quinta-feira, junho 12, 2008

Minha morte

No dia em que a Tal à porta vier
Trazer-me à vida o último estertor,
Que último não sei se é – vou supor
Que coisas após há – faz-se mister

Atinar o que, morto, devo ser:
Corpo inerte em necrópole enterrado;
Ou, qual suicida, em não santo prado;
Ou em quinhão alheio apodrecer.

Mantenho o suposto: na morte, existo.
Se posto embaixo da terra, malquisto
Por este que morre será o coveiro.


‘Quero minhas partes todas ao vento’
É a minha condição de testamento.
Quero a alforria como cativeiro.

Minhas palavras

se as ouvires
a responsabilidade
é toda tua!


se não as quiseres
que farei eu?
o azar é todo teu.

domingo, junho 08, 2008

de pace

pulchras uideo
non autem habeo
pulchrarum uolo
nihilum solum

aliarum quoque
nihilum uolo
alias autem
ne uideo quidem

penso, logo

penso o céu limpo
ele pesa toneladas
e eu existo

como uma poeira
que teve sua vez
no dedo do sol

e deitou-se ao chão
sem fazer a menor
diferença

quarta-feira, junho 04, 2008

Postagem retirada porque, pensando bem, estava um lixo.

terça-feira, junho 03, 2008

O crime de Septimus

Os homens não devem cortar as árvores. Há um Deus. (Anotava tais revelações nas costas de envelopes.) Mudar o mundo. Ninguém mata por ódio. Torná-lo conhecido (tomou nota). Esperava. Escutava. Um pardal, pousado na grade em frente, piou "Septimus, Septimus", quatro ou cinco vezes, e, cascateando as suas notas, continuou a cantar, alto, com frescor, em palavras gregas, que o crime não existe, e, tendo chegado um outro pardal, cantavam ambos, com voz prolongada e penetrante, em grego, dentre as árvores do prado da vida, à margem de um rio onde passeavam os mortos, que a morte não existe.
Em Mrs. Dalloway de Virginia Woolf


Os escritores podem dizer que o crime não existe. E dirão. Colocarão, porém, na boca de um louco uma conclusão assim criminosa; e lançarão a pulga evitando a culpa.

quarta-feira, maio 28, 2008

É isso!

O Agrimensor de Kafka nunca chegará ao Castelo por culpa da flecha de Zenão!

Por que a angústia? A lógica já nos deu tudo!

domingo, maio 25, 2008

Para constar

Odeio textos que comecem com um verbo no pretérito imperfeito.

Enfim, quase a totalidade dos blogs. Até este.

quinta-feira, maio 22, 2008

Lógica do sentido: a boca (ou Estudo do sorriso)

Tua boca é muita. Tua boca é tanta. Na tua boca não hão de caber sorrisos: teus lábios exageram, preenchem todo o vão e vão além; excedem-se nessa curvatura maliciosa que se insinua contra o mundo, ao que com humilde parcimônia o vocabulário oferece a simples palavra biquinho. Tua boca é tanta - não hás de sorrir, não hás - tua boca é muita. E no entanto um movimento se desenha, os cantos se distanciam, teus olhos se espremem, uma muralha de marfim se descortina. Sorris!, e sorris contra todo prognóstico da minha futurologia, que se demasia em lógica. Sorris tão grandiosamente quanto são enormes as carnes que se ruborizam nos travesseiros dos teus beiços, sorris com tantos dentes quanto são os golpes que explodem nas minhas costelas toda vez que o fazes. Como diabos sorris sem apertos, como diabos o sorriso vence tamanhos lábios, como diabos cabem sorrisos e lábios em tua boca? É sorriso de feiticeira que me prostra no evasivo sentido da tua boca que tento compreender. Tua boca acaba no sorriso: encerra-se ali o seu significado. Tua boca é isso, não entrada para o teu ser, não cavidade bucal. Ela é a saída, teu desabrochar para meus torturados olhos (amantes de lábios e dentes), ela se resolve inteira neste simples plano do teu sorrir. Para que investigar suas profundezas, onde tudo é falso? Tua boca acaba nos teus dentes ostensivos, tua boca me basta aí. É bastante, é muita, é tanta.

segunda-feira, maio 19, 2008

A Cidade

O prédio de bastas vidraças
perguntou ao prédio cinquentenário:
- Como vai, meu velho?

O prédio de cinquenta anos
não respondeu porque pensou ser louco:
- Prédios não falam - murmurou.

E eu, que estava no meio da rua,
descobri que a cidade não dialogava
por causa de mitos imbecis.

segunda-feira, maio 12, 2008

As meias mágicas

No aniversário de C., A. veio visitá-lo. Trazia no pacote de presentes um par de meias azuis. C. nunca gostou de ganhar meias, e A. sabia disso porque ele lhe contara da madrinha pão-dura que só lhe dava ou meias ou um cachecol verde que ela mesma fazia com a lã das blusas velhas do filho. Mas A. não podia comprar com o dinheiro de sua mesada aqueles carrinhos de coleção ou uma bola nova. Comprou as meias numa loja escondida na Galeria Tijucas, só que não era um par qualquer: elas eram mágicas.
- Calce, calce – disse a menina depois que ele abriu o pacote, sorrisinho insosso na cara. Ele não queria porque as unhas do pé não estavam cortadas, então mentiu:
- Mas já estou usando o par que a minha madrinha me deu, veja.
A. insistiu. Mas por que diabos, ele pensou. Não pensou, no entanto, que era um presente estúpido, porque foi de A. que o recebera. O menino, que dela não esperava nada, achou que já era a maior vitória saber que a menina havia pensado nele. Disse que então teria que trocar as calças por uma bermuda para ver como as meias ficavam na canela, de modo que fugiu para o quarto a fim de colocá-las sem perigo de vexame.
- Olha, ficaram lindas! – opinou A.
C., que nunca dera atenção a meias, não sabia dizer se elas ficaram lindas ou não. Mas gostou porque A. gostara. Deu umas voltas exibindo-se à menina, que batia as mãos. Depois, ela disse:
- Olha só, é segredo: são meias mágicas.
- Hã? Como assim?
- Olha, eu tenho meias iguais – apontou para o pé e mostrou as meias amarelas, iguais à do menino a não ser pela cor.
- Sim, mas quê que tem de mágico nelas?
- Não percebeu ainda? Olha em volta, olha. Não tá tudo diferente?
Definitivamente não havia nada de diferente em volta. Nem no pé.
- Ah, seu bobo. Olha, essa meia não calça teu pé, tá vendo? Tá calçando tudo em volta, e teu pé é o que tá fora dela. Ela tá protegendo o mundo do teu chulé e não teu pé do chão ou do frio ou do tênis!
Ele riu. Ela o puxou pelo braço para o quintal para mostrar mais mágicas que as meias faziam. Sob o vão da porta, bateu no umbral:
- Tá vendo aqui? Olha! Você não tá mais saindo de casa, você tá entrando no mundo! Aqui é dentro – pôs o pé na varanda – e aqui é fora – pôs o pé no tapete da sala. É a meia que mudou tudo, tá vendo?
- É verdade! – ele disse rindo para participar da brincadeira. Mas A. levava a sério. Se C. voltasse, ele estaria saindo para a casa, mostrava a menina ao rapazinho incrédulo. Chamou-o para dentro, que era o mundo, e arrancou do jardim uma flor, dando-a ao menino, dizendo:
- Olha só, a rosa me largou e pegou você!
Ele então, para testar a menina, largou a rosa, que foi ao chão. Ela exclamou:
- Ai ai, que flor cruel! Te largou e você ficou no chão!
- Mas eu já tava no chão, tonguinha.
- Tava porque ela não te ergueu, seu bobo.
- E por que então ela tá no chão agora?
- Como você é! Ainda não viu que o chão é que veio até ela? - pegou a rosa – E agora ele a jogou pra ela me segurar!
- Espertinha, tá tudo igual. Essa meia não é mágica não.
- Ah, é?
A. tirou os olhos da flor e fitou os de C. Num salto pra frente, fez tocar na dele a sua boca. O coração do menino virou uma lebre correndo no bosque, e a mão uma pedra imóvel que jamais reage. A. enrubesceu, mas saiu com essa:
- Você me beijou! Você me beijou!
- Eu..., mas, não..., foi..., foi...
- E eu... Eu gostei...
- É? Eu..., você gostou?
- Ah, de onde você tirou coragem, seu atrevido?
- É... As meias! É que elas são mágicas, sabe?

domingo, maio 11, 2008

"O paradoxo é, em primeiro lugar, o que destrói o bom senso como sentido único, mas, sem seguida, o que destrói o senso comum como designação de identidades fixas."
Gilles Deleuze

A lógica do sentido - o beijo

Esquece epítetos vãos:
Ímpeto tresloucado,
Apaixonado arroubo,
Loucura, arrebatamento,
Verdade insofismável,
Corações fugidios
Dos peitos ardentes,
Puro amor, pureza,
Luta bela de línguas
E lábios e estalos,
Ingênuo enleio,
Encanto de bocas,
Encontro de almas.

Um beijo é sempre e só isto:
Inútil toque entre
A incógnita e a revelação.

Nunca nesta ordem necessária.
Nunca no repouso de uma ordem.

quarta-feira, maio 07, 2008

He who hath glory lost

De James Joyce, com uma tentativa - a primeira e por tal condenável mas escusável - de tradução

He who hath glory lost, nor hath
Found any soul to fellow his,
Among his foes in scorn and wrath
Holding to ancient nobleness,
That high unconsortable one -
His love is his companion.

Ele que a glória perdeu, não
Viu alma que a sua seguisse,
Entre ira e desdém de inimigos
Defendendo a nobreza antiga,
Altaneira que a si só basta -
Seu amor lhe faz companhia.

quinta-feira, maio 01, 2008

tudo nos dias, o frio
os passos sempre dados
signos dum eterno erro
que nos trouxe aqui
os calores que não tenho
nos abraços imaginários
as decisões triviais
entre o café e a cerveja
entre ligar-te ou não
o vôo a que me convida
o vento que se choca
contra a fremente cortina
e até as facas, o quinto andar
o cadarço, a manga da blusa
o ímpeto de xingar
a todos na impessoal rua
tudo tudo tudo soa no
meu exagerado peito como
o terrível suspiro do suicídio

quarta-feira, abril 30, 2008

A moça que se transformou em passado

- Você foi meu amor. Ele disse com ares de consolação, porém havia uma sincera ternura, que até poderia ser amor pelo rostinho triste dela.

Ela sorriu e teve orgulho. E depois, pensando no assunto, odiou ser tratada no pretérito perfeito. Precisava morrer antes.

Riu, satirizando-se.

I have a dream

"We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal."
Martin Luther King

Um sonho teve a mim.
Me concebeu acho que morto
- ou sem forças ou morto
ou uma estátua inconcebível
no centro de uma cidade.

O sonho me sonhou nu
e invisível entre rostos iguais,
cujos olhos viam tudo igual
a registrar surpresas que
não podiam surpreender.

Mas era um sonho este
sonho que teve a mim.
E acordado o sonho teve
uma cidade inteira para pôr
o que de mim tinha engendrado:

Um eu sonhado, simulacro
que tinha tanto de verdade
que na vigília, na cidade,
não tinha voz nem imagem
nem a ninguém distinguia.

segunda-feira, abril 28, 2008

O velho revolucionário

A história das revoluções poderia ser narrada alegoricamente como a lenda de um antigo tesouro, que, sob as circunstâncias mais várias, surge de modo abrupto e inesperado, para de novo desaparecer qual fogo-fátuo, sob diferentes condições misteriosas.

Hannah Arendt


O velho revolucionário andava encolhido em sua parca verde-oliva pesada de condecorações e distintivos de patentes militares que achava meio absurdas. Ostentava-os sem jamais haver pegado em armas na vida - era no máximo um estrategista, ainda que se olhasse mais como a um intelectual de retórica privilegiada. Sim, um sedutor político, epíteto do qual gostava em seus íntimos segredos da vaidade. De qualquer jeito, subterfúgios como a propaganda, que o engendraram nessa imagem forte e viril, poderiam ser aproveitados, em nome da boa causa, do corpo doente e desvairado de capital livre e braço escravo, como escrevera certa vez para o célebre discurso da Tomada do Piratininga que o companheiro Costa, o Morubixaba, bradou ao se referir ao capitalismo.

Agora que seu pulmão lhe limitava as perspectivas de dias a viver, riu do Morubixaba, riu do título de Pajé com que as pessoas lhe chamavam, do Cacique que era o Fernando, e desses nomes todos que, num momento de enteomania carnavalesca, deram-se na consumação da Revolução em loas ao espírito nacional. Rir assim das coisas caras e grandiosas era um capricho que nunca se permitira por forte autocensura e em solene respeito pela vitória sobre o reino da falsa e fantástica liberdade que só fazia embrutecer as mentes do povo. Mas agora, entre tosses, não sentia culpa nenhuma.

O velho Pajé andava para aproveitar os últimos ventos do inverno. Fazia frio no sul do país que ele e os companheiros conceberam. As rugas do rosto agora imberbe e sua recém adquirida discrição fariam dele um anônimo naquela rua de Rubrurbe, não fosse a pompa de sua parca oficial que mostrava que ele fora alguém importante. Mas havia o respeito (“mas será respeito?” - se perguntava) que impedia os inoportunos de se aproximarem. E, além disso, sempre existia aquela dúvida se ele era mesmo o tal Pajé da Revolução, nem do governo participava agora. Mudara, pois: o peito inflado e os ombros largos esvaeceram numa caricatural corcunda que o apequenava.

Fumava e tossia. E o vento que lhe batia nas costas com violência lhe arrancou o cachecol uma vez. Tudo para que o pulmão lhe matasse mais rapidamente. Depois de alguns passos a parca, esse resquício de imagem publicitária que sentia não ter liberdade em não escolher para vestir, pesou. Como amainasse o vento, pela primeira vez não a quis, e então a abandonou num banco de praça sem exibir vestuário militar nenhum por baixo. Só uma puída blusa de lã que enfim o fez confundível com o povo. O povo que salvara e do qual sempre tinha que se diferenciar com essa bizarria para glorificar-se.

Acabara de sair do Colégio Nacional, onde recebera uma homenagem das crianças. Elas repetiram os cânticos laudatórios da vitória, discursaram as frases feitas no espírito da Revolução, execravam o mundo que explorava o trabalhador.

- Aprenderam bem... a repetir. – Disse o intelectual, triste consigo mesmo.

Parou na frente de um café tão velho quanto ele. Teve vontade de conversar nalguma mesa sobre um livro do McEwan que havia comprado no mercado negro. Mas ali dentro as pessoas eram amistosas demais, felizes demais, prosaicas demais.

Sentiu saudades de quando elevava a voz – sem tossir – com coisas que já foram subversivas, naquele mesmo lugar. Ninguém acreditava então no que poderia ocorrer, e ele se sente estúpido por ter acreditado que realmente ocorreria.

E sentia falta do capitalismo? Não. As pessoas, afinal, querem só comer. E isso ele lhas dera.

te vejo
e me projeto
na língua linda
que deves ter

volto
e de novo te vejo
e és uma marreta
que parte espelhos

segunda-feira, abril 21, 2008

Pieguices

Sonhei que me convidavas para tua festa de aniversário. Fui, mas fui meio assim, como apenas um dos vários convidados. Longe, muito longe de ser o que receberia a primeira fatia do bolo. Mas no sonho, eu à festa chegava, e tu me esperavas simpática, largo sorriso nos lábios, olhos moldados por uma peculiar sensação agradável de existir. Sentavas sozinha numa íntima mesa de apenas duas cadeiras: bolos, presentes e gentes não havia. Eu era teu único convidado, o feliz escolhido. Dizias-me que te bastavas comigo, que nós dois ali éramos uma festa inteira. Recebias de minha mão um tímido regalo que comprara, logo deixado pra lá pois preferias dar atenção aos meus dedos sempre inquietos. Eu sentia completo torpor a anestesiar todos meus sentidos, eu já voava. Estava pleno de um amor que irradiava em cada palavra, em todos os teus exibidos dentes das nuvens nascidos, teus angelicais olhos que encerravam mares inteiros e escondiam meu naufragado coração.

Ah, que coisa inútil é acordar.