domingo, junho 28, 2009

Primeira carta sobre nada e coisa alguma

Caro leitor,

Primeiro cabe dizer-te por que, nestes tempos de 2009, dirijo-me a ti por tu. Certo é que por questões de estilo o texto poderá parecer mais elegante, um ligeiro arcaísmo para nos deslocar de algum modo do aqui e agora. Dirás que nos torno mais portugueses e menos brasileiros, e pode ser que gostes ou não disso, seja por amor ao nacionalismo ou raiva ao nosso mau uso do vernáculo, como é opinião corrente. Mas de minha parte não nos quero mais ou menos portugueses, eruditos, virtuoses ou o que o valha. Não me fiz a mim jardineiro, mas vagabundo; pouco se me vale de que bunda sai o esterco com que se cultiva a última flor do Lácio.

(Pronto, aí estão a bunda e o esterco. Embora eu tenha uma séria desconfiança de que os elegantes também se virem com suas bundas e seus estercos, creio ter desfeito tua ideia de que o tu é empolamento. Tu és tu, simplesmente; para que mais metafísicas que isso?)

Dirijo-me, pois, a ti e não a você pela inigualável vantagem da elipse. Conheces a vantagem da elipse? Sei que sim. Se fores homem, lembrarás daquela noite em que tudo fizeste primeiro para que pudesses te estabilizar ao lado da mulher desejada; então para que pudesses manter alguma conversa, e por último para que pudesses enveredar por um ou outro assunto mais íntimo. Talvez achasses a mulher receptiva, talvez achasses acabrunhada mas não invencível, e tivesses que falar sobre teu espantoso conhecimento acerca dos números da camiseta de cada um dos Irmãos Metralha – ser o engraçado é sempre fundamental. E ela se ria, enquanto tu sentias o campo se deixando dominar cada vez que o riso findava e o interesse se mantinha em ti e não na amiga. Então jogaste uma ou duas palavras bonitas, falando justamente que ela é... bonita, isso, bonita e nada mais, e dela o riso veio mais tímido. Mas não importa, todos são: avançaste; ela recuou o rosto, lançou a boca para o lado, com os olhos sempre baixos. Quando levantaram, eram taciturnos e expressavam mais pena que ofensa, sem uma palavra. E tu entendeste e foste procurar abrigo em qualquer lençol solitário do teu enxoval. Lembraste agora? Aí está a elipse, senhor tu: vê bem quanta economia nos dá, de quanta chateação nos poupa. Uma palavra sempre pede outra, quando se fala explica-se, e quando se explica nada fica explicado e tudo precisa vir à tona de novo e de novo e de novo. Mas não: basta o olhar e tu já te encontras proscrito. Se, no entanto, fores mulher, apenas te coloca no lugar da mulher acima e tudo fica o mesmo. Melhor, terás ainda mais apreço pela elipse, pois é regra geral entre as mulheres o serem elípticas. Por quê? Queres apreço maior que o de evitar a resmunguice masculina? Ah, perguntas da regra geral. Digo-te que não sei, apenas a sinto, uma teoria sem corolários ou fundamentos, e peço-te que não estranhes, pois estranhar o sentir na posmodernidade é o que é deveras estranho.

Essa é pois a vantagem do tu: se basta no verbo. O você precisa sempre se diferenciar do ele, e eu me cansarei se tiver que lançar o tempo todo você para cada momento em que é a ti que me refiro. Tudo bem, a economia é pouca, são quatro letras por nenhuma, e entre as elipses com certeza preferimos aquelas femininas. Em verdade, compenso o tão longo nada desta carta, como o gordo que come x-tudo com coca-light: queiras ou não, alivia o peso, não desprezemos o nível simbólico das coisas; um tuzinho cá e uma coca-lightizinha lá podem ser a salvação da nossa autoestima. Fica então assim, não por elegância nem por lusitanismo, o que me governa nesta carta é, digamos, a digressão pragmática. Isso! Imagina que levei algumas horas para definir esta carta, e a digressão pragmática soou-me enfim sonora e não se compromete com concisão nem com prolixidade e nem contigo, que neste momento já deve ter rompido comigo.

Não importa. Eu é quem te crio, tu és quem me anula. De sorte que da culpa sou eu quem está isento, igualzinho àquele amigo que te traz o mais horrível dos poemas para a tua severa opinião. Conheces o amigo e sabes de antemão a qualidade dos seus versos. Mas não lê-los é crime, não comentá-los, agravante, descer a lenha, uma crueldadezinha. Vá por mim, lê. Ele criou o teu delito e safa-se inocente, a ti resta apagar os vestígios. Não é do meu consciencioso proceder, minha aura me é muito clara, evito falar mal. Mas tenho crido ultimamente que há muito mais vantagens no coice de cavalo que no afago do cachorro: quantos mil protocolos – e até cuidados poéticos! - não se exigirá o horrendo poeta, que se apresenta a todo mundo antes como escritor que como ele mesmo, para chegar a ti novamente?

Mas que falo? Agora seria a hora de dizer a que vem a carta, e se voltas a ler os parágrafos acima vês que a nada. Quando falei da última flor do Lácio até pensei em expor-te minha teoria da última flor do Lácio e o Apocalipse. Mas é uma teoria banal, que nada diria do português e menos ainda da Bíblia; falaria apenas do caráter de ser o último, mas um falso último, como o pretenso minuto derradeiro do suicida mal-sucedido. E se te escrevesse coisas tais, a única conclusão possível é que escrevo por escrever. Talvez. Mas a menos que seja um contrato ou que se seja um gênio, qualquer escrever é por escrever, inda mais agora em dias nos quais até analfabeto sabe ler.

A bem da verdade, há algum tempo venho pensando em escrever cartas. E justamente pelo nobilíssimo motivo de escrever. O problema de se ter ideia é ter que desenvolvê-la. Pensara numa carta, e lá estava ela toda bela, encaixadinha em frases rápidas e espirituosas, literalizadas com um modesto cosmético da literatura, eventualmente num papel ornado de filigranas e cheiros amadeirados. Pensara-a assim, vagando num fundo preto, sem mundo ou contexto, toda perfeita, toda feita, girando como carro novo em feira automotiva. Porém, e este porém é mais um no entanto, que me parece mais forte, cartas não são assim. Elas tem destinatário, elas tem assunto, elas tem as notas sentimentais de um coração quebrado ou de um vencedor exultante, e o pior, elas tem letras, e no caso seriam as minhas letras, o que é bastante problemático. Assim, para concebê-la, começaria pelo destinatário, e o método seria de exclusão. Excluí primeiro os que não leem português e os que não gostariam de ler uma carta minha, em segundo lugar as que ficariam constrangidas se a recebessem, em terceiro os famosos, as sumidades, os numes e Deus, para não desviá-los dos seus talentos, em quarto uma amiga que me recusou seu endereço, em quinto outra que não me recusou mas que se receber pensará ser uma carta de amor, em sexto os ombudsmen de jornais, porque eu acho todos os jornais perfeitos e irrepreensíveis, por último aqueles que pudessem me responder e mostrar que não entenderam nada do que eu havia escrito. Fui procedendo a esta exclusão, mas me vi um tanto ingênuo: já no quesito não gostar de receber uma carta minha não sobraria ninguém. Não o digo por autocomiseração; pensa bem: temos e-mail, Orkut, Twitter e o escambau, tudo feito para o bate-rebate no pá-pum e ponto final. Sem danos, sem exposições, sem perdas de tempo, totalmente elípticos. Afinal, já concordamos quanto à vantagem de ser elíptico, e a única mostra dessa vantagem nessa carta, como vês, é o tratar-te por tu ao invés de por você...

Então te inventei, és meu destinatário. Não te dei rosto, não te dei sexo, não te dei pai nem mãe. Mas te dou esta carta, que, se não é boa, pelo menos te faz um ser único na humanidade, o meu destinatário. E justamente por seres assim como és, não tenho assunto para tratar contigo, de modo que resolvi assim o segundo problema da resolução da carta. Não vou falar sobre nada! Podes imaginar quanta liberdade há nisso? Sinto-me num prado imenso e verdejante, dez mil homens caem à minha esquerda, dez mil à minha direita, e a obrigatoriedade do diploma de jornalismo cai à minha frente, mas eu não sou atingido. Outros mais caem, o Congresso de pé porque é malandro, na USP tropeça a democracia (mas calma: nunca cai o chavão da escola pública, gratuita e de qualidade...), um Air France cai no Atlântico, os Estados Unidos derrubam a Espanha e um homem do Taleban com uma porrada de afegãos, Michael Jackson apenas termina uma queda há muito começada enquanto a crise somente a inicia. Mas eu continuo no meu prado imenso e verdejante, preferindo a tudo o tédio, a todos tu, a algo o nada. Avatar da apatia, nem me sinto sentir nem me venço exultante, apenas fico.

Satirizo? Pois bem, satirizo, se te contentas dizê-lo para me desdizer. Mas advirto-te que não disse rigorosamente nada desde o início, e se queres dizer que satirizo para me desdizeres, desdizendo o nada que disse, dirás exatamente o contrário do que pensas dizer. Entendes? Careço da verve de sátiro, pelo menos desde o dia em que esqueci minhas pernas de bode ou cavalo - os autores divergem neste ponto - em alguma vida passada das minhas mentempsicoses. Ora, satirizo! Então me queres Horácio, Swift ou Pope? Queres umas Cartas Chilenas ou uma Arte de Furtar? Não sejas tonto ou tonta, que aqui não há tamanhos luxos, e creio que procedes mal em qualificar algo de sátira para desqualificá-lo; nela fica o melhor das letras. E eu, avatar da estultice, nem me faço sátiro nem me boto cômico, apenas isso: fico.

Fico numa carta de nada a ninguém, de quem me despeço com um expansivo abraço e os melhores votos de sucesso e felicidade, com o perdão do encerramento brusco.

(Aí está: quero-me uma Sherazade que suspende algo que é coisa nenhuma).

Com carinho e até a próxima,

quarta-feira, junho 24, 2009

Epigrama encontrado na folha de rosto de um exemplar das Memórias Póstumas de Brás Cubas

Tu que passas ao largo de mim,
antes nota que estamos aqui,
eu e um morto, que guardo e que cubro;
e em respeito e sinal do teu luto
tua cabeça de vivo descobre.
Se há um verme que um corpo aqui come,
ou conheças ou não este morto,
não deplores, u'a vez que deposto
deste trono do gosto e da vida,
serás tu que a terás esquecida,
tu, banquete ao opróbrio e ao nojo
sem legado, louvor ou despojo.
Beija o morto, viajante, teu irmão!
Mais que tu ele a é, tua razão.

terça-feira, junho 23, 2009

Os atos secretos do Senado foram públicos

Brasília. Tudo não passou de um equívoco da Imprensa Oficial. Isso mesmo: os atos secretos do Senado, que derrubaram em junho José Sarney da Presidência da Casa, foram todos publicados. O descuido denuncista da imprensa, como havia classificado, no auge da crise, o Presidente Lula, não curou de ter notado que os atos do Senado haviam sido equivocadamente publicados no espaço dos atos do Executivo no Diário Oficial. Estavam todos eles junto aos editais do Ministério da Integração Nacional.

A descoberta do engano desencadeou um novo escândalo. O Jornal Folha de S. Paulo publicou uma entrevista exclusiva do auxiliar de escritório João da Silva denunciando que o povo não lê o Diário Oficial. Essa seria a verdadeira causa para se ter acreditado na imprensa, pois se o Diário Oficial fosse regularmente lido, alguém teria notado o equívoco antes da queda de Sarney.

João da Silva teria dito ao repórter do jornal que só um ou outro jornalista 'perderia o seu tempo' lendo o Diário para selecionar fatos mais chocantes no meio social para repetir - com outra roupagem - nos veículos para os quais trabalha. Disse também que existe um grande esquema de desvio dos exemplares do diário para uma máfia de carrinheiros de papel, quando não seguem pura e simplesmente para a lata de lixo orgânico.

O fato revoltou os parlamentares. Arthur Virgílio (PSDB-AM) disse que "é sempre assim no Brasil. Todo popular é corrupto. Nós políticos não podemos mais confiar no povo". Renan Calheiros (PMDB - AL) foi mais cauteloso: "as acusações são graves, precisam ser investigadas. Mas tem fundamento." Sarney (PMDB - AP), em tom bastante ressentido, disse de sua residência: "O que mais revolta no povo é esse descaso para com o Senado. Imagine: fui crucificado. Quase que meu mordomo e minha filha foram também!".

Funcionários fantasmas do Congresso Nacional e parentes de senadores encontraram páginas do Diário Oficial recortadas para fazer bandeirinhas de São João em várias cidades do Brasil. "Eu vi minha nomeação subir aos céus num balão de festa junina!", disse um neto de senador que não quis se identificar.

Hercílio Figueiroa Albuquerque, líder da Classe dos Emergentes, disse ser muito cedo para tirar quaisquer conclusões, mas que acredita ainda na instituição povo. Rita Baiana, representante dos quilombolas, falou que a acusação era falsa e que os Diários Oficiais são sim lidos. "O que acontece é que nós somos especialistas em leitura dinâmica e memorização, não precisamos manter os Diários Oficiais conosco". Perguntada quanto ao fato de não terem se dado conta do equívoco da Imprensa Oficial, disse: "isso foi um erro deles. Pergunte a eles."

Marquinho Pirueta, chefe do Sindicato dos Carrinheiros de Papel, disse que as acusações são levianas. "O Senado tem que me respeitar. Veja a minha biografia, eu sou do povo. Vou me preocupar com questões mínimas? Quem é o Senado pra me acusar?"

Senadores prometeram ocupar o Complexo do Alemão com o BOPE em protesto contra o povo no próximo final de semana.

domingo, junho 21, 2009

Um escândalo

Resolvera postular o escandaloso fato de que tinha um nome. Um nome decassilábico. Compreensível que não se acreditasse nisso pelas calçadas e que a máxima comoção que a novidade causasse fosse um riso desdenhoso de uma moça de cabelos negros e lisos e o olhar de pena de uma criança chupando um pirulito. Talvez por isso amenizei o choque anunciando que meu nome nada tinha de heroico ou de sáfico, era um decassílabo ordinário e aleatório. Mais burocrático que métrico, como convém aos processos e às pessoas e aos funcionários públicos. Também aos economistas. Postulara o fato justamente para ganhar ares de indivíduo, cheio de problemas e uma alegria de quando em quando, não uma indistinta gota no rio das ruas que vaza seguindo um misterioso sentido. A reboque disso, teria também a vantagem de me ocultar atrás do nome, como convém aos processos, às pessoas, aos funcionários públicos e sobretudo aos economistas, que tudo ocultam atrás de palavras por medo demasiado da verdade.

Insisti no fato, insistiram em resistir-lhe. Mas a fé me era tanta que começaram a desconfiar que talvez houvesse razão. Principiou como mera irritação, mas de repente tornou-se uma obsessão pública descobrir se eu tinha um nome ou não. Por falta de provas da realidade, acabaram aceitando-o. A direita viu nisso um exemplo banal de liberdade, ok, bacana, ele tem um nome, cada um pode ter se quiser, etc.; e tentou cotidianizá-lo como uma decorrência natural de nosso mundo. A esquerda viu uma traição contra as massas, um atentado contra a igualdade de existência, com palavras de ordem perorando minha expulsão sei lá do quê. Os inteligentes desconversaram: não importava se eu tinha um nome ou não, o importante era saber o que eu queria dizer quando dizia que tinha um nome.

Mas os cientistas ficaram excessivamente intrigados. Numa noite prenderam-me. Em nome da ciência, mataram-me. Encontraram o decassílabo de que eu falei e dissecaram-no. Sim, eu tinha um nome, e ele era decassilábico. Encontraram aqui e ali umas três ou quatro sílabas tônicas, nenhum sinal de cesura ou enjambement. Concluíram que com ele nenhum esquema rítmico seria razoável e se alguém encontrasse uma rima possível certamente seria monstruosa. Claro, falei que era decassilábico, não falei que era poético.

terça-feira, junho 16, 2009

Cem anos depois

Por José Paulo Paes

Vamos passear na floresta
Enquanto D. Pedro não vem.
D. Pedro é um rei filósofo,
Que não faz mal a ninguém.

Vamos sair a cavalo,
Pacíficos, desarmados:
A ordem acima de tudo,
Como convém a um soldado.

Vamos fazer a República,
Sem barulho, sem litígio,
Sem nenhuma guilhotina,
Sem qualquer barrete frígio.

Vamos com farda de gala,
Proclamar os tempos novos,
Mas cautelosos, furtivos,
Para não acordar o povo.

terça-feira, junho 09, 2009

Conceito de posmodernidade

O posmoderno
é sobretudo o tempo que se apelida a si mesmo:
o Posmoderno.

O posmoderno
tem pressa muita pressa que o agora vire categoria histórica:
o Posmoderno.

O posmoderno
ultrapassa-se antidefine-se e multiplica-se num só definido passo:
o Posmoderno.

O posmoderno
é, assim:
o Posmoderno.

sábado, junho 06, 2009

Os queimados

................... "atque intestina perurens
ei misero eripuisti omnia nostra bona?"

(e, queimando minhas vísceras,
de mim miserável roubaste todos os bens?)
Catulo


Corpos queimados aproximaram-se para o jantar. O rosto, tinham-no vermelho, os músculos à vista, salpicados de pontos pretos do tostado. Os globulares olhos que jamais sentiam os intervalos da escuridão, à míngua de pálpebras, pareciam-me dependurados por finas fibras. E com efeito estavam, pois os queimados preferiam mexer o pescoço a arriscar perdê-los – os olhos – num movimento de mirada. Haveria um rumor de boa compleição física se lhes abstraíssemos o acidente das chamuscadas, ou se as disfarçassem sob roupas e chapéus. Mas de roupas só as que se impregnaram em unidade com pele e outros tecidos de traços indefiníveis, e assim mostravam umbigos, crostas, vergões, um ou outro amarelado de ossos, e abstrusos tegumentos de panos íntimos urdidos com pêlos e escroto e lábios.
Vinham alegres, desconhecidos, uma petulante e um faminto, ela cheia de desafios, ele cheio de estômagos.

Ele parecia pobre, mas assim queimado podia ser qualquer coisa. Não pude avaliar mais porque também não falava, e porque mortos de fome há entre os ricos e há entre os pobres. Só não estão entre os elegantes. Não tinha uma das bochechas, embora conservasse intactas as orelhas e toda a cabeleira da nuca. Segurava entre os dentes um cigarro apagado, como se este o houvesse em verdade fumado, e eu não diria que fora outro o ocorrido. Não o convidei para sentar porque prescindiu de protocolos; sentou-se onde lhe aprouve, no exato lugar que lhe caberia. Sim, parecia pobre porque humildemente regozijou-se da mesa posta; carente de etiquetas, fartos sorrisos encheram-lhe a parte subsistente da face e só não bateu palminhas porque no momento certo se lembrou da carne viva e ardida de suas mãos. Serviu-se sem mais, repousando o cigarro, do vinho, do macarrão e do frango. Fungava. Cada gole descia acompanhado de peculiar percussão gutural. Arrotava. Não se permitia pausas na monótona degustação.

Logo o esqueci, eu não o esperava. Mas nem a ela.

Só que ela eu temia. Era calva, mais que ele. Não sabia a que vieram, mas se algo houvesse, ela era quem me diria. Seus dentes eram branquíssimos, via-se através de seus beiços rotos, e o que ficou do nariz conotava um fino nariz, de gente fina como ela deveria ter sido. Ou ainda era, mas não mais a partir dali. Trazia-o empinado, toda cheia de si. A empáfia que se lhe particularizava pelo sorrir altaneiro não era fruto dessa ostentação forçada dos dentes, porque se somava a todo um donaire de mãos gesticulantes e de um fixo olhar aos meus olhos, como se se dirigisse à minha alma e não a mim. Se o fogo também me tivesse dado a forma, talvez a achara bonita, nessa empatia dos que tem a mesma sorte, mas não menos amedrontadora. Somente se sentou quando lhe puxei a cadeira, com o que agradeceu muito veludamente enchendo-me de elogios quanto à minha gentileza. Serviu-se pouco e demorava muito para tocar a comida: preferia falar e ouvir, e o fazia bastante placidamente:

- Que bom vê-lo. Parece-me muito bem, apesar do seu estado. Admira-me que se demore longamente a apreender cada detalhe do nosso, quando o este seu próprio é uma miríade de espantos e belezas. Diga-me que anda bem.

Sabia que seria assim, ela tentando botar-me contra a parede, apequenar-me para que cedesse a algum desígnio desconhecido. Manteria o nível, a boa calma, frustrando-a até que cansasse e se fosse.

- Claro que ando bem. Perdoe-me meus ares de pasmo, sou muito impressionável com toda gente nova que travo contato. Disso às sensaborias sem pejo enveredei: - mas, digam, que acharam do bairro?

- Muitas mudanças na rua, creio que foram quatro caminhões nestes poucos quarteirões.

- Carregando ou descarregando?

- Ah, que dizer? Pareciam quase cheios. A esta hora, creio que estavam a partir com as tralhas. Essa gente sempre muda, não?

- Ah, sim. Ou não se contentam, ou é o noticiário que fala de uma garganta dum amante infiel cortada, e quando não, um grasnar de um corvo lhes desperta qualquer temor supersticioso, como um sinal divino de que aqui ainda não é Israel.

- Não se iluda, eles nunca mudam. São como você.

- Engana-se você, minha querida: mantenho-me, crio raízes. Não sei que disseram, mas aqui estou desde a enchente. Ganhei um mundo, ele é meu; percorro velhas estradas, mas todas minhas.

- Velhas estradas suas. Então é assim que prefere chamar...

Chegou meu irmão. Escalou seu banco à ponta da mesa. Suas imensas olheiras diziam-me que logo enxotaria os dois da sala. Surpreendi-me, porque preferiu ignorá-los. Apenas deu-me um aceno e pegou algumas sobrecoxas para comer com a mão.

- Amanhã cedo, à olaria – disse.

- Amanhã cedo, à olaria – respondi.

- Bom.

Bastou que viesse a olaria à tona para que a mulher começasse uma lengalenga, um leguleio antilegalista, uma ladainha antirreligiosa, num fascismo epistemológico que a tudo reduz a duas ou três teorias e palavras-chave sem força alguma porque perdidas em conceitos chãos, cujo nascimento em esplendor e na mais pura sedução lhes dá o fado da obtusidade dos comentaristas do porvir, estes comentaristas do porvir que haviam se sentado à minha mesa, comer do meu pão, para que eu – eu! – fosse alguma coisa que jamais fui. Falava erguendo o tom, perdendo a compostura, até chegar a indignação pura e simples, colocando abaixo toda a impostação temoribunda da sua chegada.

-...homens suarentos, que se dissolvem na própria argila, a ter as mãos na viva carne pelo fogo que amolda os blocos, embrutecidos na ignorância da mera produtividade, absorvendo com os olhos o bafejo infernal dos fornos, perdendo-se na marginalidade esquecida de seu vocabulário de duas ou três frases feitas com voz rouquenha subtraída de qualquer melodia, puro fartum, puras bestas ante bestas impassíveis de puro desprezo e pura lógica lucrativa!

- No vácuo da razão, o grito – disse então meu irmão.

- Mas vocês jamais ouvem!

Pois então eram casas sem tijolos o que queriam! - pensei - e para todos e cada um, sempre no seu direito, ah, sempre no seu direito.

Pensei mas não disse, porque nesta hora um caroço de azeitona pousou no macarrão. Tinha saltado da bochecha vazada do esfomeado, que por ali perdia metade do que comia. Comia, pois, por quatro: a fome era de dois, o aproveitamento de meio. Sorriu dando de ombros, mostrando (fora esquecido) que compartilhava a mesma mesa. A queimada, num arroubo irresistível, arrancou de meu irmão suas blusas e as jogou a um canto da sala. Suprema humilhação, já que os braços curtos do meu irmão jamais permitiriam que ele as vestisse de novo sozinho. Foi quando vi que suas palavras – as do meu irmão e as dela – acabaram.

Eram o silêncio, olhos, e a sonora gulodice. E seu clímax de arrotos.

- Pronto. Sabemos que não há remédio. Amanhã voltamos, nós e o nosso cutelo – foi o que enfim falou o queimado.

Era ele então que deveria ter temido desde o início. Um repentino murro do meu punho o acertou no rosto. Caiu, e então foram chutes infindos no coitado.

A queimada correu para sempre. O queimado, levei-o ao fogão a lenha. Fiz que comesse todas as cinzas – recupere o que perdeu, recupere, demônio! Regurgitava e debatia-se, um olho lhe caiu da cara, um grito sufocou-se em arrotos, e então o que lhe restava de um antigo corpo ruborizava-se até enfim entrar em completa combustão espontânea.