têm conhecimento de tal horário, ou que me o impuseram. Todos os dias trabalho de tal a tal horas, compareço à academia em tal hora para sair em tal, janto com tal mulher naquela hora agendada, chegando sempre no mínimo quinze minutos mais cedo para jamais deixá-la ser a primeira a esperar.

Em relação ao tempo, não me impressiona que horas fechem-se exatamente num dia, dias num mês e meses num ano. Isso é facilmente explicável: o tempo do homem foi construído para formar um sistema perfeito que se fecha em números redondos. Não há dias com 28,3 horas, ou meses com 19,282 dias, e sim todo dia tem 24 horas, toda hora tem 60 minutos, todo minuto carrega 60 segundos e assim por diante. Também não me impressiona que os parâmetros dessas medições sejam astrofísicos, o dia correspondendo ao movimento de rotação da Terra, o ano ao de translação, com a compensação do dia 29 de fevereiro no ano bissexto em razão de uma mínima divergência entre os dois movimentos, que por não serem intencionalmente construídos não se obrigam, como o calendário humano, a serem exatos, já que algum parâmetro tem que ser escolhido sem arbitrariedades. O que me impressiona é que o homem proclama o poder da razão para vindicar a liberdade, e com isso abre para si um leque infinito de possibilidades, no mais das vezes às quais permanece indiferente em favor da comodidade da tradição e das crenças herdadas, e mesmo assim continua ligado àqueles fatores astrofísicos – o dia e a noite são os parâmetros que indicam a necessidade do sono – e outros biológicos, e, o que agrava essa situação, cria mais fatores de necessidades – o relógio, o calendário e a idade – dos quais irremediavelmente não foge.

Meu sonho caminhou exatamente nessa direção. Não posso precisar detalhes, jamais pude; sequer posso falar de razões históricas (existem razões históricas para sonhos?) de estar, em certo momento, no meu apartamento, olhando ao visor do meu celular a fim de saber as horas. O telefone nada dizia, senão alguns incômodos pontos de interrogação. Precisava das horas, não para fazer alguma coisa, mas porque, por alguma razão, sabê-las nos deixa seguros. Meu relógio de pulso estava sem pilhas. Olhava o calendário e via uma enorme seqüência de números e letras, mas era impossível determinar qual era o dia em que eu estava. Meu computador mostrava um certo horário, porém tinha eu a certeza de que aquilo era um engodo, já que aqueles números não tinham qualquer correspondência com o dia claro que penetrava a janela. Olhei-me no espelho e cuidei de guardar um mínimo de compreensão de que aquele era eu. No entanto, um eu sem tempo era-me demasiadamente penoso, e não demorei muito a concluir que perdia a identidade porque não me localizava em qualquer conjuntura ou contexto, embora meu corpo estivesse seguramente ali. O que me envolvia perdia sentido, pois não tinha certeza se era tempo de lidar com as coisas ao meu redor, e mal podia crer que o espaço do meu apartamento estava justaposto com espaço de fora, porque a mim parecia que o lugar onde eu estava passava por um tempo completamente diferente do tempo de todo o resto do mundo; de modo que nunca poderia ir ao encontro de outros lugares que não aquele em que eu estava.

E poderiam existir os outros? Duvidei, porque ou eu estava ao passado de todos, ou ao seu futuro, e um encontro seria prodígio de filmes de ficção – coisa que meu sonho não era. O tempo, ou melhor, a falta do tempo criou uma enorme muralha entre mim e o que estava à minha mão; senti, finalmente, que era hora – ou qualquer outra palavra que possa dar essa noção, já que hora não existia mais ali – de deparar-me com o nada.

Não sei se exagero ou se o que digo era precisamente o que senti durante o sono, já que, como me expliquei anteriormente, isso aqui se trata de uma divagação que elaborei justamente quando do sonho saí. Tudo o que se passou não deve ter durado alguns minutos, porque logo ouvi a porta do apartamento se abrir e em seu batente aparecer a figura do meu colega, portando um enorme relógio em seu pulso, ao qual imediatamente recorri para, enfim, ter ciência da hora certa.

Disso tudo poderia eu retirar uma conclusão mais ou menos lógica, mas não sei se calmante: o tempo não é o que construímos, é aquilo em que nos construímos. O relógio, o calendário, a idade, tudo isso são necessidades humanas porque o homem é antes de tudo isso algo que se dá no tempo. No meu sonho, faltavam-me relógios e calendários, pelo menos os que significassem algo. E entretanto eu tinha tempo: dando-me conta da situação em que me encontrava, decidi-me pela necessidade de saber o horário e, por tal, aguardava alguma informação. Isso nada mais é do que me encontrar numa ocasião dada pelo meu passado, vivendo um presente que espera o futuro que escolhi como destino e que pautava o meu lidar naquele lugar onírico: quando me decidi por saber o horário, antes de sabê-lo já vivia num tempo, e querer sabê-lo apenas determinou tudo o que eu fazia. Medir o tempo dessa atividade, ou melhor, o lapso de tempo da minha ação, é invenção decorrente do fato de que somos temporais, não o contrário.

domingo, outubro 22, 2006

A este blog, ao orkut, ao wikipedia, ao youtube, ao msn.

Toca-me o silêncio com voz clara;
ao ar me quedo observan
CONVOCA-ME O COMPUTADOR.

Militar engendrado no baixo escalão,
salto por cima da verdade.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Ontologia da cidade: o prédio comercial

O
P
R
É
D
I
O
COM
ERCIAL
É UMA POESIA DE CONCRETO
SEM VERSO E MUITA PEDRA B
RITA. NO MAIS É PROSA, É TEO
RIA VERBORRÁGICA ACERCA D
O CÂMBIO FLUTUANTE. É IMPE
SSOAL: É O VERBO HAVER E A P
ARTÍCULA SE. O PRÉDIO, CONFE
SSO, É POESIA DE SUJEIRA E SEM
TINTA: É A RACHADURA: É A PRI
SÃO QUE SE ESCOLHE: É VAZAM
ENTO. É UMA POESIA DE BUKOW
SKI. O PRÉDIO COMERCIAL ARRANHA O
CÉU, CORTA O HORIZONTE, É UMA PERS
PECTIVA QUE O OLHO NÃO TEM. É UMA
MONTANHA, OU UM PAREDÃO? É UMA F
ALÉSIA QUE CONDUZ À MORTE NO MAR
DE ASFALTO. O PRÉDIO COMERCIAL É O
SENTIDO DO ELEVADOR EM MOVIMENT
O. É UM POSTE QUE CRESCEU, É A PALA
VRA PRÉDIO NO SENTIDO MAIS VULGAR
DO VOCABULÁRIO CONTEMPORÂNEO. U
M FALO É PRÉDIO QUANDO COPULA, UM
PRÉDIO É A CABEÇA CUJO SUPORTE É UM PESCO
ÇO COM TORCICOLO ESPASMÓDICO. O PRÉDIO P
OR EXCELÊNCIA COMERCIAL É O AEROPORTO D
O TERRORISMO. NÃO ULTRAPASSE SEUS UMBRA
IS COM SEU CORAÇÃO E COM O SONETO DO AMO
R TOTAL NA MEMÓRIA. O PRÉDIO COMERCIAL É A
NTRO, É O ÁPICE DO SUCESSO, É NINHO DE COBRA
S, É O SONHO DE CONSUMO E ROTEIRO DE VIAGEM
DO WORKAHOLIC. O PRÉDIO COMERCIAL É A POES
IA EM SEU NÃO-SER, É DESUMANO E ATEMPORAL,
MAS É MORTAL: MATA OS HOMENS E OS HOMENS
O MATAM. O PRÉDIO COMERCIAL É QUASE A CIDA
DE GRANDE, NÃO FOSSE A CIDADE GRANDE O SHO
PPING CENTER, EMBORA HÁ QUEM DIGA QUE O SH
OPPING CENTER É PRÉDIO COMERCIAL, DO QUE DI
SCORDAMOS. PRÉDIO COMERCIAL É GRAVATA E P
ALETÓ E TAILLEUR, É O MEIO-DIA, A MEIA-VIDA, V
IDA DE CÃO, É UMA COISA HORRENDA E TÃO LINDA.

Que título cabe aqui?

Eram cacos estilhaçados de um vidro verde
Que partiam derme e epiderme. A pele
Partida, rota, em cacos.
O plasma sangüíneo no caos da fuga
Do seu regular fluxo intravenoso
Para lá dos epitélios tegumentares.

Eram sinais de luta, máculas de hematomas
Na alva tez da moça morta. O tapete
Maculado, fétido, emético.
A bonita moça e viscerada, rasgada no ventre
Desde a boca dos quádruplos lábios
À caixa que guarda todo sentimento.

Era uma vida esvaída na ponta da garrafa
Na sala onde jazeram tantos outros mortos;
No féretro de barro cru que abriga móveis
E as íntimas lutas fatais.

Cena do crime: antecâmara do paraíso.
Ímpetos que revelam os ciúmes
Gravando no obituário seus escopos.
Os amores revelam os amores
Desventurados como cegos, inatingíveis
E incontroláveis como feras.

Um poço de descontentamento
E culpa, de que não mais se foge.
Enclausurado na mão homicida
O peso de uma imortal lembrança
Não evapora. Não se esvai
Sequer o desejo de fazê-lo de novo
Incansavelmente desesperado.