sábado, novembro 25, 2006

ESTUDOS ONTOLÓGICOS

Projeções

O livro deitado sobre a sacola,
A caneta, o desodorante, o cortador de unha.
Ao meu lado, o vigor de sua independência
Com a minha, no pequeno logos deste quarto,
Jamais verão ou saberão que os observo,
E, no entanto, são tão parte de mim,
Quanto tudo o que de sentido lhes foi dado
Pelo ser que me contém.

Vigoram ainda, repousados na minha contemplação.
E enquanto dados a mim, sempre assim.

Tenho medo de saber:
Coisas tão inertes são meus órgãos.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Tempo de sonhar

Nos estágios perturbadores do sono, justamente aqueles em que a mente se aviva de sua pequena hibernação, permitindo-se deturpar qualquer regra do mundo físico e representar o próprio corpo livre dos grilhões da substancialidade, em que nada dizem as propriedades e impropriedades da minha matéria – posso voar, ser incapaz de andar ou ainda enfiar no estômago comida suficiente para encher barrigas de elefantes, sempre há a possibilidade de sofrer certo terror, não tanto por entrar em tais estágios, mas precisamente por deles sair. Eis que, acordado, descubro certas verdades de mim mesmo que só meu sonho faz perceber.

Se é verdade que os sonhos se constroem de elementos empíricos que captamos durante o dia, ou durante os últimos dias, fico ainda atinando com o que pode ter sido o substrato fático que fundou todo o temor que sofri noite passada. De antemão já tenho uma idéia pré-concebida, e acho que é nela que basearei o arrimo condutor de toda minha divagação acerca do que, por assim dizer, vivi: meus dias, e creio que de todo mundo, são pautados por horários previamente estabelecidos, horários esses que se fazem lei porque não indicam compromisso de mim comigo mesmo, vez que envolve outros que comigo têm conhecimento de tal horário, ou que me o impuseram. Todos os dias trabalho de tal a tal horas, compareço à academia em tal hora para sair em tal, janto com tal mulher naquela hora agendada, chegando sempre no mínimo quinze minutos mais cedo para jamais deixá-la ser a primeira a esperar.

Em relação ao tempo, não me impressiona que horas fechem-se exatamente num dia, dias num mês e meses num ano. Isso é facilmente explicável: o tempo do homem foi construído para formar um sistema perfeito que se fecha em números redondos. Não há dias com 28,3 horas, ou meses com 19,282 dias, e sim todo dia tem 24 horas, toda hora tem 60 minutos, todo minuto carrega 60 segundos e assim por diante. Também não me impressiona que os parâmetros dessas medições sejam astrofísicos, o dia correspondendo ao movimento de rotação da Terra, o ano ao de translação, com a compensação do dia 29 de fevereiro no ano bissexto em razão de uma mínima divergência entre os dois movimentos, que por não serem intencionalmente construídos não se obrigam, como o calendário humano, a serem exatos, já que algum parâmetro tem que ser escolhido sem arbitrariedades. O que me impressiona é que o homem proclama o poder da razão para vindicar a liberdade, e com isso abre para si um leque infinito de possibilidades, no mais das vezes às quais permanece indiferente em favor da comodidade da tradição e das crenças herdadas, e mesmo assim continua ligado àqueles fatores astrofísicos – o dia e a noite são os parâmetros que indicam a necessidade do sono – e outros biológicos, e, o que agrava essa situação, cria mais fatores de necessidades – o relógio, o calendário e a idade – dos quais irremediavelmente não foge.

Meu sonho caminhou exatamente nessa direção. Não posso precisar detalhes, jamais pude; sequer posso falar de razões históricas (existem razões históricas para sonhos?) de estar, em certo momento, no meu apartamento, olhando ao visor do meu celular a fim de saber as horas. O telefone nada dizia, senão alguns incômodos pontos de interrogação. Precisava das horas, não para fazer alguma coisa, mas porque, por alguma razão, sabê-las nos deixa seguros. Meu relógio de pulso estava sem pilhas. Olhava o calendário e via uma enorme seqüência de números e letras, mas era impossível determinar qual era o dia em que eu estava. Meu computador mostrava um certo horário, porém tinha eu a certeza de que aquilo era um engodo, já que aqueles números não tinham qualquer correspondência com o dia claro que penetrava a janela. Olhei-me no espelho e cuidei de guardar um mínimo de compreensão de que aquele era eu. No entanto, um eu sem tempo era-me demasiadamente penoso, e não demorei muito a concluir que perdia a identidade porque não me localizava em qualquer conjuntura ou contexto, embora meu corpo estivesse seguramente ali. O que me envolvia perdia sentido, pois não tinha certeza se era tempo de lidar com as coisas ao meu redor, e mal podia crer que o espaço do meu apartamento estava justaposto com espaço de fora, porque a mim parecia que o lugar onde eu estava passava por um tempo completamente diferente do tempo de todo o resto do mundo; de modo que nunca poderia ir ao encontro de outros lugares que não aquele em que eu estava.

E poderiam existir os outros? Duvidei, porque ou eu estava ao passado de todos, ou ao seu futuro, e um encontro seria prodígio de filmes de ficção – coisa que meu sonho não era. O tempo, ou melhor, a falta do tempo criou uma enorme muralha entre mim e o que estava à minha mão; senti, finalmente, que era hora – ou qualquer outra palavra que possa dar essa noção, já que hora não existia mais ali – de deparar-me com o nada.

Não sei se exagero ou se o que digo era precisamente o que senti durante o sono, já que, como me expliquei anteriormente, isso aqui se trata de uma divagação que elaborei justamente quando do sonho saí. Tudo o que se passou não deve ter durado alguns minutos, porque logo ouvi a porta do apartamento se abrir e em seu batente aparecer a figura do meu colega, portando um enorme relógio em seu pulso, ao qual imediatamente recorri para, enfim, ter ciência da hora certa.

Disso tudo poderia eu retirar uma conclusão mais ou menos lógica, mas não sei se calmante: o tempo não é o que construímos, é aquilo em que nos construímos. O relógio, o calendário, a idade, tudo isso são necessidades humanas porque o homem é antes de tudo isso algo que se dá no tempo. No meu sonho, faltavam-me relógios e calendários, pelo menos os que significassem algo. E entretanto eu tinha tempo: dando-me conta da situação em que me encontrava, decidi-me pela necessidade de saber o horário e, por tal, aguardava alguma informação. Isso nada mais é do que me encontrar numa ocasião dada pelo meu passado, vivendo um presente que espera o futuro que escolhi como destino e que pautava o meu lidar naquele lugar onírico: quando me decidi por saber o horário, antes de sabê-lo já vivia num tempo, e querer sabê-lo apenas determinou tudo o que eu fazia. Medir o tempo dessa atividade, ou melhor, o lapso de tempo da minha ação, é invenção decorrente do fato de que somos temporais, não o contrário.

domingo, outubro 22, 2006

A este blog, ao orkut, ao wikipedia, ao youtube, ao msn.

Toca-me o silêncio com voz clara;
ao ar me quedo observan
CONVOCA-ME O COMPUTADOR.

Militar engendrado no baixo escalão,
salto por cima da verdade.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Ontologia da cidade: o prédio comercial

O
P
R
É
D
I
O
COM
ERCIAL
É UMA POESIA DE CONCRETO
SEM VERSO E MUITA PEDRA B
RITA. NO MAIS É PROSA, É TEO
RIA VERBORRÁGICA ACERCA D
O CÂMBIO FLUTUANTE. É IMPE
SSOAL: É O VERBO HAVER E A P
ARTÍCULA SE. O PRÉDIO, CONFE
SSO, É POESIA DE SUJEIRA E SEM
TINTA: É A RACHADURA: É A PRI
SÃO QUE SE ESCOLHE: É VAZAM
ENTO. É UMA POESIA DE BUKOW
SKI. O PRÉDIO COMERCIAL ARRANHA O
CÉU, CORTA O HORIZONTE, É UMA PERS
PECTIVA QUE O OLHO NÃO TEM. É UMA
MONTANHA, OU UM PAREDÃO? É UMA F
ALÉSIA QUE CONDUZ À MORTE NO MAR
DE ASFALTO. O PRÉDIO COMERCIAL É O
SENTIDO DO ELEVADOR EM MOVIMENT
O. É UM POSTE QUE CRESCEU, É A PALA
VRA PRÉDIO NO SENTIDO MAIS VULGAR
DO VOCABULÁRIO CONTEMPORÂNEO. U
M FALO É PRÉDIO QUANDO COPULA, UM
PRÉDIO É A CABEÇA CUJO SUPORTE É UM PESCO
ÇO COM TORCICOLO ESPASMÓDICO. O PRÉDIO P
OR EXCELÊNCIA COMERCIAL É O AEROPORTO D
O TERRORISMO. NÃO ULTRAPASSE SEUS UMBRA
IS COM SEU CORAÇÃO E COM O SONETO DO AMO
R TOTAL NA MEMÓRIA. O PRÉDIO COMERCIAL É A
NTRO, É O ÁPICE DO SUCESSO, É NINHO DE COBRA
S, É O SONHO DE CONSUMO E ROTEIRO DE VIAGEM
DO WORKAHOLIC. O PRÉDIO COMERCIAL É A POES
IA EM SEU NÃO-SER, É DESUMANO E ATEMPORAL,
MAS É MORTAL: MATA OS HOMENS E OS HOMENS
O MATAM. O PRÉDIO COMERCIAL É QUASE A CIDA
DE GRANDE, NÃO FOSSE A CIDADE GRANDE O SHO
PPING CENTER, EMBORA HÁ QUEM DIGA QUE O SH
OPPING CENTER É PRÉDIO COMERCIAL, DO QUE DI
SCORDAMOS. PRÉDIO COMERCIAL É GRAVATA E P
ALETÓ E TAILLEUR, É O MEIO-DIA, A MEIA-VIDA, V
IDA DE CÃO, É UMA COISA HORRENDA E TÃO LINDA.

Que título cabe aqui?

Eram cacos estilhaçados de um vidro verde
Que partiam derme e epiderme. A pele
Partida, rota, em cacos.
O plasma sangüíneo no caos da fuga
Do seu regular fluxo intravenoso
Para lá dos epitélios tegumentares.

Eram sinais de luta, máculas de hematomas
Na alva tez da moça morta. O tapete
Maculado, fétido, emético.
A bonita moça e viscerada, rasgada no ventre
Desde a boca dos quádruplos lábios
À caixa que guarda todo sentimento.

Era uma vida esvaída na ponta da garrafa
Na sala onde jazeram tantos outros mortos;
No féretro de barro cru que abriga móveis
E as íntimas lutas fatais.

Cena do crime: antecâmara do paraíso.
Ímpetos que revelam os ciúmes
Gravando no obituário seus escopos.
Os amores revelam os amores
Desventurados como cegos, inatingíveis
E incontroláveis como feras.

Um poço de descontentamento
E culpa, de que não mais se foge.
Enclausurado na mão homicida
O peso de uma imortal lembrança
Não evapora. Não se esvai
Sequer o desejo de fazê-lo de novo
Incansavelmente desesperado.

domingo, setembro 17, 2006

Vesperal

Um poema de Helder Macedo

Desoladora, vã certeza minha
efémera presença que termina
o rosto e a vida em imperfeita linha
fronteira absurda que me não confina.
Pela luta de corpo em que me iludo
um perene sentido eu anuncio.
Mas na manta carnal onde me escudo
tacteio as dobras dum só frustre cio.
Aos mil olhos febris do céu velado
ergo o meu gesto de razão e regra.
Cresce a fria canção, espanto fechado
na mágoa em riste que me o sangue empedra.
O súbito destino se organiza
da voz que sou e, do finito vulto,
secreta, anula, transfigura e frisa
o nada ser do meu anseio oculto.
Aglutinado sou. Lá fora a noite.
Mas nada vai nascer ou vai morrer
em rumos para além, onde me afoite,
da pausa tensa a que me obriga ser.
E só na raiva lisa de existir
eu me prolongue, necessário modo,
despedido de mim, a descobrir
o caminho de mim para o meu todo.
Destino pleno que me a vida exuma
ante o mundo o intente no desforço
do vinculado ser para que assuma,
conscrito ao humano todo, dele escorço,
a minha impessoal identidade.
Serei a minha ausência e o seu indulto
reinventando a minha liberdade
como um sarcasmo, um passatempo e um culto.

Que a boa admiração que tenho por esse texto não seja tão-somente inveja!

terça-feira, setembro 12, 2006

Falência

Diziam que não funcionaria
e deveras longe não foi.
Morreu quando nem vida tinha:
era um desenganado que vivia.
Foi o terrível olho da descrença?
Foi a boca fechada de indiferença.
Quando o motor único do destino
- movimentos débeis a um vetor incerto –
esperança chama-se,
apenas o até quando o alimenta.

Posto que é chama,
posto que o tempo venta,
chegou aqui para acabar
recusando termos que inventa
a língua:
não chafurdo na lama,
não me estrangulo, sem ar.
Morro apenas
como um natimorto:
as glórias que jamais tive
negaram-me o direito de dizer que existi.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Verdal - parte 2.1

TIRÇO, ELENO e CIRINO – Trabalhadores avulsos da Faz. Santa Clara
NEGUINHO – Rapaz órfão trabalhador da Faz. Santa Clara
JOSUÉ e ALEMÃO – trabalhadores e capangas da Faz. Santa Clara
CORONEL LOMBARDO – dono da Faz. Santa Clara
D. ROSA – mulher de Coronel Lombardo
D. CISSA – cozinheira
DANDARA – cozinheira e filha de D. Cissa
CORO – mulheres dos trabalhadores


(Crepúsculo. Em último plano, os fundos da casa da fazenda. Em primeiro plano, as casas de madeira dos empregados. À frente, uma fogueira e um panelão, de onde emerge uma fina fumaça. À sua volta, TIRÇO, ELENO, CIRINO e JOSUÉ descansam tomando chimarrão).


ELENO

Toma cá outra cuia que te ofereço.

CIRINO

(Pegando a cuia)
Grato.

ELENO

Cuidado, que está transbordando.

CIRINO

Tirço, sentes o vento frio que bate,
a exigir que cobramos nossos filhos
de blusas que não podemos comprar;
vindo do sul e ao norte transportando
das flores polens para a vida, para
novos campos de algodão cultivar?

TIRÇO

De que serve tudo isso? Viver é
sofrer, nada mais! Por que a vida refaz-se?
Para somente refazer-se de novo,
e de novo, e sem fim. E nada mais!

ELENO

Exagerais os dois! Nem frio é tal zéfiro,
mas apenas adota o frescor do outono;
nem ruim é a vida, embora difícil.

JOSUÉ

Nem pareceis homens! Como mulheres
falais. Eleno, pranteiam os dois
qual dengosinhas, qual fazem costureiras
e cozinheiras.

ELENO

E essas meretrizes!

JOSUÉ

Sim, e essas meretrizes, que adormecem
ardidas das virilhas, mas por bom
merecimento: desejam por dinheiro
darem-se, ao invés de, como direitas
moças, casarem-se e dos seus maridos
ocuparem-se, como diz a regra.

TIRÇO

Tu não tens de que se queixar mesmo!

(De uma das casas sai Dandara, que passa à frente do grupo, todos olham sua bunda)

JOSUÉ

Cheirosa!

DANDARA

(Balança o cabelo com ar de desdém)

Mas não para ti, insolente!

(Dandara sai do lado oposto de onde apareceu)

JOSUÉ

(Dirigindo-se a TIRÇO)

Tenho sim! E essa mulher que nem bola
me dá? Ara! Ela vai lá se engraçar
com o Coronel! Tivesse eu dinheiro
e a desonraria completamente!

CIRINO

Acaso não tens mulher, Josué?

JOSUÉ

Olhai quem fala! Não foste tu mesmo
que deixaste a mulher ao teu fogão
p’ra cortejar a senhora dona Rosa
ao inquieto cricrilar dos gafanhotos?

CIRINO

A ti não cabe dizer de mim mesmo!

JOSUÉ

Nem a ti de mim, capiau ingrato!
Tem mais respeito para com teu chefe!
Não fui eu quem o contratou, benigno,
impedindo que teu filho faleça
faminto enquanto colhes algodão?

CIRINO

Pois somente ao Coronel obedeço!

JOSUÉ

(Levantando-se)
Mas por mim foste contratado, ingrato!

TIRÇO

(Levantando-se e interpondo-se entre CIRINO e JOSUÉ)
Parei com infrutíferos discursos,
homens. Pois cá na fazenda sois de paz,
como bons colegas de profissão.
Ainda que a um se atribua o meio
pelo qual houve o contrato de emprego,
sois de um só e mesmo patrão empregados!
Queiras ou não, Josué, contratar-nos
foi somente ato teu como preposto
do Coronel. Queiras ou não, Cirino,
Josué é sim teu chefe, e o é
de todos nós, como determinou
o senhor Coronel Jorge Lombardo!

ELENO

Bem falaste, Tirço, mal se exaltam
os ânimos por aqui. Fiquei calmos,
pois, vós, e tomei vosso chimarrão.

(Neguinho vem da casa da fazenda)

Não é Neguinho que lá se aproxima?

TIRÇO

É sim, se não me enganam os meus olhos.

JOSUÉ

Já posso prever a que se tributa
a sua chegada a essa roda de cuia.
O Coronel voltou, e é dever meu
assessorá-lo com seu alazão.

(Neguinho chega à roda. Dirige-se a Josué)

Podes poupar tuas palavras, homem!
Creio que já conheço o teu recado.

NEGUINHO

Pois então vá e ajude o Coronel.
Sabes que somente a ti ele confia
as rédeas de Pelego, seu cavalo.

JOSUÉ

Vou sim. Uma boa noite aos senhores!

ELENO, TIRÇO e NEGUINHO

Boa noite!

(Sai JOSUÉ)

CIRINO

(à parte)
É o que a ti não desejo...


TIRÇO

Cirino, que insanidade se abateu
sobre ti? Se tu tivesses travado
duelo contra ele, mesmo a vitória
te derrotaria. Expulso serias,
e o inverno todo sem um níquel mísero
passarias, a olhar vazia a mesa
a qual teus filhos lamberiam tristes
à procura de migalhas de pão
esquecidas, por acaso, nos dias
em que a essa mesa podias prover.

CIRINO

Guardo dúvidas se a honra que tenho
não seria mais cara que viver!
Pois até a meus filhos, bem educados
como homens, um pai morto em duelo
defendendo a honra da própria família
vale mais que a humilhante servidão!
Não jurou fidelidade ao altar,
defronte do padre santíssimo, minha
mulher a um homem, acima de tudo?

NEGUINHO

Não, não toques nesse assunto, por favor!
Ai de mim, que tenho a língua indomável!

CIRINO

Que escondes?

ELENO

Nada, Cirino! Neguinho
é um baita de um piromaníaco inventor
de historietas sem sentido algum!

(Dirige a NEGUINHO um olhar repreensivo)

NEGUINHO

Ah, Eleno! Tu não queres saber mesmo?
O que guardo também a ti concerne;
tanto quanto a Tirço, mas este... rá!
prefere o dessaber à verdade!

TIRÇO

Que travessura é essa agora, rapaz?

NEGUINHO

Travessura, sim! Mas não por mim feita!

CIRINO

Ah, que te arranco os olhos, preto sujo!

NEGUINHO

Tanto quanto tu, tição apagado!

ELENO

Chega, Neguinho! Senta e toma tento!

NEGUINHO

Ah, pois! Bufa Cirino, esse briguento;
posas de pai meu, e pai nunca tive;
e até Tirço o cenho franze: adeus!

(Gira em seu próprio eixo e faz menção de partir)

CIRINO E TIRÇO

(Tirço segura Neguinho pelos ombros)
Senta!

NEGUINHO

Não sento!

CIRINO

(Empunhando uma vara em brasa)
Senta!

NEGUINHO

Tá bom, sento!

ELENO

E sossega, rapaz! Tu vai contar
o que sabes, ou terá que se ver
com as esporas de nossas botinas!

NEGUINHO

E agora eu sou cavalo, então, senhores?
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terça-feira, agosto 29, 2006

Rosebud

To Citizen Kane


A rose that shall forever be:

an unknown self
burried under
the hourglass sand;

since the unglorious past
'til the fading eternity.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Soneto

Alarga tua boca com prazer
Ao rir de mim que me percebo incerto.
Ri de meu choro, de meu peito aberto,
De um riso meu, do que me faz sofrer.

Ri, mas com todo dente descoberto,
De tal modo que as gentes, ao te ver,
Vejam o que te faz escarnecer:
Eu vago e impreciso, insano e liberto.

E vai rindo sempre do indefinido
Que sem cessar fui. E quando bastante
Tua infalível boca tiver rido,

Olhar-te-ei eu com pena, intimorato.
Porquanto tudo fui, sendo inconstante,
E nada foste tu, sendo tão exato.

segunda-feira, julho 31, 2006

Textos inacabados e inacabáveis

Narciso, a que miras?
Joaquim, por que choras?
Guilherme, o que queres?

Bebidas?
Jogos?
Mulheres?

Livrar-te do mundo
Não podes.
Além do teu corpo
Não vais.
Ser algum outro
Jamais.

Narciso, pra quem vives?
Joaquim, onde vives?
Guilherme, vives?

Sim. No interior, pro pai.

Não não vives no interior
A não ser de ti.
Não não vives pro pai
Ele vive pra ti.
Não não vives

Se da morte retiras teu pão
E do pão à morte voltas.


***************

Amnésia. Pura amnésia e Jorge Prata não sabia
mais como a cidade funcionava. Pervagante em pedras
e cacos do mundo ligados entre si pelo cimento;
o sinal revelava-se verde quando então ele queria
andar, mas avermelhava-se todo o tempo em que
parava junto com os mil carros que por aqui passam
diariamente. Jorge Prata ouvia sons de batucadas
rivalizando com comícios e macacos me mordam
se não era ele um primata primitivo tentando absorver
tantos elementos que não se traduzem nas primeiras
percepções. E quando tinha já muito andado finalmente
compreendeu o que era aquilo quilômetros atrás, mas
andava em ruas completamente novas das de quilômetros
atrás e tinha que de novo compreender o mundo todo.
Jorge Prata era um só contra todos, sem guias, e não se
sabe por quê, já que Jorge Prata vive na cidade há tanto tempo.
Pode ter sido o que ele comeu, a sua barriga pesada,
enquanto todo mundo era uma pluma de leve e fluía
com muito mais naturalidade por esquinas e meio-fios.
Ah, Jorge Prata, que foi que lhe aconteceu? Jorge Prata
divisando finalmente nuvens, que entretanto sempre estiveram
ali sobre a cidade. Um ou dois ossos quebrados,
um pequeno riacho de plasma e hemácias que vertia
de sua boca. Jorge Prata foi atropelado e na posição
em que ficou pôde ver o céu. Nunca correu o perigo
mas por Deus que a cidade estava incrivelmente
estranha e por isso Jorge Prata vê-se agora vendo
nuvens enquanto as aglomerações ininteligíveis
chamam os anjos das sirenes que farão, enfim,
aquela maldita canção de campanha política ficar quieta
ou não se fazer ouvir.

domingo, julho 23, 2006

Penso e passo
e posso prever:

morro e nasço
com o tempo.

Parte frágil,
pensamento;

fácil parte,
corpo puro.

Nasço e morro
com o vento.

Simples sopro
e corpo duro.

sábado, julho 22, 2006

O homem que não existe

O homem não é homem
É um número
No mais das vezes, preocupação
De vez em quando, orgulho

O homem não é homem
É uma massa
Não é uma pessoa
É um sexo, uma raça

O homem não é homem
Não sente, não chora
O homem é dinheiro
Se não: “vá embora!”

O homem não é homem
É uma ilha
Isolado de tudo, de todos
Do pai, da mãe, da filha

O homem não é homem
É uma seqüência de genes
Quase um macaco, um rato!
É vagina, é bunda, é pênis

O homem não existe
Porque não sabe mais
O que o homem é:
Ele mesmo ou um outro eu

sexta-feira, julho 07, 2006

Verdal

A noite cobria os céus com seu negro manto, e lá do alto os seus milhões de furinhos proporcionavam ainda sutis visões da dourada luz, a que se chamavam estrelas. A majestosa Lua, a bela bola que anda por sobre os homens e finge lutar contra a noite, quando em verdade é esta que lhe dá o sentido da existência, está lá plenamente, com todos os seus mais imperceptíveis detalhes; enfatuada, intimorata, toda-prosa, fazendo do firmamento uma feliz e agradável platéia para os beijos melífluos e cálidos dos jovens incautos pelas rubescentes paixões. Era a tarde que se despedia rubra, deitando no horizonte seu pomo de fogo, trazendo com sua ida os doces cantos da cigarra e o fresco ar do crepúsculo, que agitava os alegres cachos de Dandara. Era uma canção de ninar aos puros aquele manto negro dos céus; era uma bebida afrodisíaca às brilhantes espáduas mulatas da mulher de olhos aquilinos de predadora langorosa, de encantamento fácil, fortuito e fulminante aos diversos varões que se aventuram pelas trevas acolhedoras. Nada mais refletia a Lua tanto quanto aquelas negras íris de Dandara, que no negrume próprio do fim do ocaso se alia às estrelas e, como lanterninhas dos meninos caçadores de insetos, acende dois pontos de fogo, como um ardil da beleza contra os contempladores.

E nas vagas impressões da noite, quando toda imagem é um semblante fugaz que apenas se interpreta pela lembrança do que aquilo poderia ser durante o dia, Dandara sai da casa cantando com uma voz indefinível, de que ora se dizia rouquenha, ora um fluido som de flauta doce que enchiam os ouvidos de sonhos.

- Ô, boi, que há nesse canto de pasto?
Ô, boi, o que é que lá se perdeu?
-Foi a boiada que trouxe de arrasto
Meu amor que, pisoteado, aqui morreu.


E lá se ia Dandara alegre e cantadora espalhar seu perfume de jacintos pelo ar da Fazenda Santa Clara, onde era filha da cozinheira, cozinheira, e amante.

- Mas, boi, p’ra que chorar a tristeza?
Ô, boi, tem tanto amor no pasto pra ver!
- Amor como aquele, nem muita reza,
E nem pasto andado vai devolver.

A música que vibrava cada folha das aroeiras que margeavam o estreito caminho para o grande espelho do Lago de Santa Clara, lugar onde as estrelas do céu miravam-se e invejavam a própria imagem refletida, como milhares de pequenos Narcisos afogados, tinha uma toada bem tristonha. No entanto, mesmo que a melopéia inspirasse profunda melancolia, os dentes de Dandara anunciando-a, a música, aos ares abrilhantava e fazia contente todo o ser da pequena mata que escondia o lago.

Na orla daquela profunda poça d’água, sentou-se a mulata, as saboneteiras todas à vista. Com sua lanterninha de pilha, suas mãozinhas procuravam as avezinhas nas árvores todas, que fugiam da ofuscante luz com um revoar barulhento e tranqüilizante. Arriou sua saia leve de moça viçosa, sem anáguas, para molhar os pezinhos na água. Se houvesse luz, ver-se-ia a parte interna daquelas coxas tão lisas e ilesas, macias e convidativas como uma bandeja de morangos bem vermelhos embebidos no mais fino champanhe. E cada gotinha que escorria pelas suas pernas açucaradas, com uma nitidez irrevogável, percebeu a dimensão da sua sorte de ter nascido líquida, para percorrer cada pontinho daquela pele deliciosa, que se comportava como a melhor das anfitriãs.

Daquele triste canto, Dandara passou a assobiar uma alegre cantiga da sua infância. Começou a pensar no viril rapaz que vinha lhe convidar para passear na cidade e tomar sorvete, nos seus fortes braços e como lhe trazia segurança a maneira com que ele pegava em sua mão. Lamentou o tamanho de sua castidade, o que também era algo de bom e de único para um mancebo da sua idade perante uma simples empregada de fazenda. Talvez porque, afinal, ele não era tão rico assim. Sorriu ao pensar em seus hábitos gentis para com ela, na higidez do seu caráter e na bela camisa de excelente linho com que se apresentou da última vez, adotando as cautelas de estilo ao devidamente pedir autorização para Dona Cissa, sua mãe, para levá-la ao centro. E sorriu mais uma vez, e menos inibida, quando viu que ele respondeu à altura - um belo punho fechado de encontro ao nariz do maldizente - quando, pela sua refinada educação, lhe chamaram de maricas.

Os devaneios tão agradáveis em que mergulhou Dandara quase a fizeram esquecer o motivo de ela estar ali. De todo o modo, seu freqüente e intenso apetite, digamos, decorrente de sua sensualidade já congênita, logo se fez presente ao primeiro rumor de passos vindos do longe para a sua direção.

Não demorou muito, e aquele mesmo chapéu de sempre, de um couro branco meio de mal gosto, apareceu saltitante, ao que já seguiu a figura bem apessoada que o sustenta.

- Ah, já tá aqui, minha pretinha!

quarta-feira, junho 28, 2006

O conto do caixote

O líquido, por sua natureza, assume a forma do recipiente em que está acondicionado. Um homem anda sólido pela rua, e o sólido, por sua natureza, tem forma própria independentemente do espaço que ocupa. Um homem sólido anda solitário pela rua. O solitário, e aqui talvez não entrem questões de natureza, é um homem sólido que anda só, ou vive só, ou, no ror, é uma voz que não se entende ou não faz por onde. Não entra no conceito do solitário o fato de o ser por opção ou por desprezo alheio. Ser sólido, no entanto, é imposição das forças criadoras.
Havia falado em líquido. O homem tem nas mãos uma garrafa. Uma garrafa é um recipiente, de plástico ou de vidro, usado para acolher líquidos, bebíveis ou não. Possuem um corpo bojudo e oco, onde fica o líquido, que por ser líquido assume a forma desse corpo bojudo e oco. Possuem também um orifício, por onde o líquido entra e sai, porque o líquido também tem a característica de fluidez. Esse orifício fica na extremidade de algo a que se dá o nome de gargalo, que na garrafa corresponde a um estreitamento oco do corpo bojudo e oco que termina exatamente no orifício supra mencionado.
A garrafa acondiciona um líquido alcoólico, que por ser líquido assume a forma de sua forma. Por ser alcoólico, podemos entender que é um líquido em que, dentre as substâncias que o compõem, está o álcool etílico.O álcool etílico, por ser álcool, possui uma hidroxila ligada diretamente a uma partícula de carbono; e por ser etílico, contém em sua estruturação etila. Considerando que nessa garrafa temos um rótulo, sólido, com a inscrição “Velho Barreiro”, que indica ser o líquido uma cachaça, já que “Velho Barreiro” é uma marca muito conhecida de cachaça no nosso país, podemos então concluir que o líquido composto de álcool etílico é bebível, porque a cachaça é feita para beber, e não combustível. Em termos científicos não haveria diferença, pois no organismo do nosso solitário sólido homem esse líquido sofrerá, como um combustível, o processo de combustão, pelo qual a substância, após absorvida pelo tal organismo, será combinada com oxigênio numa reação exotérmica, que libera muita energia, do qual temos invariavelmente como resultado o gás carbônico. Em termos corriqueiros, por outro lado, a diferença é enorme: ser bebível significa que poderá ser consumido pelo homem, categoria na qual se inclui o sólido solitário homem da nossa história; já ser combustível significaria que esse líquido teria outras funções, que não vem ao caso no momento.
Falei então do solitário homem sólido com forma própria andando na rua com uma garrafa cujo conteúdo é um líquido alcoólico bebível, que por ser bebível sairá do orifício da garrafa para a boca do homem, entrando no organismo sólido e um pouco oco onde sofrerá combustão. E já sabemos o que tudo isso significa.
Temos, portanto, bons pressupostos para a nossa história.

O sólido homem tinha casa, teto, família, herança, carro e uma empresa. O sólido homem era homem correto e de bem, com brios invioláveis e bons contatos. O sólido homem era o homem dos sonhos do estudante de direito. O sólido homem é o corpo em corpo da sólida imagem (e como imagem, etérea) do homem bem-sucedido.
Um dia um bêbado velho com uma garrafa quase vazia de aguardente nas mãos mijou no pneu de seu carro. No carro do sólido homem!
Coincidência do destino: o bêbado era famoso em certas instituições citadinas, os distritos policiais, onde havia se hospedado várias vezes. Coincidência, isso? Sim, porque o sólido homem avistou um senhor policial logo ali e logo logo acenou. O bêbado foi levado.
Ficha extensa: o bêbado era velho de idade, mas mais velho de picardias.
O bêbado, senhores, era um bandido.
E não um coitado, dos maus. Até matado já havia. E esquartejado, depois de ter estuprado, em quarenta e três pedaços, todos sólidos molhados de líquido vermelho, e os colocado num saco de lixo de quarenta litros e devolvido o morto à sua família.
E a física orgulhou-se de mais uma lei: vários sólidos independentes e amontoados comportam-se como líquidos: tomaram a forma do saco de lixo.
E o bêbado foi de novo para o distrito policial. Que tinha um brinquedo novo.
O bêbado foi colocado num caixote em formato cúbico. De um metro e vinte de lado. O bêbado tinha articulações, o que veio muito a calhar, pois facilitaram sua entrada e acomodação no caixote. Fosse duro, e só uma esquife resolveria.
O bêbado passou vinte e quatro horas no caixote. Vinte e quatro horas correspondem a um dia. Um dia no caixote. E como velho que é velho e que se comporta como velho, morreu. Cheirando a álcool.
- O velho fez por onde!
Fez.

Essa é a história do nosso sólido solitário homem com uma garrafa contendo líquido alcoólico na mão. Mal contada, bem sei. É que os pressupostos que expliquei são inúteis. Faltou que eu dissesse que apesar de todo homem ser sólido, sólidos homens poucos são. Faltou dizer que a língua tem traquejos que deturpam os conceitos físicos, e o sólido vai além da condição dos corpos. Faltou entrar em conjecturas, mui lúcidas, da realidade que se desdobra em mais de bilhões de realidades, de bilhões de julgamentos levianos que ao fim se revelam um só. De que a imagem do sólido no imaginário de todos nós é a mais pura das imagens, e que imagens são mais perigosas do que a sua etérea natureza faz supor. Faltou dizer que o homem é naturalmente mau, que é naturalmente bom, que é corrompido pelo meio, que o meio o faz crescer. Mas mais faltou dizer que o caixote subverteu a solidez do sólido, como a garrafa confirmou a liquidez do líquido. O bêbado saiu quadrado, de pulmões paralisados e corpo rijo. Seu estertor foi dado com bafo, com um mínimo bafo que ele pôde dar. Mas suas vítimas sofreram bastante. Faltou dizer que nada se compensou. Faltou dizer que o bêbado tinha uma cara que todos conhecem, porque todos já a montaram antes mesmo de ele montar suas estripulias. Faltou dizer também que o sólido homem também já tem uma cara conhecida, porque todos sabem quem é a vítima disso tudo. Faltou dizer que nada mais resta a ser feito: todos já sabem. O bêbado não precisa matar e a filha do sólido homem não precisa morrer. O passado que ninguém viveu já deu a eles a condição de sólido frágil homem e bêbado mau inumano.

Faltou dizer que o sólido homem um dia falsificou a assinatura do seu pai. Mas essa última falta, sempre faltará.

sábado, junho 24, 2006

Marquetingue

Ttttt
Shlef
Ttttt
Shlef
Andando.
Ssshhh
Hhhsss
Respirando.
Because of you. Because o outro lado da rua.
Ttttt
Shlef
Ignorante ignorada anda ingênua, mão com mão com rebento do rebento. Avó e neto do outro lado da rua.
O que significa downtown a quem downtown é apenas o-centro. N'o-centro, vindos do subúrbio, fazendo seus próprios ttttt e shlef e ssshhh e hhhsss e olham amedrontadas pessoas com medo. Simplicidade.
Diferentes. Sucessivas barrigas rebentadas para o par formar familiar. A perpetuação da espécie e da ignorância.
Os pensamentos falam como. Bocas
Bocas
Palavras
O que as bocas da velha senhora de pele velha falam que sua boca não pode dizer. Velhe pela, otas folhas, língau cunfondadis.
Confundidas.
Um mundo tão velho quanto os sulcos da sua pele. E tão novo. Ttttt shlef do outro lado da rua. Olhos alumbrados. Mundo novo como a mão do neto agarrado pode ser.
Uma abordagem um susto um medo de dizer não um não sei o que faço agora. Técnicas do marketing moderno.
- Marquetingue?
Ela não iria entender. Quié isso mermão? Censor supereguista alienado. Nada mais que a realidade, mermão. Não conseguiria entender jamais.
Financiadoras, franquias, factorings, fomentos, falimentares, faturas, falências, fundações, firmas, faturamento-recorde, folha-de-pagamento, fichas-de-compensação, formulários, fiança, fideicomisso, fateusim.
Felação, fornicação, foda.
Hã?
Because ttttt of shlef you
Ssshhh
Hhhsss
Respiração, passo, pensamento.
- A senhora não quer tomar um cafezinho conosco e conhecer nossas propostas? Terá tudo que precisa.
Não quer e não precisa. Mas quererá e precisará. Isso é marketing!
Entre esgotos a céu aberto e ruas de chão batido onde o passo não é ttttt mas mais surdo um ddddd não há homens de boné vermelho da Finasa Financiadora oferecendo propostas irrecusáveis nas esquinas a quem quer que passe de preferência uma velha sulcada com seu neto ignorante mas não mais ignorada ingênua que não sabe como agir porque não pisa (ttttt shlef) em terreno conhecido entre protocolos já estabelecidos e bem definidos impossibilitada de dizer não porque não sabe o que fazer. Não dizer não.
Não!
- Tá bom.
Marketing e o segredo do sucesso. Um parasita ensinou ao outro que corpo forte se defende, embora tenha sangue.
Milhões de corpos fracos.
Hemoglobina do mercado.
Continuo tttt shlef
Andando.
E ssshhh hhhsss
Respirando.
Pulmões e pernas que eu tenho desse lado da rua. Sei bem fazê-lo downtown. Mas a malbecausedita musicofyou que me grudou na cabeça!

quarta-feira, junho 21, 2006

Poema anal (ou letra para um funk)

Sitibundo
Pela bunda
Do teu mundo
Levantada,

Se te pego
Nua em pêlo
No teu rego
Assanhada,

Te esculacho
Te arregaço:
O teu facho
Eu apago.

sábado, junho 17, 2006

Bloomsday

Minhas mãos medrosas sofrem com a grandeza tirânica da minha cabeça. Como o dedicado cardeal Wolsey sofrendo com os caprichos conjugais de Henrique VII. Traidoras. Olho a bunda redonda da menina que passou ao meu lado, e minha boca é preguiçosa enquanto imagino orgias. Casanova? Meu corpo é mais prudente que minha mente. Segurança do banco de madeira.
Um homem passa e suas mãos batem no bolso de trás. Tranqüilo: ainda a carteira ali. A alma dele ali também, toda a vida dele em volta daquele bolso glúteo. A minha também, desesperadamente também. Desalmados que passam vendendo óculos escuros de marca roubados. “Não, eu não uso óculos escuros, obrigado”. Vá embora que não quero você. Tchau. Tchau! Livre.
Leio um livro grosso. Tanta preguiça nos meus olhos. E minha cabeça tirânica ainda quer ser grande. Hoje, eu consigo dez páginas! Fraco triunfo de pessoa fraca. Quantos livros eu já li? Mais de cem, talvez. Coisa pouca, não lembro de nada. O Graciliano Ramos escreveu e eu li, e depois esqueci. Hoje eu lembro que o antecedeu Jorge Amado, e depois veio Érico Veríssimo. Informações inúteis. Como saber que ontem foi o Bloomsday e eu estou no Brasil sonhando com Dublin.
Tanta coisa eu já pensei e poderia dizer a essa rodinha de velhos aqui atrás. Tanto absurdo que falam. Eles não entenderiam. A seleção não empatou em 2002. Eles não sabem? E se eu entrasse nos meandros da economia para dizer que nem tudo é culpa do governo. E que viados não são doentes. Talvez tenha algum velho inteligente, e eu só me acho esperto porque não digo nada a ninguém. Todo meu sustentáculo de papel evita o vento; não coloco as coisas a perder. Segurança e auto-estima.
Um lábio carnudo comendo cabelos vermelhos. Um desejo só, passa logo. Outra passa, com pernas gordas e cheias de furos. Lipócitos acumulando gordura contra a pele. Eu teria vergonha de usar uma saia curta se tivesse as pernas dela. Mas a calça de tricolina xadrez daquela outra eu quero pra mim. Passei da décima página, posso olhar um pouco mais. A menina não é bonita, mas aquela. Moda. Feios bonitos diferentes. A diferença que o padrão tolera e padroniza. Escandalosos ontem, corriqueiros demais hoje. Também nem tanto, o básico eu vejo sempre e mais. Importante é não sair demais das coisas consagradas. Ser triste é bonito. Ser alegre só com roupas esvoaçantes e cabelos descolados. Importante é pisar em terras conhecidas.
Pessoas caminham bastante, falam pouco. O chão de pedras brancas – que pedra é essa? Só os velhos aqui atrás falam muito. Creio que são surdos, só pode ser isso. Ou sobreviventes da queda de Babel, lingüistas incomunicáveis em monólogos a três. Só sei o que é mármore e granito e ardósia e pedra brita. Que pedra é essa? O chão não escapa, pelo menos na maioria das vezes. Isso explica tudo. Andam mais do que falam porque com os ouvidos e os pensamentos tudo é diferente. São sempre fugidios, ariscos com palavras alheias. A gente pisa e o chão sempre lá. A gente fala...
Uma perna, duas muletas. Bêbado, eu acho. Viu-me. Hey, cara preto, o que é que você faz aqui? “Tem dois reais pruma ajudinha? É pra passagem”. Um e oitenta a passagem, pegar trocado demora muito. Um e oitenta pra passagem, vinte centavos pra se ver livre logo. Dou-lhe alma? Sabe do quê? Almas só servem para nos prender. Dê os cinqüenta, vai. As oncinhas pintadas a ele e eu livre!
Tiro a tartaruga marinha. Dou-lhe. Ganho um sorriso e fico com os cinqüenta. Afinal, eu ainda quero ficar preso e garantir a única essência que conheço de mim.
- Ô, vou te contar um segredo, mas você não pode contar pra ninguém.
- E pra quem que eu vou contar?
Nem sei quem você é. Pára de cuspir, desdentado! Simpatia, eu sou simpático, eu sou amável. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.
- Eu sou cantor.
E eu sou escritor. Você com essa voz e eu com essa letra. Há, há!
- Ah, é? – respondo.
- É sim, mas não conta não.
Ele me toca. Velhos amigos. Metempsicoses e vidas passadas, não sei nada disso. Quem não arrisca, não perde.
- Mas se você é cantor, aí sim que tem que contar.
Cantor contar, serei poeta.
- Não, que me chamam lá pro Ratinho. Daí eu vou ser assaltado em São Paulo.
Ara! Gente ruim. Assaltar esse pobre diabo!
- Ah, bom – concordo, dizer o quê?
- Mas eu tô juntando dinheiro pra fazer uma lanchonete. Aí eu canto.
Lá se vão meus dois reais. Ele continua:
- Eu tô vendo pra fazer uma lanchonete. Dois mil-e quinhentos. Vou emprestar, olha aqui.
Tirou uma porção de notas fiscais de mercado do bolso. Propaganda de cartão de crédito. É dali que ele vai montar a lanchonete com dois mil e quinhentos reais. Santo? A multiplicação dos peixes. Continue conversando.
- E onde vai ser o bar?
- Bar nada! E eu sou gente de cantar em bar? Vai ser uma boate.
Claro.
- Cuide então do dinheiro, que te roubam.
- Roubam nada. Olha aqui, não tenho uma perna. Quem vai me roubar?
Lógico. Mas antes ele estava com medo de São Paulo. Pessoas excêntricas. Será um gênio?
- Sabe, eu tenho uma irmã que trabalha na Unimed. Pergunta lá pelo José.
- José é você?
- É sim. É eu. Mas meu nome de cantor é outro.
- Ah, nome artístico. Tá certo. Qual que é?
- Joelton.
Belíssimo.
- Joelton. Você vai ouvir. Joelton na televisão. Conhece Zezé di Camargo?
- Sei quem é.
- Então, canto que nem ele.
Puxa vida! Pego um autógrafo?
- Parabéns!
- Um dia vou tá lá na chácara dele comendo um churrasco.
- Legal.
Um douto representante da camada de cabelos espevitados e jaquetinha bonita passa por nós. Olha-nos espantado. Coisa estranha, não?
Orgulho-me da minha simpatia com o José. O choque do meu sorriso com o desprezo blasé dos outros.
- ... São Paulo.
- Hã?
- Porque quando eu tiver lá, não vou esquecer de Curitiba não. Eu sou paranaense, volto pra cantar aqui. Imagine. O Ratinho não é paranaense?
Meneio a cabeça: é sim.
- Ele nem volta pra cá. Eu não. Não vou virar a cabeça.
Canso. Quero gente inteligente e calada comigo. Atendo, de mentirinha, o celular. Ah, sim, já vou.
- Valeu, cara! Boa sorte. Eu tenho que andar.
- Vá lá. Você é bonito. E não por causa dos dois aqui que você... E com esse livro aí, estuda bastante. Vai se dar bem. Aí você compra um CD meu.
Vaticínio consolador, realmente. Deixo do pudor, agora te considero indesejável, tchau. Faço questão de cumprimentá-lo mão com mão. Lavado de seu cuspe. João Batista batizando Cristo. Redimo-o. Vá e seja feliz. Vou, sobre o chão seguro, entre pessoas desconhecidas, tão aconchegantes.

sexta-feira, junho 09, 2006

De esporros e assédios morais

Maçãs tensas,
retesadas sobrancelhas.
Sobre as celhas
o pastoso tegumento.

Escondem as paredes
O chão e o teto do trabalho
Pulsões irrefreáveis.

Hierarquiza-se o grito.
O pavilhão que o acomoda
Amedronta-se.

As paredes da intimidade,
Secretíssimas, escondem a paixão
da ira imanifestável.

quinta-feira, junho 01, 2006

Afasto o véu do ar para encontrar-te
e encontro a mim mesmo
atônito:
duvido do ar que afasto.

Incompreensível orbe,
iracundas urbes.
Mundo, que mundo?, que nos rodeia
e me rodeia e me rodeia e me rodeia...