Tua boca é muita. Tua boca é tanta. Na tua boca não hão de caber sorrisos: teus lábios exageram, preenchem todo o vão e vão além; excedem-se nessa curvatura maliciosa que se insinua contra o mundo, ao que com humilde parcimônia o vocabulário oferece a simples palavra biquinho. Tua boca é tanta - não hás de sorrir, não hás - tua boca é muita. E no entanto um movimento se desenha, os cantos se distanciam, teus olhos se espremem, uma muralha de marfim se descortina. Sorris!, e sorris contra todo prognóstico da minha futurologia, que se demasia
quinta-feira, maio 22, 2008
Lógica do sentido: a boca (ou Estudo do sorriso)
segunda-feira, maio 19, 2008
A Cidade
perguntou ao prédio cinquentenário:
- Como vai, meu velho?
O prédio de cinquenta anos
não respondeu porque pensou ser louco:
- Prédios não falam - murmurou.
E eu, que estava no meio da rua,
descobri que a cidade não dialogava
por causa de mitos imbecis.
segunda-feira, maio 12, 2008
As meias mágicas
- Calce, calce – disse a menina depois que ele abriu o pacote, sorrisinho insosso na cara. Ele não queria porque as unhas do pé não estavam cortadas, então mentiu:
- Mas já estou usando o par que a minha madrinha me deu, veja.
A. insistiu. Mas por que diabos, ele pensou. Não pensou, no entanto, que era um presente estúpido, porque foi de A. que o recebera. O menino, que dela não esperava nada, achou que já era a maior vitória saber que a menina havia pensado nele. Disse que então teria que trocar as calças por uma bermuda para ver como as meias ficavam na canela, de modo que fugiu para o quarto a fim de colocá-las sem perigo de vexame.
- Olha, ficaram lindas! – opinou A.
C., que nunca dera atenção a meias, não sabia dizer se elas ficaram lindas ou não. Mas gostou porque A. gostara. Deu umas voltas exibindo-se à menina, que batia as mãos. Depois, ela disse:
- Olha só, é segredo: são meias mágicas.
- Hã? Como assim?
- Olha, eu tenho meias iguais – apontou para o pé e mostrou as meias amarelas, iguais à do menino a não ser pela cor.
- Sim, mas quê que tem de mágico nelas?
- Não percebeu ainda? Olha em volta, olha. Não tá tudo diferente?
Definitivamente não havia nada de diferente em volta. Nem no pé.
- Ah, seu bobo. Olha, essa meia não calça teu pé, tá vendo? Tá calçando tudo em volta, e teu pé é o que tá fora dela. Ela tá protegendo o mundo do teu chulé e não teu pé do chão ou do frio ou do tênis!
Ele riu. Ela o puxou pelo braço para o quintal para mostrar mais mágicas que as meias faziam. Sob o vão da porta, bateu no umbral:
- Tá vendo aqui? Olha! Você não tá mais saindo de casa, você tá entrando no mundo! Aqui é dentro – pôs o pé na varanda – e aqui é fora – pôs o pé no tapete da sala. É a meia que mudou tudo, tá vendo?
- É verdade! – ele disse rindo para participar da brincadeira. Mas A. levava a sério. Se C. voltasse, ele estaria saindo para a casa, mostrava a menina ao rapazinho incrédulo. Chamou-o para dentro, que era o mundo, e arrancou do jardim uma flor, dando-a ao menino, dizendo:
- Olha só, a rosa me largou e pegou você!
Ele então, para testar a menina, largou a rosa, que foi ao chão. Ela exclamou:
- Ai ai, que flor cruel! Te largou e você ficou no chão!
- Mas eu já tava no chão, tonguinha.
- Tava porque ela não te ergueu, seu bobo.
- E por que então ela tá no chão agora?
- Como você é! Ainda não viu que o chão é que veio até ela? - pegou a rosa – E agora ele a jogou pra ela me segurar!
- Espertinha, tá tudo igual. Essa meia não é mágica não.
- Ah, é?
A. tirou os olhos da flor e fitou os de C. Num salto pra frente, fez tocar na dele a sua boca. O coração do menino virou uma lebre correndo no bosque, e a mão uma pedra imóvel que jamais reage. A. enrubesceu, mas saiu com essa:
- Você me beijou! Você me beijou!
- Eu..., mas, não..., foi..., foi...
- E eu... Eu gostei...
- É? Eu..., você gostou?
- Ah, de onde você tirou coragem, seu atrevido?
- É... As meias! É que elas são mágicas, sabe?
domingo, maio 11, 2008
A lógica do sentido - o beijo
Ímpeto tresloucado,
Apaixonado arroubo,
Loucura, arrebatamento,
Verdade insofismável,
Corações fugidios
Dos peitos ardentes,
Puro amor, pureza,
Luta bela de línguas
E lábios e estalos,
Ingênuo enleio,
Encanto de bocas,
Encontro de almas.
Inútil toque entre
A incógnita e a revelação.
Nunca no repouso de uma ordem.
quarta-feira, maio 07, 2008
He who hath glory lost
He who hath glory lost, nor hath
Found any soul to fellow his,
Among his foes in scorn and wrath
Holding to ancient nobleness,
That high unconsortable one -
His love is his companion.
Ele que a glória perdeu, não
Viu alma que a sua seguisse,
Entre ira e desdém de inimigos
Defendendo a nobreza antiga,
Altaneira que a si só basta -
Seu amor lhe faz companhia.
quinta-feira, maio 01, 2008
os passos sempre dados
signos dum eterno erro
que nos trouxe aqui
os calores que não tenho
nos abraços imaginários
as decisões triviais
entre o café e a cerveja
entre ligar-te ou não
o vôo a que me convida
o vento que se choca
contra a fremente cortina
e até as facas, o quinto andar
o cadarço, a manga da blusa
o ímpeto de xingar
a todos na impessoal rua
tudo tudo tudo soa no
meu exagerado peito como
o terrível suspiro do suicídio
quarta-feira, abril 30, 2008
A moça que se transformou em passado
Ela sorriu e teve orgulho. E depois, pensando no assunto, odiou ser tratada no pretérito perfeito. Precisava morrer antes.
Riu, satirizando-se.
I have a dream
"We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal."
Martin Luther King
Um sonho teve a mim.
Me concebeu acho que morto
- ou sem forças ou morto
ou uma estátua inconcebível
no centro de uma cidade.
O sonho me sonhou nu
e invisível entre rostos iguais,
cujos olhos viam tudo igual
a registrar surpresas que
não podiam surpreender.
Mas era um sonho este
sonho que teve a mim.
E acordado o sonho teve
uma cidade inteira para pôr
o que de mim tinha engendrado:
Um eu sonhado, simulacro
que tinha tanto de verdade
que na vigília, na cidade,
não tinha voz nem imagem
nem a ninguém distinguia.
segunda-feira, abril 28, 2008
O velho revolucionário
A história das revoluções poderia ser narrada alegoricamente como a lenda de um antigo tesouro, que, sob as circunstâncias mais várias, surge de modo abrupto e inesperado, para de novo desaparecer qual fogo-fátuo, sob diferentes condições misteriosas.
Hannah Arendt
O velho revolucionário andava encolhido em sua parca verde-oliva pesada de condecorações e distintivos de patentes militares que achava meio absurdas. Ostentava-os sem jamais haver pegado em armas na vida - era no máximo um estrategista, ainda que se olhasse mais como a um intelectual de retórica privilegiada. Sim, um sedutor político, epíteto do qual gostava em seus íntimos segredos da vaidade. De qualquer jeito, subterfúgios como a propaganda, que o engendraram nessa imagem forte e viril, poderiam ser aproveitados, em nome da boa causa, do corpo doente e desvairado de capital livre e braço escravo, como escrevera certa vez para o célebre discurso da Tomada do Piratininga que o companheiro Costa, o Morubixaba, bradou ao se referir ao capitalismo.
Agora que seu pulmão lhe limitava as perspectivas de dias a viver, riu do Morubixaba, riu do título de Pajé com que as pessoas lhe chamavam, do Cacique que era o Fernando, e desses nomes todos que, num momento de enteomania carnavalesca, deram-se na consumação da Revolução em loas ao espírito nacional. Rir assim das coisas caras e grandiosas era um capricho que nunca se permitira por forte autocensura e em solene respeito pela vitória sobre o reino da falsa e fantástica liberdade que só fazia embrutecer as mentes do povo. Mas agora, entre tosses, não sentia culpa nenhuma.
O velho Pajé andava para aproveitar os últimos ventos do inverno. Fazia frio no sul do país que ele e os companheiros conceberam. As rugas do rosto agora imberbe e sua recém adquirida discrição fariam dele um anônimo naquela rua de Rubrurbe, não fosse a pompa de sua parca oficial que mostrava que ele fora alguém importante. Mas havia o respeito (“mas será respeito?” - se perguntava) que impedia os inoportunos de se aproximarem. E, além disso, sempre existia aquela dúvida se ele era mesmo o tal Pajé da Revolução, nem do governo participava agora. Mudara, pois: o peito inflado e os ombros largos esvaeceram numa caricatural corcunda que o apequenava.
Fumava e tossia. E o vento que lhe batia nas costas com violência lhe arrancou o cachecol uma vez. Tudo para que o pulmão lhe matasse mais rapidamente. Depois de alguns passos a parca, esse resquício de imagem publicitária que sentia não ter liberdade em não escolher para vestir, pesou. Como amainasse o vento, pela primeira vez não a quis, e então a abandonou num banco de praça sem exibir vestuário militar nenhum por baixo. Só uma puída blusa de lã que enfim o fez confundível com o povo. O povo que salvara e do qual sempre tinha que se diferenciar com essa bizarria para glorificar-se.
Acabara de sair do Colégio Nacional, onde recebera uma homenagem das crianças. Elas repetiram os cânticos laudatórios da vitória, discursaram as frases feitas no espírito da Revolução, execravam o mundo que explorava o trabalhador.
- Aprenderam bem... a repetir. – Disse o intelectual, triste consigo mesmo.
Parou na frente de um café tão velho quanto ele. Teve vontade de conversar nalguma mesa sobre um livro do McEwan que havia comprado no mercado negro. Mas ali dentro as pessoas eram amistosas demais, felizes demais, prosaicas demais.
Sentiu saudades de quando elevava a voz – sem tossir – com coisas que já foram subversivas, naquele mesmo lugar. Ninguém acreditava então no que poderia ocorrer, e ele se sente estúpido por ter acreditado que realmente ocorreria.
E sentia falta do capitalismo? Não. As pessoas, afinal, querem só comer. E isso ele lhas dera.
segunda-feira, abril 21, 2008
Pieguices
Ah, que coisa inútil é acordar.
segunda-feira, março 31, 2008
quarta-feira, março 26, 2008
W. B. Yeats
The sorrow of love
The quarrel of the sparrows in the eaves,
The full round moon and the star-laden sky,
And the loud song of the ever-singing leaves,
Had hid away earth's old and weary cry.
And then you came with those red mournful lips,
And with you came the whole of the world's tears,
And all the trouble of her labouring ships,
And all the trouble of her myriad years.
And now the sparrows warring in the eaves,
The courd-pale moon, the white stars in the sky,
And the loud chaunting of the unquiet leaves,
Are shaken with earth's old and weary cry.
sexta-feira, março 21, 2008
Desafio
Doutor:
Meus senhores, vou lhes apresentar
A figura do homem popular,
Esse tipo idiota e muquirana
É um bicho que imita a raça humana
O homem:
O doutor exagera e desatina,
Pois quando o pobre tem no seu repasto
O direito a escola e proteína
O seu cérebro cresce qual um astro
E começa a nascer pra todo lado
Jesus Cristo e muito Fidel Castro
Refrão
Africara mingüê e favelará
Mérica de verme que deusará
Iocuné Tatuapé Irará
Doutor:
Vejo o pobre de hoje: quer tratar
Do direito, da lei, ecologia.
É na merda que eles vão parar
Ou na peste, maleita, hidropisia.
O homem:
Mas o direito, na sua amplitude
Serve o grande e o pequeno também.
Além disso quem chega-se à virtude
E da lei se aproxima e se convém
Tá mostrando no patrão solicitude
Por querer o que dele advém.
quinta-feira, março 13, 2008
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Soneto
em garboso louvor à pasmaceira.
Aos gritos de vã excluída sem eira,
condena-se à morte a métrica amada.
Que sim morram os detratores! Queira
a Morte – ou a altiva e bela fada
Tortura – saquear-lhes d’alma cada
estro dessa poesia rameira.
Sim, pois é moda desses modernosos
democratizar o verso aos incultos
com os poemas papalvos e estultos.
Liberdade não! Vivam os pomposos
versos da mais pomposa Poesia,
ao jugo da Forma e da Tirania!
quarta-feira, janeiro 23, 2008
Poemeto erótico
Desce rija do morto Urano a agulha:
Eis a distinta ira de Afrodite
Que com rápida fome te alvoroça,
Em guarda pronta, com minh’alma troça,
Dócil criada que é do apetite.
Da minha boca meu cigarro fumas,
Tão sagaz e langorosa, com umas
Tragadas que de meu logo rendido
Pudor chupam o último vestígio.
Sou em vestes plenas já teu nu lígio,
Que o que não és abandona ao olvido.
Busco as serras que vem a oferecer-me
Tua blusa que ao chão pronto se arria.
Mas se mais baixo num repente aponto,
Danças, disfarças, me afastas no conto
de qu’é cedo para chegar à pia.
Com solene voz em corpo faceiro?!
Mas nada vale insistir eu perplexo,
Que por ti bastam as preliminares
- O vão júbilo das preliminares,
que sequer põe tua boca em meu sexo.
quarta-feira, dezembro 12, 2007
O caseiro da chácara de Camaquã
Meu amigo João Falavigna jantou outro dia em minha casa. Há tempos que não nos víamos. Contou-me que o Rondinelli, caseiro de sua chácara, morrera há pouco. Simplesmente não acordou mais de seu derradeiro sono. Falavigna acredita, e eu concordo com ele, que a causa da morte não foi a parada cardíaca que consta do seu obituário, senão a falta de propósito para continuar vivendo. A sua história, a qual fiquei sabendo só agora, é extremamente curiosa e justifica plenamente nossa opinião. Aquele imperceptível Rondinelli ostentava um portentoso nome de policial ou de político, porém não passava de um discreto senhor de voz submissa e ombros encolhidos, de face circunspeta sob a inevitável calvície que ameaçava os cabelos nas entradas da testa. Na verdade, tamanha era sua discrição que sua figura só me tocou a memória em virtude de um estranho sotaque ítalo-castelhano que excedia, nessa estranheza, ao já extravagante modo de falar dos sul-rio-grandenses. Pareço descrever um mordomo vulgar, mas era isso que, no fundo, Rondinelli era. Essa peculiaridade arquivou-se em minha lembrança e foi suficiente para que eu pudesse associar toda a história ao seu protagonista.
Muito do que eu contar pode não ser a realidade, já que tudo que dele se sabe não veio de sua boca. Quem falou da vida do caseiro a Falavigna foi um dos filhos do Major Alcindo Garcez, um pica-pau da Revolução Federalista. Garcez parece ter salvado Rondinelli, maragato italiano que veio do Uruguai em busca de dinheiro, da sangüinária degola de Cherengue, e ainda ofertara ao mal-sucedido soldado o emprego de caseiro em sua chácara à beira do rio Camaquã. É o que se diz.
A gratidão – essa é a palavra-mestra – de Rondinelli foi infinita. A chácara em suas mãos estava seguramente nas melhores mãos em que poderiam estar. Há nela uma enorme casa, cheia de redes e camas, ornada com vários bibelôs cuja temática é a pescaria. Outra casa, mais modesta, é onde vivia Rondinelli com sua esposa, que conheceu em Camaquã mesmo. Um delicioso pomar, dois cavalos e o próprio rio a completavam. No princípio, Garcez ia de Porto Alegre ao sítio com assídua freqüência, muitas vezes acompanhado de amigos pescadores e da família para os churrascos de chão. Após a prematura morte da esposa de Rondinelli, suportada com singular indiferença pelo chacareiro, aliada à madureza alcançada pelos filhos do major, que trouxeram consigo o desinteresse pelas questões interioranas, a chácara passou a ser menos visitada. Passaram-se anos em que apenas Garcez, com rigorosa periodicidade quinzenal, ia à fazenda para matear com Rondinelli e pescar no rio Camaquã. E mesmo assim o afinco do caseiro era o mesmo, como se sempre esperasse as irrepetidas festas do passado. É que o seu trabalho era para o major, era a este que ele devia a própria vida. A ninguém mais. E não parecia fazer outra coisa: quando Garcez chegava o quarto estava arrumado, a geladeira cheia, o chimarrão pronto, a sela no cavalo, a linha no caniço, o anzol na linha, a grama cortada, as frutas colhidas, a lenha cortada e o fogo aceso contra a invernada. Rondinelli só não se dedicava à chácara quando ia a galope ao armazém na cidade jogar o truco ou o dominó e beber o mate com outros velhos senhores. Uma vez só, sob insistência do major, aceitou viajar ao Uruguai. Mas não achou ninguém de que pudesse se lembrar.
Num dia do ano de 1927, no entanto, Garcez, que tinha mais ou menos a mesma idade de Rondinelli, não veio. A realidade foi apenas pressentida pelo caseiro, mas solenemente denegada. Com uma semana de atraso do major, recebeu uma carta. Não a abriu: colocou-a sob a fruteira no centro da mesa de sua cozinha. Rondinelli não fugiu à rotina, tudo era detalhadamente realizado conforme sempre fora, com o cuidado que jamais faltou aos seus afazeres.
Falavigna, amigo também do major, convidado já das churrascadas que ele organizava, buscou comprar a chácara do espólio do ximango. Os herdeiros, dois filhos e uma filha, tinham já seus planos de vida, e o dinheiro valia mais que a propriedade. Marcos Garcez contou-lhe do caseiro, Rubens, seu irmão, levou-o ao sítio.
Meu amigo, devo dizê-lo, é uma pessoa extraordinária. Sua empatia é invejável, e essa deve ser a razão de ter conquistado tanta gente ao longo de sua vida. É um diplomata nato, embora seja apenas comerciante. Seu proceder para com o caseiro, como mostrarei a seguir, foi decisivo para a preservação dessa história, que pelo menos a mim impressionou muito.
Chegaram à chácara meu amigo e Rubens, homem exatamente oposto a Falavigna, bronco e de difícil lida, e o acesso foi de pronto franqueado por Rondinelli. Um pouco atordoado pela surpresa, o caseiro tratou de acomodá-los. Rubens praticamente dele não tomava conhecimento: falava ininterruptamente sobre o negócio que estava prestes a celebrar e mal ouvia as ofertas de mate ou café por parte de Rondinelli. À primeira trégua, o chacareiro fez a infeliz pergunta:
- Senhor, como bai seu papá?
Rubens ergueu-se com olhar ferino sobre o caseiro e bradou:
- Você só pode estar de brincadeira, uruguaio inútil!
E puxou meu amigo para fora para mostrar-lhe o rio. A cena bastante estranha foi geniosamente interpretada por Falavigna, que sabendo da história do caseiro a compreendeu sem maiores delongas. Então procurou não unir novamente Rubens e Rondinelli, para evitar outros mal-entendidos. Quem não a deve ter compreendido foi Rondinelli, que, imagino, deve ter ficado algum tempo paralisado para depois, como um bom servo, não fazer mais perguntas a si mesmo e voltar às suas ocupações.
A compra foi ultimada e o caseiro mantido na chácara, ainda submergido na pequena ilusão que guardara para si, a de que seu chefe, o major, ainda vivia. Falavigna nada fez para mudar esta convicção. Pelo contrário, viu-se obrigado a fingir-se, e a fazer todos os que visitavam a agora sua chácara fingirem-se igualmente, de convidado de Alcindo Garcez. O ardil arquitetado, admitamos, é um tanto quanto fácil de ser desmascarado. Mas antes de me acusarem de um fantasista que amarra mal os nós de suas mentiras, podemos ver também o porquê do sucesso dos atos de Falavigna: estamos aqui lidando com um homem cuja razão de viver é a quitação de uma impagável dívida. Obviamente que ele já sentia, nessas obscuridades da mente, a morte do seu chefe, porém simplesmente não acreditava nela. E era importante não acreditar: sua crença era deliberada. Qualquer coisa que a tornasse um pouco mais fundada seria preciosa para Rondinelli, e as dúvidas, como veremos, colocariam sua própria vida em risco.
O que fez o novo, mas secreto, patrão do nosso herói foi freqüentar a chácara sempre, inapelavelmente, munido de uma falsa autorização pretensamente assinada do próprio punho do falecido Garcez. Às eventuais perguntas de Rondinelli, Falavigna já preparara a desculpa de que o major estaria em uma longa viagem à América do Norte, em missão oficial.
O método não ficou isento de problemas: o caseiro não impunha nenhum empecilho a que meu amigo entrasse na chácara, andasse a cavalo, usasse o pomar e também os serviços de Rondinelli. Entretanto, ele jamais permitia que se dormisse no quarto do major ou que se utilizassem os equipamentos de pesca do finado. Uma vez apenas, após muita insistência, o caseiro permitiu que um dos visitantes usasse um dos puçás do major. Mas o puçá foi mal amarrado a uma raiz à beira do rio, e acabou sendo levado pela correnteza. Rondinelli suava copiosamente de nervoso, e chegou a erguer sua costumeiramente invariável voz com um discreto “jamais deveria ter deixado”.
O puçá foi encontrado pelo chacareiro alguns metros rio abaixo. Foi devolvido ao seu devido lugar e nunca ninguém mais ousou pedi-lo novamente.
Ocorre que, no começo, Rondinelli era o mais cortês e solícito empregado. Não media esforços para bem acomodar e agradar Falavigna, ao seu ver um insigne convidado do major. Encanta-me essa idéia: um homem tão infinitamente grato que, numa íntima promessa de servidão absoluta, permanece preso a esse laço muito além da morte do seu credor. Não se trata, como pode parecer a um julgamento mais imediato, de uma medíocre subserviência. Pelo contrário, Rondinelli obteve o que a muitos de nós sempre faltou: um significado da vida. Claro, se o significado que escolheu é bom ou ruim, isso vai depender de nosso juízo e de nossa busca particular do próprio sentido de existir. Mas é extraordinária a inabdicável missão a que se entregou o caseiro. Entretanto, os dias passavam e o major nunca mais deu notícias. Sub-repticiamente, a convicção de Rondinelli esvanecia. Sua energia para o labor diminuía, aqui e ali apareciam falhas do seu trabalho, imperdonables erros no dizer do uruguaio. Começou a precisar da cidade mais amiúde, substituiu no armazém o chimarrão pela cachaça. Foi duas ou três vezes ao médico. Creio que já não conseguia mais fantasiar: o major morreu. A situação foi se agravando até que chegou o dia que já conhecemos: o da morte do caseiro em sua cama.
Quem achou o corpo foi o próprio Falavigna. Descansava, na cabeceira, aquela carta cujo envelope estava, enfim, violado.
segunda-feira, dezembro 03, 2007
Bicicleta
Sempre julguei que à medida que os anos se vão, menos inteligente fico. Do que se extrai, acertadamente, que quando as palavras eram-me desconexas seqüências de sons balbuciadas por aquela boca cuja voz possuía poderes mágicos contra os meus maus ânimos eu era mais esperto. É que tinha todas as possibilidades diante de mim. Enquanto vivo e escolho, reduzo seus números até uma mediocridade que hoje só me permite optar o prato do cardápio.
Não mudo de idéia: ano que vem mais burro serei. Isso é irretocável. E será assim até que só me restará esperar a morte, com a apática resignação de quem a negou desde o início. Hoje, porém, ao reviver os vestígios jogados na memória dos meus tempos idos, finalmente consigo datar com certa precisão a fundação da mais aguda ingremidade de meu abismo.
Tinha oito anos de idade. Os meus sucessos nas provas escolares, com os famigerados cartazezinhos que colocavam meu nome à frente de todos meus colegas, deram aos meus queridos pais um motivo para o exibicionismo. Alguma auto-afirmação de que talvez necessitassem encontrou em mim sua razão de existir. Era eu o brilhante aluno, comportado e de boas notas, xodó de todos na escola. Enfim, o prezável e enfadonho filho exemplar.
Alguém deve ter mencionado à minha mãe o lugar-comum da época: os testes de Q.I. Ora, estava aí mais uma possível prova do meu talento, que já não era desconhecido. E tudo estava à mão: minha tia, mulher do irmão de meu pai, era psicóloga de crianças. Pronto. Mais uma chance de mostrar minha genialidade, minha estéril genialidade moldada pelo bom-mocismo.
Arrancaram-me certa tarde do jogo de bola da Rua Desembargador Motta. Era para o teste. Fui com os pés grossos de sujeira à sala de limpos carpetes da minha tia. Deram-me chinelos, mas teimei por um banho antes. Não convenci.
Aquilo me deixou demasiadamente nervoso. Se não provasse, que seria de mim? Todo meu castelo de sólidas fortificações estava ali ameaçado por um capricho de meus pais. Mas sem desgastar-lhes com minhas frivolidades, já lhes digo que foi coisa que passou: o resultado não poderia ser melhor.
Quero, porém, me referir, voltando à introdução do assunto, ao que me desterrou das fartas terras da fertilidade imaginativa. Foi uma inocente pergunta feita no meio do teste. Tinha que definir o que eram as coisas do meu cotidiano. Disse minha tia:
- O que é uma bicicleta?
Respondi como o teria feito uma razão científica que se alija de toda forma de poesia:
- Um veículo não-motorizado de duas rodas que utiliza a força das nossas pernas, por meio de um pedal e de uma correia, para andar.
Meu Deus! Como eu me orgulhei dessa resposta! “Veículo”, “não-motorizado”: mas isso era genial! Quem de meus amigos diria tais palavras?
Antes tivesse sido qualquer um deles e não eu. Desde então, a bicicleta é um entulho de alumínio e rodas e aros e espias. Jamais minha nave, meu cavalo de cavaleiro, meu lugarzinho de namoro, meu vento a soprar uma suave melopéia em meus ouvidos.
