quinta-feira, julho 03, 2008

Estudo de variações do discurso indireto

Quando o Zé Magrela botou os pés no Bar do Lauro, este mal ergueu os olhos, jogou o pano de prato sobre o ombro e fingiu precisar ir à cozinha, para adiar algo de que não fugiria. Mas Zé o chamava, obrigando-o a ficar e virar-se. Ainda sem erguer a cabeça, Lauro perguntou-lhe o que queria, juntando dois ou três guardanapos de papel amassado sobre um prato cheio de farelos de pastel e pedacinhos de carne. Zé pediu uma cerveja e um pastel de carne, já ordenando, em ato contínuo, que colocasse na conta. Numa frase cheia de reticências, Lauro que enfim olhou aos olhos do Zé disse-lhe que este já lhe devia algum dinheiro, perto dos cinqüenta reais. O devedor abriu um largo sorriso para depois franzir o cenho abrir os braços e dobrar o pescoço na diagonal e anunciar como quem pede favor na camaradagem que já havia dito repetidas vezes que lhe retribuiria logo, pois dentro de alguns dias o Tavares ia lhe quitar a aposta que perdera no bilhar. O dono do bar ainda chegou a dizer, um tanto acanhado, que também Tavares lhe estava devendo. Mas Zé enraiveceu e disse que isso era assunto a ser tratado entre Lauro e Tavares, não com ele. Lauro já ia cedendo quando Martinho, sentado num dos bancos do balcão, retrucou dizendo a Zé que ele folgava-se demais com Lauro, que era alma boa demais para dizer não. Disse ainda para Lauro que só servisse à vista do dinheiro, ao que este, tomado de coragem, disse que era verdade, e cobrou de Zé. Zé, que era folgado mesmo, vitimizou-se alegando que sempre foi freguês do senhor Lauro, que ia sim lhe pagar. Martinho então lhe falou que ninguém pode se fiar na palavra por tanto tempo, e ainda disse que Zé já não tinha crédito em nenhum outro bar do bairro, que era para se conscientizar disso. Zé se acanhou foi embora.

Quando o Zé Magrela botou os pés no Bar do Lauro, este mal ergueu os olhos, jogou o pano de prato sobre o ombro e fingiu precisar ir à cozinha, para adiar algo de que não fugiria. Mas Zé já gritava “ô, seu Lauro!”, obrigando-o a ficar e virar-se. Ainda sem erguer a cabeça, Lauro perguntou-lhe o que queria, juntando dois ou três guardanapos de papel amassado sobre um prato cheio de farelos de pastel e pedacinhos de carne. Zé pediu a loira e o pastel de carne, “nada de vento, hein?”, e ainda disse que era para fazer tudo “naquele nosso esqueminha!”. Lauro, com uns “mas..., mas..., você sabe...”, olhando nos olhos do Zé avisou-lhe que sua dívida já chegava aos cinqüenta reais. O devedor abriu um largo sorriso para depois franzir o cenho, abrir os braços e dobrar o pescoço na diagonal e anunciar como quem pede favor na camaradagem que já havia dito “quantas vezes, hein?” que lhe pagaria logo, “de fé”, pois dentro de alguns dias o Tavares ia lhe quitar “o bagulho da sinuca que eu te falei”. “Ah, o Tavares...”, disse o dono do bar, explicando que este também lhe devia. Mas Zé enraiveceu e disse que isso era assunto deles, que “eu não tenho nada com essa joça”. Lauro já ia cedendo quando Martinho, sentado num dos bancos do balcão, retrucou dizendo que ele era um “desgraçado dum folgado” e que Lauro era alma boa demais para dizer não. Disse ainda para Lauro que só servisse quando Zé “botasse a mão no bolso”, ao que este, tomado de coragem, disse que era verdade, e cobrou de Zé. Zé, que era folgado mesmo, disse “que é isso, seu Lauro?”, e que sempre foi freguês do bar e que ia sim lhe pagar. Martinho então falou que ninguém pode “dar fé só no dizer” por tanto tempo, e ainda disse que Zé não tinha “moral” em nenhum outro bar do bairro, quer era “pra tomar tento logo”. Zé se acanhou e foi embora.

domingo, junho 29, 2008

Ode ao Corpo de Bombeiros da Nunes Machado (revisto)

No exato momento em que posto esta 'homenagem', uma sirene rompe as aparências da madrugada e me justifica.

Ó estridente grito, fúnebre presságio,
claro como o que canta a fanfarra
na alegria rasa das gulas oficiosas,
por que te anuncias, tão límpido,
na confusa hora da madrugada?

Hora sem tempo, tempo de nada:
negado do nada como se algo fosse.

Impregna teu breve som cada
segundo dos segundos que carregam,
por trás da inocência encantada
dos inocentes versos da Poesia,
a temida Aurora, a atroz Vigília.

Dedos rosa de luz? De sangue!
O que há para salvar do inevitável?

Tua sirene é uma gota de óleo
a pestear o quase infinito tanque
do Sonho, com a manhã da qual és
rubro e grave núncio, e na qual
me precipito com vivos ouvidos.

Buscas ossos quebrados mais reais
que meus amores notívagos demais.

Por mim, deixa que morram os que
se dão da convulsão nas tardias
horas dos dias a um luxo vulgar;
que morram como querem a Morte,
na qual, dizem, o Fim não está.

Pois que continuem a seu modo!
O Fim está é na morte do meu Sono.

Nada tenho com dos impertinentes
acidentes a ver o ânimo esvaído:
meu coração pelo que não cria
não sente; nem meus olhos marejam
pela vida que lá fora não vê morrer.

Antes eles, que o meu - e teu! - Sono,
que doces mãos ao menos me oferece.

Conquista

Mas me tiras a razão e queres que eu raciocine?
Balzac

o próximo passo
não tem medidas
nem há caminho
para teu regaço

Ser escritor

para que a cobiça consumasse
faltou-me um nome
faltou-me andrade

domingo, junho 22, 2008

Quando duas autoridades se amam

O Excelentíssimo disse à Excelentíssima:
- Vossa Excelência, [...]
Ao que esta replicou:
- Vossa Excelência, [...]
E quando se casaram, um ao outro, pedindo vênia para se manifestar:
-Amo a vossa douta e ilustríssima figura.
E o som se reproduzia no tímpano do que ouvia, [...] vossa douta e ilustríssima [...].
Um dia o Excelentíssimo deixou de ser tão excelente assim e teve de se contentar com o Vossa Senhoria. E como homem sem título, ousou dizer um "eu te amo" à Excelentíssima.

Mas ela não conseguia lhe ouvir.

Artigo Primeiro

As-Pessoas me disse que o céu era azul. Saí e vi o céu.
- Tens razão, o céu é azul.
As-Pessoas riu.
-Não, não, O-Ser. Agora o céu está cinza, não vês que as nuvens o cobrem?
-Aquilo são nuvens?
-Uhum.

[A positividade do direito passou a ser sinônimo de de certeza e segurança...]

E como eu quisesse dormir, As-Pessoas me levou à cama.
-Te cubras, eis que está frio.
E acomodei-me por sobre o cobertor macio.
-Não te cobres?
-Como não?
-Estás sobre a coberta.
-Acaso não estava o céu sobre as nuvens e estas não o cobriam? Não está o cobertor precisamente sob mim?

[Uma árvore cai na Amazônia e disso não se tem notícia. Para o direito, não se trata de um fato, simplesmente não ocorreu.]

As-Pessoas de novo riu.
-Eita, O-Ser! Tu tens idéias absurdas e inúteis. Cobrir é esconder-se. Esconda-te sob o cobertor como o céu se esconde além das nuvens.
-E isso me protegerá do frio?
-A ti sim. Ao céu não, que céu não sente frio.

[Artigo primeiro. O céu é azul
Artigo segundo. Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada]

As-Pessoas saiu rindo. As-Pessoas sempre me ridicularizou. Eu tive medo.
-O que você quer ser quando crescer, O-Ser?
-Quero ser como As-Pessoas.
Foi o único momento em que As-Pessoas me deu razão. Senti-me bem com isso.

[Condeno tal com fundamento no artigo tal, parágrafo tal, inciso tal, alínea tal da lei tal.]
Um cadáver. Ah! Quantos e quais são os dias de horror e mediocracia não sentidos que me aguardam agora que te vejo cadavérica, lutando contra vermes? O que de mim destruirá o húmus que te consome e me condena? A mim antes de tudo, que mais te amo. Crueldade! Se pelo menos tudo desaparecesse, até mesmo o vil legado da boa lembrança, da tua boa lembrança, a possibilidade do que eu poderia ter sido se houvesse te protegido, meu bem. Como és linda, nem mesmo a Morte a separou da Beleza. Não mesmo, e, aliás, como de crueldade tudo entende, sua foice levou-te a ti e contigo tudo o que de belo há e poderia haver no planeta. Sim, os dias agora serão sempre cinza, porque o azul ninguém saberá ver. A música não será mais que o silêncio, e o silêncio nada mais que olhares impessoais e insuperáveis. Adeus, Transcendência!

Chora agora, homem! Chora também, mulher! Aproveitai, pois, as últimas horas de sentimento estocados em vós, que amanhã ninguém, ninguém há de se alegrar, ninguém há de chorar. Aliás todos seremos ninguém. Estamos condenados a beber dos venenos que levaram a minha linda que com os vermes jaz. E foram tantos, não é, meu bem? Vamos e bebamos, vamos perder nossa condição de homens e mulheres, de crianças e velhos, de casados e solteiros, de amantes e inimigos! Vamos todos sorver o trabalho, a petição, o poder, a posse, o requerimento em três vias com reconhecimento de firma, a produção, a curva de Philips, o superávit primário, o recurso extraordinário, a propaganda, o custo/benefí­cio, o dinheiro, a ginástica laboral, a gonorréia, a medida provisória que reajusta a alí­quota do imposto sobre a renda do prestador de serviço para 40%, a fábrica, a circuncisão, o cinto de eletrodos, a cópia autenticada, o reflorestamento, o beijo entre Gisele Bündchen e Leonardo de Caprio, a máquina digital de 456.98 megapixels, a.........

Hoje, eu vos declaro robôs e vos participo: a poesia morreu.

quinta-feira, junho 19, 2008

Só onde não há luz
sou bonito.
Onde não há ouvidos,
persuasivo.

Onde não há ninguém
sou heróico.
Na cama de solteiro,
erótico.

domingo, junho 15, 2008

protótipo para um soneto do perfume

primeiro
era uma paixão
de evocações:
sentia o seu perfume
e me vinha sua boca
e sua leve corcunda

depois,
as evocações eram
naturais;
me retinha na sua pele
e era eu os seus olhos
sentindo falta do seu perfume

por fim,
o cheiro me lembrava o perfume
e o perfume me lembrava o cheiro
sem dentes, lábios e garganta
sem você, inexpressiva,
que era só perfume, era só cheiro

comprei o frasco
e não a quero mais.

De sacanagens. Ou meros erros.

Por vaidade, adoraríamos crer que somos maus naturalmente. Mas, na verdade, é bem pior: nós nos tornamos maus sem saber, sem mesmo nos darmos conta disso. É difícil ser herdeiro de alguém sem desejar inconscientemente sua morte por este ou aquele motivo. “Em tais situações, apesar de nos conduzir um sincero amor pela virtude, mais cedo ou mais tarde, sem que se perceba, fraquejamos, e nos tornamos injustos e maus ao agir, sem deixarmos de ser justos e bons na alma” (Rousseau)
Gilles Deleuze

Sou um maldito filhodaputa, ele disse. Esperava ser absolvido falando-o. Mas os outros simplesmente concordaram, e não houve saída. Ele era mesmo um crápula, tendo feito tudo sem querer.

Mas ninguém faz o que ele fez sem querer, pensavam os outros. Que eram filhosdaputa iguais... Só que quando um dedo se levanta para apontar, é só para uma direção que ele aponta.

sábado, junho 14, 2008

Giancarlo Rufatto

Tenho um amigo cheio de frases de efeito. A última: "tsc tsc tsc, homem é tudo igual, cara, por isso que a gente tem filhos."

Às vezes dá uma inveja!

PS: Não concordo nem um pouquinho com esse lugar-comum.

Sonetos a Orfeu

Sólo quien ya elevó la lira
también entre las sombras,
puede expresar, vislumbrando,
la alabanza infinita.

Sólo quien comió con los muertos
de sua adormidera, la de ellos,
no perderá nuevamente
el más leve sonido.

Puede que el reflejo en el estanque
se nos esfume a menudo, pero
conoce la imagen.

Sólo en un mundo duplicado
se tornan las voces
eternas y suaves.

Rainer Maria Rilke, de Sonetos a Orfeu, traduzido ao espanhol por Otto Dörr Zegers.

quinta-feira, junho 12, 2008

Segue abaixo uma cambada de poemas bem antigos. O mais novo é de 2005.

Verdades

Não consigo
Não entendo
Não sirvo e
Não tenho.

Dispenso o conselho,
Despeço o espelho,
Arremesso o processo.

Não penso
Não venço.

Não cesso.

escrevo
porque
escravo

extremo
porque
libertário

mas tremo
es-pas-mo-di-ca-men-te
porque
a palavra liberdade
liberdade
não é

e no entanto,
na dor do homem que não quer viver,
as letras e símbolos justapostos,
infrapostos os versos e estrebilhos,
a pele e os olhos palavreados
- "liberdade!" "liberdade!" "vida!" -
à vida me impelem.

Minha morte

No dia em que a Tal à porta vier
Trazer-me à vida o último estertor,
Que último não sei se é – vou supor
Que coisas após há – faz-se mister

Atinar o que, morto, devo ser:
Corpo inerte em necrópole enterrado;
Ou, qual suicida, em não santo prado;
Ou em quinhão alheio apodrecer.

Mantenho o suposto: na morte, existo.
Se posto embaixo da terra, malquisto
Por este que morre será o coveiro.


‘Quero minhas partes todas ao vento’
É a minha condição de testamento.
Quero a alforria como cativeiro.

Minhas palavras

se as ouvires
a responsabilidade
é toda tua!


se não as quiseres
que farei eu?
o azar é todo teu.

domingo, junho 08, 2008

de pace

pulchras uideo
non autem habeo
pulchrarum uolo
nihilum solum

aliarum quoque
nihilum uolo
alias autem
ne uideo quidem

penso, logo

penso o céu limpo
ele pesa toneladas
e eu existo

como uma poeira
que teve sua vez
no dedo do sol

e deitou-se ao chão
sem fazer a menor
diferença

quarta-feira, junho 04, 2008

Postagem retirada porque, pensando bem, estava um lixo.

terça-feira, junho 03, 2008

O crime de Septimus

Os homens não devem cortar as árvores. Há um Deus. (Anotava tais revelações nas costas de envelopes.) Mudar o mundo. Ninguém mata por ódio. Torná-lo conhecido (tomou nota). Esperava. Escutava. Um pardal, pousado na grade em frente, piou "Septimus, Septimus", quatro ou cinco vezes, e, cascateando as suas notas, continuou a cantar, alto, com frescor, em palavras gregas, que o crime não existe, e, tendo chegado um outro pardal, cantavam ambos, com voz prolongada e penetrante, em grego, dentre as árvores do prado da vida, à margem de um rio onde passeavam os mortos, que a morte não existe.
Em Mrs. Dalloway de Virginia Woolf


Os escritores podem dizer que o crime não existe. E dirão. Colocarão, porém, na boca de um louco uma conclusão assim criminosa; e lançarão a pulga evitando a culpa.

quarta-feira, maio 28, 2008

É isso!

O Agrimensor de Kafka nunca chegará ao Castelo por culpa da flecha de Zenão!

Por que a angústia? A lógica já nos deu tudo!

domingo, maio 25, 2008

Para constar

Odeio textos que comecem com um verbo no pretérito imperfeito.

Enfim, quase a totalidade dos blogs. Até este.

quinta-feira, maio 22, 2008

Lógica do sentido: a boca (ou Estudo do sorriso)

Tua boca é muita. Tua boca é tanta. Na tua boca não hão de caber sorrisos: teus lábios exageram, preenchem todo o vão e vão além; excedem-se nessa curvatura maliciosa que se insinua contra o mundo, ao que com humilde parcimônia o vocabulário oferece a simples palavra biquinho. Tua boca é tanta - não hás de sorrir, não hás - tua boca é muita. E no entanto um movimento se desenha, os cantos se distanciam, teus olhos se espremem, uma muralha de marfim se descortina. Sorris!, e sorris contra todo prognóstico da minha futurologia, que se demasia em lógica. Sorris tão grandiosamente quanto são enormes as carnes que se ruborizam nos travesseiros dos teus beiços, sorris com tantos dentes quanto são os golpes que explodem nas minhas costelas toda vez que o fazes. Como diabos sorris sem apertos, como diabos o sorriso vence tamanhos lábios, como diabos cabem sorrisos e lábios em tua boca? É sorriso de feiticeira que me prostra no evasivo sentido da tua boca que tento compreender. Tua boca acaba no sorriso: encerra-se ali o seu significado. Tua boca é isso, não entrada para o teu ser, não cavidade bucal. Ela é a saída, teu desabrochar para meus torturados olhos (amantes de lábios e dentes), ela se resolve inteira neste simples plano do teu sorrir. Para que investigar suas profundezas, onde tudo é falso? Tua boca acaba nos teus dentes ostensivos, tua boca me basta aí. É bastante, é muita, é tanta.

segunda-feira, maio 19, 2008

A Cidade

O prédio de bastas vidraças
perguntou ao prédio cinquentenário:
- Como vai, meu velho?

O prédio de cinquenta anos
não respondeu porque pensou ser louco:
- Prédios não falam - murmurou.

E eu, que estava no meio da rua,
descobri que a cidade não dialogava
por causa de mitos imbecis.

segunda-feira, maio 12, 2008

As meias mágicas

No aniversário de C., A. veio visitá-lo. Trazia no pacote de presentes um par de meias azuis. C. nunca gostou de ganhar meias, e A. sabia disso porque ele lhe contara da madrinha pão-dura que só lhe dava ou meias ou um cachecol verde que ela mesma fazia com a lã das blusas velhas do filho. Mas A. não podia comprar com o dinheiro de sua mesada aqueles carrinhos de coleção ou uma bola nova. Comprou as meias numa loja escondida na Galeria Tijucas, só que não era um par qualquer: elas eram mágicas.
- Calce, calce – disse a menina depois que ele abriu o pacote, sorrisinho insosso na cara. Ele não queria porque as unhas do pé não estavam cortadas, então mentiu:
- Mas já estou usando o par que a minha madrinha me deu, veja.
A. insistiu. Mas por que diabos, ele pensou. Não pensou, no entanto, que era um presente estúpido, porque foi de A. que o recebera. O menino, que dela não esperava nada, achou que já era a maior vitória saber que a menina havia pensado nele. Disse que então teria que trocar as calças por uma bermuda para ver como as meias ficavam na canela, de modo que fugiu para o quarto a fim de colocá-las sem perigo de vexame.
- Olha, ficaram lindas! – opinou A.
C., que nunca dera atenção a meias, não sabia dizer se elas ficaram lindas ou não. Mas gostou porque A. gostara. Deu umas voltas exibindo-se à menina, que batia as mãos. Depois, ela disse:
- Olha só, é segredo: são meias mágicas.
- Hã? Como assim?
- Olha, eu tenho meias iguais – apontou para o pé e mostrou as meias amarelas, iguais à do menino a não ser pela cor.
- Sim, mas quê que tem de mágico nelas?
- Não percebeu ainda? Olha em volta, olha. Não tá tudo diferente?
Definitivamente não havia nada de diferente em volta. Nem no pé.
- Ah, seu bobo. Olha, essa meia não calça teu pé, tá vendo? Tá calçando tudo em volta, e teu pé é o que tá fora dela. Ela tá protegendo o mundo do teu chulé e não teu pé do chão ou do frio ou do tênis!
Ele riu. Ela o puxou pelo braço para o quintal para mostrar mais mágicas que as meias faziam. Sob o vão da porta, bateu no umbral:
- Tá vendo aqui? Olha! Você não tá mais saindo de casa, você tá entrando no mundo! Aqui é dentro – pôs o pé na varanda – e aqui é fora – pôs o pé no tapete da sala. É a meia que mudou tudo, tá vendo?
- É verdade! – ele disse rindo para participar da brincadeira. Mas A. levava a sério. Se C. voltasse, ele estaria saindo para a casa, mostrava a menina ao rapazinho incrédulo. Chamou-o para dentro, que era o mundo, e arrancou do jardim uma flor, dando-a ao menino, dizendo:
- Olha só, a rosa me largou e pegou você!
Ele então, para testar a menina, largou a rosa, que foi ao chão. Ela exclamou:
- Ai ai, que flor cruel! Te largou e você ficou no chão!
- Mas eu já tava no chão, tonguinha.
- Tava porque ela não te ergueu, seu bobo.
- E por que então ela tá no chão agora?
- Como você é! Ainda não viu que o chão é que veio até ela? - pegou a rosa – E agora ele a jogou pra ela me segurar!
- Espertinha, tá tudo igual. Essa meia não é mágica não.
- Ah, é?
A. tirou os olhos da flor e fitou os de C. Num salto pra frente, fez tocar na dele a sua boca. O coração do menino virou uma lebre correndo no bosque, e a mão uma pedra imóvel que jamais reage. A. enrubesceu, mas saiu com essa:
- Você me beijou! Você me beijou!
- Eu..., mas, não..., foi..., foi...
- E eu... Eu gostei...
- É? Eu..., você gostou?
- Ah, de onde você tirou coragem, seu atrevido?
- É... As meias! É que elas são mágicas, sabe?

domingo, maio 11, 2008

"O paradoxo é, em primeiro lugar, o que destrói o bom senso como sentido único, mas, sem seguida, o que destrói o senso comum como designação de identidades fixas."
Gilles Deleuze

A lógica do sentido - o beijo

Esquece epítetos vãos:
Ímpeto tresloucado,
Apaixonado arroubo,
Loucura, arrebatamento,
Verdade insofismável,
Corações fugidios
Dos peitos ardentes,
Puro amor, pureza,
Luta bela de línguas
E lábios e estalos,
Ingênuo enleio,
Encanto de bocas,
Encontro de almas.

Um beijo é sempre e só isto:
Inútil toque entre
A incógnita e a revelação.

Nunca nesta ordem necessária.
Nunca no repouso de uma ordem.

quarta-feira, maio 07, 2008

He who hath glory lost

De James Joyce, com uma tentativa - a primeira e por tal condenável mas escusável - de tradução

He who hath glory lost, nor hath
Found any soul to fellow his,
Among his foes in scorn and wrath
Holding to ancient nobleness,
That high unconsortable one -
His love is his companion.

Ele que a glória perdeu, não
Viu alma que a sua seguisse,
Entre ira e desdém de inimigos
Defendendo a nobreza antiga,
Altaneira que a si só basta -
Seu amor lhe faz companhia.

quinta-feira, maio 01, 2008

tudo nos dias, o frio
os passos sempre dados
signos dum eterno erro
que nos trouxe aqui
os calores que não tenho
nos abraços imaginários
as decisões triviais
entre o café e a cerveja
entre ligar-te ou não
o vôo a que me convida
o vento que se choca
contra a fremente cortina
e até as facas, o quinto andar
o cadarço, a manga da blusa
o ímpeto de xingar
a todos na impessoal rua
tudo tudo tudo soa no
meu exagerado peito como
o terrível suspiro do suicídio

quarta-feira, abril 30, 2008

A moça que se transformou em passado

- Você foi meu amor. Ele disse com ares de consolação, porém havia uma sincera ternura, que até poderia ser amor pelo rostinho triste dela.

Ela sorriu e teve orgulho. E depois, pensando no assunto, odiou ser tratada no pretérito perfeito. Precisava morrer antes.

Riu, satirizando-se.

I have a dream

"We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal."
Martin Luther King

Um sonho teve a mim.
Me concebeu acho que morto
- ou sem forças ou morto
ou uma estátua inconcebível
no centro de uma cidade.

O sonho me sonhou nu
e invisível entre rostos iguais,
cujos olhos viam tudo igual
a registrar surpresas que
não podiam surpreender.

Mas era um sonho este
sonho que teve a mim.
E acordado o sonho teve
uma cidade inteira para pôr
o que de mim tinha engendrado:

Um eu sonhado, simulacro
que tinha tanto de verdade
que na vigília, na cidade,
não tinha voz nem imagem
nem a ninguém distinguia.

segunda-feira, abril 28, 2008

O velho revolucionário

A história das revoluções poderia ser narrada alegoricamente como a lenda de um antigo tesouro, que, sob as circunstâncias mais várias, surge de modo abrupto e inesperado, para de novo desaparecer qual fogo-fátuo, sob diferentes condições misteriosas.

Hannah Arendt


O velho revolucionário andava encolhido em sua parca verde-oliva pesada de condecorações e distintivos de patentes militares que achava meio absurdas. Ostentava-os sem jamais haver pegado em armas na vida - era no máximo um estrategista, ainda que se olhasse mais como a um intelectual de retórica privilegiada. Sim, um sedutor político, epíteto do qual gostava em seus íntimos segredos da vaidade. De qualquer jeito, subterfúgios como a propaganda, que o engendraram nessa imagem forte e viril, poderiam ser aproveitados, em nome da boa causa, do corpo doente e desvairado de capital livre e braço escravo, como escrevera certa vez para o célebre discurso da Tomada do Piratininga que o companheiro Costa, o Morubixaba, bradou ao se referir ao capitalismo.

Agora que seu pulmão lhe limitava as perspectivas de dias a viver, riu do Morubixaba, riu do título de Pajé com que as pessoas lhe chamavam, do Cacique que era o Fernando, e desses nomes todos que, num momento de enteomania carnavalesca, deram-se na consumação da Revolução em loas ao espírito nacional. Rir assim das coisas caras e grandiosas era um capricho que nunca se permitira por forte autocensura e em solene respeito pela vitória sobre o reino da falsa e fantástica liberdade que só fazia embrutecer as mentes do povo. Mas agora, entre tosses, não sentia culpa nenhuma.

O velho Pajé andava para aproveitar os últimos ventos do inverno. Fazia frio no sul do país que ele e os companheiros conceberam. As rugas do rosto agora imberbe e sua recém adquirida discrição fariam dele um anônimo naquela rua de Rubrurbe, não fosse a pompa de sua parca oficial que mostrava que ele fora alguém importante. Mas havia o respeito (“mas será respeito?” - se perguntava) que impedia os inoportunos de se aproximarem. E, além disso, sempre existia aquela dúvida se ele era mesmo o tal Pajé da Revolução, nem do governo participava agora. Mudara, pois: o peito inflado e os ombros largos esvaeceram numa caricatural corcunda que o apequenava.

Fumava e tossia. E o vento que lhe batia nas costas com violência lhe arrancou o cachecol uma vez. Tudo para que o pulmão lhe matasse mais rapidamente. Depois de alguns passos a parca, esse resquício de imagem publicitária que sentia não ter liberdade em não escolher para vestir, pesou. Como amainasse o vento, pela primeira vez não a quis, e então a abandonou num banco de praça sem exibir vestuário militar nenhum por baixo. Só uma puída blusa de lã que enfim o fez confundível com o povo. O povo que salvara e do qual sempre tinha que se diferenciar com essa bizarria para glorificar-se.

Acabara de sair do Colégio Nacional, onde recebera uma homenagem das crianças. Elas repetiram os cânticos laudatórios da vitória, discursaram as frases feitas no espírito da Revolução, execravam o mundo que explorava o trabalhador.

- Aprenderam bem... a repetir. – Disse o intelectual, triste consigo mesmo.

Parou na frente de um café tão velho quanto ele. Teve vontade de conversar nalguma mesa sobre um livro do McEwan que havia comprado no mercado negro. Mas ali dentro as pessoas eram amistosas demais, felizes demais, prosaicas demais.

Sentiu saudades de quando elevava a voz – sem tossir – com coisas que já foram subversivas, naquele mesmo lugar. Ninguém acreditava então no que poderia ocorrer, e ele se sente estúpido por ter acreditado que realmente ocorreria.

E sentia falta do capitalismo? Não. As pessoas, afinal, querem só comer. E isso ele lhas dera.

te vejo
e me projeto
na língua linda
que deves ter

volto
e de novo te vejo
e és uma marreta
que parte espelhos

segunda-feira, abril 21, 2008

Pieguices

Sonhei que me convidavas para tua festa de aniversário. Fui, mas fui meio assim, como apenas um dos vários convidados. Longe, muito longe de ser o que receberia a primeira fatia do bolo. Mas no sonho, eu à festa chegava, e tu me esperavas simpática, largo sorriso nos lábios, olhos moldados por uma peculiar sensação agradável de existir. Sentavas sozinha numa íntima mesa de apenas duas cadeiras: bolos, presentes e gentes não havia. Eu era teu único convidado, o feliz escolhido. Dizias-me que te bastavas comigo, que nós dois ali éramos uma festa inteira. Recebias de minha mão um tímido regalo que comprara, logo deixado pra lá pois preferias dar atenção aos meus dedos sempre inquietos. Eu sentia completo torpor a anestesiar todos meus sentidos, eu já voava. Estava pleno de um amor que irradiava em cada palavra, em todos os teus exibidos dentes das nuvens nascidos, teus angelicais olhos que encerravam mares inteiros e escondiam meu naufragado coração.

Ah, que coisa inútil é acordar.

segunda-feira, março 31, 2008

O silêncio tudo rasga
Tudo mata,
Tudo destrói
Nas bocas brumosas.

Não a palavra
Não os versos que escrevo
Nem mesmo as demagogias
Das belas tribunas
Faltam.
Isso não: há demais.

Faltam ouvidos que os aceitem.

quarta-feira, março 26, 2008

W. B. Yeats

Sempre gostei deste poema do poeta irlandês W. B. Yeats:

The sorrow of love

The quarrel of the sparrows in the eaves,
The full round moon and the star-laden sky,
And the loud song of the ever-singing leaves,
Had hid away earth's old and weary cry.

And then you came with those red mournful lips,
And with you came the whole of the world's tears,
And all the trouble of her labouring ships,
And all the trouble of her myriad years.

And now the sparrows warring in the eaves,
The courd-pale moon, the white stars in the sky,
And the loud chaunting of the unquiet leaves,
Are shaken with earth's old and weary cry.

sexta-feira, março 21, 2008

Desafio

Letra de Tom Zé e Gilberto Assis

Doutor:
Meus senhores, vou lhes apresentar
A figura do homem popular,
Esse tipo idiota e muquirana
É um bicho que imita a raça humana

O homem:
O doutor exagera e desatina,
Pois quando o pobre tem no seu repasto
O direito a escola e proteína
O seu cérebro cresce qual um astro
E começa a nascer pra todo lado
Jesus Cristo e muito Fidel Castro

Refrão
Africara mingüê e favelará
Mérica de verme que deusará
Iocuné Tatuapé Irará

Doutor:
Vejo o pobre de hoje: quer tratar
Do direito, da lei, ecologia.
É na merda que eles vão parar
Ou na peste, maleita, hidropisia.

O homem:
Mas o direito, na sua amplitude
Serve o grande e o pequeno também.
Além disso quem chega-se à virtude
E da lei se aproxima e se convém
Tá mostrando no patrão solicitude
Por querer o que dele advém.

quinta-feira, março 13, 2008

Belespáduas se insinuam
Sob a blusa sorrateiras;

Divombros com pintescuras,
tuas inevitaventuras.

Noitinsones e negrolheiras
Infundem-me em silêncio.

Ah, dona e aliada minha,
nem meu sono eu mereço?

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Soneto

Ao gosto dos modernos alguém brada,
em garboso louvor à pasmaceira.
Aos gritos de vã excluída sem eira,
condena-se à morte a métrica amada.

Que sim morram os detratores! Queira
a Morte – ou a altiva e bela fada
Tortura – saquear-lhes d’alma cada
estro dessa poesia rameira.

Sim, pois é moda desses modernosos
democratizar o verso aos incultos
com os poemas papalvos e estultos.

Liberdade não! Vivam os pomposos
versos da mais pomposa Poesia,
ao jugo da Forma e da Tirania!

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Poemeto erótico

Mar teu corpo; tua saliva, espuma;
Desce rija do morto Urano a agulha:
Eis a distinta ira de Afrodite
Que com rápida fome te alvoroça,
Em guarda pronta, com minh’alma troça,
Dócil criada que é do apetite.

Da minha boca meu cigarro fumas,
Tão sagaz e langorosa, com umas
Tragadas que de meu logo rendido
Pudor chupam o último vestígio.
Sou em vestes plenas já teu nu lígio,
Que o que não és abandona ao olvido.

E nas trilhas do que não deixo esquecer-me
Busco as serras que vem a oferecer-me
Tua blusa que ao chão pronto se arria.
Mas se mais baixo num repente aponto,
Danças, disfarças, me afastas no conto
de qu’é cedo para chegar à pia.

Como dizer que o encontro é primeiro
Com solene voz em corpo faceiro?!
Mas nada vale insistir eu perplexo,
Que por ti bastam as preliminares
- O vão júbilo das preliminares,
que sequer põe tua boca em meu sexo.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

O caseiro da chácara de Camaquã

Meu amigo João Falavigna jantou outro dia em minha casa. Há tempos que não nos víamos. Contou-me que o Rondinelli, caseiro de sua chácara, morrera há pouco. Simplesmente não acordou mais de seu derradeiro sono. Falavigna acredita, e eu concordo com ele, que a causa da morte não foi a parada cardíaca que consta do seu obituário, senão a falta de propósito para continuar vivendo. A sua história, a qual fiquei sabendo só agora, é extremamente curiosa e justifica plenamente nossa opinião. Aquele imperceptível Rondinelli ostentava um portentoso nome de policial ou de político, porém não passava de um discreto senhor de voz submissa e ombros encolhidos, de face circunspeta sob a inevitável calvície que ameaçava os cabelos nas entradas da testa. Na verdade, tamanha era sua discrição que sua figura só me tocou a memória em virtude de um estranho sotaque ítalo-castelhano que excedia, nessa estranheza, ao já extravagante modo de falar dos sul-rio-grandenses. Pareço descrever um mordomo vulgar, mas era isso que, no fundo, Rondinelli era. Essa peculiaridade arquivou-se em minha lembrança e foi suficiente para que eu pudesse associar toda a história ao seu protagonista.

Muito do que eu contar pode não ser a realidade, já que tudo que dele se sabe não veio de sua boca. Quem falou da vida do caseiro a Falavigna foi um dos filhos do Major Alcindo Garcez, um pica-pau da Revolução Federalista. Garcez parece ter salvado Rondinelli, maragato italiano que veio do Uruguai em busca de dinheiro, da sangüinária degola de Cherengue, e ainda ofertara ao mal-sucedido soldado o emprego de caseiro em sua chácara à beira do rio Camaquã. É o que se diz.

A gratidão – essa é a palavra-mestra – de Rondinelli foi infinita. A chácara em suas mãos estava seguramente nas melhores mãos em que poderiam estar. Há nela uma enorme casa, cheia de redes e camas, ornada com vários bibelôs cuja temática é a pescaria. Outra casa, mais modesta, é onde vivia Rondinelli com sua esposa, que conheceu em Camaquã mesmo. Um delicioso pomar, dois cavalos e o próprio rio a completavam. No princípio, Garcez ia de Porto Alegre ao sítio com assídua freqüência, muitas vezes acompanhado de amigos pescadores e da família para os churrascos de chão. Após a prematura morte da esposa de Rondinelli, suportada com singular indiferença pelo chacareiro, aliada à madureza alcançada pelos filhos do major, que trouxeram consigo o desinteresse pelas questões interioranas, a chácara passou a ser menos visitada. Passaram-se anos em que apenas Garcez, com rigorosa periodicidade quinzenal, ia à fazenda para matear com Rondinelli e pescar no rio Camaquã. E mesmo assim o afinco do caseiro era o mesmo, como se sempre esperasse as irrepetidas festas do passado. É que o seu trabalho era para o major, era a este que ele devia a própria vida. A ninguém mais. E não parecia fazer outra coisa: quando Garcez chegava o quarto estava arrumado, a geladeira cheia, o chimarrão pronto, a sela no cavalo, a linha no caniço, o anzol na linha, a grama cortada, as frutas colhidas, a lenha cortada e o fogo aceso contra a invernada. Rondinelli só não se dedicava à chácara quando ia a galope ao armazém na cidade jogar o truco ou o dominó e beber o mate com outros velhos senhores. Uma vez só, sob insistência do major, aceitou viajar ao Uruguai. Mas não achou ninguém de que pudesse se lembrar.

Num dia do ano de 1927, no entanto, Garcez, que tinha mais ou menos a mesma idade de Rondinelli, não veio. A realidade foi apenas pressentida pelo caseiro, mas solenemente denegada. Com uma semana de atraso do major, recebeu uma carta. Não a abriu: colocou-a sob a fruteira no centro da mesa de sua cozinha. Rondinelli não fugiu à rotina, tudo era detalhadamente realizado conforme sempre fora, com o cuidado que jamais faltou aos seus afazeres.

Falavigna, amigo também do major, convidado já das churrascadas que ele organizava, buscou comprar a chácara do espólio do ximango. Os herdeiros, dois filhos e uma filha, tinham já seus planos de vida, e o dinheiro valia mais que a propriedade. Marcos Garcez contou-lhe do caseiro, Rubens, seu irmão, levou-o ao sítio.

Meu amigo, devo dizê-lo, é uma pessoa extraordinária. Sua empatia é invejável, e essa deve ser a razão de ter conquistado tanta gente ao longo de sua vida. É um diplomata nato, embora seja apenas comerciante. Seu proceder para com o caseiro, como mostrarei a seguir, foi decisivo para a preservação dessa história, que pelo menos a mim impressionou muito.

Chegaram à chácara meu amigo e Rubens, homem exatamente oposto a Falavigna, bronco e de difícil lida, e o acesso foi de pronto franqueado por Rondinelli. Um pouco atordoado pela surpresa, o caseiro tratou de acomodá-los. Rubens praticamente dele não tomava conhecimento: falava ininterruptamente sobre o negócio que estava prestes a celebrar e mal ouvia as ofertas de mate ou café por parte de Rondinelli. À primeira trégua, o chacareiro fez a infeliz pergunta:

- Senhor, como bai seu papá?

Rubens ergueu-se com olhar ferino sobre o caseiro e bradou:

- Você só pode estar de brincadeira, uruguaio inútil!

E puxou meu amigo para fora para mostrar-lhe o rio. A cena bastante estranha foi geniosamente interpretada por Falavigna, que sabendo da história do caseiro a compreendeu sem maiores delongas. Então procurou não unir novamente Rubens e Rondinelli, para evitar outros mal-entendidos. Quem não a deve ter compreendido foi Rondinelli, que, imagino, deve ter ficado algum tempo paralisado para depois, como um bom servo, não fazer mais perguntas a si mesmo e voltar às suas ocupações.

A compra foi ultimada e o caseiro mantido na chácara, ainda submergido na pequena ilusão que guardara para si, a de que seu chefe, o major, ainda vivia. Falavigna nada fez para mudar esta convicção. Pelo contrário, viu-se obrigado a fingir-se, e a fazer todos os que visitavam a agora sua chácara fingirem-se igualmente, de convidado de Alcindo Garcez. O ardil arquitetado, admitamos, é um tanto quanto fácil de ser desmascarado. Mas antes de me acusarem de um fantasista que amarra mal os nós de suas mentiras, podemos ver também o porquê do sucesso dos atos de Falavigna: estamos aqui lidando com um homem cuja razão de viver é a quitação de uma impagável dívida. Obviamente que ele já sentia, nessas obscuridades da mente, a morte do seu chefe, porém simplesmente não acreditava nela. E era importante não acreditar: sua crença era deliberada. Qualquer coisa que a tornasse um pouco mais fundada seria preciosa para Rondinelli, e as dúvidas, como veremos, colocariam sua própria vida em risco.

O que fez o novo, mas secreto, patrão do nosso herói foi freqüentar a chácara sempre, inapelavelmente, munido de uma falsa autorização pretensamente assinada do próprio punho do falecido Garcez. Às eventuais perguntas de Rondinelli, Falavigna já preparara a desculpa de que o major estaria em uma longa viagem à América do Norte, em missão oficial.

O método não ficou isento de problemas: o caseiro não impunha nenhum empecilho a que meu amigo entrasse na chácara, andasse a cavalo, usasse o pomar e também os serviços de Rondinelli. Entretanto, ele jamais permitia que se dormisse no quarto do major ou que se utilizassem os equipamentos de pesca do finado. Uma vez apenas, após muita insistência, o caseiro permitiu que um dos visitantes usasse um dos puçás do major. Mas o puçá foi mal amarrado a uma raiz à beira do rio, e acabou sendo levado pela correnteza. Rondinelli suava copiosamente de nervoso, e chegou a erguer sua costumeiramente invariável voz com um discreto “jamais deveria ter deixado”.

O puçá foi encontrado pelo chacareiro alguns metros rio abaixo. Foi devolvido ao seu devido lugar e nunca ninguém mais ousou pedi-lo novamente.

Ocorre que, no começo, Rondinelli era o mais cortês e solícito empregado. Não media esforços para bem acomodar e agradar Falavigna, ao seu ver um insigne convidado do major. Encanta-me essa idéia: um homem tão infinitamente grato que, numa íntima promessa de servidão absoluta, permanece preso a esse laço muito além da morte do seu credor. Não se trata, como pode parecer a um julgamento mais imediato, de uma medíocre subserviência. Pelo contrário, Rondinelli obteve o que a muitos de nós sempre faltou: um significado da vida. Claro, se o significado que escolheu é bom ou ruim, isso vai depender de nosso juízo e de nossa busca particular do próprio sentido de existir. Mas é extraordinária a inabdicável missão a que se entregou o caseiro. Entretanto, os dias passavam e o major nunca mais deu notícias. Sub-repticiamente, a convicção de Rondinelli esvanecia. Sua energia para o labor diminuía, aqui e ali apareciam falhas do seu trabalho, imperdonables erros no dizer do uruguaio. Começou a precisar da cidade mais amiúde, substituiu no armazém o chimarrão pela cachaça. Foi duas ou três vezes ao médico. Creio que já não conseguia mais fantasiar: o major morreu. A situação foi se agravando até que chegou o dia que já conhecemos: o da morte do caseiro em sua cama.

Quem achou o corpo foi o próprio Falavigna. Descansava, na cabeceira, aquela carta cujo envelope estava, enfim, violado.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Bicicleta

Sempre julguei que à medida que os anos se vão, menos inteligente fico. Do que se extrai, acertadamente, que quando as palavras eram-me desconexas seqüências de sons balbuciadas por aquela boca cuja voz possuía poderes mágicos contra os meus maus ânimos eu era mais esperto. É que tinha todas as possibilidades diante de mim. Enquanto vivo e escolho, reduzo seus números até uma mediocridade que hoje só me permite optar o prato do cardápio.

Não mudo de idéia: ano que vem mais burro serei. Isso é irretocável. E será assim até que só me restará esperar a morte, com a apática resignação de quem a negou desde o início. Hoje, porém, ao reviver os vestígios jogados na memória dos meus tempos idos, finalmente consigo datar com certa precisão a fundação da mais aguda ingremidade de meu abismo.

Tinha oito anos de idade. Os meus sucessos nas provas escolares, com os famigerados cartazezinhos que colocavam meu nome à frente de todos meus colegas, deram aos meus queridos pais um motivo para o exibicionismo. Alguma auto-afirmação de que talvez necessitassem encontrou em mim sua razão de existir. Era eu o brilhante aluno, comportado e de boas notas, xodó de todos na escola. Enfim, o prezável e enfadonho filho exemplar.

Alguém deve ter mencionado à minha mãe o lugar-comum da época: os testes de Q.I. Ora, estava aí mais uma possível prova do meu talento, que já não era desconhecido. E tudo estava à mão: minha tia, mulher do irmão de meu pai, era psicóloga de crianças. Pronto. Mais uma chance de mostrar minha genialidade, minha estéril genialidade moldada pelo bom-mocismo.

Arrancaram-me certa tarde do jogo de bola da Rua Desembargador Motta. Era para o teste. Fui com os pés grossos de sujeira à sala de limpos carpetes da minha tia. Deram-me chinelos, mas teimei por um banho antes. Não convenci.

Aquilo me deixou demasiadamente nervoso. Se não provasse, que seria de mim? Todo meu castelo de sólidas fortificações estava ali ameaçado por um capricho de meus pais. Mas sem desgastar-lhes com minhas frivolidades, já lhes digo que foi coisa que passou: o resultado não poderia ser melhor.

Quero, porém, me referir, voltando à introdução do assunto, ao que me desterrou das fartas terras da fertilidade imaginativa. Foi uma inocente pergunta feita no meio do teste. Tinha que definir o que eram as coisas do meu cotidiano. Disse minha tia:

- O que é uma bicicleta?

Respondi como o teria feito uma razão científica que se alija de toda forma de poesia:

- Um veículo não-motorizado de duas rodas que utiliza a força das nossas pernas, por meio de um pedal e de uma correia, para andar.

Meu Deus! Como eu me orgulhei dessa resposta! “Veículo”, “não-motorizado”: mas isso era genial! Quem de meus amigos diria tais palavras?

Antes tivesse sido qualquer um deles e não eu. Desde então, a bicicleta é um entulho de alumínio e rodas e aros e espias. Jamais minha nave, meu cavalo de cavaleiro, meu lugarzinho de namoro, meu vento a soprar uma suave melopéia em meus ouvidos.

sábado, novembro 17, 2007

Cidade

Faringe que nos degusta,
Sou o gancho que se prendeu
EM
sua glote.
Quantos iguais a mim à mesma
Recusa procederam?

Não sou:
Líquido que escorre livremente
EM
suas vias.
Não me situo nem me movimento.

Não sou:
Pedra fundamental
EM
Uma sua estrutura.
Falta-me endereço.

Por uma estranha forma de vê-la
Sinto-a inacessível como também sou ao que me circunda
EM
Você.

terça-feira, agosto 28, 2007

Hoje eu limpo minha sala,
Ansiando algo melhor em ser.

Com a sala limpa imagino-me comendo todas as páginas de todos os livros de todos os saberes.

Amanhã eu só domino a modorra,

Que minhas muletas não sabem evitar.

domingo, agosto 12, 2007

Embalasse-me a gota rubra
Que de rubro brilho enche minha face
Rumo a cantilenas fervorosas a
Extirpar deste corpo as exatas cadeias
Do contumaz palavrear que a razão
Domina,
Ergueriam as uvas um antes embaraçado
Agora intrépido sei-la-o-quê que motoriza
As paixões - quiçá coração mesmo –
Entoando melopéias de destilado júbilo
Para me alçar à grandeza de suas íris
Sobranceiras.

Mas é patético e inútil o escrever.

Desencantado e desvendado o amor,
Vulgarizado e medíocre.
Matematizado; psicoanalisado, geneticamente localizado:
Nem o vinho é capaz de fazer-me cantá-lo.

domingo, março 25, 2007

Um Tales no meio de nós

Certas surpresas a vida nos reserva com tamanha discrição, desfeita daquele reverso da curiosidade que não raras vezes nos (me) ataca, aquela comichão que acomete o portador de prazeres inesperados que se atropela e surpreende seu alvo antes do tempo, que o timing da vida para nos espantar parece ser perfeito. Quero referir-me aqui a algo singular que me ocorreu anos após ter encontrado na Biblioteca Pública do Paraná um exemplar de um caderno meio tosco, não catalogado nos sistemas, com anotações de pensamentos não muito mais profundos que os que constam das prateleiras mais visíveis das livrarias, essas que escondem os melhores livros nos cantos menos visitados.
O caderno a que aludo era bem velho, muitas das páginas do seu interior estavam separadas da sua lombada, embora estivessem ali mantidas. Era de brochura costurada, com uma capa de papelão, todo manuscrito. Estava no setor da história das religiões, entre livros sobre o judaísmo. Vi-o não porque me interessasse nas questões hebraicas, mas porque as sobrenaturalidades do destino me alojaram na mesa que defrontava a estante onde se encontrava. Sua cor alaranjada sobressaía-se sobre as capas demasiadamente sóbrias dos livros vizinhos – não sei quais eram – e entre um e outro descanso da leitura que empreendia chamou-me a atenção.
Abri-o. Seus manuscritos eram os mais variados: a caneta – azuis, pretas e coloridas; esferográficas, hidrográficas, de pena; a lápis, lápis de cor e até giz de cera. Letras cursivas, bem desenhadas, infantis, da mais fina caligrafia, de fôrma, garranchos. Dizia a folha de rosto que aquele era um “Livro de Conselhos” (abaixo a inscrição “Passe adiante”), a iniciar pelo que dizia “só se vive uma vez, aproveite o máximo”. Não posso recordar agora do teor literal dos outros, não os li todos, e nem teria paciência. Afinal, como disse antes, os pensamentos eram reles como o citado, ocultos sob a comodidade de estarem todos os escreventes eximidos do dever da assinatura. Ali, sob o manto do anonimato, faces cujo semblante não sei nem imaginar devem ter passado horas se divertindo numa leitura rápida, fácil, às vezes frutífera, mas certamente ansiosa: penso que nem bem se chegaria à metade e logo vinha aquele ímpeto de marcar o próprio texto na última página escrita. O tal livro – um caderno, sabemos – já estava quase findando suas folhas em branco.
Maravilhei-me com a idéia: um livro de sabedorias anônimas e de contribuições plúrimas. O modelo formal que deu a luz àquela atitude material era perfeito, sem querer me demorar com a metafísica das formas eternas. Só que a matéria em si era medonha e enfadonha, pois o pessoal escrevia somente para “passar adiante”, para fazer parte, sem qualquer auto-exigência de criatividade. Também não tinha eu qualquer idéia para botar no papel, e não obstante ruminava alucinadamente – não muito além dos clichês – uma frase para colocar ali.
Por isso eu, como imaginei os demais, não me ative muito tempo e fui direto à última página. Ali estava o único conselho que trouxe na memória além do inaugural: “É da água que a vida, com tudo que existe, retirou seu princípio, nela a mantém, por ela morrerá. A quem disso souber com profundidade, o tempo será generoso e abundante.”
Em vista desse texto, animei-me a construir um igualmente ininteligível. Afinal, não pude atinar com o seu significado num primeiro momento. Que conselho era aquele? Que eu tinha que beber água? Tomar banho? Viver numa comunidade ribeirinha ou na beira do mar? Não havia um propósito claro, e assim devia ser o meu conselho, copiador barato que sou.
O que mesmo que escrevi? Era algo sobre fogo; sequer diversifiquei, em relação ao meu predecessor, o assunto dos elementos. É com sinceridade que relato o esquecimento de meu alvitre, mas é com igual lisura que garanto que se cá o transcrevesse, tê-lo-ia feito com um sentimento de autocomiseração acerca da minha própria futilidade. Olvidemos do detalhe; afinal, nem sei por que essa obsessão minha em sublinhar como fossem ninharias as mediocridades alheias, quando todos sabemos que é impossível não partilhar da mesma decadência, e tentar dela se esquivar como faço torna tudo mais ridículo ainda.
Não sabia bem o procedimento a partir dali. O livro apenas dizia “passe adiante”. Pairava a dúvida: passar adiante deixando ele sempre ali onde o achei ou levando-o para outro lugar? Esta alternativa era mais crível que aquela, certamente, pois a instrução exige claramente uma postura ativa do escrevinhador. Mesmo assim, devolvi ao mesmo lugar onde o achei: era demandar demais da minha parca criatividade procurar algum outro para colocá-lo.
Nem voltei à leitura a que havia me lançado antes de encontrar o caderno. Eu reouve a bolsa que deixara no guarda-volumes e parti para beber café no Lucca ali perto. Por uns momentos, o pequeno acontecimento na biblioteca ficou esquecido e ocupei-me de tormentas outras que sempre rondam meu exausto cérebro. Bastou, entretanto, que uma senhora excessivamente ornada com uma pesada maquiagem, topetuda, e com um daqueles horrendos lenços de seda no pescoço, sentada à mesa à minha frente, pedisse uma garrafa de água que o conselho antecedente viesse a lume novamente.
Mas que diabos aquilo queria dizer?
A garçonete veio carregando o mistério em sua bandeja, todo o mistério do mundo pra mim naquele segundo. Na garrafa, a água sacolejava e mudava a cada passo o plano primeiro de sua superfície, ao sabor dos ângulos que formaria o encontro de uma bandeja idealmente distendida com o chão. O segredo de toda a mecânica em que se engendrou nosso planeta balançava sem autoconsciência nem sentimentos nem percepções. É da água que a vida e tudo que existe retiraram seu princípio e nela que inexoravelmente se renovam. A água segurou em seus hipotéticos ombros todo o motor da história e mesmo assim se deixa apreender numa mísera garrafa de plástico! Passiva, passa ao copo, e do copo ao corpo, e do corpo a sei lá quantos mil outros fenômenos com os quais nem posso atinar. É humilde herói, é o nosso começo, é de onde tudo parte e o porquê de tudo existir. É o princípio de Tales; são, pois, ela só, os deuses que ele inventou, do qual todas as coisas estão cheias!
Sejam o piche do asfalto e o concreto do pilar, sejam a nuvem, a terra e o vidro. O humor vítreo que conhece o espectro das cores: o arco-íris é água. Tudo se define pelo seco e pelo molhado, tudo é fluido solidificado ou gaseificado. Tales nos fez da mesma substância, e desde então todos os filósofos que o mundo teve enxugam gelo. Exsurge das teorias a incredulidade, e sempre uma revoga a anterior, e sempre se quedam em um encastelado clube a ponto de não alcançar interlocutores muito além de suas barbacãs.
Acreditar nesse princípio tão inverossímil hoje parece absurdo, e no entanto é tão fácil e atraente seu enunciado. A racionalidade extremada de nossas impassíveis ciências não nos fez mais do que nos atirar mais fundo no abismo das incógnitas que a simples palavra vida nos oferece. É preciso então nos agarrar na simplicidade daquela antiga Jônia, que atravessou todos os séculos e se imprimiu numa singela página de um Livro de Conselhos simplório, e que ali naquele café havia me convencido por completo da sua legitimidade. Restava agora esperar que o tempo me fosse generoso e abundante, como deveria ter sido a... Tales.
A reflexão me conduziu a uma mais fantástica. E se não foi o próprio filósofo que tivesse escrito o conselho naquele caderno? Ora, um tempo abundante poderia certamente significar vinte e seis séculos. Imagino Tales, um homem de bastas barbas e compleição forte e exuberante, vagando por toda a história da ocidentalidade, daquela esquecida Mileto que durante toda sua vida foi também de Roma, de Bizâncio, de Constantinopla, do Império Otomano e da Turquia. Tales nos deu a physis e foi além: conseguiu ser ele mesmo o deus cuja substância nos tenta impingir com frases obscuras em velhas prateleiras de bibliotecas ou em alguma pregação em praça pública, sem jamais ter se identificado.
Tales vivia, só podia ser. Segurava consigo toda a história, como a água. Como ele, imagino, uns outro quatro podem ter realizado a mesma descoberta, a que agora eu tentava descobrir a todo custo. Sabia que a água era o princípio, mas como aplicar esse conhecimento profundamente como me dizia o conselho? Criei a necessidade de domar o mistério e guardá-lo comigo por outros vinte e tantas centenas de anos. Só uma palestra com o mestre talvez poderia me auxiliar.
Fui passeando por associações infantis enquanto eu mesmo pedia uma garrafa de água para mim. Tales me trouxe a imagem do talo da flor, que vive pela água; e daí passei à tala que imobilizou meu braço há uns quinze anos e deu chance para que o sangue, esse fluido vermelho, revigorasse minha fratura. E da tala à tela, que ganha da tinta vida, e da tela ao cinema, que flui no projetor como um rio, bravio ou não, rumo à foz. Tudo pulsava seca ou umidamente, e era desse tudo que eu participava sem saber. Vi-me como uma gota em meio ao infinito oceano do universo, que, sem tê-lo em conta na exata medida, era dos seus torvelinhos um títere, de cujas cordas Tales há muito se livrou. Somos a gota, ele conseguiu ser o mar inteiro.
Ignorava, porém, como conseguir encontrar o homem. A única coisa que existia era aquele caderno, o único elo possível. Pensei: o conselho de Tales era tão apaixonado que talvez ele ficaria incomodado em ver o livro no mesmo lugar, incólume e ignorado. Fiz bem em deixá-lo onde o achei. O que me cabia fazer agora era vigiar, por uma semana, até que ele voltasse para colocá-lo em algum lugar mais popular.
Dito e feito. Já no dia seguinte, estava eu sentado no mesmo lugar quando um rapaz magrelo e cabeludo, ostentando um crachá da biblioteca, foi retirar o caderno da estante. Imaginei na hora que, como funcionário do lugar, ele teria estranhado e apenas retiraria o livro dali por não estar na seção correta. Mas não: abriu-o e conferiu o meu conselho. Resmungou alguma coisa quando percebeu que talvez sua sugestão tivesse sido só mais uma, dada a pouca atenção do seu sucessor, eu. Mal sabia ele que eu já tinha ciência de sua identidade. Mal sabia eu, por outro lado, que isso foi uma enorme alegoria da minha própria cabeça – como me iludi tanto? Óbvio que Tales já estava morto, óbvio que eu teria que cedo ou tarde voltar à razão desencantadora dos nossos tempos, que fui crédulo demais numa fantasia boba. Veja-se o que sucedeu: segui discretamente o rapaz, que escreveu uma outra frase e colocou o caderno entre os livros de José de Alencar. Não demorei muito e o retomei. A letra do mais novo conselho era a mesma do anterior, o que provou minha tese da paixão de que era eivado. A água era o mote recorrente, pois assim estava escrito: “Alguns renegam que estamos ao fim dos tempos, e que a água nos mutilará, porque jamais a respeitamos. O fogo – estava aludindo a mim, creio – trouxe um progresso frágil e falso demais”. Estava começando a compreender. Fui à mesa do rapaz e mostrei-lhe o livro.
- Foi você que escreveu isto?
Fui impolido e muito brusco, o que justifica uma pausa assustada da parte dele.
- Sim.
- Conhece Tales?
- Quem?
- Tales de Mileto.
- Não.
- Não mesmo? Aquele filósofo a quem a água é o princípio de tudo que existe.
- Ah, não lembrei.
- Eu escrevi do fogo.
Ele enrubesceu. Nessa hora vi um adesivo do Greenpeace na sua mesa. Entendi tudo.
- Você tá certo – comprazi-me em dizer.
- Obrigado. O pessoal não dá atenção, né, mas a água tá acabando, e o mundo também, não acha?
- Acho. Tenha uma boa tarde.
Deixei com ele o livro. Não escrevi nada de novo. Dali, fui pra casa. Esse rapaz foi o motivo de uma grande decepção. Esperava encontrar a grandiosidade que juvenilmente imaginei por horas, e deparei-me com um simples ecologista que quer salvar o mundo. Nada mais.

domingo, fevereiro 25, 2007

Contra o tempo não-revisitado

Temo que é tempo do mesmo velho tempo
Chegamos aonde? Não há chegar
Passos – há passos? – sobre a mesma:
mesma eterna fôrma das pegadas
passadas, inculcando os seus deletérios sulcos

Evoluir na inarredável
Condição de homem
Indecomponível paradoxo

Pirâmides e arranha-céus
O que muda é o mundo plástico.

Força motriz
da história:
a insolubilidade da nossa pequenez.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Mil e uma noites

Versos extraído da 1ª noite das espantosas histórias das mil e uma noites, traduzido do ramo sírio por Mamede Mustafa Jarouche

O tempo é composto de dois dias, um seguro, outro ameaçador,
e a vida é composta de duas partes, uma pura, outra turva.
Pergunte a quem urdiu as idas e vindas do tempo:
será que o tempo só maltrata a quem tem importância?
Acaso não se vê que a ventania, ao formar as tempestades,
não atinge senão as árvores de altas copas?
De tantas plantas verdes e secas existentes sobre a terra,
somente se apedrejam aquelas que têm frutas;
nos céus existem incontáveis estrelas,
mas em eclipse só entram o sol e a lua.
Pois é, você pensa bem dos dias quando tudo vai bem,
e nâo teme as reviravoltas que o destino reserva;
nas noites você passa bem, e com elas se ilude,
mas no sossego da noite é que sucede a torpeza.

sábado, dezembro 30, 2006

Ocaso

Veio uma palavra, veio
veio pela noite,
queria brilhar, queria brilhar
Cinzas
Cinzas, cinzas
Paul Celan
Engravidei
de uma palavra.
Mas abortei(amos).

Foi para o céu,
escarrapachada no chão.

Engravidei
de uma idéia.
Mas a matei(amos).

Foi para o céu,
apunhalada no chão.

Engravidei,
Mas era um ruído.
Evaporou sozinho.

Foi para o céu
desaparecido do chão.

A última vez que engravidei
Foi de um homem mudo.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Desonra

Texto meu escrito para o antigo blog Realismo Superfantástico.

Fato é: houve duelo. Conto-te como foi, e não te importes com o motivo, que motivos de duelos são coisas às quais nem duelistas dão importância. Já houve caso contado, e não raro deve ser, em que se duelaram dois dos mais nobres espadachins da França por questão de onde apor a cerca. Vê bem: querelavam por cinco palmos de terra, nada mais, talvez menos. E achas que tal motivo lhes valeu a luta e o sangue esvaído? Óbvio que não. Razão por razão, a luta por si só já é suficiente, o resto estopim é.

O fato é: houve duelo, e nada mais pode interessar.

As horas eram altas, os duelos já eram proibidos na época. Mas a honra, que em lei da natureza o decreto do homem não se mete, ainda é a honra, e defendê-la é ainda defendê-la. O Espadachim vê o Espadachim e fica certo da vitória. O Espadachim, o outro, devolve a certeza ao Espadachim e o grito de en gard. Ambos, espadas em riste, pelejam então. Sabres cortam o ar refletindo as duas tochas que fracamente alumiam a cancha da batalha, os metais tilintam, os homens gemem e a noite, calada, só assiste à cena. Os inimigos são bons à mesma altura, mas não são precisos mais que segundos.

Touché!

No fim, talvez meio minuto seja pouco para horas, dias e semanas de aflição. Tanto preparo e tudo tão rápido se completa. Decepciona. O Espadachim vivo vê o Espadachim morto e não mais fica certo da vitória. A certeza que nele se dissipa, no morto se cristaliza, já que morreu com o que viveu no último momento. Um fio de sangue escorre pelos veios da terra e a rega com a exuberância da ruína, levando consigo tudo quanto na vida se construiu, talvez aos céus, talvez aos infernos. E se a espada não leva, leva a fé para que se arme no purgatório, se para lá foi.

Algo então de extraordinário ocorre: o vivo vê a si mesmo morto. Toma o lugar do outro, e põe em si vivo o outro morto, desesperando aos arrepios toda a sua alma. E percebe que perdeu tanto quanto o outro venceu; e que o que perdeu, perdeu tanto quanto o que ele mesmo, o vivo, perdia quando o sabre se enterrava por entre as costelas do inimigo. Eram iguais no nome - Espadachins -, eram iguais nas artes de lutar, eram iguais na certeza de vencer, e apenas por terem corpos separados não eram a mesma pessoa. Por tal e qual, eram iguais também na derrota. O Espadachim no qual pulsa ainda o pulso, vê o sangue do morto fazendo-se de si mesmo um com o planeta, e vê que não por honra vive, mas por sorte. Entende, enfim, que o duelo foi inútil, como todos o são. Podes alegar tu que o duelo ao menos lhe ensinou lições, mas inútil o Espadachim continua o tendo, porque, para aprendê-las, não era necessária, por pura fortuna que quiçá algum deus lhe concedeu, a morte do Espadachim outro.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Da traição e da passividade

Trecho de Uilisses, de James Joyce.
(Blazes Boylan se inclina acima do vão interno do carro, com seu chapéu de palha de abas largas de lado, uma flor vermelha na boca. Lenehan de boné de iatista e sapatos brancos intrometidamente destaca um fio longo de cabelo da ombreira do paletó de Blazes Boylan.)
LENEHAN
Oh! O que é que eu estou vendo aqui? Você andou escovando as teiasdearanha de algumas bocetas?
BOYLAN
(satisfeito, sorri) Trepando.
LENEHAN
Uma boa tarefa noturna.
BOYLAN
(erguendo alto quatro dedos largos grossosungulados, pisca o olho) Inflama Kate! Pra cima para mostrar para que veio ou seu dinheiro de volta. (ele estende um dedo indicador) Cheire isso.
LENEHAN
(cheira alegremente) Ah! Lagosta e maionese. Ah!
ZOE E FLORRY
(riem juntas) Ha ha ha ha.
BOYLAN
(salta com segurança do carro e grita bem alto para todos ouvirem) Olá, Bloom! A Sra. Bloom já esta vestida?
BLOOM
(num paletó de lacaio de pelúcia cor de ameixa e calções, meias compridas cor de camurça e peruca empoada) Receio que não, senhor. Os últimos acessórios...
BOYLAN
(atira seis pence para ele) Tome, para comprar gim com soda para você. (ele pendura rapidamente seu chapéu num prendedor da cabeça cornuda de Bloom) Faça-me entrar. Eu tenho um pequeno negócio particular com sua mulher, entende?
BLOOM
Obrigado, senhor. Sim, senhor. Madame Tweedy está no banho, senhor.
MARION (A sra. Bloom)
Ele devia se sentir profundamente honrado. (ela faz barulho ao sair espadanando da água) Raoul querido, venha e me enxugue. Estou na minha pele. Só de chapéu novo e uma esponja pra carro.
BOYLAN
(com um brilho alegre nos olhos) Ótimo!
BELLA
O quê? O que foi?
(Zoe segreda para ela.)
MARION
Que ele olhe, o enfeitiçado! Alcoviteiro! E se flagele! Eu vou escrever a uma poderosa prostituta ou Bartholomona, a mulher barbada, para que ela produza vergões nele de uma polegada de espessura e faça com que ele me traga um recibo assinado e selado.
BOYLAN
(aperta suas mãos) Vamos, eu não posso segurar esta coisinha por muito mais tempo. (ele sai com passadas largas de pernas rijas de cavalaria)
BELLA
(rindo) Ho ho ho ho.
BOYLAN
(falando para Bloom por cima do ombro) Você pode colocar seu olho no buraco da fechadura e se masturbar enquanto eu simplesmente penetro nela algumas vezes.
BLOOM
Obrigado, senhor. Vou fazer isso, senhor. Posso trazer dois camaradas para testemunhar o feito e bater um instantâneo? (ele segura uma jarra de ungüento) Vaselina, senhor? Flor de laranjeira...? Água morna...?
KITTY
(do sofá) Conte pra nós, Florry. Conte pra nós. O que...
(Florry sussurra para ela. Sussurrando murmúrios de palavrasdeamor, lábiolambendo ruidosamente, flopplop.)
MINA KENNEDY
(com os olhos revirados) Ó, deve ser como o perfume de gerânios e pêssegos deliciosos! Ó, ele simplesmente idolatra cada pedacinho dela! Grudados um no outro! Coberta de beijos.
LYDIA DOUCE
(abrindo a boca) Iumium. Ó! Ele a está carregando pelo quarto afora fazendo isso! Cavalgar um cavalo-de-pau. Podiam ser ouvidos em Paris e Nova York. Como bocas cheias de morango com creme.
KITTY
(rindo) Hi, hi, hi.
A VOZ DE BOYLAN
(docemente, roucamente, na boca do estômago) Oh! Fogocelestialgurkbrkarcrast!
A VOZ DE MARION
(roucamente, docemente, se elevando até a garganta) Oh! Uinaskissinapuisbuapuhue?
BLOOM
(com os olhos ultra-arregalados aperta as mãos contra o corpo) Mostre! Esconda! Mostre! Penetre nela! Mais! Se atire!
*************
Outro exemplo da genialidade, exatamente oposto do post (boa aliteração) anterior. Enquanto Proust disseca o homem com um lirismo incomensurável e um rigor estilístico baseado em frases longas e truncadas, perfeitamente encadeadas, Joyce explora o agir e o sentir humano com a linguagem inspirada na própria situação, permitindo-se subverter a realidade - confundido objetividades e subjetividades, que formam uma unidade indissociável - a ponto de descrever cada hora do dia 16 de junho de 1904 sem descrevê-la, isto é, por impressões que a própria sintaxe, que varia durante toda a obra, e a miríade de gêneros literários que encaixou no romance nos deixam. No trecho transcrito, a realidade é alucinada e absurda, própria para um homem de alma atormentada em tarde da noite, embriagado num bordel de Dublin; e, entretanto, temos uma medida ainda mais exata do que é real.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Do sadismo

Trecho de No Caminho de Swann, de Marcel Proust

"A Srta. Vinteuil estava de luto fechado, pois o pai morrera há pouco. Não tínhamos ido visitá-la, minha mãe não quis fazê-lo devido a uma virtude que nela ainda limitava os efeitos da bondade: o pudor. Mas lastimava-a profundamente. Lembrava-se do triste fim de vida do Sr. Vinteuil, absorvido primeiro pelos cuidados de mãe e de babá que prestava à filha, depois pelos sofrimentos que esta lhe causara; ela revia o rosto torturado que, velho, apresentava nos últimos tempos; sabia que ele renunciara para sempre a terminar de passar a limpo sua obra dos últimos anos, pobres esboços de um velho professor de piano, de um antigo organista de aldeia, que imaginávamos de quase nenhum valor, mas que não desprezávamos porque valiam muito para ele e tinham sido a razão de ser de sua vida antes de sacrificá-la pela filha e que, na maioria, nem sequer eram transcritos, sendo conservados apenas de memória, alguns rabiscados em folhas avulsas, ilegíveis, e assim permaneceriam desconhecidos; minha mãe pensava nessa outra renúincia, mais cruel ainda, que o Sr. Vinteuil se vira obrigado: a renúncia a um futuro de felicidade honesta e respeitada para a sua filha; quando relembrava toda essa desgraça suprema do antigo professor de piano da minhas tias, sentia um verdadeiro desgosto e pensava horrizada nessa outra aflição que a Srta. Vinteuil deveria experimentar, bem mais amarga, a de viver cheia de remorsos por ter aos poucos matado o pai. "Pobre Sr. Vinteuil" - dizia minha mãe - "viveu e morreu pela filha, sem ter recebido sua paga. Será que a recebe, depois de morto? E de que forma? Só poderá vir dela."

No fundo do salão da Srta. Vinteuil, sobre a lareira, havia um pequeno retrato do seu pai, que ela foi buscar às pressas no momento em que ressoou o rodar de um carro na estrada. Depois, atirou-se sobre um canapé e puxou para junto de si uma mesinha sobre a qual pôs o retrato, como outrora o Sr. Vinteuil pusera a seu lado o trecho que gostaria de tocar para meus pais. Logo entrou a sua amiga. A Srta. Vinteuil recebeu-a sem se levantar, com as duas mãos enlaçadas na nuca e recuou para o lado oposto do canapé como para lhe dar lugar. Mas logo sentiu que assim parecia lhe impor uma atitude que talvez lhe fosse inoportuna. Pensou que talvez a amiga gostaria mais de ficar longe dela, numa cadeira, achou-se indiscreta, e com isso a delicadeza de seu coração se alarmou; retomando todo o espaço do sofá, fechou os olhos e pôs-se a bocejar para indicar que o desejo de dormir era o motivo único de estar assim estendida. Apesar da familiaridade rude e dominadora que tinha para com a amiga, eu reconhecia os gestos reticentes e obsequiosos, os súbitos escrúpulos de seu pai. Em breve se levantou, fingiu querer fechar os postigos e que não conseguia.

- Deixa tudo aberto, tenho calor - disse a amiga.
-Mas é um perigo, podem nos ver - replicou a Srta. Vinteuil.

Mas, sem dúvida, ela adivinhou que a amiga pensaria que ela dissera estas palavras só para provocá-la, para que respondesse com outras que ela, de fato, desejaria ouvir, ma que, por discrição, queria deixar-lhe a iniciativa de pronunciá-las. Portanto, seu olhar, queeu não podia discernir, deve ter assumido a expressão que tanto agradava à minha avó quando acrescetou com vivacidade:

- Quando digo "nos ver", quero dizer nos ver lendo, é perigoso, pois qualquer coisa insignificante que se faça, é desagradável pensar que olhos estranhos nos possam estar vendo.

Por uma generosidade instintiva e uma involuntária polidez, ela calava as palavras premeditadas que julgara indispensáveis à realização completa de seu desejo. E em todos os instantes, no fundo de si mesma, uma virgem tímida e suplicante implorava e fazia recuar um velho soldado áspero e vencedor.

- Sim, é provável que nos olhem a esta hora, nesse campo tão freqüentado - disse a amiga ironicamente. - E depois, que importa? - acrescentou (achando dever juntar um piscar de olhos malicioso e terno a essas palavras que recitou por bondade, como um texteo que sentia ser agradável à Srta. Vinteuil, com um tom que ela se esforçava em tornar cínico). - Se nos virem, melhor.

A Srta. Vinteuil estremeceu e levantou-se. Seu coração, escrupuloso e sensível, ignorava quais palavras deviam vir espontaneamente se adaptar à cena que seus sentidos exigiam. Buscava, o mais longe possível de sua verdadeira natureza moral, encontrar a linguagem própria à moça viçosa que desejava ser, mas as palavras que esta última pronunciara com sinceridade pareciam-lhe falsas em seus lábios. E o pouquinho que ela se permitia nesse campo era dito num tom afetado, no qual seus hábitos de timidez paralisavam suas veleidades de audácia, tudo entremeado de "não estás com frio, não tens muito calor, não queres ler sozinha?"

- A senhorita parece ter pensamentos bastante lúbricos esta noite - acabou por dizer, sem dúvida repetindo uma frase que ouvira antes na boca da amiga.

No decote de seu corpinho de crepe, a Srta. Vinteuil sentiu que a amiga lhe dava um beijo, soltou um gritinho, fugiu, e as duas se perseguiram aos saltos, fazendo revoar as largas mangas como asas e gorjeando e chilreando como dois pássaros amorosos. Por fim, a Srta. Vinteuil caiu sobre o sofá, coberta pelo corpo da amiga. Mas esta encontrava-se de costas para a mesinha onde estava o retrato do velho professor de piano. A Srta. Vinteuil compreendeu que a amiga não o veria se não lhe atraísse a atenção, e lhe disse, como se apenas agora tivesse reparado nele:

- Oh, este retrato de meu pai que nos olha, não sei quem o pôs aí, já falei mil vezes que não é este o seu lugar.

Lembrei que estas eram as palavras que o Sr. Vinteuil havia dito a meu pai a propósito de uma partitura musical. Esse retrato lhes servia habitualmente para profanações rituais, pois a amiga lhe respondeu com estas palavras que deviam fazer parte de suas respostas litúrgicas:

- Ora, deixe-o aí mesmo, ele não se acha mais aqui para nos aborrecer. Imagina como não haveria de lamentar-se, o macaco velho, e querer pôr-te um xale, se te visse agora com a janela aberta.

A Srta. Vinteuil retrucou com palavras de suave censura: "O que é isso? O que é isso?", que demonstravam sua boa formação, não que fossem ditadas pela indignação que semelhante modo de falar de seu pai pudesse lhe causar (evidentemente, esse era um sentimento que já se habituara a calar em si mesma, sabe-se lá à custa de quais sofismas?), mas porque eram como que um freio que, para não se mostrar egoísta, ela mesma punha no prazer que a amiga procurava lhe dar. E, além disso, essa moderação risonha em responder a tais blasfêmias, essa censura hipócrita e terna, pareceriam talvez à sua índole franca e generosa uma forma particularmente infame, uma forma adocicada daquela perversidade que ela procurava assimilar. Porém não pôde resistir à atração do prazer que sentiria em ser tratada com doçura por uma pessoa tão implacável em face a um morto indefeso; saltou sobre os joelhos da amiga e lhe estendeu castamente a testa para ser beijada, como o teria feito se fosse sua filha, sentindo deliciada que ambas alcançariam nesse modo o limite da crueldade, roubando o Sr. Vinteuil, até na sepultura, a sua paternidade. Sua amiga lhe pegou a cabeça entre as mãos e lhe deu um beijo na testa com a docilidade que lhe era facilitada pelo grande afeto que lhe votava, e o seu desejo de oferecer um pouco de distração à vida agora tão triste de pobre órfã.

- Sabe o que eu gostaria de fazer com esse velho pavoroso? - disse ela pegando o retrato.
E murmurou ao ouvido da Srta. Vinteuil algo que não pude perceber.
- Oh, você não se atreveria.
- Não me atreveria a escarrar em cima disso? - disse a amiga com uma brutalidade intencional.

Não ouvi mais nada, pois a Srta. Vinteuil, com um ar abatido, sem jeito, ocupado, honesto e triste, veio a fechar os postigos e a janela, mas sabia agora, por todos os sofrimentos que durante a vida inteira o Sr. Vinteuil suportara por causa da filha, o que, após a morte, recebera dela em paga.

E contudo, desde então pensei que o Sr. Vinteuil tivesse podido assistir a essa cena, mesmo assim nçao teria perdido a fé no bom coração da filha, e talvez não estivesse de todo enganado. Certamente, nos hábitos da Srta. Vinteuil a aparência do mal era tão completa que seria difícil ver sua realização perfeita senão numa natureza sádica; é de preferência à luz da ribalta dos teatros do bulevar, do que sob a lâmpada de uma verdadeira casa de campo, que se pode ver uma moça fazer a amiga cuspir sobre o retrato de um pai que só viveu para ela; e somente o sadismo pode dar um fundamento, na vida, à estética do melodrama. Na realidade, afora os casos de sadismo, talvez uma moça possa cometer faltas tão cruéis como a da Srta. Vinteuil à memória e contra as vontades do pai morto, mas não os resumiria expressamente em um ato de um simbolismo tão rudimentar e tão ingênuo; o que sua conduta teria de criminosa seria mais velado aos olhos dos outros e até a seus próprios olhos, pois ela faria o mal sem confessá-lo. Mas, para além da aparência, no coração da Srta. Vinteuil, o mal, ao menos no começo, sem dúvida não era exclusivo. Uma sádica feito ela é uma artista do mal, o que uma criatura inteiramente má não poderia ser, pois o mal não lhe seria externo, antes lhe pareceria muito natural; não se distinguiria dela, até; e a virtude, a memória dos mortos, a ternura filial, como não as cultuasse, não sentiria nenhum prazer sacrílego em profaná-las. As sádicas do tipo da Srta. Vinteuil são seres tão puramente sentimentais, tão naturalmente virtuosos, que até o prazer sensual lhes parece algo de maldoso, privilégio dos malvados. E, quando permitem a si mesmos se entregarem a eles por um momento, é na pele dos maus que tentam se pôr e de fazer entrar seu cúmplice, de modo a ter um instante de ilusão de estarem se evadindo de suas almas escrupulosas e brandas para o mundo desumano de prazer..."


Isso é o limiar da perfeição do romance que se ocupa dos mais sutis detalhes da complexidade humana. Vale um culto, uma homenagem, e, na tradição das mitologias, e aqui estabeleço o mítico ser do escritor, o sacrifício de um filho.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Rosebud

(Versão definitiva)
To Citizen Kane
A rose that shall forever be
under sands of the hourglass;
from the far and unglorious past,
'til the fading eternity.

La lengua de las mariposas

Tendo saído do que se convencionou chamar academia, quando em realidade se trata do ginásio, local onde modelamos nosso corpo para a adequação estética dum padrão consensual – o qual seria hipocrisia criticar, haja vista que dele também partilho, sob o pretexto de buscar saúde, numa valorização excessiva a uma vida sem significados, sofri inicialmente um momento de euforia, natural para quem pratica esportes logo após interrompê-los, para chegar a um estado de moleza total do corpo, uma fatiga que ultrapassa o mero cansaço: trata-se daquele torpor físico que o estarrece por completo simultaneamente à presença de uma certa comichão que o diz para não parar, embora você seja incapaz de continuar. Você cai escarrapachado no colchão, impossibilitado, no entanto, de dormir.

Mais ou menos era esse o estado em que me encontrava quando mergulhei num filme em minha sala. E julgo agora que minha paradoxal apatia é efeito do filme! Tal é a admiração que me causou, a emoção que descobri viva quando pensava estar já endurecida pela trajetória que o acaso traçou ao longo da vida. Embasbaquei-me.

Não importa se exagero. Encantei-me. O que o faz valer à pena.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Kierkegaard

Os segundos se sucedem e dão ao anterior desde já o teor de passado: tudo fica eqüidistante, a uma distância infinita, na medida do jamais alcançável. Desde o livro que acabo de largar sobre a mesa, cujas letras pequenas me fazem doer os olhos, que tentam apreendê-las sem o costumeiro auxílio do pince-nez deixado não sei onde, até o vergão disciplinador que meu pai fez marcar em minhas nádegas no dia em que ousei em público tocar minha genitália, tudo é terminantemente passado, tudo sou eu e segue à minha frente a determinar meus passos e a dar a medida do meu desespero.

Vivi tempo suficiente para consolidar meu eu e enfrentar esse desespero dando a ele a melhor e mais nobre configuração possível: a de desesperadamente ser eu mesmo, com a fé que em mim é peculiar. Mas mesmo com tantos anos que se contam em meus papéis, creio que não consegui passar ao largo de toda crise, sempre recorrente, o que prova minha tese de que o desespero é a doença mortal – não porque mata, mas porque à nossa morte o levamos - e só na eternidade é que dele podemos nos curar.

De que a Europa vai à bancarrota tenho certeza. Nossos sacerdotes pregam uma fé sem significado, destituída de valor intramundano porque sem sentido aparente, dirigida ao nada e passada de gerações a gerações pela comodidade da tradição, que não costumamos questionar ou sequer dela dar-nos conta. Os jovens de hoje são uns arruaceiros sedutores, estetas signatários de alguma associação metafísica do mais vil hedonismo, tão vazio quanto pode ser uma vida vazia de decisões.

Os ingênuos intelectuais de nossa época insistem no romantismo que nos iguala a nada, e não na fé que atesta o absurdo da existência mas que a ela confere um porto seguro em que posso atracar, aceitando o fato de que existo e por tal é dever meu assumir para mim esta existência. É preciso que nos apropriemos de nós mesmos, sendo nós cada vez eu. Pobres senhores! Sentem-se parte funcional de um todo espacial e temporal, alienando-se ao mundo por não se reconhecerem uma unidade total, um eu. Mal sabem que derrelitos ao mundo e ao tempo, encontram-se seu eu com o dever de sê-lo nestas dimensões, das quais não participam, senão que os têm como constituintes de si mesmos!

Se sou desesperado, é porque as decisões são sempre minhas: ouso escolher.

domingo, dezembro 03, 2006

Não busco um futuro,
essa máquina de desenganos.
Não planto nem planejo.

Se eu me for agora,
Antes que perca meus humanos
direitos
, ainda valerei uma reza.

Soneto antigo

De um lado trevas, d’outra parte luzes,
Tijolos crus, os afrescos suaves,
Combinam-se rosários e cruzes,
Ocultam-se temores nessas naves.

-Tu, padre, que na igreja me conduzes,
Dize-me, pois me medram tais entraves
No meu livre pensar (tu não me induzes):
Por que está Deus entre os temas mais graves?

-Deves temê-Lo, filho! Pensa assim!
Sua onisciência vê teus pecados,
Não queiras penas! Sê dentre almas puras!

-Temê-Lo? Como se incute isso a mim?
Enfrentá-Lo-ei, pois, se vê meus atos!
Como temer quem me espreita às escuras?

sábado, novembro 25, 2006

ESTUDOS ONTOLÓGICOS

Projeções

O livro deitado sobre a sacola,
A caneta, o desodorante, o cortador de unha.
Ao meu lado, o vigor de sua independência
Com a minha, no pequeno logos deste quarto,
Jamais verão ou saberão que os observo,
E, no entanto, são tão parte de mim,
Quanto tudo o que de sentido lhes foi dado
Pelo ser que me contém.

Vigoram ainda, repousados na minha contemplação.
E enquanto dados a mim, sempre assim.

Tenho medo de saber:
Coisas tão inertes são meus órgãos.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Tempo de sonhar

Nos estágios perturbadores do sono, justamente aqueles em que a mente se aviva de sua pequena hibernação, permitindo-se deturpar qualquer regra do mundo físico e representar o próprio corpo livre dos grilhões da substancialidade, em que nada dizem as propriedades e impropriedades da minha matéria – posso voar, ser incapaz de andar ou ainda enfiar no estômago comida suficiente para encher barrigas de elefantes, sempre há a possibilidade de sofrer certo terror, não tanto por entrar em tais estágios, mas precisamente por deles sair. Eis que, acordado, descubro certas verdades de mim mesmo que só meu sonho faz perceber.

Se é verdade que os sonhos se constroem de elementos empíricos que captamos durante o dia, ou durante os últimos dias, fico ainda atinando com o que pode ter sido o substrato fático que fundou todo o temor que sofri noite passada. De antemão já tenho uma idéia pré-concebida, e acho que é nela que basearei o arrimo condutor de toda minha divagação acerca do que, por assim dizer, vivi: meus dias, e creio que de todo mundo, são pautados por horários previamente estabelecidos, horários esses que se fazem lei porque não indicam compromisso de mim comigo mesmo, vez que envolve outros que comigo têm conhecimento de tal horário, ou que me o impuseram. Todos os dias trabalho de tal a tal horas, compareço à academia em tal hora para sair em tal, janto com tal mulher naquela hora agendada, chegando sempre no mínimo quinze minutos mais cedo para jamais deixá-la ser a primeira a esperar.

Em relação ao tempo, não me impressiona que horas fechem-se exatamente num dia, dias num mês e meses num ano. Isso é facilmente explicável: o tempo do homem foi construído para formar um sistema perfeito que se fecha em números redondos. Não há dias com 28,3 horas, ou meses com 19,282 dias, e sim todo dia tem 24 horas, toda hora tem 60 minutos, todo minuto carrega 60 segundos e assim por diante. Também não me impressiona que os parâmetros dessas medições sejam astrofísicos, o dia correspondendo ao movimento de rotação da Terra, o ano ao de translação, com a compensação do dia 29 de fevereiro no ano bissexto em razão de uma mínima divergência entre os dois movimentos, que por não serem intencionalmente construídos não se obrigam, como o calendário humano, a serem exatos, já que algum parâmetro tem que ser escolhido sem arbitrariedades. O que me impressiona é que o homem proclama o poder da razão para vindicar a liberdade, e com isso abre para si um leque infinito de possibilidades, no mais das vezes às quais permanece indiferente em favor da comodidade da tradição e das crenças herdadas, e mesmo assim continua ligado àqueles fatores astrofísicos – o dia e a noite são os parâmetros que indicam a necessidade do sono – e outros biológicos, e, o que agrava essa situação, cria mais fatores de necessidades – o relógio, o calendário e a idade – dos quais irremediavelmente não foge.

Meu sonho caminhou exatamente nessa direção. Não posso precisar detalhes, jamais pude; sequer posso falar de razões históricas (existem razões históricas para sonhos?) de estar, em certo momento, no meu apartamento, olhando ao visor do meu celular a fim de saber as horas. O telefone nada dizia, senão alguns incômodos pontos de interrogação. Precisava das horas, não para fazer alguma coisa, mas porque, por alguma razão, sabê-las nos deixa seguros. Meu relógio de pulso estava sem pilhas. Olhava o calendário e via uma enorme seqüência de números e letras, mas era impossível determinar qual era o dia em que eu estava. Meu computador mostrava um certo horário, porém tinha eu a certeza de que aquilo era um engodo, já que aqueles números não tinham qualquer correspondência com o dia claro que penetrava a janela. Olhei-me no espelho e cuidei de guardar um mínimo de compreensão de que aquele era eu. No entanto, um eu sem tempo era-me demasiadamente penoso, e não demorei muito a concluir que perdia a identidade porque não me localizava em qualquer conjuntura ou contexto, embora meu corpo estivesse seguramente ali. O que me envolvia perdia sentido, pois não tinha certeza se era tempo de lidar com as coisas ao meu redor, e mal podia crer que o espaço do meu apartamento estava justaposto com espaço de fora, porque a mim parecia que o lugar onde eu estava passava por um tempo completamente diferente do tempo de todo o resto do mundo; de modo que nunca poderia ir ao encontro de outros lugares que não aquele em que eu estava.

E poderiam existir os outros? Duvidei, porque ou eu estava ao passado de todos, ou ao seu futuro, e um encontro seria prodígio de filmes de ficção – coisa que meu sonho não era. O tempo, ou melhor, a falta do tempo criou uma enorme muralha entre mim e o que estava à minha mão; senti, finalmente, que era hora – ou qualquer outra palavra que possa dar essa noção, já que hora não existia mais ali – de deparar-me com o nada.

Não sei se exagero ou se o que digo era precisamente o que senti durante o sono, já que, como me expliquei anteriormente, isso aqui se trata de uma divagação que elaborei justamente quando do sonho saí. Tudo o que se passou não deve ter durado alguns minutos, porque logo ouvi a porta do apartamento se abrir e em seu batente aparecer a figura do meu colega, portando um enorme relógio em seu pulso, ao qual imediatamente recorri para, enfim, ter ciência da hora certa.

Disso tudo poderia eu retirar uma conclusão mais ou menos lógica, mas não sei se calmante: o tempo não é o que construímos, é aquilo em que nos construímos. O relógio, o calendário, a idade, tudo isso são necessidades humanas porque o homem é antes de tudo isso algo que se dá no tempo. No meu sonho, faltavam-me relógios e calendários, pelo menos os que significassem algo. E entretanto eu tinha tempo: dando-me conta da situação em que me encontrava, decidi-me pela necessidade de saber o horário e, por tal, aguardava alguma informação. Isso nada mais é do que me encontrar numa ocasião dada pelo meu passado, vivendo um presente que espera o futuro que escolhi como destino e que pautava o meu lidar naquele lugar onírico: quando me decidi por saber o horário, antes de sabê-lo já vivia num tempo, e querer sabê-lo apenas determinou tudo o que eu fazia. Medir o tempo dessa atividade, ou melhor, o lapso de tempo da minha ação, é invenção decorrente do fato de que somos temporais, não o contrário.

domingo, outubro 22, 2006

A este blog, ao orkut, ao wikipedia, ao youtube, ao msn.

Toca-me o silêncio com voz clara;
ao ar me quedo observan
CONVOCA-ME O COMPUTADOR.

Militar engendrado no baixo escalão,
salto por cima da verdade.