sábado, novembro 22, 2008

Inventário

Cortina

langorosamente
baila na brisa e convida
ao vôo. derradeiro.

Mesa

cúmplice de minhas
vergonhas, como cama e mesa
eu já lhe dei honras

Cadeira

sólida evidência
da existência: dura a nossa
pura realidade

Livro

as coisas estão
na superfície das coisas.
do teu livro não.

Armário

há coisas. e há coisas
que aos homens somente vivem
por viver às coisas

Fruteira

ó fruteira, quantos
de teus frutos são cobranças
e contas e custos?

Tapete

dois são meus pés
mas minhas solas são muitas
e mais tantas, e estas

Lustre

no século décimo
sétimo último jus
fez-se e cruz se foi

sábado, novembro 15, 2008

Ao curso de Letras

Explodiu DELEM
DELIN explodiu.
Quem deu por falta?
A quem falta fez?
A ninguém o DELEM;
A mim o DELIN.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Vindicação do acadêmico (ou refutação ao fetiche do 'mundo real')

De quem tem olhos e lá esteve
como portasse o justo título
de mais senhor e mais legítimo
da pura e crua, nua e limpa
.............realidade;

de quem desdenha, por altivo,
do amor à luta que se trava
neste domínio oculto e belo
e até humilde do conflito
.............entre as palavras;

do que é néscio e mui estulto,
assim tão certo do que vê,
que diz ser puro no que sabe
porque recusa, na verdade,
.............do outro saber;

de quem acusa a nós vivermos
encastelados nas palavras,
a quem ouvir é ganhar vício
e ser impuro, pois sozinho
.............não logrou ser;

de quem se julga então mais puro
pois com seus olhos, só com eles,
ficou sabendo o que conhece
e o que colheu (minguada messe!)
.............foi sem ajuda;

deste rirei, e rirei muito,
como de mim já muito rio,
porém de mim por ser humano,
por ter vivido e ter ouvido
.............e errado tido,

mas dele rio pelo alto dom
de ser o dono da verdade,
de ser tão puro em preconceitos,
que impuro é todo ser que vive
............com a linguagem.

quinta-feira, novembro 13, 2008

e a rua

aquela luz apa
gou quando passei pelo prédio
e a rua
............meio que morreu
porque gente nas ruas
..- pode ver –
não parece viva

meus primeiros anos são inevitáveis
essa eterna recorrência que
sou eu
............achando que o mundo é meu
e de meus primeiros anos

vocês todos são robôs
nos meus primeiros enfins
contra mim e a luz
que me deixou só

segunda-feira, novembro 10, 2008

O impossível ensaio sobre as Investigações Filosóficas

Wittgenstein escreveu um livro. Outros estudaram. E um professor da matéria sobre o cara mandou que os alunos escrevessem um ensaio sobre o livro.

O aluno pensou, pensou. Mas esse era o problema. Na vida real ensaios não eram textos, de modo que assim de prima tava difícil saber o que ia ser aceito como ensaio. E quando pensou veio o problema de pensar: mas isso é ensaio? Qual a ensaiedade do ensaio? Falar disso, falar daquilo, citar este e aquele, isso é ensaio? E se eu me exacerbar, e se faço um artigo, uma monografia, ou um verbete de dicionário filosófico? Vai que saia um esquete épico ou um poema cômico...

O aluno pensou tanto que filosofou, e a palavra já no débil uso do cotidiano ficou sem uso. Ou melhor, sem significado. Ou melhor, inexplicável. Ai resolveu sair por aí pra perguntar o que é ensaio, pra ver o que é usar a palavra ensaio. Se perdeu por aí. Como é que ia ensaiar a música, a peça, a entrada no palco pro dia da formatura e entregar isso pro professor? Ah, é, esqueceu do livro: e as investigações, onde ficam nisso? Podia ensaiar escrever o livro, que talvez fosse copiá-lo, copiá-lo, copiá-lo para ter enfim uma cópia definitiva, o não-ensaio. Só que bem mais que a página-e-meia limite.

Reconheceu que viajou demais. Era só - só! - escrever isso e aquilo sobre, sei lá, a falibilidade ou a limitação da ostensão como meio de aquisição e funcionamento da linguagem (!); descer às minúcias na explicação de um certo jogo de linguagem até chegar ao ponto em que a explicação tinha, afinal de contas, que acabar (!!); ou igualar o tal jogo à política: só existem onde há os homens, nunca o homem só (!!!). O aluno foi bem além, achando que tava chegando, mas não. Pensou em explicar a superação do solipsismo com um jogo de sym-pathia (!?). Palavras gregas - e com hífens! - sempre dão bons efeitos. Pros ingênuos. E o professor era um? A ver? Não, desistiu.

Mas por que um ensaio tinha que ser isto? Ah, de novo as perguntas, e o aluno se estrepou de vez. Resolveu que era pós-moderno, que não tinha essa de gênero, de funções discursivas não. É tudo um caldo só. Foi escrever é conto, como um conto-ensaio em que personagens wittgensteinianos - Groucho, Chico, Harpo - jogavam blocos, lajotas e tijolos um para o outro, testavam o martelo para ver se realmente mudava a posição do prego, mediam o metro do metro-padrão de Paris e ensacavam as cores em embalagens a vácuo, olhando pela janela pra ver se era o caso. Ou se iludiam - sem se iludir (jogavam um jogo, o narrador outro) -, pois eram besouros aquilo que tinham em suas caixinhas (dizem os personagens), quando um tinha uma formiga, outro uma borboleta e o terceiro o anel de uma latinha de coca-cola (diz o narrador).

Só que nem sabia - o narrador? os personagens? o aluno! - que jogo jogava quando se chamava de pós-moderno. Viu o que escreveu e entendeu um pouco: uma desculpa pra ser qualquer coisa, pra jogar qualquer jogo, pra entregar qualquer coisa pro professor, menos um ensaio.

Ia amargurar o zero, enfim. Ou, vai que dá?, escreveu um texto em terceira pessoa - arriscou o indireto livre por uma ponta de sofisticação - relatando as dúvidas que apareceram na tentativa de rabiscar qualquer coisa da matéria. A porra é que não lhe veio idéia bem definida nenhuma pra trabalhar a investigacidade das investigações, mas podia se entender, o LW levou sei lá quantos anos pra escrever, eu tive dois meses pra ler, enfim...

O professor leu aquilo (disse que), mas nada de sym-pathia. Ou um pouquinho. O texto lhe voltou com uma letra vermelha algo mais bonita que a sua própria. Um 4,0 suficiente não pra ele passar, mas pro professor não ter que corrigir prova final. E escrito assim: “Aprenda a jogar: ensaio é ensaio. Assim de simples”.
mas não direi teu nome, o meu
somos impossíveis
jamais

Homicídio

Uma rosa irrompeu
e o morto tinha pétalas na nuca.

terça-feira, novembro 04, 2008

Tradução de Calímaco

Para um leitor de um livro

Disse tchau ao sol e jogou-se
Cleômbroto, de Ambrásquio filho,
dum alto muro para o inferno.
Não porque males o impeliram,
dignos de o à morte levar,
mas porque de Platão o livro,
e só este, sobre a alma leu.

OU

Dizendo "Hélio, tchau", Cleômbroto ambrasquieu
......llançou-se dum muro alto rumo ao Hades.
Não por mal digno de morte; mas por de Platão
......um e só o livro da psique ter lido.

segunda-feira, novembro 03, 2008

McCain e Obama

Amanhã, senhores, é o dia! E minha aposta é que vamos ter que deixar nossa esperança pro próximo pleito. Ou melhor, vocês terão. Eu já a perdi inteira.

Lasciate ogne speranza, voi che votate.

domingo, novembro 02, 2008

Ao lago

triste é ter olhos
à frente do lago
ao lado de nada.

o lago é imenso
e imensa a vida
mas a gente nada

e tristes os olhos
deitando suas águas
são tristes por nada.

no lago imenso
as duas três gotas
são gotas de nada

e o sonho que dormes
sem lago nem olhos
sem nós e sem nada.

triste é ter lagos
à frente dos olhos
ao lado de nada.

são quantas tristezas
de quantos mil olhos
que tristes por nada

deitaram suas águas
para ter este lago
no meio do nada?

são mil os teu sonhos
que, gotas, se tornam
do lago um nada

e nadas com nadas
a vida se torna
um imenso

sábado, novembro 01, 2008

Foi o Cristovão que disse

Felipe. Um belo nome. Nítido como um cavaleiro recortado contra o horizonte. Um nome com contornos definidos. Uma dignidade simples, auto-evidente, ele vai fantasiando: Felipe. Repete o nome várias vezes, quase em voz alta, para conferir se ele não se desgasta pelo uso, se não se esfarela no próprio som, esvaziado pelo eco - Felipe, Felipe, Felipe, Felipe. Não: mantém-se intacto no horizonte, firme sobre o cavalo, a lança na mão direita. Felipe.

C. Tezza - O Filho Eterno

terça-feira, outubro 28, 2008

Sou ainda pior

sou história
contada por outro

e o meu desfecho é ruim
e o mau exemplo é moral
que ensina que
ensina que ensina
que ensina que
ensina o quê?
para ninguém aprender

sou, além de história, inútil

o outro que de mim conta
nem aprende nem aprendem
o que ensinando não ensino
mas mespalha, a minfame
pelo conto, a minfiltrado

nem sou o
que sou sou
monstro se
sou é ficção
...................mas, oras, história sou!
o que sou
é mentira
que sou
a mentira
que sou
se é mentira
que sou sou
o que não
sou aquilo que fica

que fique, é melhor

sou ainda pior

domingo, outubro 26, 2008

haicai

amo e amo muito
e amar é matar a mim
que, amor, te ama

sábado, outubro 25, 2008

Perdas

marca um x vermelho o calendário
e as palavras outrora ditas não são
as que no fim a memória marcam

se justifica agora teu ódio destilado
nas ficções a que não ouso
opor, inútil, meu inútil palavreado

se perde em ti o que em mim fica,
e compreendo tuas injúrias,
que o amor ao ódio justifica

assim vou, de perdendo tanto
me perco em erros, e nos meus
te perdes, e sou perdas, e és canto

o lutuoso canto das minhas perdas,
da voz de embargo que lamenta tímida
o pra sempre ir-se do teu ventre-seda

do ir-se então o lindo seio que escondias
à meia-luz do perdido quarto
a jogar-me perdido em perdidas vias

assim eu ia, de a boca perdendo,
a que ostentavas, a perder os fios
do cabelo que a ela ia escondendo

e no fim a ti perdi, e enfim a mim inteiro,
em tudo perdido, mas certo que dos erros
tu foste o meu único e absoluto acerto

sexta-feira, outubro 17, 2008

quinta-feira, outubro 16, 2008

Mercado Financeiro

Cantavam as Musas mitos
que hoje tento lembrar.
Depois me censuro:
já há muito se passou
o terceiro dia após o dia
da morte dos mitos.

Hoje há mitos que o aedo
não cantará. O farão
as prosas secas dos jornais.

Pois onde
a queda dos deuses esteve
a quebra dos bancos está;
na ordem do dia,
no Olimpo do Caos.

Fosse a fome...
Mas fome não é mito.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Blow Up

A Michelangelo Antonioni

a morte é uma mancha
na memória
.
que desvendo?
que descubro?
.
que construo.

Elegia

Sou um dos liberados males por Pandora;
Figura-me porém do infortuno o sentido
Igual ao derradeiro que correu afora:
Dos tristes a esperança há tempos tenho sido.

Sou dois, sendo já um, inda outros males tenho,
E serei também guerra, o medo dos povos,
O pranto que ao consolo presta e pronta venho,
Sem que ao meu próprio choro acorram males novos.

Sou vida mais vivida, e me odeia a vida;
Amigos todos faltam; se duvidas, vide-o:
Semi-vivo procura-me, o suicida;
Pelo afeto, obrigada, dou-lhe o suicídio.

Sou com isso mui só, que amigos hei de ter?
Se os quais a mim tocar desejam, e os que não,
Hão de sempre, infelizes, no toque morrer,
De modo a não restar-me senão solidão?

Sou desafortunada, vês que o sou deveras:
A todo mal que falem eu serei pertinente,
Como coisa maldita, reles coisas meras.
Mas poucos saberão: sou também - direi! - gente.

Sou, com efeito, parte da humanidade.
Como se não corresse ali tudo corre
No meio natural: cair um dia há-de
U’a planta, natureza porém nunca morre.

Sou, e sou realmente, dentre os homens uma:
Alguém contradirá: o homem não é uma planta?
Homem o nome tem, não a flor, não o puma,
E eu o tenho também, como tanto se canta:

Sou Tânatos, sou Moiras, sou Parcas, sou Cruz;
Nas palavras mais doces posso ser má sorte;
Mas meus nomes rejeito por tirar-me a luz,
Daqui p’ra frente nego tê-la, alcunha Morte.

quinta-feira, outubro 09, 2008

A Walt Whitman

Ó Whitman, meu Whitman,
onde acabará teu verso?
O papel acaba, o livro é pouco, o blog é isso que vês
Mas teu verso enorme vai se quebrando e a página se enchendo e o poema, que é o branco da folha, vira a letra densa, a letra preta, a letra que, no entanto, na tua pena vira pena, folhas de relva plainando em queda descompromissada e conformada, lentamente a tocar o nada e o sem-fim das cantilenas sempre iguais dos trabalhadores livres da tua democracia.

Ó Whitman, pastor da América!

sexta-feira, outubro 03, 2008

Immature poets imitate; mature poets steal.
T. S. Eliot


Se nós, poeteiros metidos dos blogs que querem ser lidos mas nunca lêem, entendêssemos isso, certeza que a poesia de hoje seria muito melhor.