como se
ainda hoje
a maçã pairasse
(e acima da maçã
o talo desertado ainda
nem se desse por rompido)
sobre a física de sonho
de sir Isaac Newton
para que jamais
falássemos de
gravidade
quinta-feira, dezembro 02, 2010
terça-feira, novembro 23, 2010
Le tombeau d'Edgar Poe, de Mallarmé (primeira versão)
Tel qu'en lui-même enfin l'éternité le change
Le poëte suscite avec un hymne nu
Son siècle épouvanté de n'avoir pas connu
Que la mort s'exaltait dans cette voix étrange.
Mais, comme un vil tressaut d'hydre, oyant jadis l'ange
Donner un sens trop pur aux mots de la tribu,
Tous pensèrent entre eux le sortilège bu
Chez le flot sans honneur de quelque noir mélange.
Du sol et de l'éther hostiles, ô grief!
Si mon idée avec ne sculpte un bas-relief
Dont la tombe de Poe éblouissante s'orne,
Sombre bloc à jamais chu d'un désastre obscur,
Que ce granit du moins montre à jamais sa borne
Aux vieux vols de blasphème épars dans le futur.
[Tanto quanto em si mesmo a eternidade enfim o muda/O poeta suscita com um hino nu/Seu século aterrorizado por não ter sabido/Que a morte se exaltava nessa voz estranha.//Mas, como um tremor de hidra, ouvindo certa vez o anjo/Dar um sentido bastante puro às palavras da tribo,/Todos pensaram entre si em algum feitiço bebido/no fluido desonrado de alguma mistura negra.//Do solo e do éter hostis, ó penas!/Se minha ideia não esculpe um baixo-relevo/Com o qual se orne a tumba ofuscante de Poe,//Bloco sombrio para sempre caído de um desastre obscuro,/Que este granito ao menos mostre para sempre seu marco/Aos velhos vôos de blasfêmia espalhados no futuro]
Le poëte suscite avec un hymne nu
Son siècle épouvanté de n'avoir pas connu
Que la mort s'exaltait dans cette voix étrange.
Mais, comme un vil tressaut d'hydre, oyant jadis l'ange
Donner un sens trop pur aux mots de la tribu,
Tous pensèrent entre eux le sortilège bu
Chez le flot sans honneur de quelque noir mélange.
Du sol et de l'éther hostiles, ô grief!
Si mon idée avec ne sculpte un bas-relief
Dont la tombe de Poe éblouissante s'orne,
Sombre bloc à jamais chu d'un désastre obscur,
Que ce granit du moins montre à jamais sa borne
Aux vieux vols de blasphème épars dans le futur.
[Tanto quanto em si mesmo a eternidade enfim o muda/O poeta suscita com um hino nu/Seu século aterrorizado por não ter sabido/Que a morte se exaltava nessa voz estranha.//Mas, como um tremor de hidra, ouvindo certa vez o anjo/Dar um sentido bastante puro às palavras da tribo,/Todos pensaram entre si em algum feitiço bebido/no fluido desonrado de alguma mistura negra.//Do solo e do éter hostis, ó penas!/Se minha ideia não esculpe um baixo-relevo/Com o qual se orne a tumba ofuscante de Poe,//Bloco sombrio para sempre caído de um desastre obscuro,/Que este granito ao menos mostre para sempre seu marco/Aos velhos vôos de blasfêmia espalhados no futuro]
segunda-feira, novembro 22, 2010
Sonhadas
Sonhei: um livro me escrevia
caudaloso me citava
escandaloso me deixava
em branco no pé da página.
Sonhei: admito que sonhava
completamente referido
sonhei que virava livro
de verdades deslavadas.
caudaloso me citava
escandaloso me deixava
em branco no pé da página.
Sonhei: admito que sonhava
completamente referido
sonhei que virava livro
de verdades deslavadas.
domingo, novembro 14, 2010
Platão, Epigrama VII
Μῆλον ἐγώ, βάλλει με φιλῶν σέ τις· ἀλλ' ἐπίνευσον,
Ξανθίππη· κἀγὼ καὶ σὺ μαραινόμεθα.
Sou uma maçã, e lanço-me ao teu beijo. Diz sim,
Xantipa: também tu e eu perecemos.
sábado, novembro 13, 2010
Arquíloco, Fragmento 19
οὔ μοι τὰ Γύγεω τοῦ πολυχρύσου μέλει,
οὐδ' εἷλέ πώ με ζῆλος, οὐδ' ἀγαίομαι
θεῶν ἔργα, μεγάλης δ' οὐκ ἐρέω τυραννίδος·
ἀπόπροθεν γάρ ἐστιν ὀφθαλμῶν ἐμῶν.
pouco se me dá o ouro
de Giges Cheiodouro
não envergo por aí o olho gordo
não invejo os feitos dos Altíssimos
nem me boquiabre o V. Excelência
de um homem poderoso:
tão longe estão do horizonte de meus olhos
quinta-feira, novembro 11, 2010
Epigrama
Caminhante: esse ar plebeu
cede à decisão de teu passo
lâmina e habita os confins
de tua iniciativa. Ouve,
porém, minha lápide guia:
por aí, na cortina que
recua à tua tirania,
te contempla, manso mas vivo,
o teu último suspiro.
cede à decisão de teu passo
lâmina e habita os confins
de tua iniciativa. Ouve,
porém, minha lápide guia:
por aí, na cortina que
recua à tua tirania,
te contempla, manso mas vivo,
o teu último suspiro.
domingo, novembro 07, 2010
segunda-feira, outubro 25, 2010
poéticas
encontrar entre as paredes
uma palavra de barro
entre as ruas uma frase
de asfalto entre as bocas
um desumano jardim
nos urbanos marfins
a letra dental sobre
os ortos e certos
em vulgar pedestal
de barro asfalto e concreto
uma palavra de barro
entre as ruas uma frase
de asfalto entre as bocas
um desumano jardim
nos urbanos marfins
a letra dental sobre
os ortos e certos
em vulgar pedestal
de barro asfalto e concreto
quinta-feira, outubro 14, 2010
This is just to say
Poema de William Carlos William, traduzido por mim.
Justo por dizer
Eu comi
aquelas ameixas
que estavam
na geladeira
e que você
provavelmente estava
guardando
para o café
Desculpa
elas eram deliciosas
doces assim
e tão frias
terça-feira, setembro 21, 2010
sábado, setembro 18, 2010
Contra a poesia
Resto de janta abaianada.
João Cabral de Melo Neto
Tudo é moldura e cobertura,
luta injusta contra a revolta
de um nada feito da poeira
ínfera de realidade.(Não melenas, o livro escrito,
a prenhez do gênio que pinta,
mas a abortada folha branca
sob a madeixa - pluma e cera.)
Ardil materno da semente:
desertos vigem na raiz
de tela calva que aferra a tinta
à feliz folhagem, e erosiva.
sexta-feira, setembro 10, 2010
Pensées de Pascal - II. O pacote "Vanité" - fragmento 11
Dois rostos semelhantes, dos quais nenhum faz rir em particular, fazem rir juntos por sua semelhança.
quarta-feira, setembro 08, 2010
Pensées de Pascal - I. O pacote "Ordre": fragmento 1
Tradução minha
Os salmos cantados por toda a terra.
Quem dá testemunho de Maomé? ele mesmo. Jesus Cristo quer que seu testemunho não seja nada.
A condição de testemunhas faz ser necessário que elas sejam para sempre e por toda parte, e, miserável, ele está só.
Os salmos cantados por toda a terra.
Quem dá testemunho de Maomé? ele mesmo. Jesus Cristo quer que seu testemunho não seja nada.
A condição de testemunhas faz ser necessário que elas sejam para sempre e por toda parte, e, miserável, ele está só.
terça-feira, agosto 24, 2010
Chacun sa Chimère
l'irrésistible Indifférence
Baudelaire
sob a cúpula spleenética do céu
também me fui com minha Quimera
que jamais vi com estes olhos
nos fortuitos espelhos d'água:
não reconheci, se foi um Sonho,
sobre o desolado solo deste sono
sexta-feira, agosto 06, 2010
Sobre o direito, os advogados e os juízes, por Jonathan Swift
Tenho lido, com alguma demora para melhorar meu inglês, o livro Gulliver's Travels, de Jonathan Swift. O livro pode ser lido sob duas perspectivas principais: a primeira é a daquele que parte do desenho da Disney, procurando um livro de aventuras marítimas. Nesse ponto, o livro é no máximo agradável, mas nada muito surpreendente; a menos não para nós, que na era do cinema e da animação já presenciamos aventuras as mais fascinantes. Até porque o livro é um festival de dii ex machina, o que se justifica na segunda perspectiva. Esta, que leva em consideração que Swift pretendeu realizar uma obra satírica que ri tanto das narrativas de viagens marítimas exageradas que abundavam no século XVIII quanto da própria condição humana do homem europeu na política moderna, torna o livro uma peça rara. Todos os males da política ocidental são relatadas por Gulliver, o narrador, do modo mais circunstancial; quero dizer, os escândalos, já que tão recorrentes no cotidiano político e social ocidental, são relatados como naturais ao homem de razão. Assim, Gulliver fala para os povos que visita, sem atribuir-lhes a menor gravidade, de corrupções, de invenções de guerra (pólvora e armas em geral), da matança bélica, da mentira, de leviandades, da nobreza suja, do jogo, da prostituição. (Sim, a sátira, desde pelo menos Aristófanes é um negócio bem moralista). Se os habitantes desses diferentes e desconhecidos países estranham como Gulliver chama tais coisas de 'wonders of Europe', nosso viajante põe tal opinião na conta de sua ignorância e de seu atraso. Veja-se, por exemplo, o trecho que traduzo abaixo, porque ler em inglês me dá uma baita vontade de traduzir. Ele é retirado do capítulo 5 da quarta parte, a parte em que Gulliver conhece a terra dos Houyhnhnms (leia-o como estivesse relinchando), cavalos racionais e falantes, que vivem em uma comunidade pacífica e contida em suas paixões. Ao fundo do escrito, vê-se uma concepção bastante liberal do direito, calcada na propriedade, como esperaríamos de uma mente liberal da Grã-Bretanha do início do século XVIII. O conflito que ele estabelece se dá justamente por esse fundamento jurídico, uma e outra parte reivindicando justamente a propriedade. Não obstante, importa aqui ver como desde os apologistas antigos o direito é visto como um serviço de retórica para provar o falso, sendo a verdade que lhe é oposta tida como correspondência platônica, não o desencobrimento do ser, diria Heidegger. Importa, portanto, como mostrou Todorov ao analisar a Conquista da América, tentando assumir o ponto de vista indígena, mostrar como a mentira - "the thing which was not", segundo os Houyhnhnms, na falta de palavras para designá-la - não é conceito universalizável, e, deste modo, a verdade que lhe corresponde tampouco o é. O segundo ponto que me interessa no trecho é a existência de uma justiça comum em oposição à justiça técnica, o que evidencia que a justiça é antes um tema político que de experts e que a técnica está subordinada a algum ato originário, uma violência arbitrariamente consensual como fundamento primevo e recalcado do direito, e que dentre outras funções tem a de separar o cidadão da verdade de sua causa, de sua possibilidade de desencobri-la, descobri-la, argui-la; enfim, dizê-la ("é contra todas as regras das leis que se permita a qualquer homem que ele fale por si mesmo"):
Ele [o mestre de Gulliver dentre os Houyhnhnms] acrescentou que ouvira demais sobre o assunto da guerra, tanto nesta quanto em algumas conversas anteriores. Naquele momento, havia outro ponto que o deixava perplexo. Eu tinha dito que alguns de nossos tripulantes deixaram seu país por terem sido arruinados pela "lei". Que eu já havia explicado o significado da palavra, mas ele não entendeu como ocorria que a lei, que era feita para a preservação de todo homem, pudesse ser a ruína de alguém. Então ele quis mais satisfações quanto ao que eu quis dizer por "lei" e seus operadores, de acordo com a presente prática no meu país. Porque ele pensava que a natureza e a razão eram guias suficientes para um animal racional, como pretendíamos ser, mostrando-nos o que nós devemos fazer e o que evitar.
Assegurei a Sua Reverência que a lei era uma ciência com a qual não tive muito contato, senão pela contratação, em vão, de advogados para uma questão envolvendo algumas injustiças que me foram feitas. Mesmo assim, eu lhe daria toda as informações de que eu tinha conhecimento.
Disse que havia uma sociedade de homens entre nós criados desde sua juventude na arte de provar por meio das palavras (palavras essas multiplicadas em seu propósito) que branco era preto e preto era branco, de acordo com o que eram pagos. Para essa sociedade, todas as pessoas eram escravas.
Por exemplo: se meu vizinho se interessar pela minha vaca, ele contrata um advogado para provar que ele deve tomar a vaca de mim. E eu devo então contratar outro para defender meu direito, uma vez que é contra todas as regras das leis que se permita a qualquer homem que ele fale por si mesmo. Agora, neste caso, eu, que sou o verdadeiro proprietário, tenho duas grandes desvantagens. Primeiro, meu advogado, sendo experto quase desde o berço em defender a falsidade, está bastante fora de seu lugar quando deve advogar do lado da justiça, coisa que - como um ofício inatural - ele sempre tenta com grande embaraço, senão com má-vontade. A segunda desvantagem é que meu procurador deve proceder com grande cautela, ou então será repreendido pelos juízes e abominado por seus confrades como aquele que enfraquece a prática do direito. Em sendo assim, eu tenho apenas dois métodos para preservar minha vaca. O primeiro é conquistar o procurador de meu adversário com duplos honorários - o qual então irá trair seu cliente insinuando que a justiça está do seu lado. O segundo caminho é fazer meu procurador aparentar a minha causa como a mais injusta possível, concedendo que a vaca pertence ao meu adversário - e isso, se feito com habilidade, certamente me atrairá o favor do tribunal.
Agora, Sua Reverência deve saber que esses juízes são pessoas designadas a decidir todas as controvérsias sobre a propriedade, bem como o processamento dos criminosos, e são escolhidas dentre os mais habilidosos advogados que vão envelhecendo ou tornando-se preguiçosos; e, tendo eles baseado as suas vidas contra a verdade e a equidade, têm tamanha e fatal necessidade de favorecer a fraude, o perjúrio e a opressão que eu soube que alguns deles preferiram recusar um belo suborno vindo do lado onde estava a justiça a injuriar sua competência, realizando qualquer coisa que fosse contra a natureza de seu ofício.
É uma máxima, entre esses advogados, que o que quer que tenha sido feito antes seja feito novamente. E assim eles tomam o especial cuidado de registrar todas as decisões formalmente feitas contra a justiça comum e a razão geral da humanidade. Essas decisões, sob o nome de "precedentes", eles produzem como autoridades para justificar as opiniões mais iníquas - e os juízes nunca falham em segui-las.
Em juízo, eles calculadamente evitam entrar no mérito da causa, mas são sonoros, violentos e cansativos ao lidar com todas as circunstâncias que não se ligam ao pedido. Por exemplo, no caso já mencionado, eles nunca querem saber que direito ou título meu adversário tem sobre a minha vaca, mas se a dita vaca era vermelha ou preta, seus chifres longos ou curtos, se o campo em que eu lhe dava de pastar era redondo ou quadrado, se ela era ordenhada na estrebaria ou ao ar livre, a quais doenças ela estava sujeita, e assim por diante. Depois do que eles consultam os precedentes, suspendem a causa de tempos em tempos, e em dez, doze ou trinta anos chegam a algum resultado.
Deve-se igualmente ser observado que essa sociedade tem um calão peculiar e um jargão próprio que nenhum outro mortal pode entender e no qual todas as leis são escritas, as quais eles têm o especial cuidado de multiplicar; de sorte que eles confundiram completamente a essência mesma da verdade e da falsidade, do certo e do errado. Disso resulta que passarão trinta anos para decidir se o campo, legado pelos meus ancestrais por seis gerações, pertencem a mim ou a estranhos a trezentas milhas de distância.
No processamento de pessoas acusadas por crimes contra o estado, o procedimento é mais curto e elogiável. O juiz primeiro manda ouvir a inclinação daqueles que estão no poder, e então ele pode tranquilamente enforcar ou salvar o criminoso, preservando de modo estrito as formas da lei.
Aqui, meu mestre, interpondo-se, disse que era uma pena que criaturas dotadas de tão prodigiosas habilidades mentais - como tais advogados deviam ser, pela descrição que deles dei -, não eram ao contrário encorajadas a ser preceptoras dos outros na sabedoria e no conhecimento. Em resposta, assegurei a Sua Reverência que em todos os aspectos de seu próprio ofício eles usualmente eram a geração mais ignorante e estúpida entre nós, a mais desprezível na conversação comum, inimigos anunciados de todo conhecimento e ciência, e igualmente dispostos a perverter a razão geral da humanidade em qualquer outro tópico do discurso como em sua própria profissão.
Ele [o mestre de Gulliver dentre os Houyhnhnms] acrescentou que ouvira demais sobre o assunto da guerra, tanto nesta quanto em algumas conversas anteriores. Naquele momento, havia outro ponto que o deixava perplexo. Eu tinha dito que alguns de nossos tripulantes deixaram seu país por terem sido arruinados pela "lei". Que eu já havia explicado o significado da palavra, mas ele não entendeu como ocorria que a lei, que era feita para a preservação de todo homem, pudesse ser a ruína de alguém. Então ele quis mais satisfações quanto ao que eu quis dizer por "lei" e seus operadores, de acordo com a presente prática no meu país. Porque ele pensava que a natureza e a razão eram guias suficientes para um animal racional, como pretendíamos ser, mostrando-nos o que nós devemos fazer e o que evitar.
Assegurei a Sua Reverência que a lei era uma ciência com a qual não tive muito contato, senão pela contratação, em vão, de advogados para uma questão envolvendo algumas injustiças que me foram feitas. Mesmo assim, eu lhe daria toda as informações de que eu tinha conhecimento.
Disse que havia uma sociedade de homens entre nós criados desde sua juventude na arte de provar por meio das palavras (palavras essas multiplicadas em seu propósito) que branco era preto e preto era branco, de acordo com o que eram pagos. Para essa sociedade, todas as pessoas eram escravas.
Por exemplo: se meu vizinho se interessar pela minha vaca, ele contrata um advogado para provar que ele deve tomar a vaca de mim. E eu devo então contratar outro para defender meu direito, uma vez que é contra todas as regras das leis que se permita a qualquer homem que ele fale por si mesmo. Agora, neste caso, eu, que sou o verdadeiro proprietário, tenho duas grandes desvantagens. Primeiro, meu advogado, sendo experto quase desde o berço em defender a falsidade, está bastante fora de seu lugar quando deve advogar do lado da justiça, coisa que - como um ofício inatural - ele sempre tenta com grande embaraço, senão com má-vontade. A segunda desvantagem é que meu procurador deve proceder com grande cautela, ou então será repreendido pelos juízes e abominado por seus confrades como aquele que enfraquece a prática do direito. Em sendo assim, eu tenho apenas dois métodos para preservar minha vaca. O primeiro é conquistar o procurador de meu adversário com duplos honorários - o qual então irá trair seu cliente insinuando que a justiça está do seu lado. O segundo caminho é fazer meu procurador aparentar a minha causa como a mais injusta possível, concedendo que a vaca pertence ao meu adversário - e isso, se feito com habilidade, certamente me atrairá o favor do tribunal.
Agora, Sua Reverência deve saber que esses juízes são pessoas designadas a decidir todas as controvérsias sobre a propriedade, bem como o processamento dos criminosos, e são escolhidas dentre os mais habilidosos advogados que vão envelhecendo ou tornando-se preguiçosos; e, tendo eles baseado as suas vidas contra a verdade e a equidade, têm tamanha e fatal necessidade de favorecer a fraude, o perjúrio e a opressão que eu soube que alguns deles preferiram recusar um belo suborno vindo do lado onde estava a justiça a injuriar sua competência, realizando qualquer coisa que fosse contra a natureza de seu ofício.
É uma máxima, entre esses advogados, que o que quer que tenha sido feito antes seja feito novamente. E assim eles tomam o especial cuidado de registrar todas as decisões formalmente feitas contra a justiça comum e a razão geral da humanidade. Essas decisões, sob o nome de "precedentes", eles produzem como autoridades para justificar as opiniões mais iníquas - e os juízes nunca falham em segui-las.
Em juízo, eles calculadamente evitam entrar no mérito da causa, mas são sonoros, violentos e cansativos ao lidar com todas as circunstâncias que não se ligam ao pedido. Por exemplo, no caso já mencionado, eles nunca querem saber que direito ou título meu adversário tem sobre a minha vaca, mas se a dita vaca era vermelha ou preta, seus chifres longos ou curtos, se o campo em que eu lhe dava de pastar era redondo ou quadrado, se ela era ordenhada na estrebaria ou ao ar livre, a quais doenças ela estava sujeita, e assim por diante. Depois do que eles consultam os precedentes, suspendem a causa de tempos em tempos, e em dez, doze ou trinta anos chegam a algum resultado.
Deve-se igualmente ser observado que essa sociedade tem um calão peculiar e um jargão próprio que nenhum outro mortal pode entender e no qual todas as leis são escritas, as quais eles têm o especial cuidado de multiplicar; de sorte que eles confundiram completamente a essência mesma da verdade e da falsidade, do certo e do errado. Disso resulta que passarão trinta anos para decidir se o campo, legado pelos meus ancestrais por seis gerações, pertencem a mim ou a estranhos a trezentas milhas de distância.
No processamento de pessoas acusadas por crimes contra o estado, o procedimento é mais curto e elogiável. O juiz primeiro manda ouvir a inclinação daqueles que estão no poder, e então ele pode tranquilamente enforcar ou salvar o criminoso, preservando de modo estrito as formas da lei.
Aqui, meu mestre, interpondo-se, disse que era uma pena que criaturas dotadas de tão prodigiosas habilidades mentais - como tais advogados deviam ser, pela descrição que deles dei -, não eram ao contrário encorajadas a ser preceptoras dos outros na sabedoria e no conhecimento. Em resposta, assegurei a Sua Reverência que em todos os aspectos de seu próprio ofício eles usualmente eram a geração mais ignorante e estúpida entre nós, a mais desprezível na conversação comum, inimigos anunciados de todo conhecimento e ciência, e igualmente dispostos a perverter a razão geral da humanidade em qualquer outro tópico do discurso como em sua própria profissão.
domingo, agosto 01, 2010
Jonathan Swift, inventor do dadaísmo
Trecho extraído do Capítulo 5 da terceira parte das Viagens de Gulliver. Tradução minha.
Nós atravessamos a rua rumo à outra parte da academia, onde - como eu havia dito - os projetistas em ciência especulativa residiam.
Vi o primeiro professor numa sala bastante grande, quarenta pupilos consigo. Após os cumprimentos, ao notar que eu examinava gravemente uma estrutura que tomava a maior parte da sala, tanto no comprimento quanto na largura, ele disse que talvez eu quisesse testemunhá-lo envolvido num projeto destinado ao aumento do conhecimento especulativo através de operações mecânicas e práticas. Mas o mundo logo seria sensível a sua utilidade, e ele persuadiu-se a si mesmo dizendo que o mais nobre e exaltado pensamento nunca recuaria diante de nenhuma outra mente humana. Todos sabiam quão laborioso era o método convencional de alcançar a arte e as ciências, enquanto que pelo seu engenho a pessoa mais ignorante, com um esforço razoável e pouco trabalho braçal, poderia escrever livros de filosofia, poesia, política, direito, matemática e teologia sem a menor ajuda do gênio ou do estudo. Ele então me levou àquela estrutura, em cujos lados todos seus pupilos se alinharam. Tinha vinte pés quadrados, colocada no meio da sala. As superfícies eram compostas de inúmeros pedaços de madeira, com o tamanho aproximado de um dado, algo maiores. Eles estavam todos ligados por delgados cabos. Esses pedaços de madeira eram cobertos em cada lado com papel colado, e nesses papéis estavam escritas todas as palavras da sua língua. O professor então quis que eu observasse, pois ele ia botar sua engenhoca para trabalhar. Os pupilos, ao seu comando, seguraram cada um uma alavanca de ferro, havendo quarenta delas fixadas em torno das extremidades da estrutura, e dando a elas uma repentina puxada toda a disposição de palavras foi inteiramente modificada. Ele então ordenou que trinta e seis de seus rapazes lessem as inúmeras linhas suavemente na ordem em que elas apareciam sobre a estrutura; e onde eles achavam três ou quatro palavras juntas que pudessem formar parte de uma sentença, eles ditavam aos quatro meninos restantes, que eram escribas. Esse trabalho se repetia três ou quatro vezes, e em cada vez a engenhoca estava projetada para que as palavras alternassem os lugares à medida que os pedaços quadrados de madeira se moviam de cima para baixo.
Seis horas por dia os jovens estudantes se dedicavam a esse trabalho, e o professor me mostrou vários volumes em gran fólio com as sentenças parciais já coletadas, as quais ele tencionava juntar e dar ao mundo, a partir desses ricos substratos, um corpo completo de todas as artes e ciências, que no entanto poderiam ainda ser aperfeiçoadas e mais desembaraçadas se o público levantasse um fundo destinado à construção e ao emprego de quinhentas dessas estruturas em Lagado e obrigasse os usuários a contribuir com várias coleções em comum.
Ele me assegurou que essa invenção ocupou todo o seu pensamento desde sua juventude; que ele esvaziou todo o vocabulário nessa estrutura e fez o cálculo mais rigoroso da proporção geral que há nos livros entre os números de partículas, nomes e verbos, além de outras partes do discurso.
Eu dei meus mais humildes agradecimentos a esta pessoa ilustre por sua grande comunicabilidade, e prometi que se eu tivesse a boa sorte de retornar ao meu país lhe faria justiça como o único inventor dessa máquina maravilhosa - cuja forma e o projeto eu gostaria, com sua licença, de delinear no papel, como na figura aqui anexada. Disse-lhe que embora fosse o costume dos nossos estudiosos na Europa roubar invenções um do outro - quem por isso teria pelo menos essa vantagem: a de que se tornava uma controvérsia quem era o justo proprietário - ainda assim eu tomaria tantos cuidados que ele teria toda a honra sem qualquer rival.
Nós atravessamos a rua rumo à outra parte da academia, onde - como eu havia dito - os projetistas em ciência especulativa residiam.
Vi o primeiro professor numa sala bastante grande, quarenta pupilos consigo. Após os cumprimentos, ao notar que eu examinava gravemente uma estrutura que tomava a maior parte da sala, tanto no comprimento quanto na largura, ele disse que talvez eu quisesse testemunhá-lo envolvido num projeto destinado ao aumento do conhecimento especulativo através de operações mecânicas e práticas. Mas o mundo logo seria sensível a sua utilidade, e ele persuadiu-se a si mesmo dizendo que o mais nobre e exaltado pensamento nunca recuaria diante de nenhuma outra mente humana. Todos sabiam quão laborioso era o método convencional de alcançar a arte e as ciências, enquanto que pelo seu engenho a pessoa mais ignorante, com um esforço razoável e pouco trabalho braçal, poderia escrever livros de filosofia, poesia, política, direito, matemática e teologia sem a menor ajuda do gênio ou do estudo. Ele então me levou àquela estrutura, em cujos lados todos seus pupilos se alinharam. Tinha vinte pés quadrados, colocada no meio da sala. As superfícies eram compostas de inúmeros pedaços de madeira, com o tamanho aproximado de um dado, algo maiores. Eles estavam todos ligados por delgados cabos. Esses pedaços de madeira eram cobertos em cada lado com papel colado, e nesses papéis estavam escritas todas as palavras da sua língua. O professor então quis que eu observasse, pois ele ia botar sua engenhoca para trabalhar. Os pupilos, ao seu comando, seguraram cada um uma alavanca de ferro, havendo quarenta delas fixadas em torno das extremidades da estrutura, e dando a elas uma repentina puxada toda a disposição de palavras foi inteiramente modificada. Ele então ordenou que trinta e seis de seus rapazes lessem as inúmeras linhas suavemente na ordem em que elas apareciam sobre a estrutura; e onde eles achavam três ou quatro palavras juntas que pudessem formar parte de uma sentença, eles ditavam aos quatro meninos restantes, que eram escribas. Esse trabalho se repetia três ou quatro vezes, e em cada vez a engenhoca estava projetada para que as palavras alternassem os lugares à medida que os pedaços quadrados de madeira se moviam de cima para baixo.
Seis horas por dia os jovens estudantes se dedicavam a esse trabalho, e o professor me mostrou vários volumes em gran fólio com as sentenças parciais já coletadas, as quais ele tencionava juntar e dar ao mundo, a partir desses ricos substratos, um corpo completo de todas as artes e ciências, que no entanto poderiam ainda ser aperfeiçoadas e mais desembaraçadas se o público levantasse um fundo destinado à construção e ao emprego de quinhentas dessas estruturas em Lagado e obrigasse os usuários a contribuir com várias coleções em comum.
Ele me assegurou que essa invenção ocupou todo o seu pensamento desde sua juventude; que ele esvaziou todo o vocabulário nessa estrutura e fez o cálculo mais rigoroso da proporção geral que há nos livros entre os números de partículas, nomes e verbos, além de outras partes do discurso.
Eu dei meus mais humildes agradecimentos a esta pessoa ilustre por sua grande comunicabilidade, e prometi que se eu tivesse a boa sorte de retornar ao meu país lhe faria justiça como o único inventor dessa máquina maravilhosa - cuja forma e o projeto eu gostaria, com sua licença, de delinear no papel, como na figura aqui anexada. Disse-lhe que embora fosse o costume dos nossos estudiosos na Europa roubar invenções um do outro - quem por isso teria pelo menos essa vantagem: a de que se tornava uma controvérsia quem era o justo proprietário - ainda assim eu tomaria tantos cuidados que ele teria toda a honra sem qualquer rival.
Anistiadas
Num porão a carne
macetada não diz
nem oculta, encarna
a história, significa
a tortura, fossiliza
a derrota. Num fórum
o juiz cordial
não pune nem julga,
segue a praxe de
estilo, saca o código
de plásticas, pinta
a carne de oblívio.
macetada não diz
nem oculta, encarna
a história, significa
a tortura, fossiliza
a derrota. Num fórum
o juiz cordial
não pune nem julga,
segue a praxe de
estilo, saca o código
de plásticas, pinta
a carne de oblívio.
O acaso
αἰὼν παῖς ἐστι παίζων, πεσσεύων·
παιδὸς
ἡ βασιληίη
("O tempo é uma criança que brinca, jogando damas.
Da criança é o reino.")
Heráclito
"ó acaso, vespa
oculta nas vagas
dobras da alva
distração"
João Cabral de Melo Neto
existe além de tudo
o acaso
exercício de uma criança
que joga damas
uma criança:
- desafio de homem;
- tempo dos distraídos
despossíveis no mar de dados
o dado:
posto que "tido por"
(desmemória de coisa)
não tem lados
tem acasos.
evidentes impensados
na desluz do homem
desafiado
quinta-feira, julho 22, 2010
Visões do Processo no século XX: Leopold Bloom no Rol dos Culpados
A propósito do 15º episódio de Ulisses, de James Joyce. Aquele que, na 1ª edição, quando os episódios tinham títulos homéricos, fora alcunhado de Circe.
Citações conforme a tradução de Caetano Galindo, ainda inédita.
Citações conforme a tradução de Caetano Galindo, ainda inédita.
Para mim, Ulisses de James Joyce é uma obra realista, e num dos mais altos graus. Sim, uma obra que conserva o caráter de um acontecimento da (vamos dizê-la) posmodernidade não deixa de ser realista por não pertencer à escola novecentista. Seu realismo é o do século XX, e não o do século XIX, este marcado pelo determinismo e pelo psicologismo explícito. Não poderíamos, no entanto, ao negar-lhe o realismo, classificar de fantasia uma obra tão cotidiana, com puns e cocôs; com cornos e problemas financeiros; com referências a Tomás de Aquino e a Shakespeare; e, principalmente, com fantasmas.
Alto lá! Uma visão superficial do realismo impugnaria desde já a presença dos fantasmas. Afinal, o que há de real nas aparições fantasmagóricas? Nada, se se procurar nelas alguma realidade dura, empírica, verificável e mensurável em tubos de ensaio; mas talvez não há o que seja mais real no ser humano, pelo menos em seus efeitos, que fantasmas. Atento a isso, o realismo do século XX soube trazer sob suas asas o governo do inconsciente, do sonho, da memória – essa sempre em alguma medida ficcionalizada – e da parcela incontrolável da própria linguagem do homem; que, sabemos, não é dele: é dos homens.
Por isso o episódio Circe deve ser levado a sério. Não se trata de uma série de brincadeiras ou de fantasmagorias gratuitas, de alucinações sem sentido que devemos atribuir à bebida. As narrativas paralelas entre realidade e imaginação não são distinguíveis estruturalmente no texto, e embora se possam esquematizá-las para estabelecer os fatos ocorridos no episódio, não devem ser de todo separadas na leitura. Além disso, sequer entendemos que as alucinações ocorrem no modo de alucinações, isto é, de realidades não factuais mas experimentadas sensorialmente pelas personagens. Há ainda níveis mais profundos que devem ser clareados. Por ter sido escrito sob a forma do sonho – lembremos que as alucinações em questão são sempre ocorrências estritamente vinculáveis aos acontecimentos do dia narrado no livro, como ocorre com o mecanismo onírico descrito por Freud e lido por Joyce -, mas referidos a personagens despertas, devemos interpretar os fantasmas como realidades do inconsciente, sub-reptícias, inenarráveis, incompreensíveis e irrecuperáveis para os que as experimentam. Bloom não sente medo porque realmente vê, no modo de alucinação, crianças subindo postes ou mulheres guardando portais do inferno; mas porque essas visões são incitadas em seu inconsciente pela forma como absorve a simbologia do lugar escuro, sujo, e cheio de perdição sexual que Bloom frequenta ali. Do mesmo modo, ele não procura a todo momento se desculpar por ser flagrado na zona do meretrício pelas alucinações: o que ele sente é a culpa que lhe inculca o próprio ser. Por isso os fantasmas são reais; não como projeções sensoriais, mas como projeções inconscientes do próprio imaginário sobre a simbologia do ambiente que lhe envolve.
Obviamente, dada a presença constante da fantasmagoria nos nossos processos mentais, caberia a pergunta: por que ser utilizada especificamente neste episódio, não nos demais? Arrisco uma resposta, provisória como todas, para além do álcool tomado no Gado do Sol, o episódio anterior, ou durante o que aconteceu entre aquele e este episódio, o de Circe: justamente porque estamos num ambiente escuro, sujo e cheio de perdição sexual; ambiente esse socialmente recalcado e estigmatizado, que, por sua vez, faz o sujeito se confrontar mais terrível e abertamente com os próprios recalques, ou seja, os ambientes recônditos do seu espírito, onde há escuridão, sujeira e perdição sexual.
E culpa.
Estabelecidos esses pressupostos, gostaria de trazer à baila uma passagem específica das alucinações bloomianas. Aquela em que, sendo flagrado alimentando o cachorro com a comida que havia comprado há pouco, Bloom é submetido a uma corte de justiça em que é acusado de vários outros crimes, como o de ter se limpado ao cagar com o conto de Beaufoy horas antes; ou o caso da empregada que, segundo Molly, ele haveria bolinado, a que se seguem várias outras mulheres possivelmente desejadas por Bloom. No final, a alucinação leva-o à inevitável condenação.
O trecho em questão ocorre ainda no início do episódio, antes da entrada de Bloom no bordel de Bella Cohen. Desde o começo de Circe, Bloom é confrontado com a culpa: um brilho lhe evoca Blazes Boylan; uma figura que lhe fala em gaélico o faz pensar em alguma espionagem dos nacionalistas, de quem já foi vítima no correr do dia; o dinheiro gasto com a comida que daria a Stephen é repreendido pela aparição do pai, sob a figura mais arquetípica do judeu de hábitos financistas (um sábio de Sião...) etc. Até a culpa por não ter ainda pago o sabonete que pegara pela manhã na farmácia o acossa!
Bloom vai percorrendo os fantasmas de culpa a culpa, até finalmente alimentar com o mocotó recém-comprado o cachorro e ser acusado pelos vigias de crueldade contra animais. O que inexoravelmente leva à instauração do tribunal.
E aqui o livro chega a um topos da literatura: o do julgamento. Interessa-nos aqui, sobretudo, as variações do topos no século XX, dentre as quais sobressaem-se duas: a de Josef K., n’O processo de Kafka, e a de Mersault, n’O estrangeiro de Camus. Nessa tríade temos três níveis de julgamento: o imaginário de Bloom; o simbólico de K.; e o real de Mersault. Bloom é julgado pelas culpas inconscientes que carrega consigo; K. por uma estrutura artificial que lhe é externa e ao mesmo tempo lhe determina; Mersault por um assassinato real mas por uma corte que é inacessível à sua palavra. Em comum nos três julgamentos está a culpa pressuposta, anterior ao veredito. Não há, pois, defesa possível. Quando K. tenta realizá-la, o procedimento é desconhecido (como o simbólico que nos determina sem que, na maioria das vezes, tenhamos ciência) e os espaços são claustrofóbicos, os discursos são inexpressivos e a situação aterradora, e isso até o ponto em que se consiga perceber que “[…] no fundo a lei não admitia nenhuma defesa, mas tão-somente a tolerava”. Mersault, assassino verdadeiro, via o processo desenvolver-se como uma mera representação teatral, da qual ele era um espectador: “De algum modo, pareciam tratar deste caso à margem de mim. Tudo se desenrolava sem a minha intervenção. Acertavam o meu destino, sem me pedir a opinião. De vez em quando tinha vontade de interromper todo mundo e dizer: ‘Mas afinal quem é o acusado? É importante ser o acusado. E tenho algo a dizer’”. Aqui o real se revela como aquilo que sobra de todo imaginário e simbólico: mesmo tendo algo a dizer, Mersault não tinha nada. Não havia defesa. E sua culpa veio menos da morte de um estrangeiro qualquer que do relevantíssimo fato de ele não ter chorado no velório da própria mãe. Quase um Stephen Dedalus.
No processo do Bloom, a situação se repete. Com a diferença de que o veredito depende dele mesmo, pois é imaginário. Na primeira vez em que se dirige aos jurados, diz-se um incompreendido, um bode expiatório. Mas o é de si mesmo! O que é dizer que sua culpa já está desde sempre presente, que ela independe do julgamento, de modo que todas as linhas de defesa - sejam as de Bloom, sejam as de seu advogado J.J. O’Molloy - não passaram de fatos que procuram suavizar sua personalidade, uma autojustificação que não justifica nada. Não é à toa que, ao pedir ordem no tribunal, George Fottrell, o juiz imaginário, tanto anuncia que o acusado fará sua declaração como antecipa que esta será fajuta. Na verdade, é tanto fajuta quanto ininteligível.
Nesse passo, o recurso utilizado por James Joyce é o mais significativo possível. Não é dado a Bloom o discurso direto, como predomina no episódio inteiro. Pelo contrário, suas declarações constam de uma rubrica, que as menciona como sendo simplesmente ininteligíveis. Ora, já tivemos um idiota na primeira página do episódio falando ininteligivelmente, e para ele se deu o direito ao discurso direto. Não é este o caso da defesa de Bloom. Porque, a exemplo da situação de K., apenas toleram a sua defesa. E, a exemplo da de Mersault, Bloom tem mas não tem algo a dizer. A rubrica traduz o que ele poderia dizer, aquilo que, bem sopesado, não diz coisa alguma de concreta ou importante, ou pelo menos não ataca a culpa que o acomete, esta também nunca clara. Ao advogado resta bestificar, infantilizar o réu (que assim corresponde), ou pintá-lo com a simbólica e e mais alucinada de todas figura do homem de bem.
Não adianta. A literatura do século XX mostrou o processo como teatro, a justiça como simulacro. Sugestivo, portanto, que o processo em questão seja exposto sob a forma de um roteiro dramático. A culpa do homem, seja a que lhe é atribuída externamente, seja a culpa inconsciente que atormenta Bloom, leva em conta muito menos a verdade fática. A verdade fática não passa de um mero gatilho que a detona, uma desculpa ou oportunidade para se declará-la. A culpa decorre antes de uma ficção do bem e do homem bom, aquele que chora no velório da mãe; aquele que paga o sabonete quando o compra; que não deseja senão a própria esposa e não frequenta os bordéis. Ou, ainda, aquele que não é negro ou misturadinho, que não é imigrante, que não é lombrosianamente predisposto à maldade, fato esse paradoxalmente utilizado pelo advogado para lenificar a culpa de Bloom: “O desvio de comportamento forjado foi fruto de passageira aberração de hereditariedade, causada por alucinação, sendo familiares como a ocorrência legadamente culposa perfeitamente aceitáveis na terra natal de meu cliente, a terra do faraó”.
Já o dissemos: não adianta. Bloom, enfim, julga a si mesmo e se condena, e então procura a execução da pena. A condenação, vimos, é anterior: o processo, como o teatro que é, só existe para dar lugar à sua verbalização. E a execução de uma pena é a forma que encontra para aliviar sua culpa sempiterna. Eis aí uma chave possível para entender o masoquismo que percorre o episódio de Circe, principalmente quando Bloom se faz voyeur do affair entre sua esposa e o amante. Essa expiação é o que lhe permite a expressão de um gozo nesse momento aparentemente inoportuno:
BLOOM
(seus olhos loucamente dilatados, agarra seu próprio corpo) Mostra! Esconde! Mostra! Soca nela! Mais! Manda!
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